Uma verdadeira história de horror: Como foi minha experiência infiltrado em um grupo antivacinas
No dia 29 de maio fui surpreendido por uma enxurrada de publicações antivacinas no feed do Facebook. Tratava-se de uma grupo de humor que…
Uma verdadeira história de horror: Como foi minha experiência infiltrado em um grupo antivacinas
No dia 29 de maio fui surpreendido por uma enxurrada de publicações antivacinas no feed do Facebook. Tratava-se de uma grupo de humor que “printava” as postagens de membros de outro grupo. Depois de muitas risadas, a curiosidade foi feroz. Eu queria entender toda utopia que essas pessoas acreditavam, saber se há pelo menos um único argumento plausível que seja passível de compreensão. No início fiquei balançado em entrar, visto que viraria piada se alguém do meu círculo de amizade percebesse minha participação. Mas, fui precavido. Publiquei um post que explicava qual era minha intenção interagindo por lá. Infiltrado, tive medo de que isso vazasse no grupo antivacina, então deixei a visibilidade disponível apenas para mim. Com isso, vamos ao que importa.

Minha publicação assim que foi ao ar, disponível apenas para mim
Minha experiência começa quando ao clicar em participar, três questionamentos surgem. Os primeiros era “Qual é o seu objetivo no grupo?”; provavelmente para evitar pessoas “inconvenientes”; logo depois, “Você é contra as vacinas?”, logicamente uma medida protetiva; e por fim a mais impressionante de todas, “Você sabia que células de bebês abortados, células cancerosas de uma mulher, células de macacos estão entre os ingredientes da vacina?”. Minha primeira reação foi rir, mas com muita força mantive a seriedade e fui procurar saber sobre tais afirmações.


Depois de algumas pesquisas básicas no Google Acadêmico, não obtive nenhum resultado satisfatório da maioria das informações. Então voltei a Google padrão, agora sem filtro. A única “fonte” encontrada foi a de websites religiosos radicais que não embasavam nenhum dos seus argumentos. Todos informavam apenas números estatísticos aleatórios sem link para a pesquisa do apresentado, e quando apontavam para algo, direcionavam para sites com a mesma proposta — ou seja — o velho viés de confirmação (falaremos mais adiante). Sabendo que minha jornada estava apenas começando, fui dormir esperando aceitarem minha inclusão.
Na manhã seguinte, o aceite surgiu nas minhas notificações. As publicações sempre estiveram visíveis ao público geral, mas o primeiro impacto após minha inserção foi a capa. Na imagem encontrei a acusação de que as vacinas eram uma prática criminosa, acompanhada de uma criança em prantos, uma mulher em posição de negação e um idoso aborrecido. Acredito que fazem referência aos três públicos comuns da vacina: Recém nascidos, gestantes e pessoas de idade avançada. Ao canto inferior esquerdo um link em azul incentivava a participação do abaixo assinado com as reivindicação do “Fim da Obrigatoriedade das Vacinas”. O número de integrantes, que não necessariamente são participantes do movimento ou simpatizantes, passam de 5 mil. Outra informação importante é que a URL do grupo foi renomeada para “VacinasCausamAutismo” (vamos falar sobre isso em breve), mas não colocarei o link dele aqui para não dar holofotes.

Página inicial do grupo “VACINAS: O maior CRIME da história!”
Confesso que precisei ter sangue frio ao rolar o feed de discussões. Foi difícil selecionar as mais curiosas e impactantes, afinal todas elas eram/são no mínimo de cair o queixo. Mas uma publicação me chamou atenção…

Nela o presidente dos Estados Unidos supostamente afirma que a vacina da gripe é a maior fraude da história da medicina”. Um total de 68 compartilhamentos foram realizados. Ao clicar no enunciado, fui redirecionado ao site curasnaturais.net. O texto apresenta uma entrevista em que Donald Trump alega nunca ter contraído a gripe — e que por isso não precisou da vacina. Ele complementa que amigos e suas respectivas famílias tomaram a vacina contra gripe, mas ainda assim ficaram resfriados, e afirmou também que alguns relatórios das últimas campanhas de vacinação foram ineficazes. No final desta entrevista, ele deixa claro que não vai tomá-la, mas reforça que isso não quer dizer que outras pessoas devam tomar — contradizendo o que o título da publicação. A fonte no rodapé aponta um link quebrado do Wise Mind Healthy Body. Pesquisando mais afundo, encontrei **outro artigo** da organização americana FactCheck que havia desbravado toda esta falácia tempos atrás.

