O Emaranhado da Excelência
À medida que novas tecnologias vão chegando — novas áreas de conhecimento, novos produtos -, o ambiente hospitalar também vai se moldando…

O Emaranhado da Excelência
À medida que novas tecnologias vão chegando — novas áreas de conhecimento, novos produtos -, o ambiente hospitalar também vai se moldando, se aprimorando e se inserindo nessas transformações, atualizando seus protocolos e modificando suas máquinas. E tudo isso é válido, mostra como a instituição está sempre atenta ao mercado em nome da experiência e segurança do paciente, que reconhecerá a evolução da sua instituição com essas mudanças.
Este processo, contudo, costuma passar por diversos contrapontos. No campo da tecnologia uma mudança de sistemas pode acarretar perda de dados, na mudança de equipamentos uma sobrecarga de energia ou de rede, nas mudanças de protocolo temos uma verdadeira movimentação de todo o corpo clínico para adequação, para auditorias e acreditações o mesmo acontece. Para quem é de fora saiba: é o período de maior agitação dentro de um hospital ou unidade de saúde. E veja bem, tudo isso é imprescindível, melhora fluxos assistenciais, melhora performances, mas também sobrecarrega.
Pensando em todos esses cenários, quem podemos enxergar sempre absorvendo e sobrevivendo bravamente a tudo isso? A enfermagem. Certo dia enquanto rolava o feed da minha rede social, me deparei com duas enfermeiras relatando a uma emissora de TV, no interior de minas Gerais, que o sistema de prontuário eletrônico (PEP), havia sido trocado sem as devidas adequações necessárias de infraestrutura e equipe, tornando impossível a continuidade no atendimento e cuidado do paciente. E é preciso ressaltar que eram enfermeiras maravilhosas, eloquentes, que tomaram a frente com propriedade sobre o ocorrido e comunicaram a falha de governança da instituição. Agora nova pergunta: precisava a ponta ser a responsável por apontar o erro já com todo o sistema validado e funcionando?
E então chegamos ao ponto crítico da observação: a enfermagem está conseguindo cumprir integralmente sua função de assistência e cuidado ao paciente? Ou apenas acumulando, consertando e revisando processos e ainda assim tentando entregar com excelência seu melhor para o paciente.
Durante esses meus anos na enfermagem, sempre fui da opinião que a linha de frente deveria ser ouvida em qualquer mudança que refletiria direta ou indiretamente no nosso fluxo de trabalho, essa percepção me veio antes mesmo de adquirir algum conhecimento maior e mais abrangente de áreas da tecnologia ou da vivência em diferentes níveis de instituições. Durante minha graduação em TI, se falava muito sobre a cultura de inovação e gestão de grandes empresas de tecnologia, e me pareceu muito óbvio que é o modelo para hospitais, dadas as suas devidas proporções, por enxergar que não há como gerenciar o Pronto Socorro, como gerencio o Centro de Diagnóstico, UTI ou unidade de internação. Cada setor possui suas próprias particularidades e necessidades, e as equipes de enfermagem costumam ter um perfil para cada um desses setores distintos.
Hoje, resolvi olhar com mais cuidado sobre o tema. Estudando IA na cultura hospitalar, obtive uma nova percepção, a equipe de enfermagem é a que mais gera dados dentro de um prontuário em qualquer instituição. Repare bem quando passar em atendimento, ou quando realizar uma visita hospitalar, a enfermagem está sentada, escrevendo manualmente (caso o hospital ainda não tenha um sistema digital), ou em frente a um computador digitando tudo o que fez, viu e ouviu do paciente. Junte isso a paciente chamando por conta da comida, o acompanhante que não consegue ligar a TV, a impressora que atolou papel quando médico foi imprimir a receita, o administrativo que não sabe que material é aquele que precisa solicitar porque com aquele nome não consta no sistema.
Quando falamos de hospitais que já possuem sistemas digitais de prontuário, temos uma equipe que foi treinada na implementação, e passamos o conhecimento adiante — ou espera-se que passe -, e esse sistema não pode perdurar sem atualizações, ou por melhorias na coleta de dados, os dados em maior volume geralmente vêm da equipe de enfermagem, que por muitas vezes não é comunicada do porquê aquela informação precisa estar naquela página após dar cinco cliques em telas distintas do sistema. Sinto falta de encontrar — em pesquisas rápidas sobre inovação na saúde — , informações sobre ideias, projetos, criações que visem diminuir a carga cognitiva da enfermagem no que diz respeito a burocracias e papéis.
Mas vou ser justa, a mudança está acontecendo, fala-se mais, artigos são publicados, e solicitamos cada vez mais a presença da enfermagem em outras áreas de conhecimento, como a de tecnologia e processos, para que mudanças sejam realizadas com a validação de quem necessita de uma ferramenta para garantir seu trabalho. Porém, será que nessa motivação de parecer parceiro da enfermagem, de dar voz ativa, de usar os conhecimentos específicos de cada profissional, e instigá-lo a apresentar novas perspectivas, assumir projetos, ser um multiplicador, as instituições não estão apenas sobrecarregando ainda mais esse profissional? Tirando dele ainda mais o tempo que deveria ser dedicado ao cuidado? Não seria mais eficaz criar novas oportunidades formais de trabalho para a enfermagem, utilizando sua expertise assistencial em posições dedicadas a essa transição, em vez de acumular funções? E vamos ser sinceros: será que todo profissional de enfermagem realmente deseja realizar algo além da assistência? Há quem prefira criar e compartilhar conhecimento apenas dentro da sua equipe, ao seu modo, no cuidado direto. Qual olhar nós temos para essa postura? Estamos visando o crescimento profissional real, ou apenas um critério preenchido para auditorias?
Lidar com vidas é complexo, instituições hospitalares são complexas, entender as necessidades da enfermagem é complexo, e nesse emaranhado de complexidades, como melhorar e valorizar este profissional efetivamente?
메타데이터
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