Origem das Religiões — Parte I
Estamos em 2025 e está muito difícil acreditar em qualquer coisa que digam os políticos, a internet, a televisão, os influenciadores…
Origem das Religiões — Parte I
Esta é a primeira parte de um livro sobre a história das religiões que começa desde a origem do Homo Sapiens na África, mais de 300 mil anos atrás.
Um livro sobre a história que a própria história conta, com seus acontecimentos reais, na ordem dos próprios acontecimentos, de forma a explicar nossa mentalidade atual e o que nos resta de legado nos dias de hoje.

Livro sobre a Origem das Religiões
Acesse aqui a Parte II deste livro: https://medium.com/@allineo/origem-das-religiões-parte-ii-4187de2bbc5f
Ou acesse aqui os vídeos sobre esse livro: https://www.youtube.com/watch?v=CugFdQgwWpQ
PARTE I
Introdução Crescente Fértil Natufianos Jericó Göbekli Tepe Povos Semitas A Civilização da Deusa Yamnayas Patriarcado Enheduana, a inventora da religião Grandes Dilúvios Mitos da criação Abraão, patriarca do passado Moisés, herói do passado As 12 tribos de Israel Canaã Histórica Shasu e Habirus Hebreus Urusalim Dinastia Davídica Rei Omri Reino de Judá Queda do Primeiro Templo Origem do Judaísmo Evemerismo religioso Animismo ancestral Reis divinos Monoteísmo Dualismo demoníaco Sociologia da religião Dinastia dos Hasmoneus Dinastia Herodiana Expectativas Messiânicas Destruição do Segundo Templo O Massacre de Masada
PARTE II
Os Messias Seguidores do Caminho O Pai do Cristianismo Primazia de Marcos Evangelhos Origens do Cristianismo Perseguição Martírica Monomito Antigo e Novo Testamentos Oficialização da Religião Cristã Bíblia Maomé, o Profeta Armado Cruzadas Tráfico Negreiro Religião Guerras Religiosas Profecias Apocalípticas Era de Aquário Apoteose, o Pecado Original Misoginia Síndrome do Trauma Religioso Ocultismo Irreligiosidade Fé
Estamos em 2026 e está muito difícil acreditar em qualquer coisa que digam os políticos, a internet, a televisão, os influenciadores, vendedores, governantes, marqueteiros, pastores, etc… E ainda tem as *Deepfakes, a Inteligência Artificial, as [Fake News](https://pt.wikipedia.org/wiki/Not%C3%ADcia_falsa)*, Máscaras ultra realistas, e por aí vai.

Máscaras Ultra Realistas que enganam as câmeras e a hilária Marisa Maiô, gerada por IA
É muita gente utilizando técnicas novas e antigas de todas as formas para manipular pessoas e acumular riqueza. No mundo das religiões nunca foi diferente.
Praticamente qualquer religião se utiliza de lendas e mitos para contar suas estórias. Essas lendas repetidas constantemente ao longo dos séculos faz com que as pessoas comecem a confundi-las como verdade.
Para exemplificar, vamos direto ao ponto mais polêmico e sensível das religiões atuais, principalmente num país tão passional e de maioria cristã como o Brasil: a Bíblia.
A Bíblia não é um livro único, muito menos unânime ou homogêneo, nem mesmo o próprio cristianismo é uma religião uniforme. Existem várias versões do cristianismo no Brasil e no mundo, assim como muitas variações de livros sagrados, não só cristãos, mas de qualquer religião.
Da mesma forma, não existe um texto original da Bíblia, nem uma versão oficial globalizada, que seriam talvez as palavras reais ditadas por Deus. O que se tem, que pode-se dizer o mais fiel, é uma sequência de achados e estudos arqueológicos que deram origem ao que foi colocado de fato nas variações da Bíblia. Por alguma pessoa real, em algum momento da história, por algum motivo político.
Acreditar fervorosamente em tudo o que um livro sagrado diz é um ato de fé. Não necessariamente de raciocínio lógico, muito menos de ciência. Estórias religiosas, incluindo as bíblicas, derivam direta ou indiretamente de lendas e compilados históricos escritos por muitos e muitos humanos diferentes, que passaram por várias e várias gerações, de todo os tipos de culturas, origens e localidades.
Essa realidade não diz respeito somente aos livros do Antigo Testamento, estamos falando também das narrativas do Novo Testamento, da Torá, do Alcorão, do Budismo, Hinduísmo, Hermetismo, etc.
Comprovadamente, pela arqueologia, antropologia, filologia, paleontologia, ciências humanas, históricas e outras (Ciências da Religião), a origem dessas muitas lendas e acontecimentos religiosos remontam pelo menos 10 mil anos atrás.
Crescente Fértil
O Homo Sapiens surgiu nas savanas da África mais de 300 mil anos atrás (Hipótese da Savana).
Eram pequenos grupos de caçadores-coletores nômades, bípedes, inteligentes, matrilineares e de pele exclusivamente negra.
Mantinham uma dieta predominantemente de tubérculos, frutos, larvas, pequenas presas e carcaças de animais maiores; usavam pouca vestimenta ou nenhuma.
Focavam na cooperação mútua, com a matriarca na liderança do pequeno grupo. Os conflitos intra e extra grupos eram de pequena escala, não existindo guerras nem aniquilação em massa.

Aparência dos primeiros Homo Sapiens Sapiens
Por volta de 100.000 a.C., com o crescimento da população de humanos e com a aridização da região, começamos a migrar para o norte, para diferentes ecossistemas, percorrendo o corredor verde que o Rio Nilo formava, e principalmente seguindo as manadas de animais que já estavam indo nessa direção.

Dispersão do Homo Sapiens pelo planeta Terra
Dalí rapidamente se dispersaram pela costa do Mediterrâneo e atingiram o chamado Crescente Fértil. Esse nome foi dado porque era a região que contornava o Deserto da Arábia e possuía uma grande concentração de espécies selvagens domesticáveis, como trigo, cevada, lentilha, grão-de-bico, além de cabras, ovelhas, porcos e boi selvagens, gazelas, etc.

Primeiros assentamentos da humanidade
Como os rios do Crescente Fértil eram perenes (Nilo, Tigre, Eufrates, Jordão, etc.), o solo ficava rico em nutrientes e o clima do mediterrâneo também ajudava muito.

Surgimento da agricultura no mundo
Ain Ghazal foi uma das primeiras aldeias do mundo com cultivo de cevada, trigo, grão de bico e lentilhas, e pastoreio de ovelhas e cabras. Datada de 10.000 a.C..

Ain Ghazal, mais antigo assentamento humano conhecido
Natufianos
Com o fim da última Era do Gelo, que durou de 110.000 a.C. a 10.000 a.C., o clima da Terra esquentou e se estabilizou, ficando finalmente propício para que esses humanos primitivos pudessem desenvolver a agricultura.
Os Kebarianos eram caçadores-coletores nômades que habitavam a África sub-saariana no período Paleolítco (por volta de 15.000 a.C.). Não desenvolveram agricultura porque os grãos selvagens dessa região (como o sorgo e o milhete) se dispersavam ao cair no chão e por isso dificultavam muito a colheita manual, além de viverem em ecossistemas vastos e ricos, não havendo necessidade de cultivar alimento.
Já os Natufianos, que evoluiram após os Kebarianos quando o clima da Terra começou a esquentar, por volta de 10.000 a.C.., eram tribos de pastores semi-nômades, viviam no norte oriental da África, na Península do Sinai, e desenvolveram a proto-agricultura.
Começaram também a desenvolver uma cultura e uma linguagem chamada proto-sinaítica (ou proto-semita).
Ambos os Kebarianos e Natufianos eram matrilineares e pacíficos.
Como o clima da região do Saara continuava se desertificando e os animais continuavam seguindo para a Península Arábica (que naquela época era verde e úmida), assim também fizeram as tribos humanas de caçadores e coletores, por volta de 4.000 a.C..
Os povos Natufianos migraram para o sul do Crescente Fértil e se fixaram na Costa do Levante (a região sul do Crescente Fértil), uma região marítima do Mediterrâneo de portos naturais. Dominaram culturalmente a região de forma pacífica.

Assentamento e Esculturas Natufianas
Mais tarde esses Natufianos da região do Levante se miscigenaram de volta com os mesopotâmicos e formaram os primeiros grupos de Cananeus.
Jericó
A cidade mais antiga do mundo é Jericó (atual sítio arqueológico de *Tell es-Sultan*, na Cisjordânia), cujo primeiro assentamento data de mais de 11.000 anos de idade. E é também a cidade mais baixa do planeta, ficando 270 metros abaixo do nível do mar.
É uma área altamente fértil devido à Fonte de Eliseu (ʿAin es-Sultan), uma nascente perene que produz aproximadamente 1.000 litros de água por segundo, formando um oásis em meio a uma região árida.
Fonte de Eliseu em Jericó
Era um aglomerado com poucas dezenas de casas circulares, feitas de tijolos de barro, datado por volta de 9000 a.C..
A África já possuía vários vilarejos de casas desde milênios atrás, mas Jericó foi a primeira vila conhecida do mundo a possuir muros e torres de proteção, construídas por volta de 8.000 a.C..
Resquícios das antigas muralhas de Jericó
Jericó foi fortemente destruída por volta de 1.550 a.C. pelos egípcios durante conflitos cananeus. A violentíssima Batalha de Jericó descrita na Bíblia no Livro de Josué, capítulo 6, historicamente nunca existiu.
Göbekli Tepe
Em 1963 encontrou-se as ruínas do santuário de *Göbekli Tepe* na atual Turquia, uma civilização mais antiga que os sumérios, por volta de 9.500 a.C..
Ainda em fase de estudos, surpreendentemente, não foi encontrado nenhum vestígio de escrita alfabética em suas escavações, nem de agricultura, metalurgia, ou governança. Só caçadores coletores semi nômades e uma arquitetura ritualística megalomaníaca em um provável calendário lunissolar, construída na época por centenas de pessoas.
Ainda na antiguidade, após mais de 1000 anos de utilidade, por volta de 8.000 a.C, Göbekli Tepe foi completamente soterrada e escondida propositadamente, ainda sem nenhuma explicação compreensiva para nós na atualidade.

Escavações de Göbekli Tepe, civilização datada de 9.500 a.C.
Aparentemente não havia um assentamento permanente em Göbekli Tepe, só um templo para fins religiosos. Por isso pode vir a ser uma prova de que as religiões não foram criadas após os humanos se assentarem em sociedades, mas o contrário.
Pode ter acontecido que a humanidade deixou de ser nômade e se assentou justamente para poder formar uma religião.
Os Povos Semitas
Por volta dos anos 6000 a.C., houve um esgotamento do solo na região sul do Crescente Fértil, fazendo os povos Natufianos pré-semíticos abandonarem seus assentamentos e migrarem para a Mesopotâmia, para a Anatólia e para a região do Saara.
Ao mesmo tempo em que os povos semitas se consolidavam no Nordeste da África e no sul do Levante, outras partes desse mundo antigo também evoluíam de forma surpreendente nesse mesmo período. É a chamada passagem da Pré-história para o período histórico da humanidade.
Desenvolveram consideravelmente a agricultura e a escrita, aumentando enormemente a população mundial e criaram hierarquias sociais de grande escala com o surgimento dos primeiros governos e impérios da humanidade.
Na Mesopotâmia, atual Iraque, no delta ao sul dos rios Tigre e Eufrates, surgem os sumérios, a primeira civilização conhecida do mundo. Uma raça híbrida e isolada, criaram o primeiro sistema de escrita chamado de cuneiforme e construíram *Uruk *em 4500 a.C., a primeira metrópole do planeta, chegando a uma população de 40.000 habitantes.
As tábuas de *Kish e as [tábuas de Kushim](https://pt.wikipedia.org/wiki/Kushim_(indiv%C3%ADduo)) seriam os documentos escritos mais antigos que temos da história, encontrados na cidade de [Kish](https://pt.wikipedia.org/wiki/Quis_(Mesopot%C3%A2mia)) e na cidade de [Uruk](https://pt.wikipedia.org/wiki/Uruque) *(antiga Suméria, atual Iraque), datadas por volta de 3400 a.C.. São tábuas de argila escritas em cuneiforme antigo que registravam transações comerciais da época. Hoje encontram-se no Museu Britânico, em Londres.
Observe a assinatura do autor do texto na tábua do meio, com os caracteres “KU” e “ŠIM” (“𒆪𒋆”, “κουşim” em sumério). No texto está escrito: “29,086 medidas de cevada 37 meses Kushim”.

Tábuas sumérias com a assinatura do autor “Kushim”
Isso porque ainda não foram encontrados artefatos mais antigos, desde os povos egípcios (hieróglifos) e sumérios (cuneiformes). Foram essas as primeiras civilizações que desenvolveram a escrita alfabética, que é o que se tem de registro escrito mais antigo quando se fala de mundo civilizado, após a proto-escrita pré-alfabética.

Quadro comparativo entre letras da antiguidade
Por volta de 7500 a.C. surge a Civilização do Vale do Indo, na atual Índia, chegando ao seu auge agrícola e desenvolvimentista após os anos 3500 a.C..
Da mesma forma que por volta de 6000 a.C., grupos tribais do Vale do Nilo, no atual Egito, começam a cultivar alimentos, se assentar e estabelecer governanças. Por volta de 3000 a.C., se unificam como a primeira dinastia do mundo (I Dinastia) e criam a escrita pictográfica hieroglífica.
E nesses mesmos períodos, outras regiões do planeta também desenvolvem a agricultura, como o Rio Amarelo (Huang He), na atual China; *Çatalhüyük* na Anatólia da atual Turquia; na Mesoamérica, no Andes e por toda a Europa.

Civilizações do mundo por volta de 4000 a.C.
A Civilização da Deusa
Por volta de 7.500 a.C., surgiu na Anatólia, na atual Turquia, um assentamento agrícola chamado *Çatalhöyük *(“monte em forma de garfo” em turco).
Era uma cidade sem ruas e sem hierarquia, todas as casas eram praticamente iguais, não haviam palácios, nem muros de proteção.
As expressões artísticas eram extremamente ricas e na maioria voltadas para o feminino. Estudos genéticos mostraram que era uma sociedade matrilinear, liderada pelas matriarcas das famílias, sem ascensões sociais ou propriedades privadas.

Mulher sentada de Çatalhöyük em exposição no Museu das Civilizações da Anatólia
A arqueóloga lituana *Marija Gimbutas publicou em 1991 que Çatalhöyük *era uma sociedade pacífica e dedicada à Grande Deusa Mãe, a divindade da natureza e da fertilidade.
Por volta de 7.000 a.C., esses povos continuaram migrando da Anatólia para a Europa, levando a agricultura e a cultura da Deusa para lá. Se coadaptaram aos caçadores-coletores locais formando uma grande cultura pacífica continental.
Chegaram até a ilha de Creta formando a Civilização Minóica por volta de 3000 a.C.. Uma civilização altamente feminocêntrica, artística e matrilinear.
Yamnaya
Quando os Homo Sapiens saíram da África logo se expandiram para o norte do planeta chegando até as regiões da Europa e da Rússia.
Por volta de 3000 a.C., uma cultura chamada *Yamnaya *(que significa “Sepultura em Poço” em russo) surgiu no leste da Europa (atual Ucrânia).

Primeiras civilizações humanas
Como essa região era de Estepes (planície seca), a agricultura ficava dificultada. Por isso os Yamnayas permaneceram nômades, se concentrando no pastoreio de vacas e ovelhas e na domesticação de cavalos. Também desenvolveram rodas e carroças para o transporte.
No continente africano a incidência dos raios solares ultravioleta (radiação UV) é intensa, por isso indivíduos com alto índice de melanina na pele têm maior probabilidade de sobrevivência e expansão.
Já nos ecossistemas mais frios, com pouca radiação UV do Sol, a produção de Vitamina D no organismo fica debilitada. Os Homo Sapiens com peles mais claras começaram a evoluir mais eficientemente nessas regiões, mantendo melhor a absorção do cálcio no corpo, deixando os ossos mais saudáveis.

Aparência dos povos da cultura Yamnaya
Devido a escassez da agricultura, a dieta dos Yamnayas era muito rica em carne e laticínios. Essa concentração proteica fez com que se tornassem altos, musculosos e bem nutridos.
De forma oposta aos demais povos da África, Ásia e Europa, desenvolveram uma cultura de propriedade privada de animais (rebanhos), principalmente através da posse do gado, um bem móvel, acumulável, roubável, herdável e defensável (riqueza móvel sobre quatro patas).
Essa prática tornou-se a base do poder e do status da sociedade Yamnaya, centralizando a autoridade (chefes), criando distinções claras de hierarquia e largo acúmulo de riqueza individual (ajuste social para alta mobilidade).
Tudo concentrado no gênero masculino (patriarcado), rompendo completamente com o igualitarismo de classe e de gênero de todos os seus antecessores (matrilinearidade).
As sepulturas masculinas concentravam a grande maioria das armas, adornos e riquezas. Pesquisas arqueológicas nos *kurgans *(túmulos dos Yamnayas) mostraram uma sociedade hierárquica, patriarcal, poligâmica e altamente bélica. Premiavam e glorificavam os homens guerreiros.
Possuíam assentamentos fortificados como *Mikhaylivka*, na atual Ucrânia, que funcionava como ponto de controle, um centro cerimonial sazonal para a elite. Um local seguro para reunir rebanhos, proteger estoques de comida, abrigar líderes e metalúrgicos que controlavam a produção de armas, cruzar influências e adquirir conhecimentos.

Reprodução de um assentamento Yamnaya neolítico
Das estepes do Mar Cáspio, os Yamnaya rapidamente se expandiram para o leste e para o oeste, atingindo toda a Europa e o sul da Ásia (indo-iranianos), impondo seus genes, seu idioma, seus conhecimentos e toda a sua cultura.
Mas não migraram para o sul, bloqueados pelas Montanhas do Cáucaso. Não chegaram na Anatólia nem na Mesopotâmia.
E também não ocuparam a China devido às dificuldades de atravessar o Himalaia com carroças e cavalos e devido à alta densidade populacional que já existia na bacia do Rio Amarelo (Huang He).
Porém, um fator muito importante dessa migração, era que ela acontecia quase que integralmente somente pelos homens (“*Männerbund”*, “aliança dos homens” ou Bando de Guerreiros).
Os Yamnayas inventaram que todos os bens do patriarca poligâmico eram herdados e concentrados somente pelo filho homem mais velho (primogenitura).
Os demais filhos homens desse patriarca ou qualquer outro jovem Yamnaya sem posses do sexo masculino, se juntavam em bandos de guerreiros e migravam para novas terras, subjugando os demais povos para adquirirem poder, riqueza e escravizadas sexuais.
Eram literalmente genocidas com grande capacidade de organização. Tinham facilidade para deslocamentos rápidos, o que lhes permitia ataques surpresa, dominando novos territórios com eficiência. Executavam o genocídio de praticamente todos os homens invadidos, saqueavam todas as suas riquezas e escravizavam suas mulheres sexualmente, disseminando seus genes Y quase que integralmente pelas sociedades que devastavam.
Evidências de DNA mostram que, na Europa Central, cerca de 75% da população masculina local foi substituída por linhagens Yamnaya em poucas gerações, criando a híbrida Cultura da Cerâmica Cordada. Substituíram quase completamente a assinatura genética dos homens neolíticos na Europa Central e do Norte, permanecendo esse legado até hoje.
A língua dos Yamnaya foi denominada Proto-Indo-Européia, a língua ancestral de qual descendem a maioria das línguas indo-européias modernas da Europa, do Irã e da Índia (como português, inglês, russo, alemão, hindi, persa, etc.).
Patriarcado
A matrilinearidade reinava sob uma vida comunitária em assentamentos de pequena escala.
Até os anos 3000 a.C. o panteão sumério valorizava o sagrado feminino: Nammu, Ninhursag, Ki,** **Inanna, etc. As mulheres ocupavam os altos cargos religiosos e posições de destaque absoluto. A força feminina era reconhecida como poderosa e transcendente. Uma visão de mundo animista e monística (não dualista, que não separa a mente do corpo nem o sagrado do mundano).
Mas os povos semitas do Crescente Fértil desenvolveram consideravelmente a agricultura e a escrita, aumentando enormemente a população mundial e criando hierarquias sociais, com o surgimento dos primeiros governos e do primeiro império da humanidade.
A agricultura em larga escala gera enormes excedentes. Isso leva à criação da propriedade privada (terras, rebanhos e escravizados), além de estados burocráticos para administrar toda essa riqueza.
Este novo sistema gerou uma burocracia opressiva e uma revolução religiosa que subjugou a antiga Deusa Mãe, da vida e da fertilidade, e centralizou o poder nas mãos de uma elite masculina que passou a privilegiar deuses homens, geralmente associados ao vento e a tempestade (Anu, Enlil, Enki, etc.), além de passar a adorar reis como divindades humanas (Patriarcado de estado).
No reinado de *Sulgi*, de 2093 a.C. a 2046 a.C., da III Dinastia de Ur, o estado assume o controle da vida das pessoas de forma sem precedentes, sujeitos a rigoroso controle e racionamento de comida, recebendo rações mensais de cevada, óleo e lã do estado.
Isso teria sido o grande marco de uma crescente transição do matriarcado para o patriarcado na Mesopotâmia. Registros da época incluem “listas de mortalidade entre mulheres e crianças”, um retrato sombrio da desumanização que acompanhou a consolidação do poder patriarcal.
“Uma mulher (geme) chamada Amat-Sin, uma criança (dumu) chamada Ur-Ningirsu, uma criança chamada Lu-Ninurra, uma criança chamada Geme-Enlil — estes são os mortos. Seus nomes foram removidos da lista de rações. Mês X, Ano Y.” Tablete padrão da III Dinastia de Ur
Enheduana, a inventora da religião
Por volta do ano de 2334 a.C., nasce no norte da Mesopotâmia um rei chamado Sargão, em uma região chamada de Acádia, habitada por povos semitas (oriundos da Península do Sinai).
Essa região já falava uma língua semítica (afro-asiática) chamada acadiano.
Sargão reinou de 2334 a 2279 a.C., conquistando as cidades de Uruk, Ur, Nippur, etc., e unificando toda a Mesopotâmia no primeiro império da humanidade chamado Império Acadiano.
O império de Sargão se expandiu enormemente, dominando as regiões de todo o Crescente Fértil, do Golfo Pérsico até a Anatólia, incluindo toda a Babilônia, a Cananeia e a Assíria.

Civilizações da Mesopotâmia no século de 2300 a.C.
Segue um texto teoricamente autobiográfico sobre o nascimento do Rei Sargão da Acádia, cuja reprodução foi datada do século VII a.C., encontrada disseminada em artefatos sumérios antigos:
“Minha cidade é Azupiranu, que se situa às margens do Eufrates. Minha mãe, alta sacerdotisa, me concebeu, em segredo me pariu. Colocou-me numa cesta de juncos, e selou-o com betume. Colocou-me no rio, que se elevou sobre mim, e me carregou a Aqui, o carregador de água. Aqui, o carregador de água, me aceitou como seu filho e me criou. Aqui, o carregador de água, me nomeou como seu jardineiro. Enquanto eu era um jardineiro, Istar me concedeu seu amor, e por quatro e […] anos eu exerci o reinado” Sargão da Acádia, 2334 a.C.
*Enheduana (em acádio: “𒂗𒃶𒁺𒀭𒈾”) foi uma grande filósofa acadiana, filha do rei [Sargão *da Acádia](https://pt.wikipedia.org/wiki/Sarg%C3%A3o_da_Ac%C3%A1dia).
Foi a primeira escritora da humanidade que se tem conhecimento até hoje.
Por volta dos anos de 2300 a.C., escreveu 42 hinos de altíssima importância para sua cultura, além de vários outros manuscritos.
Foi Enheduana quem primeiro organizou lendas religiosas em textos, unificou crenças e o panteão sumério e criou basicamente o primeiro conceito de religião do mundo, com o objetivo de estabilizar o reino de seu pai.

