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Entre o desejo e o perigo

Como aplicativos de relacionamento expõem homens da comunidade LGBTQIAPN+ à violência e ao vazio emocional

André Liberali Paes in Entre as linhas · 2026-07-06 14:15 · 12 claps · 5.8 min read
#comportamento #apps #saúde-mental #reportagem #diversidade
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COMPORTAMENTO

Entre o desejo e o perigo

Como aplicativos de relacionamento expõem homens da comunidade LGBTQIAPN+ à violência e ao vazio emocional

Grindr é conhecido pela comunidade gay como Ifood amarelo — referência à lógica de consumo rápido que usuários associam à plataforma, na qual pessoas são tratadas como uma refeição pedida por delivery | Foto: Getty Images/Martin Bureau

Grindr é conhecido pela comunidade gay como Ifood amarelo — referência à lógica de consumo rápido que usuários associam à plataforma, na qual pessoas são tratadas como uma refeição pedida por delivery | Foto: Getty Images/Martin Bureau

Nos últimos anos, os aplicativos de relacionamento voltados principalmente para a comunidade gay se tornaram a principal porta de entrada para afeto, sexo e conexão. Mas, junto da facilidade, cresce também um cenário marcado por ansiedade, objetificação, vulnerabilidade e violência. Existe sempre o risco de se cair em um golpe.

Buscando pertencimento, muitos usuários dos aplicativos de pegação acabam aceitando relações vazias e supérfluas apenas para não se sentirem sozinhos. A velocidade das conexões digitais transformou o sexo em algo negociado em poucos minutos. Nudes são enviados antes mesmo do “oi”. Em segundos, perfis são bloqueados e conversas interrompidas sem explicação.

Há uma linha tênue entre desejo e perigo, entre a tentativa de encontrar sexo rápido e o risco escondido atrás de uma foto de um corpo sem rosto. A troca é rápida. Quase automática. Como se o silêncio entre uma notificação e outra precisasse ser preenchido urgentemente.

O estudante de química medicinal Felipe*, de 22 anos, diz que aprendeu cedo a reconhecer tentativas de golpe dentro do aplicativo. Antes de iniciar seus estudos focados em química, morando no interior do Rio Grande do Sul, ele viveu uma situação difícil após conversar com um homem que insistia em trocar fotos íntimas e migrar a conversa para o WhatsApp. “Ele era muito evasivo nas respostas, mas insistia bastante em nude e em pegar meu número.”

Felipe acabou cedendo e compartilhou o telefone pessoal, mas foi bloqueado por esse homem no aplicativo logo em seguida. “Depois de uns dois dias, um número desconhecido começou a me ligar se passando por investigador, ameaçando que minhas conversas seriam vazadas se eu não pagasse”, conta.

Mesmo sem ter enviado imagens comprometedoras, o jovem lembra do desespero inicial. “Na hora eu fiquei nervoso, porque era algo totalmente novo pra mim. Depois percebi que era um golpe.”

Segundo ele, experiências assim acabaram mudando sua forma de usar o aplicativo. “Hoje eu percebo padrões. Eles elogiam demais, desviam de perguntas simples, evitam falar idade e tentam puxar rápido pro WhatsApp”, conta. “Se a pessoa é muito ingênua, ela acaba virando alvo fácil. Não só de golpe financeiro, mas até de violência ou abuso sexual.”

O caso de Felipe está longe de ser isolado. Os aplicativos voltados ao público queer, especialmente o Grindr, passaram a aparecer cada vez mais em relatos de roubos, extorsões, ameaças e violência.

Como aconteceu em Salvador, no final de junho, quando dois homens de 23 anos foram presos durante a Operação Pilot, acusados de roubar, extorquir e estuprar homens gays. Investigados pela Polícia Civil da Bahia, os suspeitos criavam contato com as vítimas por meio de aplicativos de relacionamentos e marcavam encontros, geralmente nos finais de semana. Após o primeiro contato, as vítimas eram levadas para locais reservados, onde ficavam sob ameaça de armas e tinham seus bens roubados. Os criminosos obrigaram algumas pessoas a desbloquear celulares para realizar transferências bancárias.

Dados do Atlas da Violência de 2026, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), denunciam que, na última década, os casos de violência contra homossexuais e bissexuais cresceram 212,7% no Brasil, somando quase 60 mil registros formais.

Em muitos casos, os crimes acontecem após encontros marcados diretamente pelos aplicativos, por meio de perfis falsos, já que não existem tantos critérios para criar um perfil em um app de relacionamento. Basta adicionar um email, criar uma senha, aceitar os termos e condições — que devem ser lidos — e o perfil já está criado. Mas, em fevereiro de 2026, o Grindr implementou no Brasil a verificação de idade por meio de fotos de documentos. As mesmas são analisadas e verificadas, mas não são compartilhadas e armazenadas. Uma saída para combater o avanço dos crimes digitais e a entrada de menores de idade na plataforma, mesmo não impedindo diretamente a conexão com um criminoso.

Além do sexo

Para homens queer, especialmente aqueles que cresceram em lares reprimindo afeto, os aplicativos surgiram inicialmente como espaços de liberdade. Pela primeira vez, era possível encontrar pessoas semelhantes sem depender exclusivamente de bares, boates ou espaços da comunidade. A conexão agora pode acontecer sem nem sair de casa.

