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Menino Bonito

Eles chegaram separados, como quem não quer dar ao acaso o gosto da responsabilidade. Ele se encostou perto do bar, observando o salão…

Contador Solitário · 2026-02-09 20:22 · 0 claps · 2.1 min read
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Menino Bonito

Eles chegaram separados, como quem não quer dar ao acaso o gosto da responsabilidade. Ele se encostou perto do bar, observando o salão encher devagar, como se cada corpo trouxesse consigo uma pequena nuvem de expectativa. Ela escolheu um lugar mais próximo do palco, mas ainda na penumbra, onde o som parecia envolver antes de alcançar. Não se procuravam com os olhos. Sabiam que o encontro verdadeiro só acontece quando deixa de ser buscado.

O show começou com delicadeza. Chico Chico cantava como quem conta segredos em voz baixa, e o público escutava em silêncio quase religioso. A música atravessava o ar denso e pousava nos ombros, nas mãos, nas respirações suspensas. Cada acorde parecia preparar o terreno para algo que ainda não tinha nome.

Foi quando soaram os primeiros acordes de Menino Bonito que o espaço entre eles se tornou visível. Não como distância, mas como tensão. Ele sentiu um arrepio súbito na nuca, uma intuição antiga, quase corporal, de que algo estava prestes a se deslocar por dentro. Ela levou a mão ao peito, como se quisesse conter o coração antes que ele denunciasse sua pressa.

Sem perceberem o momento exato, começaram a se aproximar. Pequenos passos, desvios suaves, corpos que se cruzavam como desculpa. A música crescia em delicadeza e força, e cada verso parecia empurrá-los para fora das próprias defesas. Quando finalmente se encontraram, não houve surpresa apenas reconhecimento. Um sorriso curto, meio torto, como se ambos soubessem que aquele instante já existia antes deles.

Não falaram. Não era necessário. O mundo inteiro parecia reduzido aquele quadrado de luz difusa, à voz que cantava sobre beleza, vulnerabilidade e desejo. Ele tocou de leve o braço dela, testando a realidade do gesto. Ela fechou os olhos por um segundo, como quem aceita um destino mínimo, porém incontornável.

O beijo não aconteceu de imediato. Veio antes uma respiração compartilhada, o roçar de testas, o silêncio carregado de tudo o que ainda não ousava ser dito. Quando enfim se beijaram, foi como se o corpo inteiro participasse do gesto: o arrepio subindo pela espinha, a pele em estado de alerta, o tempo suspenso em um intervalo delicado. Não havia urgência, mas intensidade. Um beijo que não pedia continuidade. Apenas presença.

Ao redor, o público continuava cantando junto, braços erguidos, olhos fechados. Mas para eles, o show havia se recolhido para dentro. A música virou pulsação, e a letra, um sussurro íntimo. Era como se, por alguns minutos, estivessem protegidos do resto da vida.

Quando a canção terminou, houve aplausos, gritos, risos soltos. Eles se afastaram lentamente, ainda presos à gravidade daquele momento. Nada prometeram. Nada combinaram. Sabiam que certas experiências existem apenas para confirmar que algo em nós ainda é capaz de sentir.

Saíram novamente separados, como tinham chegado. Mas agora carregavam nos olhos um brilho discreto, quase secreto. Um pequeno desvio no curso da noite. Uma memória em formação, dessas que, anos depois, ainda fazem arrepiar os pelos da nuca ao lembrar.

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