Enheduana, a inventora da religião
Com suas ideias eficientes e bem sucedidas, influenciou todas as demais religiões de sua região, incluindo os babilônios, persas, hebreus, gregos, romanos, etc.
“Meu rei, algo foi criado, algo que ninguém criou antes.” Enheduana, sacerdotisa suméria, 2300 a.C.
Abaixo imagem do “Disco de *Enheduanna”, artefato em alabastro datado de mais de 2000 a.C., descoberto em 1926 na antiga cidade de [Ur](https://pt.wikipedia.org/wiki/Ur) (atual Iraque), no zigurate de [Nana](https://pt.wikipedia.org/wiki/Nana_(mitologia_sum%C3%A9ria)) (templo sumério em forma de pirâmide), deus da lua. Hoje encontra-se em exposição no [Penn Museum](https://www.penn.museum/collections/object/293415)*, na Universidade da Pensilvânia.

Disco de Enheduanna, sacerdotisa suméria, datado de mais de 2000 a.C.
E abaixo, tábuas sumérias de argila com escrita cuneiforme contendo hinos escritos por Enheduana, datadas do século de 2200 a.C..
A tábua *YBC 4656 (à direita) contém o hino “Senhora de todos os me’s”, uma exaltação a Inanna, deusa suméria da fertilidade. Encontra-se hoje em posse da [Yale Babylonian Collection, do Yale Peabody Museum](https://collections.peabody.yale.edu/search/Record/YPM-BC-018721)*.

Tábuas sumérias contendo hinos de Enheduana de 2200 a.C.
“Como um dragão, lançaste veneno em terras estrangeiras, Nas regiões onde ruges como Iskur, Ashnan não te resiste. Como um dilúvio que cai sobre terras estrangeiras, Oh suprema do céu e da terra, tu és a Inanna de todos! Teu fogo ardente cai sobre Kalam, a Terra da Suméria (…) Eu, a en-sacerdotisa, eu, En-hedu-Ana!” Senhora de todos os Me’s, Enheduana, sacerdotisa suméria, 2300 a.C.
Os sumérios cultuavam os *Anunnakis, o panteão das mitologias semíticas orientais (sumérios, acadianos, babilônicos e assírios). Tinham o deus [An](https://pt.wikipedia.org/wiki/Anu)*, como o principal, o senhor do céu.
Selo sumério retratando deuses Anunnakis
E *Inanna era a deusa do amor, representada pelo planeta Vênus. Inanna recebeu os [Me](https://pt.wikipedia.org/wiki/Me)*’s sumérios, um conjunto de dezenas de leis divinas que governavam toda a civilização (a realeza, a guerra, a arte, a agricultura, a prostituição, etc).

Inanna, deusa da fertilidade do panteão sumério
Grandes Dilúvios
Uma das muitas lendas que tem propagado ensinamentos por milênios é o mito do Grande Dilúvio. Uma estória descrita em dezenas de religiões diferentes, por culturas e versões diferentes, mas de formas extremamente semelhantes. Desde os povos da antiguidade até os atuais.
Existem narrativas sobre grandes e destruidores dilúvios em várias civilizações. Veja os exemplos abaixo: — Civilizações da Mesopotâmia (no Épico de *Gilgamesh, com o herói [Ut-Napishtim](https://pt.wikipedia.org/wiki/Utnapistim), ou [Atrahasis](https://pt.wikipedia.org/wiki/Atrahasis), ou ainda, rei [Ziusudra](https://pt.wikipedia.org/wiki/Ziusudra)). — Hindus (com o herói [Manu Vaivasvata](https://en-m-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Vaivasvata_Manu?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=sge), no livro das [Puranas](https://pt.wikipedia.org/wiki/Puranas)) — Gregos (com o casal de heróis [Deucalião](https://pt.wikipedia.org/wiki/Deucali%C3%A3o) e Pirra) — Chineses (com [Yu, o Grande](https://pt.wikipedia.org/wiki/Yu,_o_Grande)) — [Maias](https://pt.wikipedia.org/wiki/Civiliza%C3%A7%C3%A3o_maia) da Mesoamérica (descritos no [Popol Vuh](https://pt.wikipedia.org/wiki/Popol_Vuh)) — Povos [Tupi](https://pt.wikipedia.org/wiki/Tupis) na América do Sul (com o herói [Tamandaré](https://pt.wikipedia.org/wiki/Tamandar%C3%A9_(mitologia))*) — Judeus (com Noé, o famoso herói do livro de Gênesis)
Todos esses mitos diluvianos foram causados por deuses enfurecidos que mesmo após criarem os humanos desejaram dar uma boa lavada na humanidade.
“Xissudra ouviu ao seu lado de pé ao lado esquerdo do muro (…): «Junto ao muro, dir-te-ei uma palavra (ouve) a minha palavra, prest’atenção às minhas instruções: Uma inundação tomará toda-las habitações todos os centros de culto para destruir a semente da humanidade (…) (Tal) é a decisão o decreto da Assembleia (dos deuses) (Tal) é a palavra de Ã, Enlil (e Ninursague) (…) a destruição da realeza
Homem de Shuruppak, filho de Ubara-Tutu, Derruba tua casa, constrói um barco! Renuncia às tuas posses, salva a vida! Abandona os bens, mantém a alma viva! Faze embarcar no barco as sementes de todos os seres vivos. O barco que deves construir, Que suas dimensões sejam medidas, Que sua largura e comprimento sejam iguais. …Como o Apsû [o oceano primordial], tu deves telhá-lo.»
Todos os ventos tempestuosos, extremamente poderoso, estavam a atacar como um só, O dilúvio varreu os centros de culto. Durante sete dias e sete noites, O dilúvio varreu a terra. E o barco enorme foi sacudido pelos ventos tempestuosos sobre as grandes águas.”
Fragmentos do Poema de Ziusudra, Tábuas de Nippur, 1650 a.C.
O texto acima foi originalmente escrito em cuneiforme sumério em uma tábua de argila encontrada por volta de 1889 (*CBS10673 e CBS 13532), no templo do deus [Enlil](https://pt.wikipedia.org/wiki/Enlil) (deus das tempestades), na cidade de [Nipur](https://pt.wikipedia.org/wiki/Nipur) *(antiga Suméria, atual Iraque).

Tábua suméria datada de 1650 a C. que contém o dilúvio de Ziusudra

Tábua suméria datada de 1650 a C. que contém o dilúvio de Ziusudra
A Tábua do dilúvio de *Nippur, CBS10673 (imagens acima), datada por volta de 1650 a.C., é o mais antigo relato de dilúvio já encontrado. É um fragmento do Mito do Dilúvio Sumério (ou [Gênesis de Eridu](https://en.wikipedia.org/wiki/Eridu_Genesis)), que faz parte da [Epopéia de Gilgamesh](https://pt.wikipedia.org/wiki/Epopeia_de_Gilgam%C3%A9s), grande herói lendário mesopotâmico que reinou na cidade de [Uruk](https://pt.wikipedia.org/wiki/Uruque) *em 2600 a.C. (atual Iraque).
A tábua descreve um poema épico onde o rei herói *Ziusudra (“𒍣𒌓𒋤𒁺”, “Xissudra”, na tradução para o latim), da cidade de [Surupaque](https://pt.wikipedia.org/wiki/Churupaque) (atual [Tel Fara](https://en.wikipedia.org/wiki/Tell_el-Far%27ah_(South))), as margens do rio Eufrates, foi avisado por uma divindade ([Enki](https://pt.wikipedia.org/wiki/Enqui)) sobre uma inundação que estava prestes a acontecer (inundação que de fato ocorreu nessa cidade provavelmente por volta de 2750 a.C.). Ziusudra construiu então um grande barco, encheu de animais e sementes e após sete dias soltou pássaros (pombo e corvo) para verificar se as águas já haviam baixado. Atracou então nos montes [Zagros](https://pt.wikipedia.org/wiki/Cordilheira_de_Zagros), provavelmente em [Dilmun](https://pt.wikipedia.org/wiki/Dilmum) *(atual Barém) e sobreviveu.

Antiga região da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates
Essa tábua hoje encontra-se exposta no Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia, o *Penn Museum (Filadélfia, EUA), como parte de um presente dado pelo sultão local aos líderes da expedição que as encontrou. As imagens da tábua podem ser acessadas online pelo link abaixo: [https://www.penn.museum/collections/object/97591](https://www.penn.museum/collections/object/97591)*
O objetivo da expedição era encontrar vestígios arqueológicos que comprovassem as estórias da Bíblia (Arqueologia da Religião). Porém as mais de 30 mil tábuas e evidências encontradas em Nipur acabaram tendo o efeito contrário.
Obviamente que nunca ocorreu na história da humanidade uma grande inundação globalizada, que atingiu todos os seres da Terra, com exceção desses únicos heróis humanos e suas demais espécimes, salvas por um grande barco de madeira atracado em cima de um morro.
Geologicamente aconteceram várias inundações confirmadas em todo o globo terrestre desde degelos ocorridos na última Era do Gelo (há mais de 10 mil anos). Tem-se elevações sabidas do Golfo Pérsico sobre a Mesopotâmia e até mesmo tsunamis ocorridos no Mar Mediterrâneo atingindo povos gregos antigos. Tudo isso e muito mais tem sido estudado como possíveis inspirações para tantas lendas diluvianas em tantas civilizações diferentes, antigas e atuais.
Quanto à lenda de Noé, sua descrição mais antiga encontra-se nos Manuscritos do Mar Morto, rotulado como Gênesis Apócrifo (*1QapGen)*, datado provavelmente do século 3 a.C.. Nesse documento, Noé narra sua participação no dilúvio em primeira pessoa.
“[…] Eu, Noé, estava à porta da arca [… 7 linhas faltando …] para as montanhas e aquelas dos desertos para […] quatro. Então eu, Noé, parti e percorri a terra, de um lado para o outro, por toda a sua extensão e largura, […] abundante em folhagens e frutos. E toda a terra estava cheia de vegetação, grama e cereais. Então, louvei o Senhor do Céu, que agiu de modo louvável, pois Ele é eterno e o louvor é Dele. E louvei-O novamente porque Ele teve compaixão da terra e porque removeu e destruiu dela todos os que praticavam a violência, a maldade e o engano, mas poupou um homem justo por […] por sua causa.”

1QapGen, o Gênesis Apócrifo, pergaminho datado com mais de 2000 anos de idade
Os pergaminhos dos Manuscritos do Mar Morto encontram-se localizados no Santuário do Livro, como parte do Museu de Israel, em Jerusalém.

Santuário do Livro, em Jerusalém, onde encontram-se preservados os Manuscritos do Mar Morto
A tábua de argila chamada *Imago Mundi (mapa-múndi babilônico, [BM 92687](https://www.britishmuseum.org/collection/object/W_1882-0714-509?selectedImageId=471361001)), encontrada em 1881 (em [Sipar](https://pt.wikipedia.org/wiki/Sipar)*, no Iraque), foi criada pelos babilônios há mais de 2500 anos (século V a.C.). Está escrita em cuneiforme acadiano e possui um mapa do mundo da época. Hoje encontra-se exposta no Museu Britânico em Londres.
Essa tábua descreve uma variedade de estórias lendárias com seres mitológicos, mas em um ponto específico, do lado direito e ao centro do mapa, ela descreve uma região (região 4) em que uma arca foi construída (no caso a arca de *Ut-Napistim*).
Já na parte de dentro do círculo denominado Oceano (“mar-ra-tum” em acadiano), próximo a essa região 4, encontra-se um ponto simbolizando a cidade de *Urartu (“ú-ra-áš-tu” em acadiano), que em hebraico pode ser traduzida pela região montanhosa de [Ararat](https://pt.wikipedia.org/wiki/Monte_Ararate) (“אררט*”).

Tábua babilônica chamada Imago Mundi com uma descrição da arca de Utanapistim
Agora observe a passagem da Bíblia que descreve o monte onde Noé atracou sua arca:
“E a arca repousou no sétimo mês, no dia dezessete do mês, sobre os montes de Ararate.” Livro do Gênesis 8:4
Não se pode negar as enormes semelhanças entre vários desses heróis. Muitos recebem uma mensagem divina, constroem uma arca, atracam num monte e salvam-se de um dilúvio. Além de várias outras apropriações linguísticas e literárias.
E tendo sido, tanto o povo judeu quanto o povo grego, sempre muito próximos e influenciados pelas culturas anteriores (dos povos babilônicos, sumérios, acadianos, hindus, persas, etc.), não é de surpreender que as lendas tanto de *Atrahasis quanto de [Utanapistim](https://pt.wikipedia.org/wiki/Utnapistim) tenham sido a origem inspiradora da posterior lenda de Noé, que por sua vez tenha inspirado o mito do casal grego [Deucalião](https://pt.wikipedia.org/wiki/Deucali%C3%A3o) e [Pirra](https://pt.wikipedia.org/wiki/Pirra)*.
“Depois disse o Senhor a Noé: Entra tu e toda a tua casa na arca, porque tenho visto que és justo diante de mim nesta geração. De todos os animais limpos tomarás para ti sete e sete, o macho e sua fêmea; mas dos animais que não são limpos, dois, o macho e sua fêmea.” “Porque, passados ainda sete dias, farei chover sobre a terra quarenta dias e quarenta noites; e desfarei de sobre a face da terra toda a substância que fiz.” Livro do Gênesis 7:1,2,4

Ark Encounter, Réplica da Arca de Noé localizada do estado do Kentucky nos EUA
Tem pessoas que continuam até hoje influenciadas por essa visão cosmológica bíblica dos antigos, como a do mapa-múndi babilônico. Nela os Oceanos circundam uma Terra plana e os demais astros orbitam ao nosso redor, com os céus acima, a terra no meio e o mundo subterrâneo abaixo (“cosmologia dos três níveis”).
“Regiões [além do oceano] que tu não conheces, onde o Sol não é visto, e a luz é como a da noite. Lá, os corpos dos sábios repousam, envoltos em radiação.” Legenda do mapa da frente da tábua Imago Mundi, século V a.C.
“O deus Marduk, o senhor dos deuses, o mais sábio entre os imortais, Criou a terra e moldou o céu acima dela. Ele subjugou o Caos, personificado pela serpente maligna Tiamat, E sobre suas águas derrotadas, ele estabeleceu a morada dos deuses e dos homens. Para que a ordem do mundo fosse conhecida por todos, Marduk, o planejador, desenhou um mapa do mundo sobre as águas primordiais. Ele fixou os limites dos céus e da terra, E neles ele marcou as regiões distantes, as terras além do mar, Locais de prodígios e maravilhas, onde os monstros do caos ainda residem. Ele designou o centro do mundo para a morada dos deuses: a Esagila, na Babilônia. Ele traçou o curso do Eufrates, o rio da vida, E ordenou as nações estrangeiras em suas terras designadas. Este é o mapa do mundo que Marduk criou. Quem olhar para ele compreenderá a glória do deus e a extensão de sua criação. (…) e colocou-a sobre as águas, estabelecendo a ordem cósmica.” Verso da tábua Imago Mundi, século V a.C.

Cosmologia antiga e a atual visão dos terraplanistas
“E fez Deus a expansão, e fez separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi.” “E disse Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça a porção seca; e assim foi.” Livro do Gênesis 1:7,9
Desde o século IV a.C., Aristóteles já verificava a esfericidade da Terra, através da sombra esférica que a Terra projeta na Lua durante um Eclipse.
E em 240 a.C., Eratóstenes realizou um experimento que mediu a circunferência da Terra com uma precisão surpreendente, aproximadamente 40.000 km, utilizando a diferença no comprimento das sombras em duas cidades diferentes no solstício de verão.

Experimento de Eratóstenes medindo sombras na cidade de Siena e de Alexandria
“Se o mundo é plano como uma mesa, então as sombras das varetas têm de ser iguais. E se isto não acontece é porque a Terra deve ser curva.”
Há pelo menos mais de 2000 anos já temos provas mais que suficientes de que a Terra é redonda. Mais precisamente, geóide.

Forma geóide da Terra
Mitos da criação
Praticamente toda religião tem a sua lenda para a criação da humanidade (Mitos de criação).
No judaísmo, o mito de Adão e Eva é tão fantasioso que fica extenso discutir todo seu conteúdo aqui. A misoginia desse mito é tão catastrófica que até hoje causa a tragédia de tantas mulheres, devido a essa mentalidade altamente patriarcal e preconceituosa das religiões abraâmicas (judaísmo, islamismo e cristianismo).
Um primeiro ponto importante sobre essa estória é a tradução errônea da palavra “costela”.
O termo “tselá” (“צֵלָע”) em hebraico, significa primeiramente “lado”. Mas a tradução do hebraico infelizmente adulterou o versículo abaixo:
“יְהוָה אֱלֹהִים נָפַל נָפַל תַּרדֵּמָה אָדָם יָשֵׁן לָקחַ אֶחָד צֵלָע סָגַר בָּשָׂר אֶת- הַצֵּלָע אֱלֹהִים יְהוָה וַיִּבֶן וַיְבִאֶהָ לְאִשָּׁה מִן- הָאָדָם אֲשֶׁר- לָקַח אֶל- הָאָדָם” (yehiva elohim nafal nafal taar’ddema adam yishuen lakach ahad tsela sagar beeshaar et- hachela elohim yehiva wayyevan weibiy’eha le’ishya man- ha’adam ashuer- lekach el- ha’adam)
“Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão.” Livro do Gênesis 2:21,22
A tradução correta da passagem da Bíblia deveria ser:
“Deus tomou um dos lados de Adão e cerrou a carne em seu lugar. E do lado que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão.”
A palavra “tselá” aparece cerca de 40 vezes no Antigo Testamento, todas traduzidas corretamente como “lado”, sendo esses versículos do Gênesis sobre a mulher, é a única vez em que é traduzida como “costela”.
Na crença criacionista, antes de formar a mulher Deus teria formado o homem Adão, do “pó da terra” (ou barro, que pode ser interpretado como os “elementos da terra”).
Essa é mais uma lenda compartilhada por religiões de todo o mundo antigo como, por exemplo, na Mesoamérica dos Maias, na Suméria dos *Annunakis, no Egito com o deus [Quenúbis](https://pt.wikipedia.org/wiki/Quen%C3%BAbis) (Khnum), na Grécia com [Prometeu,](https://pt.wikipedia.org/wiki/Prometeu) *dentre outros.
“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.” Livro do Gênesis 2:7
“…E assim, quando aquele filho de Jápeto [Prometeu] misturou com água de chuva a terra, ainda recente, e a modelou à imagem dos deuses, que tudo governam; enquanto os outros animais curvam o olhar para a terra, ao homem deu um rosto elevado e ordenou que visse o céu e que erguesse a fronte até as estrelas.” Metamorfoses, poeta romano Ovídio , 8 d.C.
Imagem abaixo do afresco “A Criação de Adão” do italiano Michelangelo, pintado em 1511 no teto da Capela Sistina, localizada na residência oficial do Papa na Cidade do Vaticano.
E abaixo o quadro “*Adam and Eve in the Garden of Eden”, de 1831 do tcheco [Johann Wenzel Peter](https://en.wikipedia.org/wiki/Johann_Wenzel_Peter)*, localizado no Museu do Vaticano.

Afresco “A Criação de Adão” e quadro “Adam and Eve in the Garden of Eden”
Um fato importante é que os judeus calculam seu calendário até hoje a partir da data de criação do mundo e da humanidade, inspirados nessas passagens bíblicas. Mais precisamente essa data inicial do mundo seria a época em que o Deus abraâmico criou Adão e Eva.
“E falou o Senhor a Moisés e a Arão na terra do Egito, dizendo: Este mesmo mês vos será o princípio dos meses; este vos será o primeiro dos meses do ano.” Livro do Êxodo 12:1,2
O rabino *Jose ben Halafta* em 160 d.C., ainda lá no século segundo da era comum, calculou que Adão e Eva foram criados no ano 3760 a.C., de acordo com o Gênesis. Até hoje os judeus continuam calculando seus dias a partir daí, ou seja, o ano de 2025 no nosso calendário Gregoriano é o ano 5785 para os judeus.
Em seu livro *Seder Olam Rabbah (“A Longa Ordem do Mundo”), Jose Halafta constrói toda uma cronologia regressa do [Talmude](https://pt.wikipedia.org/wiki/Talmude) *(os livros da lei judaica) a partir do “ano 1 da criação da humanidade” (3760 a.C., ano 1 judaico, ou Anno Mundi). Depois viria o nascimento de Noé (Anno Mundi 1056), o Dilúvio (Anno Mundi 1656), a confusão de línguas (AM 1996), o nascimento de Isaac (AM 2048), o Êxodo (AM 2448), a chegada a Canaã (AM 2488), a construção do Primeiro Templo de Salomão (AM 2928), a destruição do templo de Jerusalém (AM 3338), o fim do cativeiro na Babilônia (AM 3408), a destruição do segundo templo (AM 3828), e por aí vai.

Antigos calendários judaicos
Tudo como se a Terra tivesse somente alguns poucos milênios de idade (Criacionismo da Terra Jovem), e não os 4,54 bilhões de anos (4,54 x ¹⁰⁹ anos ± 1%). Fato já mais que comprovado pela ciência e tecnologia atuais.
Israel é o único país hoje em dia que utiliza o calendário lunissolar judeu (para celebrações religiosas, casamentos, festividades, etc.), em conjunto com o calendário gregoriano (criado pelo Papa Gregório XIII em 1572, e que utilizamos no ocidente até hoje) para transações financeiras, noticiários, dentre outros.
Existe uma vertente teológica (apologetas) que entende que Adão não foi exatamente o primeiro ser humano criado por Deus, mas sim o primeiro homem a conhecer o Deus judeu (Hipótese do Adão Histórico).
Segundo essa vertente, Deus já havia feito outros homens no início da criação da Terra, no sexto dia, em Gênesis 1:27. Mas esses outros humanos não conheciam o Deus judeu e não “moravam” no paraíso.
“וַיִּבְרָא אֱלֹהִים אֶת הָאָדָם בְּצַלְמוֹ בְּצֶלֶם אֱלֹהִים” “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.” Livro do Gênesis 1:27,28
Entre todos esses humanos criados (“בְרָא”, “bará” em hebraico) no sexto dia, Deus teria formado, ou moldado (“יָצַר”, “yatsar”), somente Adão e Eva para o paraíso do Jardim do Éden. Justamente para o “cultivar” e o “guardar”, ou seja, para pregar sua palavra (Homo Divinus).
“E toda a planta do campo que ainda não estava na terra, e toda a erva do campo que ainda não brotava; porque ainda o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para cultivar a terra.” Livro do Gênesis 2:5
“וַיִּיצֶר יְהוָה אֱלֹהִים אֶת הָאָדָם עָפָר מִן הָאֲדָמָה” “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente. E plantou o Senhor Deus um jardim no Éden, do lado oriental; e pôs ali o homem que tinha formado.” Livro do Gênesis 2:7–8
“E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.” Livro do Gênesis 2:15
“וַיִּצֶר יְהוָה אֱלֹהִים מִן הָאֲדָמָה כָּל חַיַּת הַשָּׂדֶה וְאֵת כָּל עוֹף הַשָּׁמַיִם וַיָּבֵא אֶל הָאָדָם לִרְאוֹת מַה יִּקְרָא לוֹ וְכֹל אֲשֶׁר יִקְרָא לוֹ הָאָדָם נֶפֶשׁ חַיָּה הוּא שְׁמוֹ” “Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome.” Livro do Gênesis 2:19
A palavra “homem” (“אָדָם”, “adam”) em hebraico, no sentido coletivo de “humanidade”, é a mesma usada para a palavra “pessoa” (“אָדָם”, “adam”), ou “homem” no sentido individual. E essa mesma palavra também foi traduzida para o nome próprio “Adão” (“אָדָם”, “adam”).
Teoricamente, baseado na ciência, todos os homo sapiens da atualidade vieram de uma mesma mulher ancestral (Eva Mitocondrial) que viveu entre 150.000 a 200.000 anos atrás.
Essa descoberta foi publicada em 1987 pela geneticista estadunidense *Rebecca Cann e sua equipe no artigo “[Mitochondrial DNA and human evolution](https://www.nature.com/articles/325031a0)*”.
Da mesma forma, todos os humanos atuais do sexo masculino são descendentes de um mesmo ancestral chamado Adão cromossomial-Y, que viveu 338.000 anos atrás.
Todos os demais genes humanos diferentes desses dois ancestrais foram todos extintos no passado.
Desde a antiguidade, principalmente nas civilizações orientais, a humanidade já tem ciência de que as espécies da Terra mudam ao longo do tempo (Evolucionismo).
Veja abaixo a Teoria da Evolução na lenda taoista chinesa de *Pangu (“盤古”, “P’an-ku*”), do século III d.C.:
“Céu e Terra estavam na condição de caos [hun-tun] como um ovo de galinha, dentro do qual nasceu P’an-ku. Após 18.000 anos, quando o Céu e Terra foram separados, o yang puro formou o Céu e o yin turvo formou a Terra. P’an-ku estava entre eles. Seu corpo se transformava nove vezes ao dia, enquanto sua cabeça apoiava o Céu e seus pés estabilizavam a Terra. (…) Após a morte de P’an-ku, (…) Os parasitas (pulgas) em seu corpo, impregnados pelo vento, tornaram-se seres humanos.”
Sān huáng wǔ dì (“三皇五帝”, “Três Augustos e os Cinco Imperadores”), Xu Zheng (“許靖”), século III d.C.
Abaixo imagens do taoísta *Pangu *com o ovo primordial (ovo cósmico):

Pangu com o ovo primordial
Desde a antiguidade os chineses já acreditavam que o mundo vive em constante mutação. O [I Ching](https://pt.wikipedia.org/wiki/I_Ching) (“易經”, “Yìjīng”) é o Livro das Mutações do Taoísmo e do Confucionismo, criado desde o ano 1000 a.C. durante a Dinastia *Zhou*.
O Hexagrama 32 “䷟” do I Ching, por exemplo, da Duração ou Constância (“恒”, “Héng”), fala justamente sobre “o que perdura está em movimento”.
“A Duração não é estagnação, mas a perpetuidade do movimento e da transformação.”
É a junção do trigrama superior Trovão “☳” (“*雷”, “Zhèn”), que representa o movimento, com o trigrama inferior Vento “☴” (“巽”, “Xùn*”), que adiciona suavidade. Duas forças que estão em constante movimento e interação, simbolizando a natureza duradoura e dinâmica do universo.
Imagens abaixo do *Bagua (“八卦”, “Bā Guà”), os oito trigramas fundamentais do I Ching.*

Bagua com os oito trigramas fundamentais do I Ching
Nas civilizações ocidentais, o biólogo britânico *Charles Darwin publicou seu livro “A Origem das Espécies” em 1859, com evidências claras do evolucionismo biológico e da seleção natural das espécies, baseado em estudos de inúmeros fósseis pelo mundo e observações diretas do processo evolutivo na prática (darwinismo).*
Abaixo a árvore da vida desenhada por *Darwin *em seu caderno de anotações e em seu livro de 1959.

