O BÊBADO E A EQUILIBRISTA: O VELHO NOVO RETRATO DO BRASIL :
"A Esperança equilibrista sabe que o show de todo artista, tem que continuar ♥"
O BÊBADO E A EQUILIBRISTA: O VELHO NOVO RETRATO DO BRASIL :
"A Esperança equilibrista sabe que o show de todo artista, tem que continuar ♥"

42 anos após a Lei da Anistia (nº 6.683), nos deparamos com essa nova repressão e aceno ao autoritarismo que tem tomado o Brasil. Nesta última votação da Câmara, após gastos R$ 510 milhões dos cofres públicos para a compra de deputados, Bolsonaro está mais forte do que nunca no Congresso. É o dinheiro público à serviço do verdugo que saiu tronituando.

Mas há de haver um fio de esperança, embora ela, bêbada, volta e meia fique a se equilibrar na corda bamba de nosso peito.
Como notava o escritor Mark Twain: "A história nem sempre repete seus mesmos versos -- mas com frequência eles rimam".
Por isso, vamos analisar historicamente nosso país atual, recordando, como se numa anátema, a história de nosso país ditatorial, na figura da brilhante poesia em forma de canção de João Bosco e Aldir Blanc, que se tornou o hino da anistia no Brasil: O Bêbado e a Equilibrista, de 1979.
"Caía a tarde feito um viaduto... "
Talvez a imagem passada aqui seja a metáfora da descida abrupta de um viaduto com o cair da tarde. Ou, muito provavelmente, seja a queda do viaduto Paulo de Frontein, em 1971, desabando e matando tragicamente cerca de 29 pessoas. A metáfora está em comparar aquele desastre da queda, das mortes, com o cair de uma tarde politicamente tempestuosa, de 1964.

"E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos..."
Uma referência clara à Carlitos - Charles Chaplin. Certa feita, João Bosco disse em entrevista que esta canção fazia homenagem à Carlitos, nosso eterno Chaplin, que havia falecido apenas dois anos antes do lançamento da música e que em seus filmes, embora trouxesse a dor do proletariado perante a elite, sempre terminava com um certo fio de esperança por tempos melhores. Não pra menos, a canção acompanha a métrica de "Smile" , do clássico filme "Tempos Modernos".

"A lua, tal qual a dona de um bordel Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel"
Quem seriam as "estrelas frias"? E a lua pedindo "brilhos de aluguel" para tais estrelas frias?
Sem dúvidas as estrelas representam os militares da repressão e suas fardas cheias de condecorações e estrelas. A lua, os políticos que apoiavam a ditadura em troca de vantagens políticas e benesses ora inconfessáveis.

“E nuvens lá no mata-borrão do céu Chupavam manchas torturadas"
Mata-borrão, como o próprio nome meio define, era um papel para se limpar erros ortográficos. Aqui ele aparece metafóricamente como utensílio usado para aliviar as dores dos que eram torturados nos porões do Regime Militar.

"O bêbado com chapéu-coco Fazia irreverências mil Pra noite do Brasil”
Aqui, claro, mais uma vez referência à Carlitos, o ingênuo bêbado com seu famoso chapéu-coco.

"Meu Brasil. Que sonha com a volta do irmão do Henfil"
Essa sem sombra de dúvidas é a parte da letra que eu, Scobar, mais amo!
Herbert de Souza, vulgo Betinho, sociólogo e crítico da ditadura, foi exilado durante o Regime. Era irmão do genial cartunista Henfil. Betinho durante os anos de chumbo lutou contra a ditadura e durante os idos 90 organizou diversas ações contra a fome. A mais famosa: Ação da Cidadania contra Fome. Sem nunca ter sido político, Betinho foi pioneiro no combate à fome e assistencialismo no Brasil.

"Com tanta gente que partiu Num rabo de foguete"
Os militares, da noite pro dia, sob qualquer suspeita, prendia, torturava, exilava e matava os ditos comunistas, segundo seus próprios interesses e intuições.
Só pra se ter uma ideia, naquela época do jargão militar "Brasil: ame-o ou deixe-o" , para se saber quem era ou não comuna, eles prendiam e obrigava a cantar o Hino Nacional. Aqueles que soubessem, segundo a ótica burra dos milicos, eram patriotas e cidadãos de bem. Aqueles que não, eram comunas e odiavam o Brasil a ponto de nem saber seu hino. Conclusão: vários trabalhadores pai de família foram presos por não saber cantar o hino (coisa que muita gente não sabe até hoje) e vários comunistas foram soltos. Pois os comunas eram estudiosos. Sabiam as questões nacionais de cabo a rabo!
"Chora A nossa Pátria mãe gentil Choram Marias e Clarisses No solo do Brasil"
Outra parte que me emociona: "Choram Marias". Maria foi mulher de Manuel Fiel Filho, operário morto em 1976 nas dependências do DOI-CODI (órgão militar de repressão que atual na fase de maior terror da ditadura). Os militares deram de forma oficial que Fiel Filho havia se enforcado com suas meias dentro da cela.
Detalhe: a perícia da época informou que Manuel estava e foi levado de chinelo no momento da prisão.

A Clarisse aqui a chorar era a mulher do jornalista Herzog. Mais um assassinado, em 1975, no agougue militar. Herzog, segundo a versão dos milicos, também havia se suicidado. Fato este desmentido pela perícia, que constatou que a altura em que o corpo se encontrava não era compatível o suficiente para um enforcamento.

"Mas sei que uma dor assim pungente Não há de ser inutilmente A esperança Dança na corda bamba de sombrinha E em cada passo dessa linha Pode se machucar AZAR A esperança equilibrista Sabe que o show de todo artista Tem que CONTINUAR"
Por fim, está música abraça tudo o que havia de pior nestes tempos de chumbo e de opressão militar que certos vagabundos tentam resgatar nos dias de hoje.
Porém, como nos filmes de Carlitos, sempre haverá um grito de esperança e luta, embora tanta dor.
E essa canção realmente é uma daquelas coisas que nos arrepia e faz tocar o sublime, mostrando que na vida existe algo mais que toda essa porcaria da podridão política.
Sem mais. Salve Aldir Blanc, Salve João Bosco, Salve Chaplin! ❤️


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