Luzes no campo — Um causo mal contado
A tarde caminhava para o seu fim naquele momento em que o céu avermelhava e Zéca dava as últimas carpidas ao redor da roça de aipim. Já era…
Luzes no campo — Um causo mal contado

A tarde caminhava para o seu fim naquele momento em que o céu avermelhava e Zéca dava as últimas carpidas ao redor da roça de aipim. Já era a hora de recolher as ferramentas. Enxada e rastelo no ombro, bora descer o barranco. No caminho para casa, descendo a estrada de pedregulho solto, sentiu a respiração diferente, um suspiro profundo enchia seus pulmões cada vez que lembrava do perfume doce e da visão da pele macia de Ritinha. Criatura tão doce que por um momento deu mais atenção do que Zeca sequer imaginaria e agora, justamente hoje, hoje à noite eles vão se encontrar para tomar um sorvete na pracinha da cidade.
Ao passar pela porteira da roça Zeca encontrou seu amigo Jão. Jão era um gordão com dentes tortos, bochecha grande e voz fina e esganiçada e dono da risada mais irritante já ouvida nesta região. O desgraçado era debochado, ria de tudo e de todos, aquele maledito.
— Oh Zecá, tá com uma cara bonita hoje, homi.
— Tárrrde — respondeu, acanhado.
— Oh Zeca, onde se vai? Vem cá ver o que o Tonho trouxe lá da cidade.
Jão vira de costas, se abaixa e pega alguma coisa em uma caixa de madeira que estava na carroceria da pequena caminhonete branca. Aliás, suponha-se que seja na cor branca escondida debaixo da craca de lama e poeira. A coitada parece que nunca foi lavada desde que saiu da fábrica.
Zeca se aproxima com curiosidade tentando olhar por cima dos ombros gordos do Jão. Um barulho absurdamente alto do motor elétrico quebra o silêncio, a silhueta gorda se vira erguendo uma motosserra e gritando mais alto que o barulho do motor. Zéca dá um pulo para trás e cai no chão com a cara expressando o mais sincero horror. O coração quase explode no peito tamanho o susto. Queria xingar ferozmente, mas só conseguiu pronunciar um “quié isso, sô” umas oito vezes seguidas. O motor desacelera e a risada esgarçada de Jão preenche todo o lugar. É certo de que se não estivesse se cagando de medo, preferia ouvir o motor da serra elétrica do que essa risada dos diabos.
A motosserra volta para a caixa. Zéca se levanta, tentando se recuperar do cagaço.
Só agora percebeu a figura do Tonho parado ao lado da camionete. Ele não estava rindo, estava com um semblante fechado, não era carrancudo, mas só fechado. Zeca já o tinha visto outras vezes pela região fazendo negócio com o Jão. Tonho, que tinha preso no bolso da camisa polo verde um crachá com nome de Antônio e o logotipo da melhor loja de ferragens e ferramentas da cidade. Tonho, assim chamado desde sempre, era o melhor vendedor, consultor e entregador da loja. Sabia tudo de ferramentas, caça e pesca. E mais alguns negócios dos quais ninguém comentava muito.
Negro, alto e forte. A camisa da empresa ficava apertada nele. Parecia nunca rir, falava baixo, mas sempre atento como um bom ouvinte. Zeca sempre achou ele triste.
Ainda rindo, João assina um papel e devolve para Tonho. A caixa é retirada da Fiorino e colocada sobre um carrinho de mão. Tonho entra na velha Fiorino, onde é possível perceber o tamanho desproporcional do carro em relação ao seu motorista. O veículo liga com dificuldade e parte na estrada de barro levantando poeira.
— Te, tenho que ir embora, tenho um encontro. — Zéca falou gaguejando, meio irritado e ainda com dor de barriga pelo susto que acabou de levar.
— Encontro com quem? — Jão falou com os olhos semicerrados.
Nesse momento Zéca se arrependeu amargamente do que falou sem pensar. O gordo maledito sempre ri, debocha e se mete em tudo que o Zéca faz ou fala.
— Com, com a Ritinha. — Falou nervoso e já se arrependendo mais amargamente ainda por não conseguir mentir.
— Oh Zéca, tu é feio, di apé e sem dinheirô. O que a Rita quer contigo?
