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Tesão pela Vida

Entre 1998 e 2000 foram anos intensos. Dos 16 aos 18, a fase em que o ser humano tem certeza absoluta de duas coisas: que é invencível e…

andheibs · 2025-12-17 03:50 · 0 claps · 3.8 min read
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Tesão pela Vida

Entre 1998 e 2000 foram anos intensos. Dos 16 aos 18, a fase em que o ser humano tem certeza absoluta de duas coisas: que é invencível e que sabe tudo. O resto é detalhe. O som e a fúria caminhavam de mãos dadas numa sequência errática de raiva, euforia, felicidade, vivacidade e uma melancolia sem motivo claro e sempre com uma trilha sonora pronta para nos acompanhar. (Sempre havia alguém com violão e até cavaquinho por perto)

No rádio tocavam músicas do Ira!, Titãs, Capital Inicial, Raimundos, Charlie Brown Jr., O Rappa, Planet Hemp. Um repertório que hoje chamamos de “clássico”, como se naquela época alguém tivesse consciência histórica suficiente para isso. Celular? Esquece. Estava ali, engatinhando, caro, grande, quase ornamental. Internet móvel… ih, esquece também. Era G, depois 2G, e a sorte quase divina de conseguir enviar um SMS sem ele desaparecer no limbo. Comunicação real era pager. O famoso bip. Um chamado seco, sem contexto, que obrigava você a achar um telefone e devolver a ligação como gente grande.

Nada de YouTube. O entretenimento exigia deslocamento físico. A gente ia às locadoras de bairro ou às Blockbusters para poder ver um filminho. A Netflix, já existia, mas ainda entregava DVDs por motoboys para assinantes pacientes. O grande hype era esperar o clipe do momento passar na MTV, como quem aguarda um eclipse. Moda vinha de revista, jornal e vitrine. Influencer era colunista. Em casos mais ousados, um blogueiro que ninguém levava muito a sério.

Era o final do segundo milênio. Só isso. Um detalhe pequeno, quase irrelevante. O mundo pulsava novidade e prosperidade, como quem não fazia ideia do que vinha depois. Nem 11 de setembro, nem redes sociais, nem algoritmos decidindo o que você pensa e nem uma pandemia destruidora de Covid 19. Um mundo pré-trauma coletivo.

E faz parte do meu trabalho, ou da minha teimosia, lembrar você de que o tempo passa, o mundo muda e, curiosamente, quase nunca a gente percebe enquanto está acontecendo. (Acabamos mais pessimistas)

O meu cenário era esse. Cheio de sonhos e um certo excesso de confiança. Uma escola técnica: a ETE Carlos de Campos. Um prédio centenário no Brás, carregado de história e contradições. Dentro dele, alunos que respiravam arte, arquitetura, gastronomia, enfermagem. Um espaço onde a mudança era regra geral naquela época: estrutural, geracional e cultural.

De um lado, jovens vindos de um modelo antigo, com aulas integrais, ensino médio integrado ao técnico. Do outro, um novo formato surgindo: um ano e meio de técnico, três anos de ensino médio. Um choque de sistemas, de expectativas e de adolescentes que ainda tentavam aprender a regular suas emoções. Tudo era vida ou morte.

Apesar disso tudo, tirando a rixa clássica entre design e edificações, até que a coisa fluía. Haviam grupos, amizades improváveis, gente talentosa demais espalhada por todo o lado daquele complexo. Dali saíram muitas pessoas de destaque. Eu (óbvio), OsGêmeos (grafiteiros), cartunistas, artistas plásticos, arquitetos (Roberta Banqueri e Lucas Coelho), malucos, doidos e combinações perigosas (ou não) dos três.

Foi nessa escola mais que centenária que conheci, com toda honra e humildade, Angeli, Glauco, Laerte e Adão Iturrusgarai. Aprendi a desenhar por causa deles e da Chiclete com Banana. Aquilo não era só revista, era um manual não autorizado de formação moral e estética.

No KK, a gente organizava festas para arrecadar fundos para a sala de aerógrafo, para computadores novos. Vivíamos engajados. Brigávamos mesmo por estrutura. Íamos a passeata, protesto, abaixo-assinado, qualquer coisa que tivesse cheiro de reivindicação. É… até hoje eu brigo. Menos. Mas brigo.

Dessa escola saíram pérolas como o Zine Pinguim, o Brás Invaders (sim, está no YouTube, vale a busca), paródias de propagandas da época, docudramas sobre o Pico do Jaraguá, o Capitão Brigada. Produção cultural feita com fita, xerox, fita de novo e muita criatividade (Edições com dois videocassetes e muita engenhosidade).

Às vezes, aleatoriamente, também aparecíamos em alguma página policial. Como no dia em que tivemos que ser resgatados nas trilhas de Paranapiacaba e acabamos na TV Gazeta, no programa da Márcia Goldschmidt. Longa história. Conto isso em breve.

Nossa, foram tantas coisas que este capítulo já está ficando longo. E era só uma introdução.

Foi nessa escola que conheci meu primeiro amor real. O primeiro, o segundo, o terceiro. A gente sofre, aprende quase nada e segue com os hormônios em ebulição, como manda o manual biológico.

Para ilustrar como era uma época vivida no limite, o fim do mundo era uma ameaça constante. Sempre havia uma teoria apocalíptica à espreita. E lógico que sempre gerava algo. Sim, fofoca analógica.

Convivíamos com a ameaça do Bug do Milênio. Um surto coletivo que, se concretizado, faria toda a tecnologia voltar direto para a Primeira Revolução Industrial. No fim, era só um relógio que, em alguns casos, voltava para zero. O apocalipse versão beta.

Teve também o fim do mundo previsto por Nostradamus. Nunca muito preciso em acertar o fim do fim. Na época, eu e uma amiga ficamos deitados em cima de um quartinho da quadra, olhando para o céu, de mãos dadas, esperando a hora fatal. Meio-dia chegou. Nada. Olhei para ela. Ela olhou para mim. Rimos. E sei lá o que fomos fazer depois. A gente esperava algo mais cinematográfico. Um raio, uma chuva estranha, quem sabe sapos. Mas foi só uma chuva de nada.

Ainda bem.

Sobrou tempo para muita coisa. Inclusive para manter amigos dessa época até hoje. Quase 30 anos depois. O que, convenhamos, é um feito maior do que sobreviver a qualquer fim do mundo anunciado.

Conheça o colégio técnico mais antigo de São Paulo. Matéria exibida pela Globo no Antena Paulista em 2021. https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/antena-paulista/video/conheca-o-colegio-tecnico-mais-antigo-de-sp-a-etec-carlos-de-campos-9935529.ghtml


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