Caderno de anotações e livro publicado de Charles Darwin com a árvore da vida
“As afinidades de todos os seres vivos da mesma classe são, por vezes, representadas por uma grande árvore. Creio que esta comparação expressa perfeitamente a realidade.” A Origem das Espécies, biólogo britânico Charles Darwin, 1859
Mas Darwin também erra:
“O homem tem um cérebro absolutamente maior do que a mulher, mas eu não saberia dizer se é relativamente maior em proporção ao tamanho maior de seu corpo. (…) A principal distinção nas faculdades intelectuais dos dois sexos é mostrada pelo fato de o homem atingir um nível mais elevado em tudo o que empreende, do que a mulher, seja exigindo pensamento profundo, razão ou imaginação, ou meramente o uso dos sentidos e mãos.” A Descendência do Homem e Seleção em Relação ao Sexo, biólogo britânico Charles Darwin, 1871
Hoje temos análises genéticas avançadas (como o estudo de genomas) que comprovam a Síntese Evolutiva Moderna, uma junção de várias áreas da ciência para definir o processo de evolução dos seres vivos na Terra.
Abaixo fotos de *DNA tiradas por raios-X utilizando microscópios eletrônicos, incluindo a famosa Foto 51 (acima à direita) da química britânica Rosalind Franklin, feita em 1952, imprescindível para a descoberta da hélice dupla das moléculas de [DNA](https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81cido_desoxirribonucleico).*

Foto 51 de Rosalind Franklin e outras fotos mostrando a estrutura do DNA
Até hoje a Igreja insiste em catequizar pessoas com mitos criacionistas. O pior dessas lendas tão trágicas é construir toda uma civilização em cima de um criacionismo falso e do ódio contra a mulher (misoginia), e não modernizar até hoje.
Mais de 3000 anos de abusos convivendo com o mito da personagem Eva. Aquela, segundo os cristãos, com quem e para quem o demônio fala.
“Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi.” Livro do Gênesis 3:12
Inclusive foi um padre católico belga, *Georges Lemaître, em 1927, um dos primeiros a sugerir que o universo estaria em expansão a partir de um ponto inicial de alta densidade e temperatura, o que mais tarde ficou conhecido como a teoria do [Big Bang](https://pt.wikipedia.org/wiki/Big_Bang)*.

Conceito artístico da expansão do Universo a partir da explosão inicial, Big Bang
Abraão, patriarca do passado
Bons exemplos de apropriação nos livros sagrados (quando uma cultura adota elementos de outras) são as estórias de Abraão e Moisés.
A total ausência de evidências históricas e arqueológicas sobre os acontecimentos tanto das Dez Pragas do Egito, quanto do Êxodo, ou da Abertura do Mar Vermelho, por exemplo, ou até mesmo da escravidão de 2 milhões de hebreus no Egito Antigo, já é praticamente uma prova de que esses eventos sobre o advento do judaísmo, teoricamente tão marcantes, nunca aconteceram na realidade, mas somente na ficção da Torá (livro sagrado do judaísmo).
É provável que, por volta de 1800 a.C., Abraão e Sara fossem os patriarcas de *Harã*, uma das regiões dos povos caldeus da antiga Mesopotâmia, mas foram apropriados pelos hebreus como patriarcas de seu próprio povo lá na Palestina (região que vai da cidade de Gaza a Jerusalém).

Civilizações do Antigo Testamento por volta de 1350 a.C.
“Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. (…) E tomou Abrão a Sara, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as almas que lhe acresceram em Harã; e saíram para irem à terra de Canaã; e chegaram à terra de Canaã.” Livro do Gênesis 12:1,5
“Abram, tendo assim resolvido, obedeceu à ordem de Deus e partiu para Canaã, levando consigo Sara, sua mulher, e Ló, filho de seu irmão Arão, com todos os bens que possuíam e os escravos que haviam adquirido na Mesopotâmia.” Antiguidades Judaicas, historiador judeu Flávio Josefo, 94 d.C.
Segundo a Torá, Abraão era de uma das primeiras gerações da humanidade pós-diluviana, sendo descrito como descendente de Noé e *Naamá *e por consequência descendente de Adão e Eva. Genealogia essa que dá ainda mais indícios da sua existência mitológica e da não historicidade de seus atos.
“E viveu Matusalém, depois que gerou a Lameque, setecentos e oitenta e dois anos, e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Matusalém novecentos e sessenta e nove anos, e morreu. E viveu Lameque cento e oitenta e dois anos, e gerou um filho, A quem chamou Noé, dizendo: Este nos consolará acerca de nossas obras e do trabalho de nossas mãos, por causa da terra que o Senhor amaldiçoou.” Livro do Gênesis 5:26–29
Os livros antigos da Torá, de antes do Êxodo de Moisés, utilizavam o calendário lunissolar, que media os anos através de ciclos lunares, e não pelo movimento de translação como medimos hoje no calendário gregoriano.
A aparente longevidade dos primeiros homens da humanidade bíblica acontecia porque o ano era medido de forma diferente. Um ano no calendário lunissolar teria aproximadamente 30 dias, ou seja, o equivalente a somente um mês do nosso calendário solar.
Abaixo seguem as gerações de Adão e Eva até o dilúvio, descritas na Bíblia Hebraica. Vale observar que seus primeiros filhos, Caim e Abel, não deixaram descendentes. *Adão, Sete, Enos, Cainã, Maalalel, Jarede, Enoque, Matusalém, Lameque e Noé.*
Noé e Naamá tinham três filhos: *Sem, [Cam](https://pt.wikipedia.org/wiki/Cam) e [Jafé](https://pt.wikipedia.org/wiki/Jaf%C3%A9)*, que repovoaram a Terra após o dilúvio, criando a árvore genealógica de todas as futuras nações bíblicas (Tabela das Nações ilustrada abaixo).
Segundo a Torá, Cam (ou Cão) e *Enzara tiveram o filho Canaã*, que deu origem aos cananeus.
Canaã por sua vez teve o filho Jebus que deu origem aos jebuses, fundadores da cidade de Jerusalém, e o filho Amori, que deu origem aos amorreus (ou amoritas), que deu origem ao Império Babilônico.
Do outro filho de Noé, *Sem, seguiu a linhagem semítica junto com sua esposa Salite, da qual descendeu Aram (patriarca dos arameus), e também [Héber](https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89ber) *(patriarca dos hebreus, árabes e assírios, por exemplo).
Segue a hierarquia gerada pela linhagem dos descendentes de Sem e Salite até chegar a Abraão: *Arfaxade, Selá, Héber, Pelegue, Reú, Serugue, Naor, Terá e, finalmente, [Abraão](https://pt.wikipedia.org/wiki/Abra%C3%A3o)*.

Tabela das Nações bíblicas através da personificação dos descendentes pós-diluvianos de Noé
Abraão, um semita (descendente de Sem e Salite), teve o filho *Ismael com sua serva egípcia [Hagar](https://pt.wikipedia.org/wiki/Agar) e Isaque com sua primeira esposa [Sara](https://pt.wikipedia.org/wiki/Sara). Além de mais seis filhos com sua segunda esposa [Quetura](https://pt.wikipedia.org/wiki/Quetura)*.
*Ismael, o filho mais velho de Abraão, teve doze filhos com sua esposa egípcia Fátima*, que no futuro se tornariam os patriarcas das doze tribos ismaelitas (futuro povo árabe).
Já *Isaque, filho de Abraão e [Sara](https://pt.wikipedia.org/wiki/Sara) (matriarca dos edomitas e dos hebreus), gera, com sua esposa [Rebeca](https://pt.wikipedia.org/wiki/Rebeca), os gêmeos [Esaú,](https://pt.wikipedia.org/wiki/Esa%C3%BA) ou Edom (patriarca dos edomitas) e [Jacó](https://pt.wikipedia.org/wiki/Jac%C3%B3) *(patriarca dos hebreus).
Jacó (“יַעֲקֹב”, “Yaʿăqōḇ” em hebraico) teve doze filhos com suas esposas e concubinas (Lia, Raquel, Bila e Zilpa). É posteriormente designado por Deus como Israel (“שְׂרָאֵל”, “Yiśrāʔēl”, “que luta com Deus” em hebraico).
“E Ele disse: Não te chamarás mais Jacó, mas Israel; porque como príncipe lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste”. Livro do Gênesis 32:28
Os doze filhos de Jacó com suas companheiras seriam: Rúben, Simeão, Judá, Zebulom, Issacar, Dã, Gade, Aser, Naftali, Benjamim, Levi e José.
Esses 12 filhos, bisnetos de Abraão e Sara, por personificação bíblica se tornarão no futuro as 12 tribos de Israel (personificação das 12 Tribos de Israel). Sendo Levi um patriarca sem uma tribo específica e José o patriarca das tribos de seus dois filhos, Manassés e Efraim.

Tribos de Israel nomeadas a partir dos filhos de Jacó
E *Levi, filho de[ Jacó](https://pt.wikipedia.org/wiki/Jac%C3%B3) e [Lia](https://pt.wikipedia.org/wiki/Lia)*, seria o ancestral distante de Moisés.
“E o nome da mulher de Anrão era Joquebede, filha de Levi, a qual nasceu a Levi no Egito; e de Anrão ela teve Arão, e Moisés, e Miriã, irmã deles.” Livro dos Números 26:59
Ainda segundo o Antigo Testamento, Raquel, mãe de José, era a esposa preferida de Jacó, e por isso José era o filho preferido de seu pai.
Essa preferência gerou conflitos entre seus irmãos, e por isso eles venderam o caçula José aos 17 anos para mercadores ismaelitas, que o levaram como escravo de Canaã para o Egito.
Lá foi vendido para *Potifar*, um oficial do Faraó. O Livro do Gênesis, no entanto, não especifica o nome desse Faraó.
José tinha o dom de interpretar sonhos. Quando o Faraó teve um sonho misterioso sobre 7 vacas gordas e magras e 7 espigas cheias e secas, José interpretou que haveriam 7 anos de fartura seguidos de 7 anos de fome, e sugeriu armazenar alimentos.
Como a profecia se cumpriu, o Faraó ficou muito impressionado com José e o nomeou como governador do Egito.
José então perdoou seus irmãos, e por causa da seca e da fome que estava consumindo a cananéia, decidiu trazer toda sua família com todos os seus descendentes para o Egito (por volta de 70 pessoas). Ou seja, migrou todo o povo hebreu (as 12 tribos) de Canaã para o Egito.
Historicamente não há qualquer artefato ou evidência arqueológica sobre qualquer uma dessas estórias acima.
Os próprios judeus têm consciência das lendas do Gênesis e dos mitos sobre Abraão, Noé, Jacó, José do Egito, Moisés e tantos outros, e compreendem que têm que saber separar uma crença da real historicidade dela.

Pintura sobre os patriarcas Abraão e Sarah
Abaixo trechos de um artigo divulgado pela Enciclopédia Judaica, datada de 1901:
“Os parentes de Abraão (Gn 22,20–24) são personificações de tribos, e seus predecessores e sucessores, de Noé a Jacó, são míticos ou lendários. (…) A biografia de Abraão em Gênesis provavelmente deve ser considerada lendária; ela se desenvolveu em torno de lugares, ideias e instituições sagradas.” Abraão, texto da Enciclopédia Judaica, de 1901
Segundo a Bíblia, vários desses casais de patriarcas e matriarcas foram enterrados na Caverna de *Machpelah na cidade milenar de [Hebrom](https://pt.wikipedia.org/wiki/Hebrom) (“الخليل”, “Al-Khalil*” em árabe), na atual Cisjordânia. Seriam eles: Adão e Eva, Abraão e Sara, Isaac e Rebeca, Jacó e Lia.
“Na cova que está no campo de Macpela, que está em frente de Manre, na terra de Canaã, a qual Abraão comprou com aquele campo de Efrom, o heteu, por herança de sepultura. Ali sepultaram a Abraão e a Sara sua mulher; ali sepultaram a Isaque e a Rebeca sua mulher; e ali eu sepultei a Lia.” Livro do Gênesis 49:30,31
Na época do domínio romano, no século I a.C., o rei Herodes, o Grande, era governador da região da Galileia e um construtor megalomaníaco, que mandou lacrar essa caverna sagrada para preservá-la. Construiu então sobre a caverna um mega templo chamado Túmulo dos Patriarcas (“Me-arat Hamachpelah” em hebraico, ou “o túmulo das duplas sepulturas”).
Nos séculos posteriores, judeus, cristãos e muçulmanos revezaram na construção de adições ao lugar (“Igreja de Abraão” e “Mesquita de Ibrahim”) e construíram cenotáfios (“tumbas vazias”), monumentos funerários simbólicos, para os casais de patriarcas e matriarcas dos hebreus.
Poucas expedições foram permitidas na caverna subterrânea até hoje, que relataram somente a existência de túneis e câmaras.
Hoje o edifício é dividido ao meio para minimizar conflitos entre os cidadãos israelenses e palestinos.
Fotos abaixo da mesquita do Túmulo dos Patriarcas em Hebrom, da entrada lacrada da Caverna de *Machpelah*, e o cenotáfio da matriarca Sara.

Túmulo dos Patriarcas, a entrada lacrada da Caverna de Machpelah e o cenotáfio da matriarca Sara
Moisés, herói do passado
Voltando as estórias da Torá, uns 200 anos após a migração dos hebreus para o Egito, promovida por José, o crescimento e a prosperidade aceleradíssima dessa população gerou insegurança ao Faraó.
Este então decide escravizá-los para contê-los.
*Joquebede, filha de Levi e [Adiná](https://pt.wikipedia.org/wiki/Adin%C3%A1), descendente de Abraão e Sara, era uma dessas hebreias que foram escravizadas. Teve um filho com seu esposo [Anrão](https://pt.wikipedia.org/wiki/Anr%C3%A3o)*, mas para protegê-lo dos oficiais egípcios, o deixou ainda bebê em um cesto no rio Nilo.
A criança foi achada por *Batiá*, a filha do Faraó, que o batizou de Moisés (que significa “umedecido” ou “tirado das águas” em hebraico).
Moisés foi criado como um príncipe, mas de alguma forma, sempre teve consciência de sua origem hebreia e do sofrimento enfrentado pela escravização por seu povo que já durava mais de quatro séculos.
Por volta de 1450 a.C., Moisés recebe uma revelação divina em uma sarça ardente, e entende que deve libertar seu povo e retorná-los para a terra prometida de Canaã.
“Disse mais: Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó. E Moisés encobriu o seu rosto, porque temeu olhar para Deus. Portanto desci para livrá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra, a uma terra boa e larga, a uma terra que mana leite e mel; ao lugar do cananeu, e do heteu, e do amorreu, e do perizeu, e do heveu, e do jebuseu. E agora, eis que o clamor dos filhos de Israel é vindo a mim, e também tenho visto a opressão com que os egípcios os oprimem. Vem agora, pois, e eu te enviarei a Faraó para que tires o meu povo (os filhos de Israel) do Egito. E disse Deus a Moisés: Eu Sou o que Sou. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou a vós.” Livro do Êxodo 3:6,8–10,14
Nessa caminhada de volta pelo deserto (Êxodo), que durou 40 anos, Moisés tem mais uma revelação divina no Monte Sinai, onde recebe do próprio Deus, duas tábuas de pedra com Dez Mandamentos.
Torna-se então o profeta legislador do judaísmo.
“E deu a Moisés (quando acabou de falar com ele no monte Sinai) as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus.” Livro do Êxodo 31:18

Península do Sinai

Fotos do Monte Sinai na atualidade
Ainda no Monte Sinai, um pouco antes da mensagem dos 10 mandamentos, Deus já tinha mandado uma mensagem anterior a Moisés, ordenando que construísse um tabernáculo (santuário) e uma arca coberta de ouro, para guardar as oferendas de altíssimo valor financeiro que eram dada pelos fiéis e também para guardar relíquias, incluindo as próprias tábuas dos 10 mandamentos que viriam posteriormente.
“Então falou o Senhor a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel, que me tragam uma oferta alçada; de todo o homem cujo coração se mover voluntariamente, dele tomareis a minha oferta alçada. E esta é a oferta alçada que recebereis deles: ouro, e prata, e cobre, E me farão um santuário, e habitarei no meio deles. Conforme a tudo o que eu te mostrar para modelo do tabernáculo, e para modelo de todos os seus pertences, assim mesmo o fareis. Também farão uma arca de madeira de acácia; o seu comprimento será de dois côvados e meio … E cobri-la-á de ouro puro; por dentro e por fora a cobrirás; e farás sobre ela uma coroa de ouro ao redor; Depois porás na arca o testemunho, que eu te darei. Livro do Êxodo 25:9–16
Ao chegar na planície de *Moab *(atual Jordânia), Deus mais uma vez fala com Moisés e o avisa que ele poderá ver a Terra Prometida (Canaã, atual Cisjordânia), mas não entrará nela.
Moisés então morre no Monte Nebo, em Moab.
“Então, das campinas de Moabe, Moisés subiu ao monte Nebo, ao topo do Pisga, em frente de Jericó. Ali o Senhor lhe mostrou a terra toda: de Gileade a Dã, toda a região de Naftali, o território de Efraim e Manassés, toda a terra de Judá até o mar ocidental, E o Senhor lhe disse: “Esta é a terra que prometi, sob juramento a Abraão, a Isaque e a Jacó, quando lhes disse: Eu a darei a seus descendentes. Permiti que você a visse com os seus próprios olhos, mas você não atravessará o rio, não entrará naquela terra”. Moisés, o servo do Senhor, morreu ali em Moabe, como o Senhor dissera. Ele o sepultou em Moabe, no vale que fica diante de Bete-Peor, mas até hoje ninguém sabe onde está o seu túmulo. Moisés tinha cento e vinte anos de idade quando morreu; todavia, nem os seus olhos nem o seu vigor se enfraqueceram.” Livro do Deuteronômio 34:1–7
Fotos abaixo do Monte Nebo com o Memorial de Moisés e a vista para a Terra Prometida judaica.

Fotos do Monte Nebo, na planície de Moab
Fuga lendária dos hebreus do Egito para a Terra Prometida em Canaã
Todo egípcio da época de Moisés, 1450 a.C., conhecia bem o Julgamento de *Osíris que continha os dizeres da Confissão Negativa (o Feitiço 125 do Livro dos Mortos egípcio e também conhecida como as 42 Leis da deusa [Maat](https://pt.wikipedia.org/wiki/Maat)*). Essas leis eram como “mandamentos” para os egípcios, no entanto internalizadas por eles como parte natural de sua cultura e não como obrigações a serem obedecidas por temor aos deuses.
Seguem abaixo algumas dessas 42 leis de *Maat que deveriam ser proferidas como declaração de inocência durante o Tribunal de [Osíris](https://pt.wikipedia.org/wiki/Os%C3%ADris), de acordo com o Livro dos Mortos (melhor chamado de “Livro do Surgimento do Dia”)*:
- Ó, Grande Viajante, que vem de Heliópolis, eu não cometi pecado.
- Ó, Abraçador de Fogo, que vem de Kher-aha, eu não cometi roubo com violência.
- Ó, Grande Nariz, que vem de Hermópolis, eu não furtei.
- Ó, Perigoso, que vem de Qernet, eu não matei homens e mulheres.
- Ó, Quebra Ossos, que vieste de Heracleópolis, eu não proferi mentiras.
- Ó, Qerrti, que vieste de Amentet, eu não cometi adultério.
- Ó, Uatch-rekhit, que vieste de Sau, eu não blasfemei a Deus. Fragmentos das 42 leis de Maat
O artefato mais antigo que contém integralmente estas 42 leis é o Papiro de Ani, escrito e desenhado pelo escriba Ani, por volta de 1300 a.C., retratando sua própria morte, encontrado em 1888 em uma tumba na cidade de *Luxor *no Egito. Hoje encontra-se em exposição no Museu Britânico em Londres.

Papiro de Ani com as 42 Leis de Maat em exposição no Museu Britânico
Já o artefato mais antigo que faz referência aos 10 mandamentos de Moisés encontra-se nos Manuscritos do Mar Morto, no pergaminho *4Q41*, datado do século II a.C.. Hoje está em posse do Museu de Israel.
Esse pergaminho contém o Deuteronômio, o quinto livro da Torá, com o Decálogo de Moisés. Segue o trecho abaixo:
- Não terás outros deuses diante de mim.
- Não farás para ti imagem de escultura.
- Não tomarás em vão o nome do Senhor teu Deus.
- Lembra-te do dia do sábado, para o santificar.
- Honra a teu pai e a tua mãe.
- Não matarás.
- Não cometerás adultério.
- Não furtarás.
- Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo.
- Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo. Livro do Deuteronômio 5: 7–21
Percebe-se a habilidade de síntese do autor do Antigo Testamento (atribuído a Moisés), abreviando 42 leis em 10.

Pergaminho 4Q41, com o Deuteronômio e os 10 mandamentos de Moisés
Os rolos de pergaminho em couro de ovelha, chamados de Manuscritos do Mar Morto, foram encontrados casualmente por beduínos árabes em 1947. Estavam extremamente bem escondidos e armazenados na caverna 4, próximo à antiga cidade de *Qumran *(atual Cisjordânia), nas margens do Mar Morto. Uma região desértica, montanhosa e muito árida, o que auxilia muito na preservação de artefatos arqueológicos.
Os mais de 1000 artefatos encontrados em 11 cavernas, foram colecionados e armazenados pelos ascéticos judeus essênios, que viveram em Qumran do século II a.C. até 70 d.C., quando foram dizimados pelo Império Romano.
Artefatos muito importantes foram encontrados em Qumram, como por exemplo, o “Grande Rolo de Isaías” (1QIsa), a “Regra da Comunidade dos Essênios” (1QS), o “Livro de Enoque”, o “Pergaminho do Templo de Jerusalém” (11QT), dentre vários outros.