— Nada não, num, num te interessa sô.
Mais uma vez aquela risada desagradável dos infernos preenche o ambiente.
— Ô Zéca, tu fica ligado… Essa Rita é ligeira…
— Ah é, tu não sabe de nada. — Fez um gesto de desdém, botou a enxada e o rastelo nas costas e saiu apressado.
Já em casa tomou um banho demorado tentando não esquecer de deixar alguma parte do corpo sem lavar. Enquanto botava a roupa pensava na Ritinha, alta, encorpada, cabelos pretos, curtos na altura do queixo e algumas tatuagens… é verdade. A risada irritante de Jão veio à cabeça, e aquela última frase o deixou matutando.
— Ah, que é isso, a Ritinha é uma moça moderna, bobice isso. — Falou para si mesmo em voz alta.
Tirou debaixo da cama uma caixa e abriu com todo cuidado. Dobrou a bainha da calça e calçou as sandálias havaianas novinhas. O branco do chinelo brilhava e as tiras azuis tão novinhas que dá até dó de pôr nos pés.
Pegou emprestado a barra forte do seu tio, Aro 26 e bagageiro com almofada, novinha. Seguiu pedalando rumo à cidade. Estava ansioso, mas evitava pedalar rápido para não suar. A estrada era de barro e sem iluminação. Olhou para o relógio preto com mostrador digital e viu que poderiam se atrasar, então acelerou o pedal para pegar embalo na descidinha.
Enquanto se equilibrava na bicicleta a toda velocidade, percebeu uma luz forte em formato de triângulo que vinha de um ponto mais alto, lá longe no pasto do seu Manoel. Notou uma das vacas flutuando em direção ao topo do cone luminoso. Tal imagem deixou Zeca em um transe momentâneo que só foi quebrado quando a mesma luz forte ascendeu e apagou repentinamente na sua frente. Zeca perde o controle da bicicleta e se esborracha no chão.
— Ai caceta, de onde veio esse caminhão?
Com dificuldades de se mexer depois de ter rolado alguns metros pelo chão de terra batida. Zeca olha em volta e não vê nada além da estrada escura.
Mas a luz volta com força absurda, vinda de cima. O brilho é tão forte que parece ter um peso sobre o corpo de Zeca. Mal consegue olhar, mas percebe que a bicicleta barra forte caída ao seu lado começa a tremer e levitar. Em seguida, o próprio Zeca também está sendo puxado para cima pela luz. Uma dor forte percorre seu corpo inteiro, seguida de náuseas e tonturas, o branco se torna negro e Zeca desliga.
A consciência reaparece lentamente e com dificuldade. Zeca consegue abrir um pouco os olhos e apesar da luz forte algumas formas parecem começar a fazer sentido. Tem a primeira impressão de que está em uma maca de hospital.
— Diacho, devo ter sido atropelado por um caminhão logo agora que ia encontrar com a Ritinha, não é justo — pensou consigo mesmo em voz alta lamentando seu azar. Moveu um pouco a cabeça para o lado direito e percebeu uma figura feminina de costas vestida de branco.
— Oh enfermeira… — balbuciou entre outros grunhidos sem sentido.
— Oi Zeca, que bom que ocê veio me ver. — A enfermeira se vira e abre um longo sorriso.
— Eita, oh Ritinha, não sabia que ocê trabaiava no hospital.
Zeca, mesmo com voz fraca, expressou enorme surpresa ao reconhecer seu rosto, apesar do tapa-olho, das luvas pretas e do uniforme branco apertado que acentua as curvas de seu corpo farto e fazia explodir seus seios generosos pelo decote. Tinha também um chapéu que parecia de soldado com um passarinho de asas abertas sobre uma arruela estranha.
Tentou se levantar e percebeu que seus braços estavam amarrados na cama e o esforço em se mover lhe causara uma forte dor percorria todo o corpo.
— Calma Zeca, não tá na hora ainda. — Ritinha encosta a mão em sua cabeça e o faz repousar novamente.
Nesse momento Zeca percebe que não tem nenhum encosto para a cabeça e ao olhar para baixo notou estar deitado nu sobre uma mesa de metal gelado. Seu coração começa a disparar enquanto a cabeça começa a formatar pensamentos de que não está no hospital da cidade vizinha, onde são levados os acidentados da região.
