O Sonho e a Disciplina de Ser Prenda Mirim
Por Talita Masiero

Francisca com os materiais de estudo que utilizou na última Ciranda Cultural de Prendas.
O sonho e a disciplina de ser Prenda Mirim
Por Talita Masiero
A agenda é rigorosa: aulas de história, ensaios de dança, treinos de oratória e uma imersão profunda na cultura de seu estado. A disciplina e a dedicação poderiam ser de uma atleta de alta performance ou pesquisadora, mas pertencem a Francisca Filippon Tomasi. Aos 11 anos, ela carrega a faixa de 1ª Prenda Mirim da 11ª Região Tradicionalista, um título que representa muito mais que uma competição, mas a busca de um sonho no tradicionalismo.
O universo gaúcho: MTG e a Ciranda de Prendas
Para entender a jornada de Francisca e de tantas outras prendas, é preciso conhecer o palco onde tudo acontece. O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) é a entidade que organiza e zela pela manutenção das tradições gaúchas, reunindo CTGs (Centros de Tradições Gaúchas) por todo o estado e até fora dele. Dentro desse universo, a Ciranda Cultural de Prendas é um dos eventos mais importantes.

Gestão Regional de Prendas e Peões da 11ª Região Tradicionalista 2025/26
Longe de ser um mero concurso de beleza, a Ciranda é uma celebração anual que escolhe as meninas e mulheres que representarão a cultura gaúcha, passando por etapas como a regional e a estadual. As participantes são avaliadas em seus conhecimentos sobre história, geografia e folclore, além de demonstrarem suas habilidades em provas artísticas, oratória e comunicação. A categoria Prenda Mirim, para meninas de 8 a 11 anos, é uma das portas de entrada para esse mundo, mas também um desafio de complexidade adulta para meninas tão jovens.
Um sonho que nasce no CTG
Para muitas meninas, o desejo de ser prenda floresce no ambiente do CTG. Foi o que aconteceu com Francisca, que começou com um curso de dança de salão em 2021 e nunca mais saiu.
“Eu via as prendas se apresentando, ganhando faixas, cantando, declamando e fazendo as provas, e foi aí que meu interesse surgiu”, conta.
A inspiração também veio de figuras que ela admirava de perto. “No meu primeiro concurso interno no CTG, havia uma prenda chamada Carol. Eu a admirava muito e ela foi uma das pessoas que me incentivou desde o início”, recorda Francisca.

Francisca com suas três faixas (Prendinha do CTG Laço Velho 2022/23, 1ªPrenda Mirim do CTG Laço Velho 2024/25 e 1ªPrenda Mirim da 11ª Região Tradicionalista 2025/26)
Essa admiração por quem já trilhou o caminho é um sentimento comum. Isadora Biesek Castellani, de 17 anos, que já ostentou a faixa de 2ª Prenda Juvenil do Rio Grande do Sul, também foi movida por uma inspiração. “Eu a olhava com um sorriso encantado, como se fosse uma musa. Ela me deu a esperança de entender que o mundo da ciranda estadual não era tão longe quanto eu imaginava; era algo possível, real”, relata. É esse sonho que alimenta a coragem para enfrentar a jornada. O maior deles? Francisca não hesita:
“Meu maior sonho, hoje, é ser a primeira prenda mirim do Rio Grande do Sul. Mas, como eu disse para a minha mãe outro dia, só de entrar em uma gestão estadual, não importa se em primeiro, segundo ou terceiro lugar, já é uma grande conquista. Representar minha entidade e minha região para todo o estado é algo muito grande.”
A família como alicerce
Quando a decisão de competir é tomada, a rotina de toda a família se transforma. Daniele Filippon Tomasi, mãe de Francisca, admite o receio inicial. “Pensei: ‘Nós não sabemos nada, somos novos no CTG’. Se dependesse de mim, ela teria esperado mais um ano, mas ela quis, e nós a apoiamos”, conta. O apoio se traduz em uma logística complexa e uma dedicação conjunta. “A gente até brinca que mãe de prenda mirim praticamente ganha uma faixa junto, porque fazemos tudo em conjunto. Eu preparei todos os relatórios”, revela Daniele.
A preparação envolve desde a contratação de professores até sessões de estudo em casa. “Eu criava brincadeiras, como provinhas, para ajudar na fixação. Ela adorava quando eu fazia perguntas no elevador ou em momentos inesperados”, relata. Férias, fins de semana e a vida social são reorganizados em função dos ensaios, estudos e eventos. “Uma das principais mudanças foi no planejamento das minhas férias, que agora são programadas para as vésperas da Ciranda. Os finais de semana também mudaram. Deixamos de fazer outras coisas para nos dedicarmos aos estudos, ensaios e rodeios”, explica a mãe.
A preparação: um desafio adulto
O caminho até a faixa exige muito mais do que talento. A preparação é intensa e multifacetada, envolvendo provas que demandam maturidade e disciplina. “O maior desafio foi, sem dúvida, estudar a história do Rio Grande do Sul. São muitas datas, nomes, acontecimentos e detalhes sobre as guerras”, confessa Francisca. Para vencer a dificuldade, ela desenvolveu seu próprio método: “Eu decoro copiando, então assistia às aulas gravadas, lia os livros e copiava tudo. Pedi para minha mãe comprar um pacote de folhas grandes para fazer cartazes”.


