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Quem sabe o príncipe virou um chato? — Revolutionary Girl Utena

Dissecando Utena, na minha visão.

Guilherme · 2025-02-17 22:34 · 1 claps · 9.7 min read
#revolutionary-girl-utena #utena #anthy-himimiya #anime
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Quem sabe o príncipe virou um chato? — Revolutionary Girl Utena

Olá, fiel leitor da internet, depois de um ano voltei, se você chegou aqui posso presumir que esteja minimamente interessado em Utena, então, hoje trago nesse texto os meus pensamentos sobre o final da obra que achei tão intrigante. O tema desse texto vai ser principalmente a reta final e suas implicações, não me proponho a ‘explicar’, mas gostaria de comentar sobre com meu input.

I know what you are

I know what you are

Disclaimers Iniciais:

  • Esse texto vai ter spoilers, vou tentar contextualizar objetivamente e evitar o que da para evitar, mas vamos falar do final da obra, então, leia por sua conta e risco.
  • Como disse anteriormente, é o meu input do que peguei assistindo o desenho, certamente pode faltar algo ou existirem opiniões contrarias.
  • RGU funciona com simbolismos e representações, então existe uma área cinza da interpretação que vou entrar, fique a vontade para dizer a sua também.

Dito isso, vamos ao texto.

O que é Shoujo Kakumei Utena?

Utena é um anime original de 1997, com 39 episódios, dirigido por Kunihiko Ikuhara.

Difícil achar uma foto que ele não esteja estiloso.

Difícil achar uma foto que ele não esteja estiloso.

Conhecido por trabalhos como Sailor Moon, Penguindrum e Utena (anime e filme). Após largar Sailor Moon e a TOEI por falta de liberdade artística, ele criou o próprio grupo Be-Papas, para fazer Utena.

Mas, o que ele contou em Utena?

Ele está respondendo uma pergunta de porque homossexualidade é um ponto importante é utena.

Ele está respondendo uma pergunta de porque homossexualidade é um ponto importante é utena.

Acho que a melhor forma de descrever, pela minha experiência, Utena é um trabalho de coming of age direcionado ao público feminino que subverte a maioria dos tropos, mas principalmente os relacionados a gêneros e contos de fadas.

Tenjou Utena é uma menina que deseja se tornar um príncipe que salva princesas. Quando ela era mais nova, um príncipe a salvou e isso lhe deu forças e inspirou ela a assumir esse papel.

Historia Completa

Historia Completa

Isso levou a Utena a participar de todos os duelos da Noiva da Rosa, em função de salvar a Himemiya Anthy e, portanto, se tornando noiva e seu príncipe no processo.

Utena consegue revolucionar o mundo, ela luta por Anthy e acaba sendo sempre salva por seu príncipe, de alguma forma ele está ligado a essa situação e ajuda ela quando ela precisa de forças.

Esse príncipe que está no castelo invertido, que fica em cima da torre mais alta e que contem a eternidade nele.

Ela luta em diversos duelos para defender a Anthy, cada duelo individualmente significa uma coisa para a história e de forma simbólica, geralmente eles dizem algo sobre aquela sociedade e as relações, a coisa em comum entre eles é que a Utena quase sempre ganha com ajuda de seu príncipe. Não acho que caiba nesse texto explicar individualmente cada um, até porque cada arco tem sua, mas de forma geral, o anime mantém a estrutura de repetição.

Até agora, tudo está meio lúdico, igual a uma história de conto de fadas. O príncipe salva a princesa, que continua sua jornada enfrentando seus inimigos em busca do poder de fazer milagres.

Você, meu caro leitor, deve estar se perguntando;

“A subversão de conceitos está aí, afinal, o casal é composto por mulheres e a Utena é uma princesa/príncipe, certo?”

Sim e não

Bem, o anime certamente te induz a acreditar nisso, a subversão é somente de gênero e ainda, sim, é pela metade, os combates vão ficando mais sexuais e todos os vilões querem aliciar a Utena a se encaixar no padrão feminino. Mesmo que ela seja uma mulher, ela renega essa feminilidade para se encaixar no papel de príncipe, ou seja, ela não é ‘suficiente’ mulher para aquela sociedade.

Inclusive a mudança gradual tanto da Utena e da Anthy que começam a ‘aceitar’ essa feminilidade em nome de terceiros é visível, não só em momentos chaves onde a Utena é de fato aliciada.

Tudo nesse mundo gira em torno de prender a Anthy ao papel de noiva e de ‘normalizar’ a Utena em padrões.

Talvez numa leitura mais superficial a gente fique preso nisso, mas digo que tem mais, essa é uma história mais sensível que vai além na sua proposta de subverter, até então a leitura está bem direta, a ‘sociedade’ está lutando contra esse ‘casal’ que não atende completamente os padrões.