Ritinha passa a mão em seu peito nu e desliza até seu braço.
— Só mais pouquinho. — Fala com voz doce e com um leve sorriso malicioso.
Percebeu que por trás dela havia figuras que não são exatamente humanas. Vestidas de branco, ostentavam cabeças verdes maiores que de uma pessoa normal. Grandes olhos com tonalidades vermelhas. Fixou o olhar na figura menor que estava à frente. Percebeu que não tinha nariz e somente dois pequenos furos na face. Aquele rosto estranho parecia hipnotizar Zeca, que ficou cada vez mais focado em seus olhos grandes e escuros, como se estivesse criando uma conexão mental onde a criatura sussurrava sem mexer a boca, palavras desconhecidas diretamente no fundo de seu cérebro. Este transe só é quebrado pela dor da agulha furando sua pele e encontrando a veia no momento que Ritinha enfia uma agulha em seu braço e injeta um líquido verde. Os olhos de Zeca fixam no rosto de Ritinha, que mordia levemente o lábio enquanto retirava a seringa. Ao fitar os olhos de Zeca, ela sorriu maliciosamente. Sentiu o braço queimar. A dor e a náusea voltam com força e tudo se torna escuro novamente.
Não sabe quanto tempo se passou. Aos poucos os sentidos de Zeca começam a voltar. Com a visão ainda turva, sente alguém ao seu lado soltando seu pulso direito; assustado, foca a visão e o vulto ao seu lado vai ganhando a forma do Tonho. Ele sussurra:
— Shhh, fica quieto. Vão matar a gente.
Tonho coloca um objeto pesado em sua mão. Ao mesmo tempo ocorre um barulho na porta lateral. Alguma coisa se aproxima. Tonho se abaixa e segue para a outra porta. Zeca fica apavorado, deita e fecha o olho fingindo estar ainda apagado. Sente o medo percorrer sua espinha dorsal, gotas de suor frio pingam na base de metal. Uma daquelas coisas cabeçudas atravessam a sala em direção à porta por onde Tonho saiu abaixado furtivamente. Passam-se alguns minutos, Zeca abre o olho lentamente, olhando para o objeto que Tonho colocou na sua mão. Um revólver dos grandes. Corpo de metal prateado e cabo de madeira envernizada.
Lá da outra porta surge um grito grave e abafado, grito de dor profunda, alguma coisa bem ruim estava acontecendo. Reunindo toda a coragem possível, Zéca respira fundo três vezes e se levanta, desamarra o outro pulso e pula da mesa. Se agacha no canto da parede, segurar o revólver de forma desajeitada. Com as duas mãos e levantando na frente do rosto.Nunca tinha segurado uma arma antes, mas lembra dos filmes de ação que viu na TV.
Respira fundo, e vai caminhando abaixado contra a parede na direção em que Tonho fugiu da sala. Tentando controlar a respiração e o pânico, começa a sentir o frio da sala; nesse momento olha para si mesmo, percebe que está sem roupas, encharcado com suor frio causado pelo medo, mesmo assim ele caminha lentamente até chegar a porta onde é possível dar uma espiada. Percebe somente folhas de plástico transparente que vão do teto até o chão, do outro lado do plástico luzes brancas e fumaça que impedia de ver além.
Algo do outro lado das cortinas plásticas começa a se mover em sua direção, Zéca acredita ser o Tonho. Precisa desesperadamente da ajuda dele para sair daquele lugar. Novamente reunindo todas as forças, o cérebro manda um comando para o corpo levantar, que obedece lenta e hesitantemente.
A sombra do outro lado fica maior, Zéca prepara o fôlego para chamar o nome de Tonho e sinalizar que ele também está ali solto e que precisa de ajuda para escapar. Mas no momento em que vai dizer as primeiras sílabas, o silêncio do ambiente é interrompido por um barulho de golpe forte, um único grito que parece liberar todo o ar do pulmão de uma só vez e o som de alguma coisa pesada batendo no chão da sala branca por trás das cortinas plásticas. No plástico, Zéca consegue ver uma boa quantidade de respingos de líquidos vermelhos escorrendo junto com vapor de água condensada.
— Ai, meus Jesus do céu — Foi só o que conseguiu dizer para expressar o momento de horror que presenciava.