Caverna de Qumran, onde foram encontrados mais de 1000 artefatos dos judeus essênios
Observe a estória abaixo do rei Sargão da Acádia o pai da *Enheduana*, que construiu o Império Acadiano de 2334 a 2279 a.C.. Esse é um texto teoricamente autobiográfico cuja reprodução foi datada do século VII a.C., encontrada disseminada em artefatos sumérios antigos:
“Minha cidade é Azupiranu, que se situa às margens do Eufrates. Minha mãe, alta sacerdotisa, me concebeu, em segredo me pariu. Colocou-me numa cesta de juncos, e selou-o com betume. Colocou-me no rio, que se elevou sobre mim, e me carregou a Aqui, o carregador de água. Aqui, o carregador de água, me aceitou como seu filho e me criou. Aqui, o carregador de água, me nomeou como seu jardineiro. Enquanto eu era um jardineiro, Istar me concedeu seu amor, e por quatro e […] anos eu exerci o reinado” Sargão da Acádia, 2334 a.C.
Agora observe a apropriação da passagem bíblica que relata o nascimento de Moisés descrita no Livro do Êxodo, de autoria anônima, estimada por volta do século VI a.C.:
“E foi um homem da casa de Levi e casou com uma filha de Levi. E a mulher concebeu e deu à luz um filho; e, vendo que ele era formoso, escondeu-o três meses. Não podendo, porém, mais escondê-lo, tomou uma arca de juncos, e a revestiu com barro e betume; e, pondo nela o menino, a pôs nos juncos à margem do rio. E a filha de Faraó desceu a lavar-se no rio, e as suas donzelas passeavam, pela margem do rio; e ela viu a arca no meio dos juncos, e enviou a sua criada, que a tomou. E abrindo-a, viu ao menino e eis que o menino chorava; e moveu-se de compaixão dele, e disse: Dos meninos dos hebreus é este. Então lhe disse a filha de Faraó: Leva este menino, e cria-mo; eu te darei teu salário. E a mulher tomou o menino, e criou-o. E, quando o menino já era grande, ela o trouxe à filha de Faraó, a qual o adotou; e chamou o seu nome Moisés, e disse: Porque das águas o tenho tirado.”
Livro do Êxodo 2:1–10
*Ibn Ezra*, um famoso rabino medieval do século XII, já reconhecia a autoria não-mosaica do Pentateuco, ou seja, ele já dizia que Moisés não escreveu os 5 primeiros livros da Torá (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio).
Ele, e suas referências prévias, já tinham consciência que várias passagens da Bíblia Hebraica são contraditórias, de vários estilos diferentes e outras só poderiam ter sido escritas por alguém de épocas muito posteriores a Moisés (anacronismos bíblicos).
Segue um de seus inúmeros comentários sobre o Deuteronômio (o quinto livro da Torá):
“Se você puder compreender o mistério por trás das seguintes passagens problemáticas:

Moisés e Hebreus henoteístas da Cananéia
Se atualmente uma *fake news* pode ser gerada e espalhada rapidamente com muita facilidade, imagine na antiguidade.
O que é fato e o que é lendário sobre todas essas estórias sagradas, pode ser facilmente checado em qualquer aplicativo de Inteligência Artificial (IA) que temos disponível hoje em dia.
Ao mesmo tempo que os aplicativos de Inteligência Artificial podem servir para nos enganar e nos manipular, gerando *Deepfakes *super realistas, a mesma tecnologia pode também servir para desmentir essas mesmas desinformações.
A resposta abaixo, por exemplo, foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial.
Na primeira imagem abaixo foi usada a inteligência artificial da Google, o *Google Gemini*.
Digite a seguinte pergunta no navegador *Google.com: “Moisés existiu?”. O Gemini* trará rapidamente a resposta atual gerada por IA e checada por diversas fontes confiáveis diferentes.

Checagem de fake news gerada pela Inteligência Artificial da Google: o Gemini
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Checagem de fake news gerada pela Inteligência Artificial chinesa DeepSeek.com
Ou ainda, utilizar a ferramenta mais na moda, e também muito boa, o *ChatGPT.com da empresa estadunidense [OpenAI](https://openai.com/)*.
As 12 tribos de Israel
Segundo a Bíblia, após a morte de Moisés na entrada da Terra Prometida, Deus nomeia seu assistente Josué como o sucessor na reconquista de Canaã.
“Ninguém te poderá resistir, todos os dias da tua vida; como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei nem te desampararei. Esforça-te, e tem bom ânimo; porque tu farás a este povo herdar a terra que jurei a seus pais lhes daria.” Livro de Josué 1:5,6
Com a ajuda da Arca da Aliança de Moisés, Josué prepara a população hebreia para atravessar o Rio Jordão, que deságua no salino Mar Morto. Eles tocam com a arca no rio e as águas se abrem. Tudo muito similar à descrição da Abertura do Mar Vermelho realizada por Moisés, com os mesmos argumentos divinos para conquistar autoridade perante os fiéis.
“E o Senhor disse a Josué: Hoje começarei a engrandecer-te perante os olhos de todo o Israel, para que saibam que, assim como fui com Moisés, assim serei contigo. Tomai, pois, agora doze homens das tribos de Israel, de cada tribo um homem; Porque há de acontecer que, assim que as plantas dos pés dos sacerdotes, que levam a arca do Senhor, o Senhor de toda a terra, repousem nas águas do Jordão, se separarão as águas do Jordão, e as águas, que vêm de cima, pararão amontoadas. e o Mar Salgado, foram de todo separadas; então passou o povo em frente de Jericó. Porém os sacerdotes, que levavam a arca da aliança do Senhor, pararam firmes, em seco, no meio do Jordão, e todo o Israel passou a seco, até que todo o povo acabou de passar o Jordão.” Livro de Josué 3:7–17
E então começa o *Herem (“חֵרֶם*” em hebraico), o genocídio em massa realizado pelos hebreus da Bíblia em nome de uma guerra santa.
Se inicia quando os hebreus chegam à cidade mais antiga do mundo, Jericó (na atual Cisjordânia), hoje com mais de 11.000 anos de idade. E também a cidade mais baixa do planeta, 270 metros abaixo do nível do mar.
Em Jericó, Josué e os hebreus executaram as ordens de Deus de rodear a cidade 7 vezes por 7 dias. Então a muralha da cidade caiu e uma chacina sanguinária se sucedeu. E toda a riqueza daqueles assassinados foi saqueada para os cofres da nova igreja que se formava (Batalha de Jericó).
“E sucedeu que, tocando os sacerdotes pela sétima vez as trombetas, disse Josué ao povo: Gritai, porque o Senhor vos tem dado a cidade. Porém toda a prata, e o ouro, e os vasos de metal, e de ferro são consagrados ao Senhor; irão ao tesouro do Senhor. e sucedeu que, ouvindo o povo o sonido da trombeta, gritou o povo com grande brado; e o muro caiu abaixo, e o povo subiu à cidade, cada um em frente de si, e tomaram a cidade. E tudo quanto havia na cidade destruíram totalmente ao fio da espada, desde o homem até à mulher, desde o menino até ao velho, e até ao boi e gado miúdo, e ao jumento.” Livro de Josué 6:16,19–21
Essa estória do Antigo Testamento também é mais uma apropriação mítica da Bíblia. Quem destruiu e incendiou completamente a cidade de Jericó na antiguidade foram os egípcios, séculos antes das lendas de Moisés e Josué.

Fotos das ruínas das muralhas de Jericó datadas por volta de 3000 anos atrás
Após Jericó, o povo de Josué avança sobre o norte e o sul da cananéia conquistando todas as demais cidades, Hazor, Maquedá, Libna, Laquis, Gezer, Eglom, Hebrom, Debir e por aí vai.
“Aqueles cinco reis, porém, fugiram, e se esconderam numa cova em Maquedá. Disse, pois, Josué: Porém vós não vos detenhais; persegui os vossos inimigos, e atacai os que vão ficando atrás; não os deixeis entrar nas suas cidades, porque o Senhor vosso Deus já vo-los deu na vossa mão. Fizeram, pois, assim, e trouxeram-lhe aqueles cinco reis para fora da cova: o rei de Jerusalém, o rei de Hebrom, o rei de Jarmute, o rei de Laquis e o rei de Eglom. E, depois disto, Josué os feriu, e os matou, e os enforcou em cinco madeiros; e ficaram enforcados nos madeiros até à tarde … Assim feriu Josué toda aquela terra, as montanhas, o sul, e as campinas, e as descidas das águas, e a todos os seus reis; nada deixou; mas tudo o que tinha fôlego destruiu, como ordenara o Senhor Deus de Israel. E Josué os feriu desde Cades-Barneia, até Gaza, como também toda a terra de Gósen, e até Gibeom.” Livro de Josué 10:16–26,40,41
Depois de dizimá-la, Josué então divide Canaã entre os herdeiros do Deus de Israel, formando as chamadas 12 tribos de Israel com os descendentes dos 12 filhos de Jacó (Personificação Bíblica).
“Isto, pois, é o que os filhos de Israel tiveram em herança, na terra de Canaã, o que Eleazar, o sacerdote, e Josué, filho de Num, e os cabeças dos pais das tribos dos filhos de Israel lhes fizeram repartir … Como o Senhor ordenara a Moisés, assim fizeram os filhos de Israel, e repartiram a terra. Livro de Josué 14:1,5
“Os filhos de Israel, doze em número, passaram seus nomes a outras tantas tribos. Os israelitas foram chamados hebreus por causa de Heber, de quem descendiam, e mais tarde receberam o nome de judeus, por causa de Judá, que foi um dos filhos de Jacó, e cuja descendência, quando a terra de Canaã foi conquistada, foi a mais numerosa e a mais ilustre.” Antiguidades Judaicas, historiador judeu Flávio Josefo, 94 d.C.
Nessa época, séculos XIII a XI a.C., a Bíblia diz que essas tribos eram governadas por Juízes (Período dos Juízes).
Os Juízes duraram até o século X a.C., quando o último juiz Samuel ungiu Saul como o primeiro rei de Israel, temendo ameaças de invasão por parte dos filisteus.
As 12 tribos de Israel, bem organizadas e divididas distintamente, na verdade nunca existiram.
Também não há qualquer evidência extra bíblica sobre a existência desse personagem Éber (Heber) como um indivíduo histórico real.
Canaã Histórica
O Homo Sapiens surgiu nas savanas da África 300 mil anos atrás, mas somente por volta de 100.000 a.C. nós começamos a nos dispersar de lá (Hipótese da Savana).
Com o crescimento da população de humanos e com a aridização da região, começamos a migrar para o norte, percorrendo o corredor verde que o Rio Nilo formava, e principalmente seguindo as manadas de animais que já estavam indo nessa direção.
Como o clima na África continuava se desertificando e os animais continuavam seguindo para a Península Arábica (que naquela época era verde e úmida), assim também fizeram as tribos humanas de caçadores e coletores.

Dispersão do Homo Sapiens pelo planeta Terra
Dalí rapidamente se dispersaram pela costa do Mediterrâneo e atingiram o chamado Crescente Fértil. Esse nome foi dado porque era a região que contornava o Deserto da Arábia e possuía uma grande concentração de espécies selvagens domesticáveis, como trigo, cevada, lentilha, grão-de-bico, além de cabras, ovelhas, porcos e boi selvagens, gazelas, etc.

Primeiros assentamentos da humanidade
Com o fim da última Era do Gelo, que durou de 110.000 a.C. a 10.000 a.C., o clima da Terra esquentou e se estabilizou, ficando finalmente propício para que esses humanos primitivos pudessem desenvolver a agricultura.
Como os rios do Crescente Fértil eram perenes (Nilo, Tigre, Eufrates, Jordão, etc.), o solo ficava rico em nutrientes e o clima do mediterrâneo também ajudava muito.

Surgimento da agricultura no mundo
Ain Ghazal foi uma das primeiras aldeias do mundo com cultivo de cevada, trigo, grão de bico e lentilhas, e pastoreio de ovelhas e cabras. Datada de 10.000 a.C..

Ain Ghazal, mais antigo assentamento humano conhecido
Os Kebarianos eram caçadores-coletores nômades que habitavam a África sub-saariana no período Paleolítco. Viveram antes dos Natufianos, semi-nômades, e não desenvolveram agricultura porque os grãos selvagens dessa região (como o sorgo e o milhete) se dispersavam ao cair no chão e por isso dificultavam muito a colheita manual.
E as savanas africanas eram bem vastas e ricas, não havendo necessidade de cultivar alimento.
Por volta dos anos 6000 a.C., houve um esgotamento do solo na região sul do Crescente Fértil, fazendo os povos Natufianos pré-semíticos abandonarem seus assentamentos e migrarem para a Mesopotâmia, para a Anatólia e para a região do Saara.
No norte oriental da África, na Península do Sinai, um grupo desses pastores Natufianos começou a desenvolver uma cultura e uma linguagem chamada proto-semita (ou proto-sinaítica).

Assentamento e Esculturas Natufianas
Por volta de 4.000 a.C., com a desertificação do Saara, esses povos migraram de volta para o sul do Crescente Fértil, dominando culturalmente a região de forma pacífica.
Esses semitas ocidentais se fixaram na Costa do Levante (a região sul do Crescente Fértil), uma região marítima do Mediterrâneo, de portos naturais, onde mais tarde foram denominados Cananeus.
Ao mesmo tempo em que os povos semitas se consolidavam no Nordeste da África e no sul do Levante, outras partes desse mundo antigo também evoluíam de forma surpreendente nesse mesmo período. É a chamada passagem da Pré-história para o período histórico da humanidade.
Desenvolveram consideravelmente a agricultura e a escrita, aumentando enormemente a população mundial e criaram hierarquias sociais de grande escala com o surgimento dos primeiros governos e impérios da humanidade.
Na Mesopotâmia, atual Iraque, no delta ao sul dos rios Tigre e Eufrates, surgem os sumérios, a primeira civilização conhecida do mundo. Uma raça híbrida e isolada, criaram o primeiro sistema de escrita chamado de cuneiforme e construíram *Uruk *em 4500 a.C., a primeira metrópole do planeta, chegando a uma população de 40.000 habitantes.
Por volta de 7500 a.C. surge a Civilização do Vale do Indo, na atual Índia, chegando ao seu auge agrícola e desenvolvimentista após os anos 3500 a.C..
Da mesma forma que por volta de 6000 a.C., grupos tribais do Vale do Nilo, no atual Egito, começam a cultivar alimentos, se assentar e estabelecer governanças. Por volta de 3000 a.C., se unificam como a primeira dinastia do mundo (I Dinastia) e criam a escrita pictográfica hieroglífica.
E nesses mesmos períodos, outras regiões do planeta também desenvolvem a agricultura, como o Rio Amarelo (Huang He), na atual China; *Çatalhüyük* na Anatólia da atual Turquia; na Mesoamérica, no Andes e por toda a Europa.

Civilizações do mundo por volta de 4000 a.C.
A Terra de Canaã (“Kinahnu” em acadiano, ou “terra da tinta vermelho púrpura”, extraída dos moluscos *Murex *da costa mediterrânea), ficava na parte sul do Crescente Fértil, ou Costa do Levante.
Com o domínio do Império Acádio a cultura cananéia assimilou muita coisa da cultura acadiana.
A palavra “il”, por exemplo, já existia na língua ancestral proto-semita, significando “divindade”, “força”, “poder”.
Na Acádia, dos povos semitas orientais, surge o deus Enlil, e “il” passa a significar a palavra “deus”. Na Cananéia (dos semitas ocidentais), a palavra “il” ou “ilu” passa a significar o deus principal de seu panteão, similar ao deus Enlil acadiano.
Com o tempo, as culturas semitas ocidentais começam a desenvolver seu próprio panteão e “ilu” passa a ser o deus “El”, líder do panteão semita ocidental.
Após o declínio do Império Acadiano, surge ao norte do Rio Eufrates um povo chamado de Amorreus (ou amoritas), centralizados na cidade de *Mari* (atual Síria).
Os amorreus cultuavam um deus principal chamado *Amurru (ou Martu), e também cultuavam a deusa [Asherá](https://pt.wikipedia.org/wiki/Aser%C3%A1) (cocriadora do universo, esposa de El) e o deus [Ba´al](https://pt.wikipedia.org/wiki/Baal) (ou [Hadad](https://pt.wikipedia.org/wiki/Adade), deus da tempestade), Mot (deus da morte), [Astarte](https://pt.wikipedia.org/wiki/Astarte) *(deusa do sexo e da fertilidade), além de outros, se juntando ao panteão semita.
Fotos abaixo das escavações da cidade antiga de *Ugarit (atual Ras Shamra, na Síria), realizadas em 1928, onde reinava a cultura semita, e ao lado o deus [El](https://pt.wikipedia.org/wiki/El_(mitologia)) (deus supremo do panteão cananeu) encravado na [Faca de Gebel Araque](https://pt.wikipedia.org/wiki/Faca_de_Gebel_Araque) *(artefato datado de mais de 3200 a.C.).
Abaixo a estela do deus semita da tempestade *Baal empunhando seu raio, que se encontra atualmente exposta no museu do Louvre; ao lado, estátua do deus Baal e a tábua denominada [Ciclo de Baal](https://en-m-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Baal_Cycle?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=sge), datada de 1500 a.C., que conta sua batalha com o deus [Yam](https://en.wikipedia.org/wiki/Yam_(god))*, do oceano.

Escavações de Ugarite e artefatos do deus El e do deus Baal
Em 1894 a.C., o chefe amorita *Sumuabum estabeleceu a Primeira Dinastia Amorita na cidade de [Babil](https://pt.wikipedia.org/wiki/Babil%C3%B3nia) *(ou Babilônia em português).
E em 1792 a.C., *Hamurábi, o sexto rei babilônico, transformou a Babilônia em um império, que conquistou toda a Mesopotâmia e se estendeu até o mar, ocupando o importante porto de [Ugarit](https://pt.wikipedia.org/wiki/Ugarite)*.

Expansão dos impérios do Crescente Fértil nos anos 1200 a.C.
O Código de *Hammurabi foi transcrito em 1772 a.C., e era um compilado de 282 leis antigas, onde o rei Hammurabi *afirmava que foram enviadas pelos deuses e serviam “para que o forte não prejudicasse o mais fraco”.
Mais tarde esse código foi traduzido como a lex talionis dos romanos, a “lei retributiva” ou “idêntica” em latim, ou a Lei de Talião em português.
Art. 25 § 227 — “Se um construtor edificou uma casa para um Awilum, mas não reforçou seu trabalho, e a casa que construiu caiu e causou a morte do dono da casa, esse construtor será morto”. Fragmento do Código de Hammurabi
“Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” Livro do Êxodo 21:24, também conhecida como Lei de Talião
Foto abaixo da Estela do Código de *Hammurabi, datada do século XVIII a.C. e encontrada em [Susã](https://pt.wikipedia.org/wiki/Sus%C3%A3)*, no atual Irã. Encontra-se hoje exposta no Museu do Louvre em Paris.

Estela do Código de Hammurabi contendo a Lei de Talião
A região do Levante, ao sul do Crescente Fértil, era uma região muito fértil, cheia de portos naturais para o Mediterrâneo e por isso uma importante rota comercial para os três continentes: África, Ásia e Europa.
Os antigos povos semitas do Levante foram chamados de cananeus e se dispersaram em culturas distintas como os fenícios, arameus, ugaríticos, jebuseus, habirus, etc.
Com a queda do domínio egípcio na Cananéia, essas culturas rapidamente floresceram e criaram suas cidades na região. Várias tinham sua própria língua e escrita, derivadas da língua proto-cananita e cultuavam um panteão de deuses herdados dos cananeus e dos semitas orientais.
No fim da Idade do Bronze, por volta de 1000 a.C., a região da Cananéia já possuía cidades estados independentes, politeístas, amuralhadas e vassalas do Império Egípcio, como *Hazor, Byblos, Ugarit, Aram-Damasco (na atual Síria), Urusalim/Jebus (atual Jerusalém), Megido*, etc.

Principais cidades-estados cananeias na Idade do Bronze

Fluxo cronológico da história da Cananeia
Shasu e Habirus
No século XIII a.C., uma grande quantidade de assentamentos, mais de 250, começou a aparecer nas colinas e montanhas do interior de Canaã, fora das cidades-estado, justamente por causa do declínio da dominação egípcia na região.
Tribos semi-nômades rurais, formadas por camponeses e pastores, chamadas de habirus (proto-hebreus), se estabeleceram nas terras altas do interior da Judeia durante a Idade do Bronze, por volta do século XII a.C..
Eram conhecidos na região como um perigoso grupo de rebeldes bandidos, marginalizados, refugiados, saqueadores e invasores. Podiam inclusive ser escravizados foragidos.
As Cartas de *Amarna são um conjunto de mais de 300 tábuas de argila datadas de 1360 a.C., que contêm correspondências diplomáticas entre representantes dos faraós do Antigo Egito ([Amenófis III](https://pt.wikipedia.org/wiki/Amen%C3%B3fis_III) e [Akhenaton](https://pt.wikipedia.org/wiki/Aquen%C3%A1ton)*) e seus reis vassalos da cananeia e entornos.
A Carta *EA 366, por exemplo, foi enviada pelo rei da cidade de [Gate](https://en-m-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Gath_(city)?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc) *e relata sua vitoriosa repressão ao ataque dos Habirus.

Correspondências egípcias que continham referência aos habirus
Os habirus se juntaram também a grupos semitas do deserto chamados Shasu (“šꜣsw” em egípcio antigo, que significa “aqueles que se movem a pé”), nômades das regiões de Edom e Midiã (sul da atual Jordânia), refugiados do Egito que migraram para a Cananéia.
Os Shasu adoravam um deus chamado Yahweh, da tempestade e da guerra, “concorrente” com o deus Baal dos cananeus.

Cidades de Edom e Midiã, na atual Jordânia
A evidência mais antiga do termo Yahweh e dos *Shasu é a Inscrição de [Soleb](https://pt.wikipedia.org/wiki/Solebe)* (atual Sudão), datada de 1380 a.C. e encontrada no templo do Faraó Amenófis III.
Contêm a referência mais antiga conhecida do deus Yhw, descrevendo “t3 sh3sw ya-h-wa”, ou a “Terra dos Shasu (nômades) de Javé”, atestando que nômades egípcios já viviam em Canaã nessa época.

Inscrição de Soleb, atestando que nômades egípcios (Shasu) viviam em Canaã no século XIV a.C.
A Bíblia não faz nenhuma referência a esses grupos de pessoas explicitamente (nem Habirus nem Shasu), mas a lenda do Êxodo de Moisés pode ter alguma conexão histórica com esses povos, porém, através de uma perspectiva contrária aos egípcios, ou seja, contada pelos próprios povos nômades.
Hebreus
Desde o século XIII a.C. os antigos egípcios já utilizavam o termo “ibrī” (“𓇋𓃀𓂋𓇋𓇋” + “𓀏” em egípcio antigo, “i-b-r-i-i” + “prisioneiro”), derivado do termo habiru, para descrever esse mesmo povo nômade de Canaã.
Essa descrição aparece pela primeira vez no Templo de *Karnak no Egito, como uma propaganda política, na [Grande Inscrição de Vitória do Faraó Merneptá](https://en-m-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Great_Karnak_Inscription?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc) (KIU 4246*).
Observe que os egípcios utilizavam o hieróglifo “𓀏” (A13 ou U+1300F), de “homem com os braços amarrados nas costas”, que significa “prisioneiro” ou “criminoso”.
𓂧𓂋𓏤𓈎𓏏𓂋𓂧 …𓊹𓊹𓊹𓎟𓂋𓏭𓇋𓏠𓈖 … 𓇋𓃀𓂋𓇋𓇋𓀏 … 𓎡𓂋𓅱𓀀 … 𓈖𓆑𓄿𓂋𓏭𓁶𓏤 (ḏd-mdw … ntr-ntr-ntr nb rꜥ Imn … I-b-r-i-i … kharu … `nefru mesh sheta an’)
“Palavras proferidas (por Merneptá): … Pelo grande deus, senhor, Rá, Amun … Os hebreus (prisioneiros) … saqueados … não têm mais sementes (futuro)”
Grande Inscrição de Karnak (KIU 4246), Império Egípcio, 1208 a.C.

