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Só sei dizer “eu te amo” para minha mãe quando toca Tears For Fears

Quando eu tinha uns 5 anos, morava em um condomínio em Brasília, numa parte considerada meio interior, chamada Val Paraíso. Era um…

Rachid · 2023-09-16 21:38 · 1 claps · 5.4 min read
#amor #mãe #lembranças-da-infância
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Só sei dizer “eu te amo” para minha mãe quando toca Tears For Fears

Quando eu tinha uns 5 anos, morava em um condomínio em Brasília, numa parte considerada meio interior, chamada Val Paraíso. Era um condomínio enorme, com casas germinadas, onde os blocos eram identificados por letras e números. O condomínio era tão grande, que todas as letras do alfabeto foram necessárias para identificar cada bloco. Nós acabamos passando bastante tempo lá, e nesse período moramos em dois blocos diferentes.

O primeiro foi na casa 2 bloco B, onde a vizinha debaixo era dona de um jardim enorme, que ela adorava decorar com anões da Branca de Neve e outros bichinhos de gesso. Ela se chamava Ana, uma senhora baixinha, branca e de cabelos ruivos tingidos com tinta de farmácia. Seu marido era muito branco e alto, serviu muito tempo a Marinha, mas infelizmente não me lembro o nome dele.

Lembro de ter uma foto em algum lugar aqui em casa ou na casa da minha avó, com a dona Ana, minha avó e uma amiga da minha mãe da época, chamada Sula. Na foto, elas estão abraçadas no fundo, ao lado de um pedaço do jardim de Ana, e eu estou na frente, com uma blusa de alcinha, um short-saia vermelho, os cabelos presos em dois rabos de cavalo e o queixo apoiado no dorso da mão.

na foto: sula, minha avó leonor, dona ana e eu.

na foto: sula, minha avó leonor, dona ana e eu.

A outra casa que moramos ficava no bloco C, mas não me recordo o número. Essa ficava do outro lado do condomínio, morávamos no térreo e ficava em frente a piscina. Lembro que adorei a ideia de morar na casa debaixo, porque na minha cabeça, também teríamos um jardim igual ao da dona Ana, mas meus pais nao tinham tempo nem habilidade para trabalhar em um jardim. Essa decepção logo foi suprida com a piscina, onde eu passava muitas horas durante os dias de calor.

Lembro com muito carinho desse condomínio porque passei muito tempo da minha infância nele. Lembro de ter vários amigos, e uma delas era particularmente especial, porque ela era extremamente fã do Felipe Dylon e naquela época, que menina não era apaixonada por ele?

Ela tinha vários pôsteres, CD e até já tinha o conhecido no backstage de um show. E mesmo naquela época, eu já achava um máximo quem ia em shows, porque eu adorava ouvir música, mas nunca tinha ido em um.

Até hoje, vira e mexe, tento me lembrar do nome dela, mas não consigo. E é até engraçado, porque isso geralmente acontece com pessoas que marcaram minha vida de alguma forma. Eu consigo me lembrar da fisionomia, do momento específico, mas por mais que eu force a memória, nunca me vem o nome da pessoa.

Eu era uma das poucas amigas dela no condomínio, porque ela era cega, e as outras crianças não tinham muita paciência para brincar com ela. Morávamos perto uma da outra, e por algum motivo desconhecido, acabamos ficando amigas. Eu gostava de passar as tardes na casa dela, brincando de Barbie e escutando as músicas do Felipe.

No começo, eu não entendia muito bem sobre a deficiência dela, achava curioso e ao mesmo tempo ficava muito confusa sobre tudo. Mas com o tempo minha mãe me explicou e eu desencanei sobre isso. Fomos amigas até o dia que me mudei de lá, depois disso, nunca mais tive contato com ela ou com qualquer outro amigo daquela época.

É gostoso lembrar desse tempo e na quantidade de amigos que eu tinha, e como isso foi mudando ao longo dos anos. Passávamos a tarde inteira brincando, andando de bicicleta, subindo em árvores e invadindo casas vazias. E quando você é criança, isso é muita coisa! Eu sentia um frio enorme na barriga, mas era muito mais pela aventura do que por medo. Lembro que não recusava nada, me sentia como uma espiã ou algo assim. Sinto falta de não sentir medo de viver as coisas.