O único adulto da obra é um homem constantemente tentando aliciar nossa heroína/príncipe, que sabe que aquilo é errado em algum nível. A maioria dos personagens são reprimidos em relações não convencionais que estão sempre tentando se desvincular, mas nunca conseguem amadurecer completamente para de fato melhorar ou aceitar.

O único casal abertamente homossexual é o da Utena e Anthy, que têm que lutar diariamente para continuar assim.

(Um comentário especial para Shiori que é possivelmente a melhor e mais interessante personagem dos que não são principais).

Contextualizado de forma geral e direta, aviso que agora vou começar a falar da reta final, então continue por sua conta e risco.

Tem mais?

inquietante

inquietante

Bem, chegamos num ponto onde finalmente posso falar livremente, a reta final de Utena é devastadora, me deixou miserável por quase ela toda.

Um personagem chave que vai ser muito importante para o nosso entendimento é apresentado e ele muda tudo.

Ele alicia quase todos os estudantes nesse carro.

Ele alicia quase todos os estudantes nesse carro.

A Estrela da Manhã… também conhecida como Lúcifer. A estrela que era originalmente um anjo, mas escolheu se tornar o Diabo.

Akio, que tem esse nome devido a lúcifer, a estrela da manhã (nada suspeito), é o irmão da Anthy, ele é apresentado como um cara carismático e agradável que zela pela Utena pela sua irmã, o primeiro adulto a aparecer no cast como personagem recorrente.

Como nada em Utena é exatamente parecido, Akio, na verdade, é quem está por trás dos duelos, além de ter uma relação impropria com a própria irmã, ele basicamente alicia todos em sua volta em função do seu objetivo.

Alegoria para sexo.

Alegoria para sexo.

Existe inclusive nesse ultimo arco um ponto muito importante com carros, carro além de ser uma coisa de ‘adulto’ é uma representação da masculinidade do Akio (Não deve estar tentando compensar nada certamente) então quase tudo que acontece no carro tem uma conotação sexual, homens, mulheres, adolescentes, para ele não importa.

Existe um ponto muito engraçado sobre isso, todos os personagens masculinos desse anime têm tensões homoafetivas e até homoeróticas entre si, mas eles estão tão presos nesse padrão de relacionamento ‘correto’ que acabam descontando isso nas mulheres e no mundo à volta. Akio, por exemplo, quando precisa, utiliza-se disso com Touga, mas nem ele, nem Touga acreditam em relacionamentos homossexuais.

Os 3 sem camisa no carro enquanto o Akio pergunta se o ronco do motor é gostoso.

Os 3 sem camisa no carro enquanto o Akio pergunta se o ronco do motor é gostoso.

A Utena é a única completamente inocente em tudo isso, e isso a leva a ser completamente enganada pelo Akio, que também alicia ela e se aproveita dela.

Ela nem percebe o que ele está acontecendo, o Akio corrompe ela 3 vezes durante a série e, de certa forma, consegue dobrar ela de volta ao padrão de feminilidade que ele acha adequado.

O episódio 33 foi o que mais me deixou miserável.

O episódio 33 foi o que mais me deixou miserável.

Sabendo quem é o Akio, e o que ele faz com o resto do cast, podemos seguir para o próximo ponto.

De volta ao Conto de fadas

Ouvimos novamente a história do príncipe das rosas, mas dessa vez ele é apresentado como alguém que existe para proteger todas as mulheres do mundo. Ele acaba sendo derrotado por uma mulher que não podia se tornar princesa, portanto, virou uma bruxa.

Mais para frente, descobrimos que o tal príncipe da Utena era, na verdade, o Akio, ele que foi corrompido pelo desejo da Anthy, estava em busca do poder de fazer milagres da Utena, tudo isso para tentar recuperar seus poderes.

No final, a Utena rejeita o papel de noiva do Akio e entra no papel pela última vez de príncipe da Anthy, para tentar salvar ela dessa situação. Ela falha, por culpa da própria Anthy. Akio, com seus planos frustrados, tenta seguir para conseguir o poder de fazer milagres, colocando Anthy numa situação onde ela estava sendo violentada. Utena, vendo isso, decide ainda sim sacrificar tudo para salvar a Anthy, ela não consegue.

Ela abre o caixão onde Anthy estava presa, mas não consegue tirar ela de lá.

Tudo está Perdido?

Nossa heroína não conseguiu salvar sua “princesa”, ela perdeu o último duelo e decidiu ir embora daquele mundo, está tudo acabado?

Felizmente, não, ao renegar tanto seu papel de princesa e de príncipe, Utena Tenjou acaba se libertando dos poderes do Akio. Ela sai desse mundo de conto de fadas e segue sozinha em direção ao mundo dos adultos, onde Akio não possui mais nenhum poder sobre ela.