Zeca sai correndo em direção oposta em pânico e desesperado, entra em um corredor branco, pega uma entrada à direita, outra à esquerda. Um beco sem saída. Zéca para, se apoia na parede tentando formular algum pensamento. Percebe que está encostado em uma escada. Olha para cima, uma saída. Sem pensar duas vezes, sobe o mais rápido que pode, nu e segurando o revólver. Passa pela escotilha, mais uma porta que se abre automaticamente. Desta vez o ambiente é seco e confortavelmente quente, dá para sentir o piso de borracha macio. Na sua frente há um enorme vidro e através dele é possível ver as luzes de toda a cidade. Sem entender onde está, Zeca fica paralisado, até perceber à sua direita, sentada à frente de um painel com diversos botões e luzes piscando, aquela criatura do menino cabeçudo que viu anteriormente. Ele o olhando de forma serena. Zeca entra novamente em estado hipnótico, aqueles olhos tão grandes e vermelhos, a voz dizendo palavras sem sentido como um zumbido lá no fundo de sua mente, até o momento que algo agarra seu braço. Uma coisa gelada quebra instantaneamente o transe e o atrai de volta para a realidade, como alguém submergindo de uma piscina quente e se chocando com ar gelado.
Zéca empurra o que está do seu lado. Outra criatura cabeçuda mostra os dentes de forma ameaçadora acompanhado de um som sibilante e potente. Assustado, instintivamente Zeca aponta o enorme revólver e dispara em direção à criatura. A bala faz um pequeno furo na parte frontal e explode literalmente a parte de trás da enorme cabeça alienígena. Uma gosma verde e vermelha espirra na parede logo atrás e respinga uma quantidade considerável em cima do corpo nu e suado de Zeca que reage com um misto de nojo e pavor. Do outro lado, o menino cabeçudo que momentos antes apresentava uma expressão dócil, agora cerra os olhos vermelhos e mostra dentes afiados, emite o mesmo som sibilante. Tentáculos surgem de algum lugar do corpo da criatura brandido de forma ameaçadora. Outras figuras cabeçudas aparecem na porta de forma repentina.
Zeca fecha os olhos protegendo o rosto com um braço, aponta em direção às criaturas e dispara todas as balas restantes do revólver.
— Morre, cacetaaaa! — Gritou com raiva e desespero.
As balas acertaram o vidro, o painel e talvez as criaturas. Um caos de estilhaços, pequenas explosões e fumaça preenchem a cabine. O chão se move e joga Zeca contra a parede, que bate fortemente a cabeça e desmaia.
Os primeiros raios de sol da manhã quente atingem o rosto Zeca. Completamente zozo olha em volta e reconhece a roça de aipim. Levanta a cabeça para se orientar. Percebe que está nu, com vestígios de gosma, folhas secas, barro e pequenos gravetos que cobrindo quase totalmente a sua pele e cabelo. Tenta se sentar e sente a dor se manifestar pelo corpo. Enquanto se ajoelha lentamente, procurando algo para se apoiar, sua cabeça desenrola uma sequência de memórias. Ritinha, ETs cabeçudos, o sangue de Tonho espirrado nas cortinas plásticas.
— Meu Jesus amado… esse coiso foi de verdade?
Náusea e vontade de chorar se misturam Deveria ter sido um sonho mas a condição e o estado em que se encontrava era real. Passou a mão pela barriga até o peito e olhou incrédulo suas mão sujas da gosma verde com parte vermelhas misturadas com poeira e terra.
— Ô Zeca, que cê tá fazendo peladão aqui na roça, sô?
Zeca olha ligeiramente para o lado. Reconhece a sombra do corpo gordo e a voz esganiçada de Jão. Fita por alguns segundos os olhos arregalados do bobão. Levanta-se e sai gritando e correndo pelo meio da roça de aipim.
— Eita, inté parece que o Zeca viu um ET.
Durante muito tempo Jão contou esse causo do desaparecimento do seu amigo Zeca. Em algumas versões tinha vacas mortas no pasto, desenhos de círculos e triângulos gigantes nas plantações de aipim e, volta e meia, associava outro evento famoso na cidade, o desaparecimento de Antônio, o melhor vendedor de ferramentas, caça e pesca da região.

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- 2026-07-13 06:23:13