Templo de Karnak em Luxor no Egito
Os habirus (ou proto-hebreus) adotaram uma nova tecnologia de agricultura (terraceamento em encostas) e um modo de vida mais igualitário. As evidências arqueológicas, como arquitetura das casas, tipos de cerâmica e falta de ossos de porco, por exemplo, sugerem que eram um grupo cultural novo, distinto dos cananeus que viviam nas cidades das planícies.
Os nômades Shasu e Habirus eram considerados forasteiros (ou estrangeiros) pelos demais povos cananeus e também pelos egípcios e mesopotâmicos. Mas após se assentarem começaram a ser denominados de hebreus.
A língua hebraica arcaica era um dialeto da língua fenícia (século XII a.C.), que por sua vez veio da língua cananita, que veio da semítica (originária do norte da África). Todas eram *abjad*, ou seja, línguas consonantárias (sem vogais).
O dialeto hebraico propriamente dito começa a aparecer na Cananéia após o século X a.C., consolidado de um dialeto cananeu classificado como proto-hebraico.
Para que Yahweh fosse aceito como um deus poderoso em Canaã, os hebreus precisavam associá-lo ao líder do panteão cananita, o deus El.
Começaram então a denominar o deus Yahweh também como “El Shaddai” (“Deus Todo-Poderoso”), “El Elyon” (“Deus Altíssimo”), “El Olam” (“Deus Eterno”), e por aí vai. Um deus ancião, benevolente e criador assim como era a imagem de El, porém com um apelo mais henoteísta.
Elohim, a “assembleia dos deuses” no plural, torna-se também a assembleia de Yahweh, no singular. Inclusive associam Aserá como a deusa consorte de Yahweh (“Yahweh e sua Asherah”), assim como era de El.

Vaso escrito “Yahweh e sua Asherah” do Santuário de Kuntillet Ajrud
Henoteísmo é o culto de um deus único e supremo mas sem se negar a existência de outras divindades. Mas com o advento do henoteísmo na cultura hebraica os deuses do panteão semita começaram a ser rechaçados.
“Agora, pois, manda reunir-se a mim todo o Israel no monte Carmelo; como também os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal, e os quatrocentos profetas de Aserá, que comem da mesa de Jezabel.” “Então Elias se chegou a todo o povo, e disse: Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o, e se Baal, segui-o. Porém o povo nada lhe respondeu.” Primeiro Livro dos Reis 18:19,21
“Mas que lhe diz a resposta divina? Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos a Baal.” Epístola de Paulo aos Romanos 11:4
De acordo com os artefatos arqueológicos, um subgrupo desses povos hebreus, assentados ao sul, se consolidaram com um reino próprio e começaram a ser chamados também de israelitas, devido a uma adoração mais predominante ao deus El.
Segundo o artefato chamado Estela de *Merneptá (JE 31408*) da cidade de Tebas no Egito, datada por volta de 1208 a.C., um povo chamado “Israel” já estava estabelecido na Cananéia.
“Canaã foi saqueada de todas as formas más. Ascalon foi levada cativa; Gezer foi conquistada; Yanoam foi reduzida a nada; Israel está devastado, sua semente não existe mais; Hurru tornou-se uma viúva para o Egito.” Estela de Merneptá, Império Egípcio, 1208 a.C.

Estela de Merneptá referindo-se ao povo de Israel em 1208 a.C.
O termo Israel, ou “Yšrʾil” na língua eblaíta, ramificação da língua semita, vem da adoração do deus semita *El, significando “aquele que luta com El”. Traduzida para o egípcio antigo como “𓇌𓊃𓏤𓏤𓂋𓇋𓄿𓂋𓏤” (“I.si.ri.ar”) + “𓀀𓁐 𓏥*” (povo).
Esse termo “Israel”, por si só, já é uma indicação da preferência henoteísta dessa tribo, ou seja, pelo deus específico “El”, ao invés da preferência pelos demais deuses do panteão semita (Baal, Aserá, Ishtar, Inanna, etc.).
Esses primeiros israelitas antigos se assentaram nas antigas colinas de Judá e Samaria, nas terras altas ao norte de Jerusalém.

Colinas de Judá
Urusalim
A região desértica e montanhosa do sul de Canaã, era periférica e menos desenvolvida economicamente do que as planícies do norte e da costa do Mediterrâneo. Uma área escassamente povoada, dominada por pequenas aldeias pastoris.
Desde 3000 a.C., existia um povoado chamado de *Urusalim (“Fundação do deus [Shalim](https://pt.wikipedia.org/wiki/Shalim)”, na língua cananeia), assentado em volta do monte [Ophel](https://pt.wikipedia.org/wiki/Ofel) e da [fonte de Giom](https://pt.wikipedia.org/wiki/Fonte_de_Giom)*, que foi virando uma fortificada cidade-estado comercial e politeísta, disputada entre os clãs jebuseus, heteus e amorreus.
Um povo vindo das ilhas do mar Egeu, incluindo Creta, começaram a se assentar na costa sul da Cananeia chamada de Filistéia (atual Palestina), formando cidades como *Gaza, Ecrom, Gate*, etc.
Por volta do século X a.C., Urusalim era habitada por algo em torno de 1000 a 2000 pessoas e dependia politicamente dos Faraós do Egito. Mas era constantemente ameaçada por esses Povos do Mar, os filisteus.
A arqueologia mostra que por volta dessa mesma época, com o enfraquecimento da dominação egípcia, Urusalim, ainda pequena, passa a ser chamada de Jerusalém e começa a virar uma capital real, com engenhosas fortificações e com a existência de um palácio real.
Na Cananeia já estava sendo usado o alfabeto fenício consonantário (sem vogais, oriundo do alfabeto semítico). Mas Jerusalém era tão rural que ainda falava cananeu e não havia qualquer registro de escrita nas escavações da cidade nessa época.
Foto panorâmica abaixo da atual Cidade Velha em Jerusalém, que une em uma só região o monte Ophel, a fortaleza de Sião, a Cidade de Davi, a fonte de Giom, o Templo de Salomão (atual Domo da Rocha), o palácio de Herodes, o Monte das Oliveiras, a Igreja do Santo Sepulcro e as várias muralhas erguidas pelos diferentes povos que a habitaram.
Ao lado, uma representação gráfica da antiga Urusalim, na Idade do Bronze.

Cidade Velha na atual Jerusalém e uma representação da antiga Urusalim
De acordo com arqueologia, é possível também que um dos reis que governaram por Jerusalém, nessa época do século X a.C., possa ter se chamado Davi.
Fotos abaixo da Estela de *Tel Dã, datada por volta do século IX a.C. e encontrada em Tel Dã, ao norte de Israel, em 1993, com as inscrições em aramaico “מלך.ישראל” (“Rei de Israel”) e “ביתדוד” (“BYT DWD*”, “Casa de Davi”). Encontra-se hoje no Museu de Israel em Jerusalém.

Fotos: Estela de Tel Dã com as inscrições “Rei de Israel” e “Casa de Davi”
Dinastia Davídica
A Torá relata que Davi era um jovem efrateu, um pastor de ovelhas da pequena vila de *Efrata *(posteriormente chamada de Belém), próxima a fortificação da cidade de Jerusalém, e que havia sido ungido como futuro rei, pelo profeta Samuel, o último Juiz das tribos de Israel.
“Disse mais Samuel a Jessé: Ainda falta o menor, que está apascentando as ovelhas. Então mandou chamá-lo e fê-lo entrar (e era ruivo e formoso de semblante e de boa presença); e disse o Senhor: Levanta-te, e unge-o, porque é este mesmo.e desde aquele dia em diante o Espírito do Senhor se apoderou de Davi.” Primeiro Livro de Samuel 16:11–13
Enquanto pastor, Davi já clamava por um Deus único, Senhor de Israel.
“O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias. Livro dos Salmos de Davi 23
Segundo a Bíblia, Davi passou também a chamar a atenção do primeiro rei de Israel, *Saul*, por suas habilidades como músico, tocando harpa.
“Diga, pois, nosso senhor a seus servos, que estão na tua presença, que busquem um homem que saiba tocar harpa, e será que, quando o espírito mau da parte de Deus vier sobre ti, então ele tocará com a sua mão, e te acharás melhor. Então respondeu um dos moços, e disse: Eis que tenho visto a um filho de Jessé, o belemita, que sabe tocar e é valente e vigoroso, e homem de guerra, e prudente em palavras, e de gentil presença; o Senhor é com ele … E sucedia que, quando o espírito mau da parte de Deus vinha sobre Saul, Davi tomava a harpa, e a tocava com a sua mão; então Saul sentia alívio, e se achava melhor, e o espírito mau se retirava dele.” Primeiro Livro de Samuel 16:16–18,23
Davi foi ganhando notoriedade no reino de Saul, e se tornou um herói épico quando derrotou o gigante filisteu Golias, e Israel se livrou definitivamente das ameaças desse povo.
“Eis que vinha subindo do exército dos filisteus o homem guerreiro, cujo nome era Golias, o filisteu de Gate; e falou conforme àquelas palavras, e Davi as ouviu. Porém todos os homens em Israel, vendo aquele homem, fugiram de diante dele, e temiam grandemente. E Davi disse a Saul: Não desfaleça o coração de ninguém por causa dele; teu servo irá, e pelejará contra este filisteu. Disse mais Davi: O Senhor me livrou das garras do leão, e das garras do urso; ele me livrará da mão deste filisteu. Então disse Saul a Davi: Vai, e o Senhor seja contigo. E Davi pôs a mão no alforje, e tomou dali uma pedra e com a funda lha atirou, e feriu o filisteu na testa, e a pedra se lhe encravou na testa, e caiu sobre o seu rosto em terra.” Primeiro Livro de Samuel 17:23,24,32,37,49
Ainda segundo a Bíblia, com as mortes de Saul e seu primogênito Jônatas, durante as batalhas contra os filisteus, Davi é ungido e coroado rei de Judá, as tribos do sul de Israel.
E posteriormente com a morte de *Is-Bosete*, outro filho de Saul, Davi também foi coroado rei do norte.
Foi quando unificou todo o reino de Israel.
“Assim, pois, todos os anciãos de Israel vieram ao rei, em Hebrom … e ungiram a Davi rei sobre Israel. Da idade de trinta anos era Davi quando começou a reinar; quarenta anos reinou. Em Hebrom reinou sobre Judá sete anos e seis meses, e em Jerusalém reinou trinta e três anos sobre todo o Israel e Judá.” Segundo Livro de Samuel 5:3–5
Os jebuseus ainda dominavam Jerusalém protegidos pela Fortaleza de Sião. Davi então ataca a cidade com a ajuda estratégica do comandante *Joabe *e faz de Jerusalém a capital de seu reino.
Davi também recupera a Arca da Aliança da mão dos filisteus e a guarda em Jerusalém.
E então Deus faz uma aliança eterna com Davi, dizendo que o reino de Israel será construído sobre os seus descendentes (Dinastia Davídica).
“Agora, pois, assim dirás ao meu servo Davi: Assim diz o Senhor dos Exércitos: Eu te tomei da malhada, de detrás das ovelhas, para que fosses o soberano sobre o meu povo, sobre Israel. Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre.” Segundo Livro de Samuel 7:8,12,13
Antes de morrer, Davi designa seu filho Salomão como sucessor do reino de Israel. O sumo sacerdote *Zadoque *unge então Salomão com óleo, oficializando-o como rei.
A Bíblia Hebraica cita Salomão como um rei extremamente mulherengo, porém sábio e próspero.
“E tinha setecentas mulheres, princesas, e trezentas concubinas; e suas mulheres lhe perverteram o coração.” Primeiro Livro dos Reis 11:3
“E em Gibeom apareceu o Senhor a Salomão de noite em sonhos; e disse-lhe Deus: Pede o que queres que eu te dê. E disse Salomão: A teu servo, pois, dá um coração entendido para julgar a teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal; porque quem poderia julgar a este teu tão grande povo? E disse-lhe Deus: Eis que fiz segundo as tuas palavras; eis que te dei um coração tão sábio e entendido, que antes de ti igual não houve, e depois de ti igual não se levantará. E também até o que não pediste te dei, assim riquezas como glória; de modo que não haverá igual a ti entre os reis, por todos os teus dias.” Primeiro Livro dos Reis 3:5,9,12–13
O Vale do *Timna *é uma região próxima a Jerusalém onde o cobre é minerado há 7500 anos. As minas de cobre encontradas nessa região foram datadas do século X a.C. (Minas do Rei Salomão). Existe a possibilidade desta ter sido uma das grandes fontes de riqueza da cidade, que a fez prosperar nesse período.
Foto abaixo à esquerda dos Pilares de Salomão, no Vale do Timna, e ao centro, as minas de cobre datadas do século X a.C.. À direita, a cor verde característica do cobre na rocha.

Pilares de Salomão e as minas de cobre do Vale do Timna em Israel
Segundo a Bíblia, com a prosperidade de seu reinado e a cobrança de altos impostos, Salomão construiu grandes edificações em seu reino, incluindo o colossal Templo de Salomão, coberto com ouro, cedro e pedras preciosas.
“E começou Salomão a edificar a casa do Senhor em Jerusalém, no monte Moriá, onde o Senhor aparecera a Davi seu pai, no lugar que Davi tinha preparado na eira de Ornã, o jebuseu. E começou a edificar no segundo mês, no segundo dia, no ano quarto do seu reinado. E a casa grande forrou com madeira de faia; e então a revestiu com ouro fino; e fez sobre ela palmas e cadeias.” Segundo Livro de Crônicas 3:1,2,5
Construído em cima do Monte *Moriá*, os principais objetivos do Templo eram realizar sacrifícios religiosos e abrigar a Arca da Aliança, que continha as tábuas dos 10 Mandamentos de Moisés.
“Os sacerdotes levaram a arca da aliança do Senhor para o seu lugar no santuário interno do templo, no Lugar Santíssimo, e a colocaram debaixo das asas dos querubins. Na arca havia só as duas tábuas de pedra que Moisés tinha colocado quando estava em Horebe, onde o Senhor fez uma aliança com os israelitas depois que saíram do Egito.” Primeiro Livro dos Reis 8:6

Reprodução hipotética do Templo de Salomão e da Arca da Aliança
Nunca foi encontrada qualquer evidência arqueológica da existência de dois grandes reinos distintos ou unificados na Cananeia.
Também, até hoje, nunca foi encontrada absolutamente nenhuma evidência arqueológica da existência do Rei Salomão, de seu Templo, da Arca da Aliança ou das tábuas dos 10 Mandamentos.
Escavações no Monte *Moriá *são totalmente proibidas pelos administradores da cidade de Jerusalém por motivos políticos.
Templos muito similares à descrição do Templo de Salomão da Bíblia já existiam na Idade do Ferro (1200 a.C. a 1000 d.C.), como por exemplo, Templo de *Ain Dara na atual Síria ou [Templo de Tell Tayinat](https://en-m-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Tell_Tayinat?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc)* na atual Turquia. É muito provável que muito das características do Templo de Salomão seja apropriação bíblica.

Ruínas do Templo de Ain Dara na atual Síria
O Portão Dourado que existe hoje nas muralhas da antiga Jerusalém é uma reconstrução do ano de 1541, do que deveria ter sido as Portas de ouro do lendário Templo de Salomão. Permanece sempre fechado porque somente o Messias bíblico deverá passar por ele.

Portão Dourado da Cidade Velha de Jerusalém
“Então me fez voltar para o caminho da porta exterior do santuário, que olha para o oriente, a qual estava fechada. E disse-me o Senhor: Esta porta permanecerá fechada, não se abrirá; ninguém entrará por ela, porque o Senhor, o Deus de Israel entrou por ela; por isso permanecerá fechada. Quanto ao príncipe, por ser príncipe, se assentará nela para sempre, para comer o pão diante do Senhor; pelo caminho do vestíbulo da porta entrará e por esse mesmo caminho sairá.” Livro de Ezequiel 44:1–3

Cronologia da Cananéia histórica até o surgimento do reino de Davi
Rei Omri
Continuando com a narrativa das estórias da Bíblia, após a morte de Salomão, seu filho sucessor Roboão não conseguiu conter a insatisfação com os altos impostos e, lideradas por Jeroboão, as tribos do norte se desligaram do rei.
A Bíblia Hebraica cita a formação de um reino dividido em dois, após o reinado de Salomão:
- Reino do Norte (Israel): capital em Samaria; politeístas, que tinham em seu panteão semita, por exemplo, o deus principal El, o deus da tempestade Baal e a deusa Aserá da fertilidade.
- Reino do Sul (Judá): capital em Jerusalém; henoteístas, que já adoravam o Deus Javé (ou Yaweh), mas também aceitavam a existência dos demais deuses semitas, como Baal por exemplo.

Mapas dos antigos reinos bíblicos de Israel e Judá
Historicamente, porém, esses dois reinos fortes e soberanos não aconteceram.
Já existia uma opulência arquitetônica na região da antiga cananeia no século X a.C., e uma diferença sociológica também considerável entre os povos mais ao sul e os povos mais ao norte da fortaleza de Jerusalém. As cidades do norte seriam mais prósperas do que as do sul.
A narrativa bíblica, no entanto, é contada de acordo com a perspectiva dos povos do sul, por isso privilegia uma Jerusalém como suntuosa e próspera, mas na verdade, ainda era pequena e menos relevante que o reino do Norte.
Um dos primeiros reis cananeus que possui uma sólida quantidade de evidências arqueológicas é o rei *Omri*, que reinou na região ao norte de Jerusalém no século IX a.C..
Escavações na cidade de Samaria (atual aldeia de *Sebastia) e em cidades do norte da Cananéia, revelam fortalezas e palácios com estilos próprios, datados da [dinastia Omri ](https://pt.wikipedia.org/wiki/Dinastia_de_Omri)*(*“bit Humri”*), demonstrando que ali houve um reinado próspero e unificado naquela época.
A Pedra Moabita (ou Estela de Mesha) é um artefato datado de 840 a.C. que contém várias referências ao reinado de *Omri. Foi encontrada em 1868 na região de [Moabe](https://pt.wikipedia.org/wiki/Moabe) *(atual Jordânia) e está exposta no Museu do Louvre em Paris.
Escrita no dialeto moabita, similar ao fenício e ao hebraico, todos variações da língua cananita original, que era do tipo *abjad*, ou seja consonontal, sem o uso de vogais.
Nela, o rei *Mesha do [reino de Moabe](https://pt.wikipedia.org/wiki/Moabe) faz uma grande propaganda a respeito de sua vitória sob domínio do Reino de Israel, que na época era governado pelo rei [Omri](https://pt.wikipedia.org/wiki/Omri) e seu filho [Acabe](https://pt.wikipedia.org/wiki/Acabe)*.
“Eu sou Mesha, filho Qemos[yat], rei de Moab, o dibonita (…) Omri, rei de Israel, oprimiu Moabe por muitos dias (…) E o seu filho [Acabe] o sucedeu, e também disse: ‘Eu oprimirei Moabe’ (…) Mas eu lutei contra o rei de Israel e o expulsei, e tomei posse das suas cidades (…) E edifiquei Baal Meon e construí o reservatório (…) E tirei de lá os vasos de YHWH e os trouxe à presença de Quemos. (…)” Pedra Moabita, Reino de Moabe, 840 a.C.

Pedra Moabita contendo referências ao rei Omri e o Tetragrama YHWH (“𐤉𐤄𐤅𐤄”em moabita)
A Pedra Moabita prova que o Reino de Israel já era uma entidade política real, militarizada, poderosa e reconhecida por seus vizinhos no século IX a.C..
Essa pedra contém inclusive uma antiga referência ao tetragrama *YHWH (“𐤉𐤄𐤅𐤄” em moabita), que significa “Yahweh” *(ou Javé em português), o Deus henoteísta de Israel.
Através de pesquisas linguísticas, entende-se que o tetragrama hebreu *YHWH (“יהוה”) se pronunciava provavelmente como “Yahweh” (Javé em português e [Jeovah](https://pt.wikipedia.org/wiki/Jeov%C3%A1) *em inglês).

Tetragrama hebraico pra Yahweh (YHWH ou יהוה)
A Bíblia faz poucas e pejorativas referências a esse rei histórico tão importante, porque ela retrata a visão de seus antagonistas, os reis das cidades do sul de Jerusalém.
“Então o povo de Israel se dividiu em dois partidos: metade do povo seguia a Tibni, filho de Ginate, para o fazer rei, e a outra metade seguia a Onri. Mas o povo que seguia a Onri foi mais forte do que o povo que seguia a Tibni, filho de Ginate; e Tibni morreu, e Onri reinou. No ano trinta e um de Asa, rei de Judá, Onri começou a reinar sobre Israel, e reinou doze anos; e em Tirza reinou seis anos. E de Semer comprou o monte de Samaria por dois talentos de prata, e edificou sobre o monte; e chamou o nome da cidade que edificou Samaria, do nome de Semer, dono do monte. E fez Onri o que era mau aos olhos do Senhor; e fez pior do que todos quantos foram antes dele. E andou em todos os caminhos de Jeroboão, filho de Nebate, como também nos pecados com que ele tinha feito pecar a Israel, irritando ao Senhor Deus de Israel com as suas vaidades.” Primeiro Livro dos Reis 16:21–26
E nesta passagem a Bíblia fala da guerra entre os reinos de Israel e Moabe, sob a perspectiva de Judá, privilegiando Israel como vitorioso em oposição à Pedra Moabita.
“E Jorão, filho de Acabe, começou a reinar sobre Israel, em Samaria, no décimo oitavo ano de Jeosafá, rei de Judá; e reinou doze anos. E fez o que era mau aos olhos do Senhor; porém não como seu pai, nem como sua mãe; porque tirou a estátua de Baal, que seu pai fizera … Então Mesa, rei dos moabitas, era criador de gado, e pagava de tributo, ao rei de Israel, cem mil cordeiros, e cem mil carneiros com a sua lã. Sucedeu, porém, que, morrendo Acabe, o rei dos moabitas se rebelou contra o rei de Israel. Então disse o rei de Israel: Ah! O Senhor chamou a estes três reis, para entregá-los nas mãos dos moabitas. Porém, chegando eles ao arraial de Israel, os israelitas se levantaram, e feriram os moabitas, os quais fugiram diante deles e ainda entraram nas suas terras, ferindo ali também os moabitas.” Segundo Livro dos Reis 3:1–5,10, 24
Nos séculos IX a.C. e VIII a.C., o reino de Israel vivia em constante conflito com o Império Assírio, principalmente por causa dos altos impostos que os reis assírios estavam exigindo do vassalo reino de Israel.
O Monolito assírio de *Kurkh, por exemplo, relata uma das grandes batalhas que esses dois impérios enfrentaram naquele século, a [Batalha de Qarqar](https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Carcar) *(853 a.C.).
O Obelisco Negro, também assírio, datado de 841 a.C., se encontra atualmente no Museu Britânico em Londres. Mostra o rei *Jeú de Israel, da Dinastia de Omri (“filho de Onri”), que também é citado na Bíblia, ajoelhado perante a [Salmanaser III](https://pt.wikipedia.org/wiki/Salmanaser_III) *da Assíria, pagando seus impostos. E em cuneiforme acadiano, a descrição da cena contém a indicação abaixo:
“𒈠 𒅀 𒌑 𒀀 𒈥 𒈠 𒄷 𒌝 𒊑 𒄿” (mJa-ú-a mar mHu-um-ri-i) “Jeú, filho de Onri”
“O tributo de Jeú, filho de Onri: Recebi dele prata, ouro, uma tigela de ouro, um vaso de ouro com fundo pontiagudo, copos de ouro, baldes de ouro, estanho, um cetro para a mão do rei e dardos.” Obelisco Negro, Império Assírio, 841 a.C.

