Meditando ao maior dos pesos, ou…
Meditação ao maior dos pesos, ou à coisa mais divina!. —
Meditando ao maior dos pesos, ou…
Meditação ao maior dos pesos, ou à coisa mais divina!. —
Esse demônio — que não é nada além do sentido grego de daimon, espírito — veio a mim como Mefistófeles a Fausto. Também Hermes. Também Mercúrio. A ele não ofereci somente meu sangue, mas também todas aquelas coisas que só um homem que acende a lanterna em pleno meio-dia, corre a uma praça e grita em desespero — como um louco — pode conhecer.
Então revelou-me algo à altura da grandeza e do êxtase: “E também essa aranha e esse luar entre as árvores… hão de retornar” —

Lembrou-me, e assegurou-me com a maior clareza — de maneira que certamente o grande libertador viesse até mim, e eu pudesse ter a certeza de uma presença báquica — : ‘‘essa aranha e esse luar, seres no tempo, não têm ciência da verdade do tempo. Tu, entre o fio do homem e o que está acima dele, contudo, podes ter alguma alegre ciência.
Dou-te agora esta verdade: a de um tempo já escrito na própria dimensão da ampulheta. Tudo que desce há de subir; e tudo que sobe há de descer. Todo o caos é organizado; e tudo que se organiza tende ao caos. Certamente, já inscrito em mitos e lendas, em arquétipos, fantasias e modos de ser — esse subir e descer, é teu próprio viver. No instante, se manifestando como uma fração indivisível da tinta pincelada, por esse demônio/deus percorrendo o tempo; ressalvando-se que próprio deus, como força de um aparecer no ser, também é tinta submetida às costuras da Moira: mulheres das linhas do destino. Mesmo o deus é pincel e pincelado — mesmo Zeus não escapa do subir e descer, ir e voltar’’.


“Ah! Mas onde encontro o instante?” — pergunta o ansioso viajante. ‘‘Onde está a “coisa-em-si”? Por onde capturo a temporalidade?’’ — buscar o instante já é perdê-lo; responde o deus e mago das ideias. Fui ensinado que, é necessário, antes, permanecer na dobra, na cor, na textura, no tecido, para que a pintura continue! É preciso abraçar os trítonos, para que haja um belo fim à grande música!
Que cada momento da tua habitação seja um momento de contraste, ou luz, ou sombra, ou realce! E tu, andarilho silencioso, que não vês o grão como pequenez, nem a altura como altura; tu que não ouves as notas frígias como dissonâncias, mas como momentos sombrios da mesma obra de arte espetacular e sobre-humana; tu que te elevas às montanhas mais altas como se fossem planícies: a ti as tragédias são risíveis! Certamente amas e afirmas o fato de ser este grão de areia, por ser simplesmente quem tu és, não se envergonhando de balbuciar entre cima, baixo, claro e escuro, luz e sombra — entre a infinitude dos decadentes, para os quais tudo o que sacrificariam seria uma visão de fora da ampulheta.

A muitos deles, irreversivelmente amaldiçoados pelo destino, está reservado o maior dos pesos. A mesma decadência há de retornar — lembra-nos o pai do panta rhei: só há devir!
Mas quanta grandeza aguarda aquele que pode pensar: “quero isso, por quantas incontáveis vezes tenha de ser; este demônio é um deus, e nunca ouvi coisa tão divina!” — e ai da miséria dos negadores da vida e do mundo, que tomam esse deus por demônio.
Talvez te extasie o pensamento de que o que experienciamos não é o que de fato é. Provavelmente a magia e o encantamento te surtirão efeito por seres aquilo que és, e poderes celebrar: o grão, a experiência, a subida, a descida, a ampulheta que há de rebobinar. De acordo com as leis eternas que governam a própria movimentação desses grãos, te regozijarás na mesma configuração que há de se encontrar novamente, no mesmo lugar da ampulheta — cada um sendo o mesmo grão, inequivocamente. No fim da virada da ampulheta, não te espera o fim do grão — espera-te o eterno retorno de todas as coisas, na mesma condição.
Como uma fita cassete — já com início, fim, e um retornar a realizar-se: amas o teu próprio filme; teus arcos são-te uma cinematográfica trilogia. A grandeza nunca se faz num único instante, mas fomos ensinados a viver o instante como algo linear, indefinido, sem fim, sem extensão, sem grandeza, sem direção de sentido; mas com início. Quanta ingenuidade: onde há início, porém, há fim!
No fim deste disco de vinil — sua vida, sua alma, seu grão de areia — espera-te a mesma música. Os mesmos eventos, a mesma recorrência. A ti, uma festa e uma dança. Mas àqueles que julgaram uma insânia: sequer puderam ouvir à música…




Paulo, Caminhos de Aurora, 21/06/26.
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