Na primeira foto, materiais que foram feitos por Francisca para a Ciranda Cultural de Prendas. Na segunda, todas as faixas e troféus conquistados.
Isadora relembra de quase ter desistido na categoria mirim. “Ganhei a faixa de prenda da entidade em agosto e, em dezembro, queria largar tudo, porque não aguentava mais estudar”, revela. A complexidade do concurso exige sacrifícios. Francisca conta que teve que fazer escolhas difíceis para uma criança: “Tive que deixar algumas coisas de lado. Eu queria muito fazer vôlei, mas tive que escolher entre o vôlei e concorrer. Tive que abrir mão de muitas festas, de brincar e dormir na casa de amigos.” Mesmo assim, ela encontrava seu jeito de ser criança. “Quando encontrava os amigos no CTG ou em eventos, brincávamos muito.”
[embed]Francisca comenta sobre as escolhas que precisou fazer nessa preparação para a Ciranda Cultural de Prendas
Laços que a Ciranda une
O que poderia ser uma jornada solitária e estressante é transformado pelo companheirismo. Longe de um ambiente de rivalidade, a Ciranda se revela um espaço de apoio mútuo. “Acho que esse é o principal significado da Ciranda: independente do resultado, ela une as pessoas”, reflete Isadora. Ela recorda um momento emblemático que ilustra esse espírito: “Estávamos esperando o resultado da primeira prenda juvenil de mãos dadas. O fotógrafo até tirou uma foto. Isso comoveu muita gente, porque era claro que uma de nós não ia entrar, mas mesmo assim estávamos nos apoiando. Ela olhou para mim e disse: ‘É tu, Isa, é tu!’. E eu respondi: ‘Não, é tu!’, uma querendo incentivar a outra”.

Prendas Juvenis, Adultas e Mirins da Gestão Regional da 11ª Região Tradicionalista 2018/19
Entre a disciplina e a pressão: o olhar da psicologia
A rotina de uma prenda mirim, com sua carga de estudos, ensaios e a pressão inerente a uma competição, levanta questões importantes sobre o desenvolvimento infantil. Para analisar esse cenário, as psicólogas Camila Farezin Dornelles e Daniela Faccin explicam que a experiência pode ser uma faca de dois gumes.
Os benefícios são claros, como o fortalecimento da autoconfiança e da autoestima. “Ao enfrentar desafios, realizar performances e ser reconhecida pelo seu esforço, a criança desenvolve uma sensação de competência”, afirmam as especialistas. Além disso, aprende-se a lidar com emoções complexas, como frustração e ansiedade, em um ambiente controlado.