Jeú, rei de Israel, ajoelhado em frente ao rei assírio Salmanaser III, no Obelisco Negro
A Bíblia mostra Jeú, um rei bastante combatente com relação à Assíria e ao Reino de Judá:
“Assim Jeú, filho de Jeosafá, filho de Ninsi, conspirou contra Jorão. Tinha, porém, Jorão cercado a Ramote de Gileade, ele e todo o Israel, por causa de Hazael, rei da Síria. E sucedeu que, vendo Jorão a Jeú, disse: Há paz, Jeú? E disse ele: Que paz, enquanto as prostituições da tua mãe Jezabel e as suas feitiçarias são tantas?” Segundo Livro dos Reis 9:14,22
Por volta de 734 a.C., o rei *Tiglate-Pileser III da Assíria, registra em uma tábua de argila, que recebeu impostos do rei [Acaz](https://pt.wikipedia.org/wiki/Acaz) (“mIa-ú-ḫa-zi”, Joacaz em acadiano) de Judá (“Ia-ú-da-a-a*” em acadiano), confirmando historicamente a existência desse outro reino ao sul de Jerusalém (Judá), separadamente do reino de Israel, ao norte, com a capital em Samaria.
“ta-am-ḫa-ri šá mIa-ú-ḫa-zi KUR Ia-ú-da-a-a … uddîšu 10 ME (100) mana KUG.GI 10 LIM (1,000) mana KUG.BABBAR” (os tributos de Joacaz de Judah … juntamente com 100 talentos de ouro, 1000 talentos de prata) Anais de Tiglate-Pileser III, Império Assírio, 734 a.C.
O reino de Israel (do norte, também chamado de região de Efraim) sob o reinado de *Peca, juntamente com o rei [Rezim](https://pt.wikipedia.org/wiki/Rezim) *de Arã-Damasco (atual Síria), estavam tentando naquela época se rebelar justamente contra o Império Assírio e seus altos impostos (Coalizão Antiassíria).
O Império Assírio devasta então o reino de Arã-Damasco, segundo esses mesmos anais de Tiglate-Pileser III:
“Quanto a Rahiannu (Rezin) de Damasco… sitiei sua cidade real, Damasco. Causei medo à terrível [visão] da minha soberania, e ele se agarrou aos meus pés. Eu o poupei. Coloquei um supervisor sobre ele. Os 591 distritos de suas 16 regiões de Damasco eu transformei em ruínas, como montes de entulho após o dilúvio… Sua propriedade, seus bens, seus tesouros de seu palácio… recebi em Damasco, minha cidade real.” Anais de Tiglate-Pileser III, Império Assírio, 734 a.C.
E também devasta o reino de Israel, porém ainda sem derrubar sua capital Samaria:
“A terra da Casa de Omri (Bit-Humria)… todas as suas cidades e seus habitantes, seus rebanhos… eu saqueei. Eles (a população) e seus bens eu levei para a Assíria. A região de… Gal’aza (Gileade), Abilakka… até a fronteira de Bit-Humria, eu anexei à Assíria. Coloquei meus oficiais sobre eles como governadores. Os israelitas (lit. ‘o povo da terra de Omri’) derrubaram seu rei Peca (Pa-qa-ḫa) e eu coloquei Oséias (A-ú-si-ʾ) como rei sobre eles. Recebi deles 10 talentos de ouro, X talentos de prata como seu tributo, e os enviei para a Assíria.” Anais de Tiglate-Pileser III, Império Assírio, 734 a.C.
Os Anais de Tiglath-Pileser III não explicitam a participação do rei Acaz, do pequeno e periférico reino de Judá, nessa rebelião, porque ele de fato não se juntou aos reinos rebeldes. Por isso que, nesse contexto, é provável que uma ofensiva da coalizão Israel (Tribo bíblica de *Efraim*) e Arã-Damasco (Síria) contra Judá tenha de fato ocorrido nesta época, de acordo com a Guerra Siro-Efraimita de 734 a.C., descrita na Bíblia.
Segundo a Tanakh, a Bíblia Hebraica, o rei *Acaz de Judá era contemporâneo do profeta bíblico [Isaías](https://pt.wikipedia.org/wiki/Isa%C3%ADas)*, tendo-o como conselheiro de seu reino.
Isaías teria profetizado a chegada de um Messias (*Emanuel, ou “Deus Conosco” em hebraico) enviado por Deus como um sinal para que Acaz *não entrasse na guerra contra a Assíria e nem contra a coalizão Siro-Efraimita.
“E continuou o Senhor a falar com Acaz, dizendo: Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que uma jovem grávida, dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel. Na verdade, antes que este menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, de que te enfadas, será desamparada dos seus dois reis.” Livro de Isaías 7:10,14,16
Na profecia bíblica acima, a frase “a terra, de que te enfadas, será desamparada dos seus dois reis”, se refere exatamente a essa coalizão dos dois reis, Israel e Damasco, sendo derrotada (desamparada) pelo Império Assírio.
Apesar de que historicamente profetas como Isaías existiram em Judá e eram muito influentes politicamente, sabe-se que este texto bíblico foi escrito na realidade posteriormente a todos esses eventos reais, e então pseudoepigrafado como se fosse de um profeta e conselheiro real chamado Isaías.
Em 722 a.C., o violento rei assírio *Sargão II conquistou em definitivo a fortificada capital Samaria, sob o reinado do [rei Oseias](https://pt.wikipedia.org/wiki/Oseias_(rei_de_Israel)) *de Israel, e acabou com os 200 anos da Dinastia de Omri.
Abaixo a inscrição da propaganda real encontrada no Palácio de Sargão em *Dur-Sharrukin (“Fortaleza de Sargão”), atual Khorsabad *no Iraque:
“Eu sitiei e conquistei Samaria (Sa-me-ri-na). Levei cativos 27.290 de seus habitantes. Deles, eu requisição 50 carruagens para a minha força militar real… A cidade eu reconstruí melhor do que era antes e fiz com que pessoas de terras que eu havia conquistado habitassem nela. Estabeleci meu oficial governador sobre eles e impus sobre eles o tributo dos antigos reis.” Inscrição do Palácio de Sargão, Império Assírio, 722 a.C.
E abaixo o relato bíblico que fala sobre a conquista de Samaria por um rei da Assíria, sem mencionar Sargão:
“Porque o rei da Assíria subiu por toda a terra, e veio até Samaria, e a cercou três anos. No ano nono de Oseias, o rei da Assíria tomou a Samaria, e levou Israel cativo para a Assíria; e fê-los habitar em Hala e em Habor junto ao rio de Gozã, e nas cidades dos medos, Porque sucedeu que os filhos de Israel pecaram contra o Senhor seu Deus, que os fizera subir da terra do Egito, de debaixo da mão de Faraó, rei do Egito; e temeram a outros deuses.” Segundo Livro dos Reis 17:5–7
Reino de Judá
Com a queda da dinastia de Omri, os israelitas começaram a se enfraquecer nas terras ao norte de Jerusalém. Mas por outro lado, começaram a se fortalecer nas terras ao sul.
Arqueologicamente, a partir do século IX a.C., há um aumento claro no número de assentamentos nas montanhas da região da Judá e no comércio e no desenvolvimento de Jerusalém como uma capital administrativa.
Em 701 a.C., o rei *Senaqueribe da Assíria, filho de Sargão II*, tenta invadir Jerusalém cercando a cidade. Nessa batalha, a Assíria menciona a existência de um reino consolidado chamado Judá, cuja capital era Urusalim.
O Prisma de Taylor é uma pedra de argila contendo um texto cuneiforme acadiano, que faz parte dos Anais de *Senaqueribe. *Descreve uma propaganda da bem sucedida batalha, pela perspectiva da realeza assíria. Atualmente encontra-se exposto no Museu Britânico de Londres.
“Quanto a Ezequias (Ha-za-qi-ia-u), o judaíta (ú-ia-ú-da-ai), ele não se submeteu ao meu jugo. Eu sitiei 46 de suas cidades fortificadas, cidadelas incontáveis e as pequenas aldeias em suas redondezas, e as conquistei usando rampas de cerco e aríetes… Quanto a ele próprio, eu o encurralei em Urusalim, sua cidade real, como um pássaro em uma gaiola.” Prisma de Taylor, Império Assírio, 701 a.C.

Prisma de Taylor mencionando o Reino de Judá e sua capital Urusalim (Jerusalém)
Esses anais descrevem também o desespero do rei *Ezequias de Judá com relação à invasão assíria, enviando para Senaqueribe *tudo o que tinha de valor em seu palácio, a título de pagamento de tributos.
“…30 talentos de ouro, 800 talentos de prata, tesouros preciosos, antimônio, grandes blocos de pedra vermelha, leitos (incrustados) de marfim, cadeiras estofadas de marfim, pele de elefante, marfim, ébano, madeira de buxo e todos os tipos de tesouros valiosos, suas (próprias) filhas, suas concubinas, cantores e cantoras para Nínive, minha cidade real. Para entregar o tributo e prestar homenagem, ele enviou seu mensageiro pessoal.” Anais de Senaqueribe, Império Assírio, 701 a.C.
Observe que mulheres eram naturalizadas como simples objetos, uma propriedade dos homens, assim como um móvel qualquer ou uma moeda de prata, com a diferença que os móveis e as moedas eles não escravizavam sexualmente.
A Bíblia relata um genocidio onde Judá derrota Senaqueribe de forma completamente milagrosa.
Mas o mais provável é que o pagamento dos altos tributos por parte do rei Ezequias tenha sido suficiente para que Senaqueribe, após destruir várias cidades de Judá, tenha levantado acampamento de Jerusalém e ido combater em outras frentes de batalha. Afinal, se destruísse um reino tão pacato não mais receberia tantos impostos.
“Assim falareis a Ezequias, rei de Judá: Não te engane o teu Deus, em quem confias, dizendo: Jerusalém não será entregue na mão do rei da Assíria. Eis que já tens ouvido o que fizeram os reis da Assíria a todas as terras, destruindo-as totalmente; e tu, te livrarás? … Portanto, assim diz o Senhor acerca do rei da Assíria: Não entrará nesta cidade, nem lançará nela flecha alguma; tampouco virá perante ela com escudo, nem levantará contra ela trincheira alguma. Sucedeu, pois, que naquela mesma noite saiu o anjo do Senhor, e feriu no arraial dos assírios a cento e oitenta e cinco mil deles; e, levantando-se pela manhã cedo, eis que todos eram cadáveres. Então Senaqueribe, rei da Assíria, partiu, e se foi, e voltou e ficou em Nínive. E sucedeu que, estando ele prostrado na casa de Nisroque, seu deus, Adrameleque e Sarezer, seus filhos, o feriram à espada; porém eles escaparam para a terra de Ararate; e Esar-Hadom, seu filho, reinou em seu lugar.” Segundo Livro dos Reis 19:10–11,32,35–37
De acordo com a Inscrição de *Esar-Hadom descrevendo sua propaganda política, é mesmo verdade que Senaqueribe* foi morto por seus filhos mais velhos por causa da disputa do trono com o mais novo.
Queda do Primeiro Templo
Em 612 a.C., o Segundo Império Babilônico (ou Neobabilônico, dos povos Caldeus da Mesopotâmia), há muito revoltados com tanta vassalagem, se juntou militarmente ao Império Persa, Egípcio e outros, e alcançou a capital da Assíria, *Nínive*, derrotando em definitivo o violentíssimo e esgotado Império Assírio.

Império Neobabilônico e aliados derrotam o violento Império Assírio em 612 a.C.
Com a queda do domínio assírio sobre o reino de Israel (do norte), o rei Josias de Judá consegue centralizar em Jerusalém todo o culto henoteísta da Judéia, tornando essa a capital sagrada dos israelitas e judaítas.
É nessa época que o chamado “Livro da Lei” é compilado, com a Reforma Religiosa do Rei Josias, uma versão primitiva do “Núcleo Josiano” (capítulos 12 a 26) do Livro de Deuteronômio, do Antigo Testamento.
“Destruireis todos os lugares onde as nações que haveis de desapossar serviram os seus deuses… e ao lugar que YHWH, vosso Deus, escolher de todas as vossas tribos para ali pôr o seu nome, à sua habitação buscareis, e para lá vireis.” Provável versão Josiana do Livro de Deuteronômio 12:2–5
O pequeno reino de Judá, sempre lutando contra as tentativas de invasão de suas cidades, passa agora a ser vassalo do Império Babilônico, que por sua vez está sob ameaça do Império Egípcio, que havia rompido a parceria com os mesopotâmicos.
Quando Judá, sob o reinado de *Jeoaquim, toma a errônea decisão geopolítica de se aliar ao Império Egípcio contra a Babilônia, e para de pagar a vassalagem, a resposta de [Nabucodonosor II](https://pt.wikipedia.org/wiki/Nabucodonosor_II)*, rei da Babilônia, é impiedosa.
Nabucodonosor II começa uma violenta investida contra o reino de Judá atingindo Jerusalém primeiramente em 597 a.C.. Nesse ano começam as deportações de nobres, soldados, comerciantes, intelectuais judaítas (“Yahudiyya”, povo do reino de Judá) para a Babilônia (Exílio babilônico).
”No sétimo ano [correspondendo a 597 AEC], no mês de Kislev, o rei da Babilônia mobilizou seu exército e marchou para a terra de Hatti [Síria-Palestina]. Ele acampou contra a cidade de Judá (Ia-ahu-du) e no segundo dia do mês de Adar ele conquistou a cidade e prendeu o rei. Ele instalou lá um rei de sua própria escolha, recebeu seu pesado tributo e o enviou para a Babilônia.” Crônica de Nabucodonosor, tablete de argila BM 21946, 597 a.C.
Foto abaixo de um tijolo de barro com escrita cuneiforme acadiana que menciona o nome do Rei Nabucodonosor. Encontra-se exposta no Museu de Arqueologia Bíblica, que fica perto da cidade de Campinas, em São Paulo.
“Eu sou Nabucodonosor, rei de Babilônia, provedor dos templos de Ezágila e Ézida e primogênito de Nebupolasar, rei de Babilônia”.

Tijolo de barro que menciona o Rei Nabucodonosor, exposto no Museu de Arqueologia Bíblica em São Paulo
Nabucodonosor II ainda permite a sobrevivência do reino de Judá, nomeando *Zedequias como rei vassalo à Babilônia. [Zedequias](https://pt.wikipedia.org/wiki/Zedequias) *porém comete o mesmo erro de seu predecessor e permanece aliado ao Império Egípcio, se negando a pagar a vassalagem.
Em 586 a.C., Nabucodonosor II dizima definitivamente Jerusalém, queimando e destruindo tudo, inclusive o fictício Templo de Salomão. Termina também de exilar todo o resto da população judaísta, deixando para trás somente camponeses para trabalhar nas terras.
Escavações no Monte do Templo na atual Jerusalém são terminantemente proibidas pela administração da cidade. Mas muita cinza de madeira e ruínas de pedra de palácios e muralhas foram descobertas nos arredores do Monte, datadas do século VI a.C.

Escavações arqueológicas ao redor do Monte do Templo em Jerusalém
O povo de Judá (Yehudi) foi exilado para assentamentos na Babilônia, sendo o maior deles chamado de *Al-Yahudu* (“A Cidade de Judá” em acádio).
“[Data pelo ano de reinado]… Em Al-Yahudu, [nome do vendedor], filho de [nome do pai], o judeu (Yehudi), falou para [nome do comprador], filho de [nome do pai], por meio de [nome do oficial]: ‘Eu vendi a você minha égua jovem, de [idade], por shekels de prata…’” Tabletes de Al-Yahudu, Império Babilônico, VI a.C.
Longe de sua terra e de seu templo em Jerusalém, os exilados na Babilônia tiveram que reafirmar o que significava ser judaísta. A compilação e a transcrição das tradições orais passou a ser importante para proteger a identidade cultural desse povo.
A religião henoteísta judaica então se fortalece, distinta das religiões cananéis politeístas.
Em 539 a.C., Ciro II, o Grande, Xá e fundador do Império Aquemênida (Persa), invade a Babilônia sem grande resistência devido à sua superioridade numérica.
Os persas, porém, não destroem os povos invadidos, pois acreditam que povos leais e com certa autonomia são mais fáceis de governar e ficam mais produtivos financeiramente.
Ciro emite então um decreto que permite aos povos exilados retornarem às suas terras de origem e reconstruírem suas cidades e seus templos (Édito de Ciro), inclusive com ajuda financeira para tal.
Fotos abaixo do Cilindro de Ciro, escrito em cuneiforme acadiano, exposto no Museu Britânico em Londres, contendo sua propaganda real e suas determinações políticas sobre a invasão da Babilônia.

Cilindro de Ciro libertando do exílio os povos conquistados pela Babilônia
“…[Quanto aos] habitantes de Babel (…), eu aliviei sua condição de servidão e resolvi suas queixas. Devolvi seus deuses às suas cidades sagradas, (…) e eu lhes restaurei moradas permanentes de alegria. Eu reuni todos os seus habitantes e lhes devolvi suas habitações. (…) Além disso, eu resgatei e reassentei, sob o comando de Marduk, o grande senhor, todas as ruínas dessas cidades, assim como todos os prisioneiros que nelas habitavam.” Cilindro de Ciro, Xá do Império Aquemênida Ciro II, 539 a.C.
Origem do Judaísmo
Em 538 a.C., começa gradativamente o retorno do povo judaísta à Judá e a Israel (Retorno a Sião), principalmente pelas elites financeiras que podiam pagar pela viagem de volta.
Os judeus começam então a reconstruir Jerusalém e seu templo sagrado, o qual chamaram de Segundo Templo. De acordo com os artefatos arqueológicos da época, era simples e funcional, construído para ser o centro administrativo, econômico e religioso de Yehud (Judeia). Sua principal função era centralizar o culto e a coleta de impostos para os persas (dízimos e ofertas).
Judá passa a ser uma província pobre e longínqua, vassala do Império Aquemênida. As camadas arqueológicas do período persa em Jerusalém mostram uma cidade pequena e de baixo status, sem grandes construções monumentais.
Os sacerdotes israelitas, principalmente após o retorno a Israel, editam suas tradições religiosas existentes e acrescentam seus próprios textos. O objetivo era criar uma narrativa unificada eficaz, que fornecesse as leis de manipulação de massa necessárias para a sobrevivência da comunidade.
Os persas do Império Aquemênida no entanto influenciam fortemente essas novas leis, o que era henoteísmo em Judá, passa a ser cada vez mais monoteísta, fortalecendo um único deus Yahweh o máximo possível.
A Torá (“תּוֹרָה”, “tōrāh”, que significa “lei”) é então criada como uma compilação de cinco livros sagrados do novo monoteísmo judáico: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
“Pois nós não possuímos miríades de livros inconsistentes, que se contradizem uns aos outros, mas apenas vinte e dois livros [a Bíblia Hebraica], que contêm o registro de todo o tempo passado e que são justamente considerados divinos… e embora tenham se passado tantos anos, ninguém ousou acrescentar, tirar ou alterar nada neles.” Contra Apião, historiador judeu Flávio Josefo, 94 d.C.
Fotos abaixo dos Amuletos de prata de *Ketef Hinnom (KH1 e KH2*), encontrados perto da antiga Jerusalém, escritos em hebraico antigo (paléo-hebraico) e datados do século VII a.C. ou VI a.C.. Eles contêm textos idênticos aos que pertencem até hoje ao Livro de Números da Torá.

Amuletos de Ketef Hinnom contendo trechos iguais aos que formarão o Livro de Números
“Que sejas abençoado por Yahveh, o guerreiro/ajudador e repreendedor do mal; que Yahveh te abençoe, te guarde. Que Yahveh faça seu rosto resplandecer sobre ti e te dê a p[a]z.” KH2, Amuletos de prata de Ketef Hinnom, VII a.C. ou VI a.C.
“O Senhor te abençoe e te guarde; O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; O Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz.” Livro de Números 6:24–26

Cronologia das origens do judaísmo à partir da Dinastia de Omri
A verdade é que a Torá não foi escrita por uma única pessoa como um único texto, como a lenda bíblica diz (que foi escrita por Moisés no Monte Sinai durante o Êxodo do Egito).
Ela é uma compilação de quatro fontes diferentes, escritas em hebraico em épocas diferentes e depois combinadas por escribas (redatores). A Torá atingiu uma forma estável por volta do século V a.C..
Abaixo seguem as quatro fontes da Torá:
— Javista (fonte “J”), século IX a.C., usa o nome YHWH (Javé) para Deus, escrita em Judá. — Eloísta (fonte “E”), século IX a.C., usa a palavra Elohim (“אלהים”) para se referir a deus, derivado do deus El (“אל”) cananeu. Foi escrita no reino de Israel (do norte). — Deuteronomista (fonte “D”), século VII a.C., composta pelo “Livro da Lei” do rei Josias de Judá, transformando Jerusalém na capital sagrada dos israelitas. — Sacerdotal (fonte “P”, de “Priester”, sacerdote em alemão), século VI a.C., escrita por redatores sacerdotais após o exílio babilônico, para corroborar com os textos religiosos já existentes de acordo com a nova doutrina que os interessava pregar.
O Livro de Gênesis, por exemplo, é uma reformulação de lendas mesopotâmicas e cananeias.
Os épicos de *Gilgamesh e de [Enuma Elish](https://pt.wikipedia.org/wiki/Enuma_Elish)* inspiraram a criação do mundo e do homem a partir do caos.
“Quando no alto não se nomeava o céu, e em baixo a terra não tinha nome, do oceano primordial (Apsu), seu pai; e da tumultuosa Tiamate, a mãe de todos, suas águas se fundiam numa, e nenhum campo estava formado, nem pântanos eram vistos; quando nenhum dos deuses tinha sido chamado a existência…” Enuma Elish, poema épico acadiano para a criação do mundo
E o mito sumério do Paraíso de *Dilmun, do casal de deuses Enki e [Ninhursag](https://pt.wikipedia.org/wiki/Ninursague)*, inspiraram a lenda de Adão e Eva, por exemplo.
“A terra de Dilmun é pura… Enki dirigiu seu coração para ela, Para sua esposa Ninhursag ele disse: ‘Sobre o campo úmido, deitei-me com você, Sobre o seu campo úmido, semearei para você.’” Narrativa do Paraíso Sumério, Fragmento do tablete sumério Ni. 2461
Evemerismo religioso
Existe uma vertente naturalista, chamada Evemerismo, que acredita que a grande maioria dos deuses (e também os heróis da humanidade) na realidade foram humanos divinizados em algum momento, por algum motivo. Geralmente por serem nobres reis ou por terem realizado algum grande feito, ou seja, ídolos humanos que começaram a ser cultuados como deuses.
O escritor grego *Evêmero de Messina, inspirador do Evemerismo, especulava que [Zeus](https://pt.wikipedia.org/wiki/Zeus), por exemplo, foi na verdade um rei de Creta, enterrado em uma tumba ([Caverna de Zeus](https://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna_de_Zeus)*) e tudo mais.
“Zeus visitou várias outras nações, e foi publicamente proclamado como deus.” Sacra Historia, escritor grego Evêmero de Messina, século III a.C.

Fotos da Caverna de Zeus, no monte Ida em Creta
Esse evemerismo nunca foi um problema para os egípcios, pois os Faraós eram deuses e governantes humanos ao mesmo tempo, naturalmente.
E consequentemente o evemerismo também não era um problema para os gregos, pois muitos já diziam que os 12 deuses do Olímpo foram apropriados da cultura egípcia. São eles: *Zeus, Hera, Poseidon, Atena, Ares, Deméter, Apolo, Ártemis, Hefesto, Afrodite, Hermes e Dioniso.*
Da mesma forma, os romanos tinham seus correspondentes dos deuses gregos (Mitologia greco-romana). Seguem eles respectivamente: *Júpiter, Juno, Neptuno, Minerva, Marte, Ceres, Febo, Diana, Vulcano, Vénus, Mercúrio e Baco*.

Panteão grego e seus correspondentes romanos
“Em tempos anteriores à existência desses homens, os deuses tinham reinado no Egito e vivido como mortais. Hórus, conhecido entre os gregos pelo nome de Apolo, fora o último desses soberanos do Egito, tendo arrebatado a coroa a Tifão. Hórus era filho de Osíris, a quem chamamos Baco.” Histórias, 430 a.C., do historiador grego Heródoto

Panteões egípcio e grego

Exemplo de associação de deuses entre culturas da antiguidade
Mais antigo ainda que egípcios e gregos, os sumérios também tratavam o evemerismo com naturalidade. O Prisma de Weld-Blundell (ou a Lista de reis da Suméria), é um prisma de argila datado de 1817 a.C., encontrado na antiga cidade de *Larsa (atual Iraque) em 1922, e hoje exposto no [Museu Ashmolean](https://pt.wikipedia.org/wiki/Museu_Ashmolean), em [Oxford](https://pt.wikipedia.org/wiki/Oxford) *na Inglaterra.
Neste prisma encontram-se listados vários reis sumérios e afins, em escrita cuneiforme suméria, divididos pelo período do dilúvio de 2.900 a.C. (reis antediluvianos e pós-diluvianos).
Já se via nesta lista vários nomes lendários e mitológicos, assim como deuses listados como reis. Por exemplo o rei *Ziusudra *(“𒍣𒌓𒋤𒁺”), a deusa *Ishtar (ou Inana, “𒀭𒈹” em sumério) e o deus [Enlil](https://pt.wikipedia.org/wiki/Enlil) (“𒀭𒂗𒆤*”).