Os esquemas de Akio, alucinações que visavam destruir a identidade, aliciamento para enquadrá-la em um papel definido, falharam. Apesar de agridoce, Utena Tenjou venceu, se libertando da escola, dos duelos, até mesmo de uma sociedade que ela estava sendo conivente.

Mesmo que de forma mais “leve” Utena estava participando da batalha pela Noiva das Rosas, quase se enganando ou se cegando, se escondendo atrás de boas intenções para ser permissiva, ela era tão príncipe quanto Akio ou Touga.

O único final positivo era renegar a isso, e assim ela fez, tudo por amor, amor à pessoa Himemiya Anthy, não à noiva, não aos poderes, não à princesa a ser salva, somente Himemiya Anthy.

Isso foi o que a fez mudar, evoluir e finalmente crescer.

E a revolução?

Ela aconteceu, você não viu?

O que é mais revolucionário do que libertar uma pessoa que você ama, pessoa essa que estava sufocada até a alma por um sistema opressivo e por um adulto degenerado e corrompido?

Ele usou Himemiya Anthy, ele destruiu Himemiya Anthy, ele prendeu Himemiya Anthy, ele “criou” Himemiya Anthy.

Além dos abusos físicos e sexuais, Akio era tudo que Anthy tinha, como ela poderia escapar? Ele era o príncipe dela, ela estava disposta a esfaquear e trair Utena por ele.

Mesmo assim, com o “Poder do Amor” Utena conseguiu libertar Anthy, mas digo aqui, ela não salvou Himemiya Anthy.

Como assim?

(O texto acima parece um pouco contraintuitivo, mas vou explicar).

Perceba, eu utilizei a palavra “libertou”, não salvou, podemos acompanhar o anime ou as capturas de tela que utilizei, nós conseguimos ver que a “única” coisa que a Utena fez foi abrir o Caixão.

O que por si só já é muita coisa, mas, aonde quero chegar, você deve estar me perguntando, caro leitor, e eu te respondo, aí está a sacada do anime.

Utena não salva Anthy, pois salvar é coisa de príncipe, ela estaria aceitando mais um papel e prendendo Himemiya Anthy numa relação diferente, mas, com a mesma dinâmica de subserviência de Himemiya e Akio, é um paralelo muito ferrenho até mesmo com a própria história da Utena. Ela foi “salva” por Akio, enquanto estava no caixão e isso moldou a personalidade e a identidade dela, isso fez ela aceitar o papel imposto de príncipe e ser conivente com a situação da Anthy, como, nessa altura, o anime permitira esse ciclo continuar?

Utena não salva Himemiya Anthy, ela falha, e entende que não é príncipe, entretanto, nisso ela demonstra para Himemiya Anthy duas coisas, a força dela, ao superar a traição, ao abrir o caixão, ao mostrar o mundo lá fora e o Amor, ela está disposta a sacrificar tudo por Himemiya, sendo ela bruxa, princesa, traidora ou não.

Essa demonstração de amor 100% altruísta foi o que deu forças para Anthy para se libertar dos tentáculos de Akio, mais que isso, essa negação dos papéis e padrões foi a única forma possivel de imaginar uma relação futura de igualdade entre elas, ao sair daquela escola e ir para o mundo dos Adultos, Himemiya prova que cresceu e agora, ela não é mais o que o Akio fez dela, mas sim o que ela construiu com a Utena, apenas Himemiya Anthy que ela criou.

Esse final é agridoce por tudo que acontece, mas certamente é lindo.

Enquanto o falso príncipe que não consegue fazer nada Himemiya Anthy tenta enganar a Utena a pensar que por era ser mulher não existe nada a ser feito, ele prefere que ela continue numa posição de princesa, uma posição de subserviência e debilidade, ele luta pelo status quo, mentindo, machucando, aliciando.

Mas, fora desse castelo invertido de conto de fadas, existe um mundo para essas mulheres que se amam, onde essas pessoas não têm nenhum poder.

E o filme?

Dei uma roubada usando o filme aí no final, entretanto, pretendo fazer um texto só para ele, só digo que ele é mais direto e curiosamente subverte várias coisas da série principal, o importante é que o amor ganha de novo.

Finalização

Utena é diferente, mas uma história de amor não convencional linda, não chegou a me emocionar, mas conseguiu me comover a voltar a escrever, então recomendo a todos que leram e não viram a assistir.

eu sou assim

eu sou assim

Caso você tenha se interesado o suficiente e decidiu ler até aqui, agradeço de coração pela atenção.

Autor: Eu (Guilherme)

Recomendação de Musica Aleatoria:

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