Espera pra ver, 2012 e 2025.
Eu poderia começar a escrever um texto sobre o DLRE, porém acho que seria muito mais meu ego querendo surfar em um hype ao invés de…

Esperar pra ver, 2012 e 2025.
Eu poderia começar a escrever um texto sobre o DLRE, porém acho que seria muito mais meu ego querendo surfar em um hype ao invés de absorver de fato a complexidade dessa obra genial que saiu na madrugada desta terça-feira (28/01). Tão pouco pretendo fazer uma análise complexa sobre samples e representação da brasilidade por meio de músicas clássicas e marcantes do cenário nacional, mesmo que pudesse — até porque, para mim, é uma das coisas que permitiram o álbum já ser entendido como genial. Como eu disse, embora de uma forma não tão complexa, quero falar especificamente sobre a música Esperar pra ver, um clássico brasileiro da cantora Evinha.
A primeira vez que eu escutei Esperar pra ver foi como se um fôlego de vida tivesse tomado conta de mim, efeito bem comum para as músicas brasileiras. Acredito, inclusive, que é por isso que os gringos pagam tanto pau e sampleam a rodo nossos clásssicos sem os devidos créditos. Acho até engraçado como eles pegam nossa arte, fingem não nos reconhecer e através de um “ctrl c” + “ctrl v” juram que a genialidade é deles. Não vou ser hipócrita e dizer que não ousamos inspirações estrangeiras, a diferença é que aqui, a gente pega a referência deles e consegue fazer ficar bem melhor. Enfim, voltando para a primeira vez que escutei Evinha: Foi por meio de um sample que, aliás, foi feito por um artista que faz questão de imprimir, em cada detalhe de suas composições, representatividade, não apenas brasileira, mas que envolve toda a cultura latino americana: o Don L.
Sei que, agora, o foco é no rapper que exala carioquez e tem levado a coroa há um tempo na cena do Rap nacional, mas também sei que vão sair alguns textos geniais falando sobre ele, então, me permito ir por outro caminho. Quero falar sobre Êxodo e Êxito e revisitar a primeira vez que ouvi “Esperar pra Ver” sendo sampleada na cena do Rap brasileiro. Que Don L é a frente do tempo, só não admite quem tem ego inflado ou se reconhece como fã de diva pop do Hip Hop, mas que ele é a pura representatividade de utilização elementos carregados de brasilidade para fazer sua obra é de conhecimento mais abrangente. Desde Costa a Costa — antigo grupo do Rapper, é nitidamente viva a instrumentalidade que marca gêneros latinos e ditam uma forma de se fazer música. Não se trata apenas de um resgate estético, mas de um gesto de honraria cultural, que atravessa o tempo como um manifesto de identidade.
O espaço que esse sample ocupa na composição é magistral, mas o que realmente me fascina é a forma como o recorte da linha “Eu senti que a tristeza ia chegar e mudar, ia tomar meu coração” é seguido por marcações rápidas que não evocam simplesmente melancolia, e sim a pulsação de uma luta constante, vivida em um movimento de êxodo, quando entendemos o contexto do rapper nordestino saindo de sua localidade para fazer dinheiro com música no eixo principal para o capital do país. O Êxito, claramente, vem alguns anos depois, quando ele não apenas concretiza, mas passa a ter notoriedade sobre os fatos da sua lírica: Não tem um rapper do seu nível na cena.
Don L é um artista extremamente versátil, cuja escrita é marcada como a caneta ativa mais afiada da cena do Rap nacional. Reconheço que essa afirmação pode incomodar especificamente uma fanbase habituada ao culto de divas pop, mas é inegável que fanbase raramente expandem seu olhar para além de si mesmos, tampouco contribuem para discussões mais amplas. Minha intenção aqui não é alfinetar ninguém, mas forçar o deslocamento do eixo da atenção e instigar uma reflexão sobre os elementos musicais de um passado não tão passado — afinal, há anos artistas vêm explorando as mesmas sonoridades e narrativas que hoje muitos consideram revolucionárias e geniais, simplesmente porque ignoram o feito no underground.
O ano de 2025 se desenha como um marco para o Rap nacional, com o lançamento do DLRE logo no início e a tão aguardada promessa de Caro Vapor / Vida e Veneno Vol. 2. Ouso dizer que este pode ser um ano de muitas e inevitáveis comparações e, para ser bem honesta, estou ansiosa para testemunhá-las e fazê-las.
메타데이터
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