Prisma de Weld-Blundell (ou Lista de reis da Suméria) com nome de reis e deuses sumérios juntos
Nesse contexto do Evemerismo, pode-se dizer que é o homem quem projeta seus deuses de acordo com sua própria imagem e semelhança (antropomorfismo).
“Deus não criou o homem à sua própria imagem, foi o contrário”. Deus Não É Grande, escritor britânico Christopher Hitchens, 2007
“A gente O criou inspirado em nós mesmos” Daniel Gontijo, ateu, Ph.D em Neurociência e Psicólogo da Religião, 2025
Exatamente o contrário do que prega a Bíblia (teomorfismo):
“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança;(…) E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” Livro do Gênesis 1:26,27
É muito comum uma religião desdenhar dos deuses das outras religiões alegando evemerismo. Veja o exemplo abaixo do bispo Cipriano de Cartago criticando os deuses romanos no século III d.C.:
“É sabido que aqueles que são adorados pelo povo comum não são verdadeiros deuses, pois eles eram antigos reis que, devido à memória de sua realeza, passaram a ser adorados pelo seu povo mesmo após a morte… Por causa disso, foram erguidos templos em sua homenagem, esculpiram imagens para preservar suas feições através da semelhança, e as pessoas sacrificavam vítimas e celebravam dias festivos em honra a eles… Com o tempo, esses ritos se tornaram sagrados para a posteridade, mesmo que no início tenham sido adotados como consolo.” Cipriano de Cartago, em De Idolorum Vanitate (“A Vaidade dos ídolos”), III d.C.
Assim como é comum pensadores criticarem a religião de seu próprio povo. *Hecateus era um grego e grande estudioso de sua mitologia (mitógrafo) na época da Grécia antiga do século V a.C.. Observe a fala de [Heródoto](https://pt.wikipedia.org/wiki/Her%C3%B3doto), um dos maiores historiadores gregos, reproduzindo [Hecateus](https://pt.wikipedia.org/wiki/Hecateu_de_Mileto)*:
“Hecateus, o Milesiano, fala assim: Escrevo essas coisas como me parecem verdadeiras; pois as histórias contadas pelos gregos são várias e, na minha opinião, absurdas.” Histórias, do historiador grego Heródoto, 430 a.C.
Observe abaixo a imagem da Estátua de Zeus, de 12 metros de altura construída em ouro e marfim. Uma das Sete Maravilhas do mundo antigo, ranqueadas pelo grego *Antípatro de Sídon* no século II a.C..
Ficava localizada na cidade de Olímpia, na Grécia. Foto abaixo da atual ruína que restou do Templo de Zeus, após sua destruição pelos imperadores romanos cristãos.

Antiga Estátua de Zeus em Olímpia e sua atual ruína
Animismo ancestral
Outra vertente religiosa antiga, mas também muito comum, é o Animismo. Do latim “animus”, animismo é o ato de associar humanidade a coisas não humanas, como animais, fenômenos naturais, objetos, etc.
Pode-se dizer que o animismo seria uma boa explicação para os deuses do continente americano na era pré-colombiana, ou os *Orixás (divindades) das religiões [Iorubás](https://pt.wikipedia.org/wiki/Iorub%C3%A1s)* africanas, por exemplo.
“Em muitos casos, deuses parecem ter surgido menos como divinizações de mortais e mais como personificações de fenômenos naturais, normas sociais e ideias abstratas.”
Para os *Iorubás, [Iemanjá](https://pt.wikipedia.org/wiki/Iemanj%C3%A1) seria a orixá do mar e [Oxum](https://pt.wikipedia.org/wiki/Oxum) a orixá dos rios. [Oxóssi](https://pt.wikipedia.org/wiki/Ox%C3%B3ssi) o orixá das matas e [Xangô](https://pt.wikipedia.org/wiki/Xang%C3%B4) *do trovão, e por aí vai. Foto abaixo com figuras humanizadas dos orixás africanos feitas pelo escultor Tatti Moreno, expostas no Dique do Tororó em Salvador.

Esculturas de Orixás de Tatti Moreno, no Dique do Tororó em Salvador
Os *Iorubás são um dos maiores grupos étnicos da África subsaariana, povos da região [Ìlẹ-Yorùbá](https://pt.wikipedia.org/wiki/Iorubal%C3%A2ndia) (atual Nigéria e entornos) e da antiga e atual cidade de [Ifé](https://pt.wikipedia.org/wiki/If%C3%A9), desde o século VII a.C. (e posteriormente parte do grande [Império de Oió](https://pt.wikipedia.org/wiki/Imp%C3%A9rio_de_Oi%C3%B3)* no século XV).
Para os Iorubás, o deus supremo é *Olodumarê, mas eles também cultuam [Orixás](https://pt.wikipedia.org/wiki/Orix%C3%A1) (divindades da natureza). Muitos desses orixás são naturalmente humanos e deuses ao mesmo tempo. No Candomblé e na Umbanda (religiões afro-brasileiras derivadas tanto do Iorubá *como de outras etnias) dizer que uma pessoa é filho de Xangô, por exemplo, significa dizer que ela carrega as características e a influência desse orixá.
O ato de um homem tornar-se um deus (apoteose) é um conceito muito comum nas religiões politeístas antigas.
Oxóssi (“Ọ̀ṣọ́ọ̀sì” em Iorubá) era um humano e também um orixá. Era um caçador da antiga e atual região de *Ketu, no Benin, reverenciado até hoje como um grande caçador e rei, habitante de Ketu (“Àrà Kétu”, ou Araketu em Iorubá*).
Oxumarê (“Òṣùmàrè”, que significa arco-íris em Iorubá) era um sacerdote (“bàbáláwo”, babalaô em Iorubá), de acordo com seu *Itã (“Ìtàn”, conto em Iorubá*) e também um orixá poderoso, da transformação e da renovação.
A imagem à esquerda é de um *Ifá (oráculo Iorubá), com o jogo de adivinhação de [iquim](https://pt.wikipedia.org/wiki/Iquim) (noz do dendezeiro) jogado em cima do [Opom-ifá](https://en.wikipedia.org/wiki/Opon_If%C3%A1) *(tábua do oráculo).
A imagem à direita é o busto *Ori Olokum, possivelmente de [Oduduwa](https://pt.wikipedia.org/wiki/Odudua), rei ([Ooni](https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_governantes_de_If%C3%A9)) de [Ifé](https://pt.wikipedia.org/wiki/If%C3%A9) e uma das principais divindades Iorubás*, datado do século XIV d.C. e exposto no Museu Britânico.

Ifá (Oráculo Iorubá) e o busto (Ori Olokum) de um Ooni, rei divino de Ifé, exposto no Museu Britânico
A relíquia religiosa mais antiga já encontrada data de 35 a 41 mil anos de idade (período Paleolítico Superior). É uma escultura feita de marfim de mamute, chamada Homem-Leão, e um possível exemplo de animismo religioso (deus zoomórfico). Foi encontrada em 1939 na Alemanha e então doada ao Museu de *Ulm*.

Escultura Homem-Leão encontrada na atual Alemanha, de mais de 35 mil anos de idade
Reis divinos
“O monarca reina por vontade de Deus.” “Per me reges regnant” (“Os reis reinam por Mim”, em latim) Direito Divino dos Reis, crença pregada durante o reinado francês de Louis XIV
Ninguém melhor que os egípcios antigos para endeusar um monarca. Pelo menos desde a Primeira Dinastia Egípcia (3200 a.C.) até a invasão do Egito pelo Império Romano (30 a.C.) os governantes supremos do Egito eram designados Faraós.
Faraós (do latim “pharăo-onis”, que significa “a grande casa” e em copta: “ⲡⲣ̅ⲣⲟ”) eram os reis do Egito antigo, que tinham também o status de deuses. Mais precisamente eram encarnações do deus *Hórus *na Terra.
Os egípcios também acreditavam plenamente na vida após a morte, sendo grandes especialistas em rituais de mumificação. Embalsamavam o corpo físico para que sua alma (*ka*) o reencontre após sua morte. Nobres e ricos tinham o privilégio da mumificação, mas os sarcófagos faraônicos eram o auge da arquitetura egípcia antiga.
As Grandes Pirâmides com sua Esfinge guardiã, construídas entre 2600 e 2500 a.C, localizadas no planalto de *Gizé, próximo a cidade do Cairo, é o grande símbolo dessa [crença post mortem](https://pt.wikipedia.org/wiki/Vida_ap%C3%B3s_a_morte) e do poderio do Faraós egípcios. Três complexos funerários para três grandes faraós: [Quéops](https://pt.wikipedia.org/wiki/Pir%C3%A2mide_de_Qu%C3%A9ops), [Quéfren](https://pt.wikipedia.org/wiki/Pir%C3%A2mide_de_Qu%C3%A9fren) e [Miquerinos](https://pt.wikipedia.org/wiki/Pir%C3%A2mide_de_Miquerinos)*.
A Grande Pirâmide de *Quéops *é a única das Sete Maravilhas do mundo antigo que foi capaz de resistir ao tempo, devido à tamanha engenhosidade e inteligência egípcias, totalmente dedicadas a seus reis divinos.

Necrópole de Gizé no Egito
O Homo sapiens surgiu na África por volta de 300.000 a 200.000 anos atrás. De lá pra cá, houve pouca evolução cognitiva em nossas características humanas. Nossa evolução se concentra em sua maioria em nossa cultura e em nosso comportamento.
Nesse contexto, afirmar que feitos altamente impressionantes de nossos antepassados, como as pirâmides maias e egípcias, por exemplo, não possam ter sido construídos por eles mesmos, desacreditando de sua inteligência, recursos e habilidades técnico-científicas, e insinuar que essas genialidades foram feitas por seres extra-terrestres, por exemplo, é de certa forma um desrespeito preconceituoso contra esses povos, que tinham o cérebro quase que idêntico ao nosso de hoje.
A mentalidade de cada povo pode mudar radicalmente com o tempo, com a localidade, com a cultura, etc.. Com isso todo o comportamento e o legado de uma civilização podem ficar bastante incompreensíveis quando estudados por estrangeiros. Cabe ao pesquisador empatizar com um povo antes de tentar entendê-lo.
Apesar de *Tutancâmon *não ter sido um dos faraós mais relevantes do antigo Egito (governou de 1332 a.C. a 1323 a.C. e faleceu aos 18 anos de idade), sua tumba é uma das mais famosas por ter sido encontrada praticamente intacta em 1922, no Vale dos Reis, perto da atual cidade de Luxor no Egito. Estima-se que a tumba continha mais de 5000 objetos em um total de 225 kg de ouro, sendo só sua máscara mortuária possuindo mais de 10 kg de ouro.
A tumba número 62 (*KV62), com o sarcófago e a múmia do [rei Tut](https://pt.wikipedia.org/wiki/Tutanc%C3%A2mon)*, permanecem expostos no Vale dos Reis até hoje, e sua máscara de ouro maciço encontra-se no Museu Egípcio do Cairo.

Vale do Reis com a tumba KV62, do rei Tut

Tumba do jovem rei Tutancâmon encontrada intacta no Vale do Reis
Uma adaga com cabo de ouro e um altíssimo teor de níquel no ferro de sua lâmina também foi encontrada na tumba, comprovando um material oriundo de meteorito metálico. A fundição de ferro naquela época, Idade do Bronze, custava mais caro do que o próprio ouro.

Adaga de ferro meteórico de Tutancâmon
Todo esse custo, tanto material quanto humano, foi gasto na antiguidade para nunca ser acessado por absolutamente ninguém da população egípcia. Eles realmente acreditavam que toda essa riqueza seria usada pelo próprio Faraó no reino subterrâneo dos Mortos (*Duat), para onde o deus do Sol, [Rá](https://pt.wikipedia.org/wiki/R%C3%A1)*, viaja durante a noite.
Para os egípcios, as pirâmides não eram só túmulos, eram portais para o céu e para as estrelas, onde moravam os deuses. Para eles, a vida eterna após a morte do corpo físico era muito mais importante do que a breve passagem do ser humano pela Terra.
Monoteísmo
A partir do século VIII a.C. acontece um grande salto evolutivo em várias civilizações do mundo antigo, a chamada Era Axial. Foi quando surgiu o profetismo judaico na Cananeia, com os profetas Miqueias e Isaías, por exemplo.
Logo depois surge o Budismo na Índia, o Confucionismo e o Taoísmo na China, e o Zoroastrismo monoteísta na Pérsia, todos no século VI a.C..
E posteriormente, no século V a.C., surge então na Grécia a Metafísica de Sócrates, Platão e Aristóteles.
A ideia de uma religião simplificada, com um deus único e poderoso (monoteísmo), começou com um profeta chamado *Zaratustra (ou Zoroastro* em grego), fundador do Zoroastrismo, no antigo Império Persa (atual Irã), por volta de 600 a.C..
O Zoroastrismo foi influenciado pelo hinduísmo, politeísta, com seus livros dos Vedas.
Mas o politeísmo, com seus muitos deuses, é confuso e moralmente relativo. Zaratrusta resolveu reformular a religião indo-iraniana demonizando os deuses hindus (devas) e encontrando em *Ahura Mazda *(“Senhor Sábio”) um princípio unificador.
Zaratustra criou também um dualismo religioso, com conceitos de paraíso e inferno conflitantes, o “Bem versus o Mal” como uma característica da religião.

Zoroastrismo persa
Segue abaixo do lado esquerdo, um selo sumério contendo os *Anunnakis e o deus alado [Assur](https://pt.wikipedia.org/wiki/Assur_(deus)).*
Observe as semelhanças visuais com o deus da imagem do lado direito, um alto relevo de *Ahura Mazda, o deus do bem do Zoroastrismo, datada de 500 a.C., localizado no Portão de Todas as Nações nas ruínas de [Persépolis](https://pt.wikipedia.org/wiki/Pers%C3%A9polis), atual cidade de Marvdasht *no Irã.

Deus alado Assur, da antiga Assíria, e ao lado o deus Ahura Mazda, do Zoroastrismo
Apesar do judaísmo (com seus mais de 3000 anos de idade) ser mais remoto que o zoroastrismo, os antigos hebreus não eram totalmente monoteístas. Eles eram na verdade henoteístas, ou seja, cultuavam um deus único, *Yaweh ou El, mas sem negar a existência de outras divindades, como Baal, Aserá, Ishtar, Mot*, etc..
Os povos persas da antiga dinastia Aquemênida, sob o comando de Ciro II, o Grande, avançaram sobre o Crescente Fértil, invadiram os territórios desde a Babilônia, na Mesopotâmia, até os povos hebreus na Palestina, na província de *Yehud *(antiga Judeia), no século VI a.C..
Desde então, o judaísmo antigo e os semitas do passado começaram a sofrer uma grande influência da cultura persa oriental.

Invasão do Império persa sobre a Babilônia indo até a Judeia em Gaza
Vários dos conceitos do profeta *Zaratustra (ou Zoroastr*o) começaram a ser apropriados pelo henoteísmo judaico, que gradativamente passou a ser um monoteísmo.

Profeta Zaratrusta do Zoroastrismo persa
Séculos depois, este monoteísmo derivou outras religiões, como o cristianismo (500 anos depois) e o islamismo (1000 anos depois).
“O homem é algo que deseja ser superado” conceito de Übermensch (ou “Além-do-humano”), descrito por Friedrich Nietzsche em “Assim falou Zaratustra”, 1885
Abaixo estão alguns dos conceitos da religião judaica, e da posterior religião cristã, que não existiam na Torá, e que só começaram a aparecer após a influência do Zoroastrimo sobre os hebreus:
— dualismo cósmico exacerbado (luta do bem vs. o mal) — livre arbítrio e culpa — crença em anjos e demônios, — Deus menos antropomórfico ou humano, mais impecável e perfeito — personificação da figura de Satanás, adversário que concentra todo o mal — conceito de paraíso e inferno — ressurreição dos mortos — apocalipsismo, escatologia e o conceito de Juízo final — expectativa de um salvador (Messias)
Dualismo demoníaco
A palavra “שָׂטָן” (“shaatan” em hebraico) que aparece várias vezes na Torá deveria ser traduzida simplesmente como “adversário”. Mas com a influência zoroastrista no judaismo, posteriormente esta palavra passa a sofrer demonização e começa a ser traduzida como “Satanás” ou diabo.
Exemplo abaixo de um versículo do Antigo Testamento em que a palavra “adversário” (“שָׂטָן”, “shaatan”) é usada para qualificar um anjo do bem (do Senhor) e não um demônio, por exemplo.
“חָרָה אַף אֱלֹהִים הָלַךְ מַלאָךְ יְהוָה יָצַב דֶּרֶךְ שָׂטָן רָכַב אָתוֹן שְׁנַיִם נַעַר” (hara af elohim halach mila’ach yehiva yatzav daerech shaatan rachav aton shuinim na’ar) “A ira de Deus se acendeu, e o anjo do Senhor saiu para bloquear o caminho por adversário, montado num jumentinho.” Livro dos Números 22:22
Segue abaixo (à esquerda) imagem de Zoroastro à frente de dois demônios, contida no livro medieval *Secretum secretorum*, um tratado enciclopédico árabe do século X, hoje acervo da Biblioteca Britânica.
Observe as semelhanças com a imagem à direita, de Satanás (do hebraico “shaatan”, ou “adversário”), contida no manuscrito boêmio cristão chamado *Codex Gigas*, do século XIII (criado teoricamente pelo próprio diabo), hoje em posse da Biblioteca Nacional da Suécia em Estocolmo.

Imagem de Zoroastro com dois demônios, e ao lado imagem antiga do Satanás cristão
“O inferno é uma invenção e nem é original. Cada povo criou o seu, os sumérios e babilônicos já falavam de um mundo inferior, onde os mortos viviam em sombra e poeira, sem punição, mas em sofrimento passivo. (…) Não é um medo espiritual, é um medo político, social e cultural. É uma ferramenta de dominação e controle. O cristianismo foi criado depois de todas essas religiões, ele herdou, adaptou e refinou essas ideias. No começo nem a própria Bíblia falava do inferno como você aprendeu.” Aline Câmara, psicóloga e ex-evangélica
O quadro abaixo se chama “*La voragine infernale” (ou “La Mappa dell’Inferno”), pintado por [Sandro Botticelli](https://pt.wikipedia.org/wiki/Sandro_Botticelli) em 1480 e exposto na Biblioteca Apostólica Vaticana. Retrata as 9 camadas do inferno descritas por [Dante Alighieri](https://pt.wikipedia.org/wiki/Dante_Alighieri)* no século XIV, em seu poema épico chamado “A Divina Comédia”. E abaixo um fragmento ampliado do quadro.

Quadro La voragine infernale (La Mappa dell’Inferno), de Sandro Botticelli, Biblioteca Apostólica Vaticana
Dante descreve o inferno como era cultuado na Idade Média, onde o universo era formado por círculos concêntricos. Nove Círculos, Três Vales, Dez Fossos e Quatro Esferas.
O inferno foi criado pela queda de Lúcifer do Céu. Lúcifer teria caído em Jerusalém, a Terra Santa, onde está o Portal do Inferno. O inferno torna-se mais profundo a cada círculo, os pecados menos graves estão no início, em cima, e os mais graves no final.
“Por mim se vai à cidade dolente, por mim se vai à eterna dor, por mim se vai entre a perdida gente.
Justiça moveu o meu alto feitor; fez-me a divina potestade, a suma sapiência e o primeiro amor.
Antes de mim não foram coisas criadas senão eternas, e eu eterna duro. Deixai toda esperança, vós que entrais.” (Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate.)
“Aqui chegamos ao lugar, do qual antes te falei, onde encontraríamos as almas sofredoras que já perderam seu livre poder de arbítrio. (…) Logo que entrei ouvi gritos terríveis, suspiros e prantos que ecoavam pela escuridão sem estrelas. Os lamentos eram tão intensos que não me contive e chorei. Gritos de mágoa, brigas, queixas iradas em diversas línguas formavam um tumulto que tinha o som de uma ventania.” Inferno (Divina Comédia), Dante Alighieri, século XIV
“No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise.” Dante Alighieri
Na verdade a palavra Lúcifer vem do latim “lux ferre” (“carregar a luz”), ou seja, Lúcifer nunca foi um demônio nem um anjo caído, mas sim um “Portador da Luz”. Um símbolo de esperança, de renascimento diário, de vitória da luz sobre a escuridão, de chegada de um novo dia; associado na antiguidade à ordem, previsibilidade, beleza, pureza, iluminação, etc.
Da mesma forma que os gregos chamavam o planeta Vênus (Estrela D’alva) de “*Phosphorus” (“Φωσφόρος”, ou “Portador da Luz” em grego), porque esse planeta sempre aparece no céu por volta do nascer ou do pôr do Sol. Era o filho da deusa romana [Aurora](https://pt.wikipedia.org/wiki/Aurora_(mitologia)) (ou [Eos](https://pt.wikipedia.org/wiki/Eos), para os gregos), a deusa do amanhecer. Sua missão era cruzar o céu todas as manhãs para anunciar a chegada do Sol, do carro de [Febo](https://pt.wikipedia.org/wiki/Febo) (ou [Apollo](https://pt.wikipedia.org/wiki/Apolo)*).

Lúcifer e a Estrela D’Alva, os Portadores da Luz
Mas durante a tradução da Bíblia do grego para o latim (*Vulgata*), no século IV d.C., os Padres da Igreja demonizaram o planeta Vênus (a Estrela da manhã) e o transformaram no diabo usando o termo Lúcifer.
O versículo 12, do capítulo 14 do Livro de Isaías, é uma profecia sobre a queda do rei da Babilônia (provavelmente *Nabucodonosor II), pessoa odiada pelos judeus por tê-los destruído e exilado. O profeta bíblico se referia ao termo Eosforos (ou Phosphorus) como sendo a “estrela da manhã” que cai, assim como cairá o rei da Babilônia. E na tradução da Bíblia para o latim, o termo usado foi “lucifer” (de “lux ferre*”, “portador da luz”).
“πωϲ εξεπεϲεν εκ του ουρανου ο εωϲφοροϲ ο πρωϊ ανατελλων ˙ ϲυνετριβη ειϲ την γην · αποϲτελλων ειϲ παντα τα εθη” (pos exepesen ek tou ouranou o eosforos o proï anatellon ˙ synetrivi eis tin gin : apostellon eis panta ta ethi)
“Assim como a estrela da manhã caiu do céu, ela caiu na terra e permaneceu lá por todos os anos.”
Tradução para o latim (Vulgata): “quomodo cecidisti de caelo lucifer qui mane oriebaris corruisti in terram qui vulnerabas gentes”
Livro de Isaías 14:12
E foi assim que os cristãos passaram a utilizar esses termos Lúcifer e Estrela da Manhã (D’alva) como o nome próprio para o anjo caído do céu, num contexto extremamente pejorativo.
Uma outra interpretação interessante para o demônio foi dada por Freud, que o compara à imagem de um pai, que pode ser ao mesmo tempo bom e mau para um filho. A paternidade personificada tanto por Deus quanto pelo diabo ao mesmo tempo.
“Se o Deus benevolente e justo é um substituto do pai, não é de admirar que também sua atitude hostil para com o pai, que é uma atitude de odiá-lo, temê-lo e fazer queixas contra ele, ganhe expressão na criação de Satã. Assim, o pai, segundo parece, é o protótipo individual tanto de Deus quanto do Demônio.” O futuro de uma ilusão, psicanalista austríaco Sigmund Freud, 1927

Sigmund Freud e sua análise sobre a estrutura patriarcal do diabo
Sociologia da religião
“Deus não é inato.”
Ninguém nasce com religião, ela é ensinada pela sociedade desde a infância do indivíduo (Sociologia da religião).
Da mesma forma que nenhuma religião existe isoladamente e nem foi criada a partir do absoluto nada. As religiões são construídas pela cultura de seu povo como uma colcha de retalhos vinda de outras religiões.
Um grande exemplo são as culturas, etnias, línguas e religiões, tanto da Grécia quanto da Roma Antiga e também da Pérsia e da Índia, que têm um grande ancestral em comum denominado indo-europeu.
Os antigos indo-europeus viviam pela Ásia e Europa na Idade do Bronze (3600 a.C. a 1200 a.C.). Derivaram várias línguas da atualidade, tão diversas quanto Português, Inglês, Russo, Grego, Hindi, Persa e Gaélico, por exemplo.
Começaram a surgir aproximadamente entre 4500 e 2500 a.C.. Eram pastores semi-nômades patriarcais e politeístas, que cultivavam animais, incluindo cavalos. **Dyēus ph₂tēr* era o deus líder de seu panteão.