Francisca aguardando o resultado na 54ª Ciranda Cultural de Prendas
No entanto, os riscos não podem ser ignorados. A intensa carga de cobranças pode gerar uma pressão psicológica significativa. “Em casos mais extremos, isso pode levar a ansiedade e estresse, prejudicando a saúde emocional e o prazer nas atividades”, alertam. Outro ponto de atenção é a perda do lazer, já que, segundo elas, o “brincar livre é fundamental para o desenvolvimento cognitivo, emocional e físico nessa faixa etária”.
Nesse cenário, o papel da família é o que define o sucesso da experiência. Os pais funcionam como a principal rede de segurança, com três missões cruciais: garantir o equilíbrio entre dever e lazer, oferecer apoio emocional constante e definir expectativas realistas. “É essencial que os pais compreendam que a participação no concurso deve ser uma experiência enriquecedora, e não uma obrigação”, pontuam as psicólogas.
Uma escola para a vida
Quando bem conduzida, a jornada da Ciranda se torna uma poderosa escola para a vida, moldando diretamente o futuro. A análise das psicólogas Camila Dornelles e Daniela Faccin destaca que a “experiência precoce com metas, vitórias, frustrações e exposição pública pode ajudar a moldar uma atitude resiliente”. Segundo as especialistas, as meninas que aprendem a lidar com essas questões desde cedo têm mais chances de desenvolver habilidades de enfrentamento mais eficazes na vida adulta, tornando-se “mais autoconfiantes, adaptáveis e capazes de gerir emoções difíceis em contextos profissionais e pessoais”
Ao final, o que fica é muito mais do que uma faixa. É um legado de crescimento pessoal que prepara para o futuro. A necessidade de conciliar a vida escolar, as atividades extracurriculares e a intensa preparação para o concurso ensina, na prática, uma das habilidades mais valiosas para a vida adulta: a gestão do tempo. “A Ciranda te ensina a organizar seu tempo, a falar em público”, destaca Isadora. Francisca detalha como fazia essa mágica acontecer: “Na escola, minha mãe sempre dizia que os estudos vinham em primeiro lugar. Em semana de provas, eu me dedicava a estudar para a escola, mas também estudava um pouco para o CTG à tarde. Se tinha prova na quarta, por exemplo, eu estudava na terça, diminuindo um pouco o estudo para o CTG e focando mais na escola.” Essa disciplina forjada na infância se torna uma ferramenta para realizar sonhos.
“Eu acredito que o tradicionalismo forma pessoas; sua principal função é formar cidadãos melhores para o mundo”, afirma Isadora.

Isadora com suas quatro faixas (1ªPrenda Mirim do CTG Herdeiros da Bombacha 2017/18, 3ªPrenda Mirim da 11ª Região Tradicionalista 2018/19, 1ªPrenda Juvenil da 11ª Região Tradicionalista 2022/23 e 1ªPrenda Juvenil do Rio Grande do Sul 2023/24)
Para ela, a experiência cria uma “casca mais forte” para os desafios da vida. “O concurso te prepara para coisas que você vai viver na vida de forma até maior, mas você estará mais preparado por já ter passado por isso. Sinto que hoje sou mais forte para lidar com uma decepção, seja amorosa, profissional ou acadêmica, por causa de tudo o que a Ciranda construiu.”
Francisca, mesmo tão jovem, já percebe essa transformação. “A gente faz muitas amizades novas e perde a vergonha. Você começa a ter que declamar, dançar, se apresentar em palestras, e isso ajuda a perder a timidez”, conclui. Para ela, ser prenda é um papel ativo: “Uma prenda tem que falar muito sobre a cultura, cultuar a tradição e passá-la para os outros. Ela também tem que incentivar as pessoas a entrarem no CTG. Ela tem que ter coragem de falar com as pessoas”. E todo o esforço, para ela, valeu a pena: “A gente adquire ainda mais conhecimento. Minha mãe fala que, antigamente, se estudava sobre a cultura gaúcha na escola, mas hoje não mais. Então, foi uma oportunidade de aprender mais sobre uma cultura muito rica.”
O ápice de tanto esforço é um misto de alívio e euforia. “Quando anunciaram o primeiro lugar, foi uma loucura, um grito só, uma alegria imensa”, descreve a mãe de Francisca. Para a jovem prenda, a sensação foi de outro mundo.
“Me pegaram no colo, me balançaram, me jogaram para cima e para baixo. Eu perdi meu laço, meu óculos… Eu comecei a gritar: ‘Eu ganhei!’”.
É a coroação de uma jornada que, embora exija sacrifícios, enriquece a alma e, como diz Isadora, faz tudo valer a pena. “Não é uma trajetória fácil, porque nunca foi e não é para ninguém, mas no final vale a pena…”
Abaixo confira alguns vídeos das avaliações da 54ª Ciranda Cultural de Prendas do Rio Grande do Sul
Avaliação Prova Oral e Artística Mirim
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Avaliação Mostra Folclórica Mirim
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