Jay Kelly — Mais Uma
O filme Jay Kelly, de Noah Baumbach, é uma comédia dramática e reflexiva que mergulha na crise de identidade do seu protagonista, Jay Kelly…

Jay Kelly — Mais Uma
O filme Jay Kelly, de Noah Baumbach, é uma comédia dramática e reflexiva que mergulha na crise de identidade do seu protagonista, Jay Kelly (interpretado por George Clooney), um astro de cinema mundialmente famoso. Jay, adorado pelo público e com uma carreira invejável, atinge a meia-idade sentindo um profundo vazio existencial, aterrorizado pela ideia de que sua persona pública consumiu completamente quem ele realmente é. A tragédia do protagonista se revela logo na cena de abertura, estabelecendo o tema central do filme: a busca desesperada por "mais uma vez". Em um set de filmagem, Jay está gravando sua última cena e, embora o diretor esteja satisfeito, Jay insiste em tentar novamente. Essa compulsão por "mais um take" se torna a metáfora de sua vida: a tentativa incessante de voltar no tempo para fazer diferente, consertar o que a vida — que, ao contrário do cinema, não pode ser editada — fez de errado.
A trama se desenrola quando Jay decide embarcar em uma viagem pela Europa, uma jornada que serve como uma busca desesperada por autenticidade. Ele é acompanhado por sua equipe pessoal, que conta com seu leal e dedicado empresário e amigo, Ron Sukenick (interpretado por Adam Sandler), que tenta gerenciar a crise pessoal de Jay enquanto lida com as exigências da fama.
A falta de autenticidade de Jay é percebida em pequenos detalhes, como no trailer, onde ele reclama da fatia de cheesecake. Ron o lembra de que o doce consta em seu contrato porque, em algum momento, Jay disse que gostava. Fica evidente que nosso protagonista não sabe mais o que ele gosta. Em seguida, o diálogo distanciado com sua filha Daisy (interpretada pela Grace Edwards) e a notícia da morte do amigo Peter Schneider (Jim Broadbent) intensificam sua crise. A conversa com Peter revela a dualidade de Jay: ele diz que suas memórias são filmes, e Peter responde que é isso que filmes são para nós, fragmentos de tempo. Mas, ao contrário da arte, esses fragmentos não podem ser regravados.

O encontro e a briga física com Timothy (interpretado por Billy Crudup), um ex-amigo da faculdade de teatro, expõem o preço de sua ascensão. Timothy o acusa de ter roubado sua vida em um teste, uma escolha suja que Jay não consegue desfazer. Ele precisa de "mais uma vez" para mudar o passado, mas a vida segue em frente, e o conflito é filmado, adicionando mais uma camada de consequência real ao seu mundo de fantasia.
Jay ignora as vidas de sua equipe e os arrasta para a Europa para surpreender a filha. No trem, Jay observa a vida comum com um olhar emocionado, percebendo a beleza da vida em sua forma mais simples. Contudo, ele segue tentando manipular o real: a forma como ele descobre o paradeiro da filha demonstra que sua busca por conexão ainda está baseada no controle, não na entrega. Enquanto Jay se tranca no banheiro para tentar se encontrar ao falar seu nome para o espelho, suas lembranças mostram o Jay do agora, inserido nas cenas passadas como um observador de luto, andando pelas memórias, ansiando por "mais uma chance" para mudar as coisas. A equipe o abandona, e só sobra Ron, que atinge seu limite na Toscana, questionando a amizade. Jay está sozinho e, mais uma vez, tenta consertar uma relação quebrada (com a filha Jéssica e o pai) num passe de mágica, ignorando que na vida, como em um take longo, é preciso tempo e dedicação, não apenas um corte rápido.

O filme todo mostra um homem em uma crise existencial, sem saber quem de fato ele é, se gosta ou não gosta de cheesecake, se gosta ou não gosta de atuar; se possui ou não possui amigos; um homem que vive tentando consertar relações que não podem ser consertadas assim, em um passe de mágica; um homem que busca "mais uma" dentro e fora dos sets de filmagens, como se fosse possível voltar no tempo e fazer de outra forma. O tempo é absoluto. No camarim da premiação, só com Ron (sim, Ron volta para ajudar o amigo), os dois se ajudam a se arrumar para o evento, num gesto de gentileza e cordialidade que só dois amigos poderiam ter. Ron visivelmente emocionado, por perceber que sempre esteve certo, Jay apesar dos defeitos, era seu amigo; Jay percebeu que era amigo de Ron e que havia perdido muita coisa; antes de ir sentar nas cadeiras do evento, Jay recebe uma mensagem de Daisy o parabenizando pela homenagem, Jay sorri, e da duas garfadas na cheesecake na mesa.

Na cerimônia, Jay está sentado ao lado de Ron, ele olha para cima vê as pessoas que estavam no trem que ele convidou, e o resto era apenas desconhecidos. Quem mais poderia estar ali, se não o seu único amigo e as pessoas que sua arte tocou. A orquestra começa a tocar, as luzes se apagam, na tela toda a filmografia dele, não apenas de Jay mas de George Clooney, o clipe passa por todos os grandes momentos da carreira do astro, prestando uma homenagem ao personagem e ao ator, uma cena magnífica, onde Jay olha ao redor e enxerga na plateia as pessoas que passaram por sua vida, Vê sua filha Jéssica, Peter, Timothy... a câmera passa pelas pessoas na plateia e elas estão emocionadas ao ver suas vidas através dos filmes de Jay/George, cada filme ali representa um fragmento de suas vidas, assim para Jay também, é por isso que ele enxergou pessoas de sua vida ali na plateia, Jay pela primeira vez no filme está completamente nu, por inteiro, sem máscaras, sem Jay Kelly, apenas ele. Jay pega na mão de Ron, simbolizando exatamente isso, ele precisava do amigo nesse momento, pois estava exposto para mundo, em um devaneio, Jay visualiza a última memória do filme, uma apresentação de circo de suas filhas no quintal de casa. O clipe acaba, as luzes acendem, a plateia levanta, Jay fica sentado, emocionado, ele olha para a câmera e pede "mais uma".

Jay Kelly não é apenas uma homenagem a um grande ator (George Clooney) é uma homenagem ao cinema, as histórias que nos atravessam, filmes que nos acompanham ao longa da vida, artistas com quem criamos vínculos particulares, vínculos que só dizem respeito a nós, não a eles, é por isso que choramos suas mortes como se fossem familiares próximos. Na vida não é possível ter "mais uma vez", não resolvemos problemas em um take, é preciso de tempo, por isso precisamos cuidar de quem está aqui agora, para que no final, quando estivermos vendo o clipe de nossas vidas, possamos ter nossa plateia rodeada de pessoas que foram importantes em nossas vidas, pessoas que amamos... Jay Kelly é um filme formidável, obrigado, George Clooney, Adam Sandler e Noah Baumbach.
메타데이터
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