O Grindr é conhecido pela comunidade como Ifood amarelo — em referência à cor predominante do aplicativo e à lógica de consumo rápido que muitos usuários associam à plataforma, na qual pessoas são tratadas como uma refeição pedida por delivery . O mesmo segue sendo um dos aplicativos de encontros mais populares entre homens gays, bissexuais, pessoas trans e queer. A sistemática é simples: os usuários são apresentados em uma grade baseada na geolocalização em tempo real, mostrando os perfis mais próximos primeiro. A dinâmica foca em interações diretas e rápidas por meio de chats, fotos e filtros específicos de preferência.

Criados em lares repletos de repressão, muitos homens queer encontram nos aplicativos espaços de liberdade | A obra Levantar Bandeira, do fotógrafo Tiago Coelho, 2021.

Criados em lares repletos de repressão, muitos homens queer encontram nos aplicativos espaços de liberdade | A obra Levantar Bandeira, do fotógrafo Tiago Coelho, 2021.

José*, professor de 27 anos, utiliza o Grindr há alguns anos e relata que teve uma experiência traumática após marcar um encontro com um homem que conheceu pelo aplicativo. Segundo ele, a conversa estava normal e parecia que eles haviam criado uma relação de confiança antes do encontro. No entanto, quando se viram, José percebeu comportamentos estranhos e acabou tendo documentos pessoais, cartões e outros pertences roubados.

Após o ocorrido, José precisou bloquear acessos, registrar um boletim de ocorrência e buscar a recuperação dos documentos. O criminoso não foi localizado.

Ainda assim, os aplicativos não devem ser vistos apenas como vilões. Para muitos usuários, especialmente aqueles que vivem em cidades pequenas ou ambientes conservadores, essas plataformas representam uma oportunidade de conexão e pertencimento.

“O problema nunca foi apenas o aplicativo. É uma geração tentando preencher ausências emocionais” — Gabriel Bertoldi, terapeuta integrativo

“O aplicativo não criou o vazio emocional. Ele apenas tirou da sombra a solidão que muita gente já carregava”, afirma o terapeuta integrativo, de São Paulo, Gabriel Bertoldi, que atende pacientes em todo Brasil. O foco de seu trabalho é promover a conexão entre corpo, mente e emoções. “Muitos homens gays cresceram aprendendo a esconder sentimentos e afetos. Quando encontram um espaço de validação imediata, isso vira quase que uma anestesia emocional.”, diz.

Segundo o terapeuta, o ciclo acaba se repetindo: atenção instantânea, troca de mensagens, sexo, dopamina e descarte. “A lógica do consumo entrou também nas relações humanas. O usuário começa a criar uma compulsão de abrir o app, uma ansiedade de resposta, um vício por validação.” Mas o motivo da ansiedade não está só na ferramenta da internet. “O problema nunca foi apenas o aplicativo. É uma geração tentando preencher ausências emocionais”, diz

No sigilo

Em 28 de junho de 2026, um brasileiro foi vítima de sequestro e assalto após marcar um encontro pelo aplicativo Grindr em Ciudad del Este, no Paraguai. Segundo a polícia paraguaia, ele saiu de Foz do Iguaçu para encontrar um homem com quem havia conversado pela plataforma, mas acabou levado para uma área isolada, onde foi rendido por criminosos. Durante horas, ficou sob ameaça e foi obrigado a entregar seus pertences e realizar transferências bancárias que somam R$1500.

Para o advogado Otávio Santiago Gomes da Silva, que acompanha casos envolvendo direito civil, muitos homens gays evitam denunciar situações de violência por medo de exposição. “Existe ainda uma cultura de sigilo muito forte. Algumas vítimas têm receio de assumir que estavam usando o aplicativo ou até medo de sofrer julgamento moral. Isso facilita a impunidade”, explica.

Em situações de ameaça, chantagem ou vazamento de imagens íntimas, o advogado orienta que a vítima registre imediatamente um boletim de ocorrência e reúna o máximo possível de provas, como prints, fotos e informações do agressor. No Rio Grande do Sul, o registro pode ser feito inclusive de forma on-line, pelo site da Delegacia de Polícia Online RS.

Como prevenção antes de encontros, o advogado alerta que cuidados básicos ainda são fundamentais. “Encontrar pessoas em locais públicos, avisar amigos sobre o encontro e evitar compartilhar informações pessoais pode reduzir riscos.”

Também é recomendado verificar informações básicas do perfil antes, como nome completo, redes sociais e possíveis inconsistências nas informações. Mesmo assim, ele ressalta que a responsabilidade pelos crimes nunca deve ser transferida para as vítimas.

Entre o desejo de encontrar alguém e o perigo do que pode acontecer depois de clicar em “enviar localização”, milhares de pessoas seguem navegando diariamente por relações que começam com um toque na tela, mas que podem esconder perigos por trás de perfis aparentemente comuns.

*Os nomes das vítimas foram alterados para preservar suas identidades.

Reportagem produzida para a disciplina de Fundamentos da Reportagem do curso de Jornalismo da Fabico/UFRGS


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