Como meu pai estava sempre no trabalho durante a semana e chegava em casa só de noite, eu passava os dias com a companhia da minha mãe, que sempre viveu para cuidar do lar e de nós — isso acabou mudando um pouco anos depois, com o falecimento do meu pai. Lembro muitas vezes de passar as tardes em casa com ela, ouvindo a rádio e brincando de Barbie.

Na época, ela era muito dedicada a manter a casa limpa e organizada, chegava a ser uma obsessão, mas nos tempos em que ela estava livre e eu não tinha tarefas da escola para fazer, ficávamos escutando a rádio, brincando ou simplesmente deitadas na cama, cochilando.

Todas as tardes tocava alguma música do Tears For Fears, e para quem acompanha a Alpha FM sabe que isso não é uma surpresa. Hoje em dia, é claro, eles mudaram um pouco o catálogo de músicas, mas naquela época, bem no comecinho dos anos 2000, eles tocavam praticamente as mesmas músicas, nos mesmos horários, religiosamente.

Até hoje, agora com meus vinte e tantos anos, e sendo uma pessoa totalmente nostálgica, que gosta de se prender a detalhes confortáveis do passado, ainda escuto a mesma rádio como um ponto de equilíbrio na minha vida, e sempre que toca algo que eu costumava escutar naquela época, me sinto como aquela criancinha novamente, passando as tardes com minha mãe, com preocupações menos grandiosas do que hoje em dia.

Mas naquela época, quando escutávamos “Everybody Wants To Rule The World” do Tears For Fears, era como um elo invisíveis que se formava entre eu e ela. Nós amávamos essa música. Lembro de um dia específico, em que eu estava na varanda minúscula do quarto dela, olhando as casas e as ruas do condomínio, enquanto uma brisa muito levinha entrava por ali, quando essa música começou a tocar.

Talvez ela não se lembre desse momento, mas eu ainda consigo ouvi-la dizer “ai eu amo essa música”, enquanto permanecia deitada na cama, lendo algum livro religioso. Lembro que a olhei e concordei em pensamento que também adorava aquela música.

Levantei do chão da varanda e fui até a cama para deitar ao lado dela. Fiquei ali olhando o teto branco do quarto, enquanto balançava os pés ao som da música. Foram os 4 minutos e 11 segundos mais íntimos e legais que passei ao lado da minha mãe durante todo esse tempo. Digo isso porque, naquela época eu ainda não tinha muitos bloqueios para expressar sentimentos, e tudo que eu sentia era falado ou prontamente demonstrado.

Acho que nossa linguagem do amor mais forte sempre foi tempo de qualidade. Como passávamos todos os dias juntas, acabávamos fazendo quase tudo juntas. Chegamos a fazer aula de desenho, aula de biscuit; íamos para todos os lados juntas e, um dia, em um momento de completo surto ela começou a fazer aula de dança do ventre, numa subta vontade de sair daquela rotina entediante. Sempre que ela voltava das aulas, me ensinava os passos que tinha aprendido, e pro clichê ser ainda maior, nossa musa inspiradora era a Shakira, óbvio.

Mas com a chegada da pré-adolescência e até a fase adulta, isso se perdeu. Eu nunca mais consegui demonstrar nenhum sentimento genuíno na presença dela. Talvez porque ela sempre tenha sido durona demais com tudo na vida, incluindo comigo. E também não fazia parte do jeito dela — até hoje não faz — essa demonstração toda de carinho. Para falar a verdade, nunca fomos esse tipo de família, que se abraça e diz que se ama. Nossas demonstrações de amor e carinho eram demonstradas (e ainda são) de outras formas.

E isso obviamente refletiu na minha fase adulta e em todas as minhas relações. E até mesmo na nossa, como mãe e filha. Gostamos de compartilhar sonhos e vontades, e comemoramos cada conquista uma da outra, e quando as coisas dão errado, estamos ali presentes, mas ainda somos duronas demais para demonstrações de afeto do modo “comum”.

Acho que consigo contar nos dedos todas as vezes que dissemos “eu te amo” uma para a outra a minha vida toda até aqui. Mas sempre que toca Tears For Fears em qualquer lugar, não importa onde eu esteja, eu sei que ela me ama, e eu também a amo.

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