Esta outra publicação era bem forte. Uma criança convulsiona na cama, e logo depois os pais aplicam um spray de resgate à base da cannabis sativa. O que chamou atenção aqui não foi a efetividade do medicamento, visto que a planta está sendo seriamente estudada para esse intuito, como mostra o artigo “Cannabis: esperança contra convulsões” do Dr. Dráuzio Varella; mas sim o comentário do moderador do grupo sobre o ocorrido. Um dos representantes afirma que vasos capilares foram bloqueados pelas partículas metálicas injetadas. Novamente fui averiguar. Para minha surpresa, verifiquei que esta afirmação está parcialmente verossímil, mas retirada completamente do contexto geral. O artigo “**Environmental toxicants and autism spectrum disorders: a systematic review” do site Translational Psycriatry, organização da Nature Research, confirma que fatores como a genética e exposição toxicológica ao meio ambiente durante a pré-concepção, gravidez e infância são alguns dos casos relacionados ao transtornos do espectro autista. Realmente há relação entre autismo e metais pesados. De fato há possibilidade de que o elemento cause danos neurológicos, mas apenas em grandes quantidades, o que não é o caso das vacinas que possuem pequenas doses de mercúrio e alumínio em sua composição. Como explica a BBC com o artigo “A história que deu origem ao mito da ligação entre vacinas e autismo”**, o boato das vacinas e autismo começou com a hipótese apresentada por Andrew Wakefield na revista Lancet em 1998. Isso gerou uma reação em cadeia pela abstenção da vacinação na Europa, e logo depois pelo mundo. Quase 6 anos depois a hipótese foi descartada pelo Instituto de Medicina dos EUA. Tempos depois, um auxiliar de Wakefield denunciou seus métodos antiéticos, fazendo com que o médico perdesse o direito de exercer sua profissão. Que surpresa, não?!

Esta aqui exigiu bastante pesquisa. Procurei a origem na afirmação que denota a utilização de fetos abortados nas vacinas. Uma das maiores representantes disso é Theresa Diesher, ou pelo menos são aqueles que acompanham o trabalho da PhD. A cientista é conhecida pelas controvérsias e os grandes embates da utilização de células-troncos embrionárias humanas para estudos científicos, o que para alguns é considerado como “feto”. Por mais estranho que pareça ao primeiro ver para um leigo como eu, a prática é muito comum na medicina. A utilização de células embrionárias são materiais de pesquisa para diversas patologias em todo o mundo, porém sim, existe um debate ético sobre a prática, mas não da efetividade dela. O artigo “A polêmica da utilização de células-tronco embrionárias com fins terapêuticos” da Revista da Associação Médica Brasileira diz:
“Já existem trabalhos publicados envolvendo doença de Parkinson, diabetes tipo 1, distúrbios circulatórios e doenças neuromusculares; seus resultados, porém, ainda carecem de melhores bases científicas para a utilização rotineira e prática do método.”
Então, quando as críticas das vacinas são levada à mesa, é necessário analisar e avaliar todos os outros avanços científicos conquistados pela prática. E se for de escolha da pessoa, seguir uma crença pessoal, é necessário deixar claro que isso não valida o ponto dela como factível. O caso da mencionada Theresa Diesher foi um destes embates. Ela lutou contra a atividade do Instituto Nacional de Saúde do Estados Unidos da América (NIH) alegando que o método é antiético. **Como revela esta notícia**, o caso foi a tribunal e a Suprema Corte foi decisiva, permitindo que fossem utilizados células embrionárias para fins de estudo.
“Não poderíamos estar mais felizes em saber que essa perturbação frívola, mas ao mesmo tempo potencialmente devastadora, ficou para trás” — declarou Douglas Melton, codiretor científico do Instituto de Células-Tronco de Harvard, em Cambridge, no estado de Massachusetts.
O artigo “Pesquisas com Células-Tronco: Aspectos Científicos, Éticos e Sociais” do Instituto FHC explica o debate ético:
A questão ética e legal central deriva do fato que, para se obter as células-tronco, é necessário destruir o embrião. Há que se considerar em primeiro lugar uma questão filosófica ou religiosa, a definição do momento de origem da vida individual, ou seja, em que momento a massa de células, o embrião ou o feto pode ser visto como um indivíduo, com direitos próprios. The answer to this question is heavily influenced by religion. For the Catholic Church Romana, a fecundação do ovo é o momento do início da vida individual, devendo pois o embrião pré-implantação de células ser tratado com a mesma proteção à vida que um adulto: nada justificaria a destruição desse “embrião”, nem mesmo sua utilização para um tratamento que pode salvar a vida de uma criança ou um adulto, pois isso corresponderia a sacrificar um ser humano para salvar outro. Já os Cristãos Protestantes têm uma visão mais liberal a esse respeito, mas bastante heterogênea. Os Judeus, por sua vez, entendem que a vida individual somente começa com o nascimento, o que lhes permite uma abordagem mais liberal. Do ponto de vista científico estrito é impossível falar em “início da vida”, uma vez que todas as formas de criação de embriões (fecundação natural, fecundação in vitro,transferência de núcleo somático) combinam material de duas células vivas criando uma nova célula viva; não há, pois, “início” de vida, mas apenas continuidade
A ligação entre a utilização de células-troncos embrionárias humanas e “fetos abortados”, segundo o estudo realizado pelos professores de medicina da USP Marco A. Zago e Dimas T. Covas, é controversa apenas por um aspecto filosófico e/ou religioso. No meu caso? Tenho fé, mas acredito na necessidade do avanço empírico da medicina, considerando o ceticismo ao invés das correntes do abstrato e do espiritual. Permanece o debate.

Nos comentários deste mesmo post, um participante alertou que as vacinas transformam bebês em homossexuais. Não consegui encontrar nenhuma fonte segura e verídica sobre o afirmado. O que sabemos é que o gênero do bebê está interligado aos hormônios liberados pela mãe durante a gestação, como artigo “Hormônios podem indicar sexo do bebê no início da gravidez” da BBC Brasil explica. Nada está anexado à orientação sexual. A cartilha didática “É menino ou menina?” do Ciência para Todos desenvolvido pela UFMG deixa claro que os cromossomos X e Y determinam o sexo, porém a formação do sistema genital também é resultado de hormônios produzidos pelas glândulas endócrinas. Todo o processo é completamente natural, ou seja, não há nenhuma ligação que esse processo esteja relacionado às vias artificiais, como as vacinas. Para melhor elucidação da orientação sexual, recomendo o vídeo “Homossexualidade — Ponto Final” do Canal do Pirula.

Conferindo o comportamento dos participantes, o grupo tem o intuito de “sempre averiguar a verdade”, mas como foi dito acima, as fontes são rasas e outras vezes falaciosa. O discurso antivacina está sempre relacionado a busca de supostas mentiras contadas, mas em alguns casos é evidente que há uma enganação por trás do pressuposto. **O pastor ressuscitado é um dos casos que ganhou destaque na mídia. Logicamente, o acontecimento logo foi emendado com a “luta” antivacina. Isso é nomeado de viés de confirmação, que é uma tendência que todos os que buscam informação precisam alertar-se. Pesquisar algo afim de obter um resultado previamente esperado, absorvendo somente aquilo que confirma seu discurso, não pode ser chamado de ciência. Todas as evidências devem ser colocadas à mesa, sem maquiagens. O Olhar Cético, da revista Galileu, explica o fenômeno no artigo “Em busca de confirmar nossas próprias certezas”** com o desafio de 1960 do psicólogo britânico Peter Wason.
Verdades absolutas e doutores exilados

Para evidenciar a falta de compromisso e credibilidade de todos os envolvidos do grupo, decidi testar algo apenas para entender se a fonte de tudo que é publicado lá é, ao menos, verificado. Assim, criei um site no Wix com o nome **Verdade Absoluta**, publicando notícias e anunciado eventos falsos, sem qualquer compromisso com a verdade. Pelo contrário, todo o texto foi gerado aleatoriamente, com exceção de alguns, como por exemplo a ficção contada em “Quem Somos”, para não levantar suspeitas. Caprichei no design e selecionei fotos no banco de imagens gratuito Visual Hunt. O nome escolhido? Acredito que é autoexplicativo.

Suposta foto do Dr. Xiei Rahp Ennis
Depois da criação do site, produzi **um artigo fake de um personagem inexistente que travava uma batalha de vida ou morte a favor da veracidade, uma verdadeira jornada do herói com direito a antagonista, um monomito. Tudo isso para utilizar ele como argumento de autoridade. Assim nasceu Xiei Rahp Ennis, um neurologista chinês que tem um nome bem Hermes e Renato. No texto, tomamos o conhecimento de uma suposta denuncia do doutor àindústria farmacêutica, da qual resultou em ameaças que o forçou a sair de seu país de origem. No final, pesquisei o termo “vacine” no Google Acadêmico e peguei o primeiro artigo que tinha relação com o idioma chinês, e daí anexei como fonte. Eu nem li, nem sei do que se trata, apenas não queria levantar suspeitas aos leitores por deixar algo sem “comprovação**”. Curioso para saber o resultado? Lá vai…

Em poucas horas, 26 pessoas reagiram a triste história do doutor Xiei Rahp Ennis, e 12 compartilharam sua guerra contra indústria farmacêutica.
NENHUM dos que interagiram contestou a veracidade do relato, do site que a notícia foi publicada e da fonte desconexa com o assunto principal. Algumas das pessoas envolvidas possuem centenas de pessoas em seus perfis. Essa publicação não atingirá só o grupo em si, mas a rede orgânica e social do Facebook. Uma forma de provar o descompromisso total.
Afim de preservar a integridade de todos os envolvidos, borrei as fotos e nomes. Respeite-os! Pois muitos estão sendo influenciados por pessoas más, ou estão apenas embriagadas pela ignorância.
É válido lembrar que, minha formação é publicidade e propaganda, isso quer dizer que não sou biólogo, psicólogo, médico, químico, etc. A área que atuo nas pesquisas é a da comunicação. Tudo que foi dito foi resultado de artigos e notícias encontradas em fontes seguras. Caso encontre alguma incoerência, ou algo que já tenha sido refutado, esteja a vontade para expressar comentários. Termino este artigo com uma frase,
“O mundo é deveras cômico, mas a piada está na raça humana” — H.P. Lovecraft
Um tenro abraço.
[UPDATE] Indicação de Livro
Deixarei aqui uma indicação de livro que descobri após o artigo ser publicado. A obra é “A vacina no banco dos réus: Mitos e verdades sobre as vacinas”, do pesquisador Carlos Henrique Dumard. Você pode comprar o eBooks na Amazon.

[UPDATE] Agradecimentos
Gostaria de agradecer Louic Carvalho por algumas correções ortográficas. Valeu aí carinha!
Fontes Utilizadas:
<*https://www.factcheck.org/2018/12/trump-didnt-call-flu-shot-a-scam/> (Acesso em 30/05/2019). [<https://wisemindhealthybody.com/wmhb/trump-flu-shot-scam/](https://wisemindhealthybody.com/wmhb/trump-flu-shot-scam/)*>(Acesso em 30/05/2019) https://drauziovarella.uol.com.br/geral/cannabis-esperanca-contra-convulsoes/ (Acesso em 30/05/2019) <https://www.nature.com/articles/tp20144> (Acesso em 30/05/2019).<https://www.bbc.com/portuguese/geral-40663622>. (Acesso em 30/05/2019). <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-42302006000200001> (Acesso em 30/05/2019). <http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/pesquisa_com_celulas-tronco_embrionaria_humana_tem_financiamento_garantido_pela_suprema_corte_americana.html> (Acesso em 30/05/2019). <https://www.nature.com/news/2011/110209/full/470156a.html> (Acesso em 30/05/2019). <https://fundacaofhc.org.br/files/apresentacoes/1936.pdf>. (Acesso em 30/05/2019). https://www.bbc.com/portuguese/ciencia/020130_hormoniobg.shtml (Acesso em 08/06/2019) <https://www.ufmg.br/cienciaparatodos/wp-content/uploads/2014/05/ciencia-14.pdf> (Acesso em 08/06/2019) <https://revistagalileu.globo.com/blogs/olhar-cetico/noticia/2014/01/em-busca-de-confirmar-nossas-proprias-certezas.html> (Acesso em 08/06/2019) <https://www.youtube.com/watch?v=Gn0R-gb9SMc> (Acesso em 08/06/2019) <https://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/mundo-insolito/2019-02-28/pastor-processado-ressurreicao.html> (Acesso em 08/06/2019)
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