Povos indo-europeus da Idade do Bronze
Por volta de 3000 a.C., saíram das Estepes pôntica-cáspias (ao norte do Crescente Fértil) e migraram para a Europa, formando os povos *Hititas *da Anatólia (na atual Turquia) e depois os gregos, latinos, celtas, germânicos e eslavos.
E também migraram para a Ásia, formando os povos iranianos (persas, curdos, etc.) e hindus (por volta de 1500 a.C.), criando os textos dos Vedas e chegando até a atual China.

Surgimento dos Indo-europeus vindos das Estepes pôntica-cáspias
Vários são os artefatos que evidenciam essa ancestralidade. Vamos exemplificar aqui uma evidência linguística característica na evolução das línguas indo-europeias. Observe como as palavras “mãe” e “pai”, por exemplo, se distinguiam na antiguidade:
— “Mater” e “Pater”, no latim da Roma Antiga — ”Méter” (“μήτηρ”) e “Patér” (“πατήρ”), no grego antigo — ”Mātar” (“𐎡𐎠𐎫𐎠”) e “Pitar” (“𐎹𐎠𐎫𐎠𐎼”), no persa antigo — ”Mātr.” (“मातृ”) e Pitr. (“पितृ”), no sânscrito da Índia Antiga
Compare essas mesmas palavras com as línguas da América pré-colombiana, onde “pai” em Tupi Antigo seria “tuba”, e em Maia Antigo seria “yum”, por exemplo. Ou com a língua africana *Iorubá, onde “mãe” é traduzido como “ìyá” e “pai” é “bàbá*”. Perceba que já não existem as mesmas semelhanças das heranças indo-europeias.
Já a palavra Deus tem diferentes conotações nas religiões monoteístas e politeístas. Veja os exemplos para as religiões indo-europeias politeístas:
— *Zeus, em grego (deus do céu, do raio, da tempestade). Também referenciado como “Dzeus-Patér” na Grécia Antiga (“Ζεῦ πάτερ*”)
— *Júpiter (como Zeus era chamado na Roma Antiga), em latim antigo “Iu-Piter” (também usado “Dis Pater” ou “Deus Pater*”)
— Dyaus Pitr., em sânscrito antigo, da Índia, (“Dyàuṣpítaḥ”, “द्यौष्पितः”)
— [Dyḗus Phtḗr](https://en.wikipedia.org/wiki/Dy%C4%93us)*, “pai celestial” na língua proto-indo-europeia, que teoricamente originou as demais palavras acima.

Raízes indo-européias das línguas latinas, gregas, persas e hindus
A palavra Deus em português e em latim, da Bíblia Hebraica monoteísta, tem origem grega, que por sua vez tem origem indo-europeia.
Assim como a palavra “God” em inglês, que tem origem proto-germânica, que por sua vez tem origem proto-indo-europeia. A forma reconstruída de “God” é “*gudą”, que significa “o que é invocado” ou “aquilo a que se faz libação/sacrifício”.
Os escribas, nos manuscritos antigos vindos das Fontes Eloístas (fontes “E”), usavam muito a palavra *Elohim (“אֱלֹהִים”) que significa deus ou deuses em hebraico antigo, tanto no plural quanto no singular. E usavam também a palavra [Adonai](https://pt.wikipedia.org/wiki/Adonai) (“אֲדֹנָי”*), que se traduz do hebraico como “Senhor”.
A palavra Elohim deriva da religião cananéia, da antiga *Canaã (atual Israel e entornos). Era uma religião politeísta e tinha [El](https://pt.wikipedia.org/wiki/El_(mitologia)) (“אל”, o criador) como seu principal deus durante a Idade do Bronze (2000 a.C. e 1200 a.C). Inclusive a palavra Israel (“יִשְׂרָאֵל”, Yisra’el) é um nome teofórico, ou seja, faz alusão à palavra deus (“el*”) e significa “aquele que luta com Deus”.
Quando os hebreus passaram a ter contato com povos de língua grega, eles traduziram a palavra “*Elohim” para “theós” (“θεὸς*”), que significa “divindade” em grego antigo.
Mas o interesse na tradução dos texto judaicos para as demais línguas só aconteceu após o advento do cristianismo.
Na tradução da Bíblia Hebraica para o latim, nos primórdios do Cristianismo, os escribas então escolheram a palavra “Deus”, para traduzir a palavra “Elohim” (“אֱלֹהִ֑ים”), derivada da palavra “Zeus” grega (que pronuncia-se “dzeus”).
A palavra “God” (do inglês antigo “Gōd”) também já existia como termo para uma divindade suprema da religião anglo-saxã.
Quando missionários cristãos chegaram à Inglaterra (em 597 d.C.), eles ressignificaram a palavra nativa “God” como sendo também o Deus cristão (interpretatio germanica).
Enquanto as línguas latinas herdaram o nome do “deus do céu” (Júpiter) para designar o Deus cristão, as línguas germânicas usaram um termo mais funcional (“God”), ligado ao rito de adoração em si.
Veja abaixo as traduções para o primeiro versículo da Bíblia, o Gênesis 1:1.
— em português: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”
— em hebraico antigo: “בְּרֵאשִׁ֖ית בָּרָ֣א אֱלֹהִ֑ים אֵ֥ת הַשָּׁמַ֖יִם וְאֵ֥ת הָאָֽרֶץ׃” (B’reshit bara Elohim et hashamayim ve’et ha’aretz)
— em grego antigo: “Ἐν ἀρχῇ ἐποίησεν ὁ θεὸς τὸν οὐρανὸν καὶ τὴν γῆν” (En arché epoiésen ho theós ton ouranon kai tén gén”)
— em Latim: “In principio creavit Deus cælum et terram”
— em Inglês: “In the beginning God created the heaven and the earth”
Livro dos Gênesis 1:1
Teoricamente, uma “evolução natural” da religião de um povo começaria no Animismo (que atribui divindade a objetos e fenômenos naturais), então evoluiria para um politeísmo Evemerista (onde deuses geralmente são heróis e reis do passado), então seguiria para um Naturalismo Religioso (onde se crê que a natureza na verdade é a explicação para os fenômenos sobrenaturais) e então seguiria para uma união holística entre Ciência e espiritualidade, onde os conhecimentos científico e espiritual seriam a resposta para o que acontece na realidade do Universo.
Da mesma forma que primeiro houve a Evolução Cósmica do Universo, depois a Evolução Biológica da vida na Terra e agora estamos na era da Evolução Cultural da humanidade. Ou seja, adaptabilidade é fundamental.
As religiões (e qualquer outra área) que insistem no Fixismo (ideia de que a vida é imutável e que as coisas vão permanecer eternamente como são desde quando foram criadas) vão ficando obsoletas e acabam sendo substituídas por culturas mais evoluídas.
“Não faz sentido pensar que existe um passado que poderíamos ter agora.” Filosofia alemã Zeitgeist (“espírito do tempo”), filme estadunidense, 2007
“Eternos são os não-feitos, dos quais os filhos (as manifestações), em seu próprio mundo e no transcendental, são [gerados e sustentados].” Atharvaveda 11:1:1, livro sagrado do hinduísmo, sobre a importância da mudança
“Supõe, ó monges, um homem que desce um rio montanha abaixo, rápido e fluente, carregando tudo consigo. Um homem com boa visão, parado na margem, ao vê-lo, diria: ‘Bem vai esse homem, levado pela correnteza!’ Assim também, monges, o comum dos homens… é levado pela correnteza da existência.” Samyutta Nikaya 15.3, livro das escrituras budistas
Dinastia dos Hasmoneus
Desde a Idade do Bronze, por volta de 3000 a.C., povos minóicos, helenos, e então micênicos, já habitavam a região do Mar Egeu, ao redor da antiga Grécia (Civilização Egéia).
E através da união de diferentes comunidades (sinecismo), os gregos criaram as cidades-estado gregas (*pólis*) como Atenas, Esparta, Corinto e Tebas, por exemplo.

Antigos povos gregos que habitavam a região do Mar Egeu (Civilização Egéia)
Nesse mesmo tempo, o povo latino (em geral pastores e agricultores), também descendentes dos indo-europeus, também se assentavam na península itálica, por volta de 1500 a.C..
E também através do sinecismo entre latinos, sabinos e etruscos, por volta do século VIII a.C., eles criaram a cidade de Roma na região do Lácio, às margens do Rio Tibre, e em volta de sete colinas (sendo o monte Palatino a mais central delas).

Imagem esquemática das colinas da Roma antiga às margens do Rio Tibre
Em 356 a.C., nasce Alexandre III, o Magno, no reino da Macedônia, na antiga Grécia continental, vassalo das cidades-estado gregas da época.
Em 338 a.C., na Batalha de *Queroneia, seu pai [Filipe II](https://pt.wikipedia.org/wiki/Filipe_II_da_Maced%C3%B3nia) domina as principais cidades-estados gregas, consolida o Império Macedônio na península do [Peloponeso](https://pt.wikipedia.org/wiki/Peloponeso)*, e dá início ao Período Helenístico, onde a cultura grega se expande pelas civilizações da Ásia e do norte da África.
Alexandre assume o trono em 336 a.C. aos 20 anos de idade, quando Filipe é assassinado em *Égas*, na Grécia.

Mosaico antigo de Alexandre III, o Magno
Alexandre herda o imperialismo de seu pai e em 334 a.C. avança sobre a Ásia derrotando o Império Aquemênida, da Pérsia. Ele invade a Ásia Menor e a Mesopotâmia (incluindo Israel e a Judéia), invade o Egito e é coroado como Faraó, funda Alexandria, e avança até os limites da Índia.
Em 330 a.C. Dário III, rei da Pérsia, morre assassinado e Alexandre assume também o trono desse imenso império.

Domínio de Alexandre após 330 a.C., indo da Macedônia até a Índia
Após a morte de Alexandre em 323 a.C., o Império Macedônico entra em colapso (Guerras dos Diádocos). O Egito fica sob o governo do general *Ptolomeu I *, que desenvolve a cidade de Alexandria e dá início à Dinastia Ptolomaica.
A provinciana Judéia, assim como Israel, Síria e Babilônia ficam formalmente sob o controle do oficial macedônio *Seleuco Nicator*, mas na prática essa região fica abandonada (Império Selêucida).
Por isso, em 312 a.C., na Batalha de Gaza, Ptolomeu I avança seu domínio sob a Palestina e a Síria (*Celessíria*) e as domina.

Divisão do Império Macedônio após as Guerras dos Diádocos
E assim, durante o período helenístico, a Judéia fica vassala tanto do Egito quanto do Império Selêucida da Pérsia e da Síria.
Enquanto o Império Macedônio lutava entre si, a República Romana emergia na Europa. Roma já dominava toda a península itálica, e começou a avançar sobre Cartago, no norte da África (Guerras Púnicas de 264 a.C. a 146 a.C.).
A Macedônia, sob o rei *Filipe V*, aliou-se a Cartago durante a Segunda Guerra Púnica (215 a.C.), se tornando a próxima ameaça de Roma. Começam então as Guerras Romano-Macedônicas (214 a.C. a 148 a.C.).
Em 197 a.C., o exército romano derrota a falange macedônia na Batalha de *Cinoscéfalos, e em 196 a.C., o cônsul e general de Roma [Tito Flaminino](https://pt.wikipedia.org/wiki/Tito_Qu%C3%ADncio_Flaminino)* proclama a “Liberdade dos Gregos” nos Jogos Ístmicos, onde, estrategicamente, não anexa os povos dominados, mas os transforma em um protetorado vassalo à Roma.
Mas em 168 a.C., na Batalha de *Pidna*, Roma abole definitivamente a monarquia macedônia e divide o território em quatro repúblicas dependentes de Roma.
Ao mesmo tempo (188 a.C.), Roma também estava derrotando o Império Selêucida na Ásia (Guerra romano-selêucida).
Resumindo, desde o domínio egípcio antes do primeiro milênio da Era Comum, esses foram os povos que invadiram e dominaram a Terra Santa dos judeus: Assírios (722 a.C.), Neobabilônios (586 a.C.), Persas/Aquemênidas (538 a.C.), Gregos/Helenísticos (332 a.C.), Dinastia Ptolemaica Egípcia (301 a.C.), Dinastia Selêucida/Síria (198 a.C.), Período Hasmoneu e independência da Judéia (140 a.C.), e então os Romanos (em 63 a.C.).
Devido às constantes tentativas de helenizar o Templo de Jerusalém por parte dos gregos, e devido ao enfraquecimento dos impérios Macedônio e Selêucida, em 167 a.C. o sacerdote hasmoneu chamado *Matatias e seus cinco filhos, os [Irmãos Macabeus](https://pt.wikipedia.org/wiki/Macabeus) (“irmãos martelo”), integrantes de um exército rebelde judeu, lideram com sucesso a [Revolta dos Macabeus](https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolta_Hasmoniana) *e declaram independente a pequena Judéia, iniciando a Dinastia dos Hasmoneus, uma teocracia.
“Naquele tempo, Matatias, um sacerdote que era filho de João e neto de Simeão e que pertencia ao grupo de sacerdotes de Joiarib, saiu de Jerusalém e foi morar em Modin. Matatias tinha cinco filhos: João, também chamado Gadi; Simão, também chamado Tassi; Judas, também chamado Macabeu; Eleazar, também chamado Avaran, e Jónatas, também chamado Afus. Matatias viu todas as abominações em Judá e em Jerusalém, e disse: «Ai de mim! Por que nasci para ver tudo isto, para ver a destruição do meu povo e da cidade santa? Por que estou a morar aqui, se a cidade caiu nas mãos do inimigo e o templo caiu nas mãos de soldados estrangeiros? O templo parece um homem humilhado; os belos objetos usados no seu culto foram roubados e levados. As crianças de Jerusalém foram mortas nas ruas, os jovens foram mortos pelas espadas do inimigo. Que nação não se apropriou desta herança e não dominou sobre os recursos deste reino? Todos os seus belos enfeites foram roubados; ela perdeu a sua liberdade e agora é uma escrava. Olhem para o nosso santuário: perdeu a sua beleza e a sua glória! Ficou desolado! Os pagãos profanaram-no!” Primeiro Livro dos Macabeus 2:1–12
“Ora, quando Judas (o Macabeu) reuniu o povo, e preparou tudo para os sacrifícios, e para oferecer a Deus, o serviço que era costumeiro, limpou o Templo, e os judeus se alegraram e se regozijaram, e celebravam a festa por oito dias, e queimaram incenso, e acenderam as lâmpadas, e ofereceram sacrifícios de paz. E todos eles se regozijavam por verem o Templo, após tanto tempo, restaurado ao seu estado original”. Antiguidades Judaicas, historiador judeu Flávio Josefo, 94 d.C.
Em 161 a.C., o general judeu *Judas Macabeu* firma um tratado de amizade com o Senado Romano (Tratado Romano-Judaico).
“Ora, Judas, tendo ouvido falar da reputação dos romanos — que eles eram muito poderosos e bem dispostos para com todos os que se aliassem a eles, e que ofereciam amizade a todos os que a eles recorressem — resolveu entrar em contato com eles para estabelecer uma aliança de amizade e assistência mútua. (…) O decreto do senado concernente a uma liga de assistência e amizade com a nação dos judeus. Que em nenhum tempo será permitido a alguém passar através de seus domínios, ou dos de seus aliados, com armas, para lhes fazer mal. Que se alguma nação declarar guerra contra os judeus, os romanos os auxiliarão, conforme o exigir a ocasião. E que, da mesma forma, se alguma guerra for movida contra os romanos, os judeus lutarão ao seu lado. (…) Tais foram os termos do juramento que fizeram e da aliança que concluíram. E este decreto foi gravado em placas de bronze, que foram enviadas a Jerusalém, para que ali servissem para os judeus de memorial da aliança e do juramento que haviam feito.” Antiguidades Judaicas, historiador judeu Flávio Josefo, 94 d.C.
Essa vitória da Judéia contra a Grécia e o Império Selêucida, principalmente por causa do sacerdote herói *Matatias, é comemorada até hoje pelos judeus na festa chamada [Hanukkah](https://pt.wikipedia.org/wiki/Chanuc%C3%A1), utilizando a vela do meio da [Chanukiá](https://pt.wikipedia.org/wiki/Chanuki%C3%A1) (um tipo de candelabro, “[menorah](https://pt.wikipedia.org/wiki/Menor%C3%A1)*”) para acender as outras velas, uma por noite durante oito noites.

Festa da Hanukkah judia, acendendo as velas da Chanukiá
O reino da Judéia se expande e rapidamente toma de volta as terras do antigo reino de Israel (do Norte), incluindo Samaria.

Judeia independente e Dinastia dos Hasmoneus sob Israel
Da mesma forma, Roma continua seu avanço sobre a Grécia no Peloponeso, destruindo a cidade de Corinto em 146 a.C., o coração da Grécia clássica espartana.
É o fim da independência política das cidades-estado gregas, mas a cultura helenística conquista Roma profundamente. A arte, filosofia, literatura e arquitetura gregas tornam-se a base da nova cultura greco-romana.
Em 140 a.C., Simão Macabeu (o último dos irmãos Macabeus) foi reconhecido como líder político e sumo sacerdote por uma assembleia do povo judeu, rompendo definitivamente com o domínio selêucida.
Enquanto isso, em 139 a.C., o Senado Romano emite um decreto reafirmando a aliança com os Hasmoneus.
“Lúcio, cônsul dos romanos, à Ptolomeu, rei do Egito, saúde. Os embaixadores dos judeus, nossos amigos e aliados, vieram até nós para renovar a antiga liga de amizade e auxílio mútuo… Nós lhes recebemos com benevolência e lhes restituímos a liberdade e a administração de seu país, de acordo com os seus próprios costumes. Decretamos também que as terras e os portos que lhes foram tomados lhes sejam restituídos. Julgamos justo que lhes sejam enviadas cópias destas nossas resoluções, a fim de que possais tê-las em vossa guarda e para que saibais que temos esses homens em nossa estima e amizade.” Antiguidades Judaicas, historiador judeu Flávio Josefo, 94 d.C.
Em 63 a.C. a Dinastia Hasmoneia estava em declínio. *Hircano II era o herdeiro legítimo do trono, mas seu irmão [Aristóbulo II](https://pt.wikipedia.org/wiki/Arist%C3%B3bulo_II) *decidiu lutar pelo poder, tanto pelo título de Sumo Sacerdote quanto de rei.
“Não muito tempo depois da morte de sua mãe, estourou uma guerra entre os dois irmãos pelo direito à coroa. Aristóbulo, que era mais belicoso, marchou contra Hircano, e eles travaram uma batalha perto de Jericó. Muitos dos soldados de Hircano desertaram para Aristóbulo, e por esta razão Hircano foi derrotado.” A Guerra Judaica, historiador judeu Flávio Josefo, 75 d.C.
Quando ambos os irmãos Macabeus recorrem ao general romano Pompeu, o Grande, este decide marchar sobre Jerusalém e sitiar a cidade. Pompeu entra no Templo de Jerusalém, mas não o destrói nem saqueia seus tesouros (Cerco de Jerusalém).
“Aristóbulo e Hircano enviaram presentes a Pompeu, cada um deles suplicando por seu auxílio. Ao mesmo tempo, outros judeus vieram queixar-se de ambos, declarando que desejavam viver segundo suas próprias leis, e que o governo tradicional era o dos sacerdotes do Deus Altíssimo.” Antiguidades Judaicas, historiador judeu Flávio Josefo, 94 d.C.
“Os romanos irromperam por todos os lados e mataram a multidão de judeus que ali estavam, tanto os que ofereciam resistência como os que não. E um espetáculo profundamente lamentável foi ver os próprios sacerdotes, vestidos com suas vestes sagradas, imperturbáveis em seu temor religioso, imolados junto aos altares. (…) Pompeu, com seus oficiais, entrou no próprio santuário, o Santo dos Santos, que apenas o sumo sacerdote tinha permissão para entrar, e viu o que estava nele: o candelabro, as lâmpadas, a mesa, os vasos para libação e incenso, todos feitos de ouro, uma grande quantidade de especiarias acumuladas e o tesouro sagrado, dois mil talentos. Ele não tocou em nada dessas coisas, devido à sua piedade, e imediatamente ordenou que os encarregados purificassem o Templo e restabelecessem os sacrifícios costumeiros. (…) Assim, depois de terem reinado durante cento e vinte e seis anos, os Hasmoneus perderam o poder que haviam conquistado com tão nobre coragem… Tudo isso lhes aconteceu por causa das dissensões internas entre eles.” A Guerra Judaica, historiador judeu Flávio Josefo, 75 d.C.
O reino da Judéia extremamente pobre e devastado, passa então a ser vassalo de Roma e também dependente da província da Síria, tendo que voltar a pagar altos impostos.

Arte em relevo no Arco de Tito, sobre o Cerco de Jerusalém
Dinastia Herodiana
Em 63 a.C., o então cônsul e governador romano *Julius Caesar ascende seu poder em Roma aliando-se ao general Pompeu*.
Em 49 a.C., Júlio César retorna à Roma com seu exército e avança sobre Pompeu, instaurando uma guerra civil (Guerra Civil Cesariana).
“Alea jacta est” (Os dados estão jogados) Governador romano Júlio César, 49 a.C.
Em 48 a.C., César chega à Alexandria no Egito perseguindo seu rival Pompeu, e é recebido pela Faraó *Cleópatra, *de 21 anos de idade.

Bustos de Cleópatra e Júlio César datados do século I a.C.
“… ela se fez enrolar dentro de um tapete, e se fez carregar aos ombros de um dos seus servos até os aposentos de César. Este estratagema de Cleópatra, que lhe mostrou toda a ousadia, parece ter sido o primeiro truque que cativou César. (…) César foi seduzido por esta prova de ousadia e ficou tão encantado com sua graça e presença de espírito que conseguiu reconciliá-la com o irmão. (…) Pois a sua beleza, contam, não era em si mesma incomparável, nem era capaz de impressionar à primeira vista; mas o seu trato possuía um encanto irresistível, e havia atrativo na sua pessoa e no seu falar. A sua voz era doce, e a sua língua, como um instrumento de muitas cordas, ela podia facilmente virar para qualquer língua que desejasse…” Vidas Paralelas, historiador romano Plutarco, século II d.C.
Em 47 a.C. César nomeia o oficial idumeu *Antípatro *como governador geral da Judeia, que por sua vez, nomeia seu filho Herodes, o Grande, como governador regional da Galileia.
“César nomeou Antipatro procurador [epítropos] da Judeia e concedeu-lhe o direito de cidadania romana… Ele também, por solicitação de Antipatro, confirmou Hircano no sumo sacerdócio. (…) Antipatro, então, nomeou seu filho mais velho, Fasael, governador de Jerusalém e dos arredores. Herodes, seu outro filho, ele nomeou governador da Galileia. Herodes era então um jovem muito jovem, mas mesmo assim mostrou um caráter energético e vigoroso.” Antiguidades Judaicas, historiador judeu Flávio Josefo, 94 d.C.
César derrota Pompeu e seus aliados, e é nomeado ditador perpétuo pelo Senado Romano em 45 a.C..
“Veni, vidi, vici” (Vim, vi, venci) Frase proferida pelo ditador romano Júlio César relatada em Vidas Paralelas, do historiador romano Plutarco, século II d.C.
Júlio César é assassinado a facadas em uma conspiração realizada pelos próprios senadores (incluindo o amigo e senador *Marcus Brutus*) em 44 a.C., desencadeando outra guerra civil em Roma.
“Et tu, Brute? Then fall, Caesar!” (Até tu, Brutus? Então caia, César!) Tragédia teatral Júlio César, do dramaturgo inglês William Shakespeare, 1599 sobre o assassinato do ditador romano em 15 de março de 44 a.C. (Idos de Março)
A morte de César levou à formação do Segundo Triunvirato em 43 a.C., uma aliança entre três generais para governar Roma: Otávio, Marco Antônio e Lépido.
A administração de Herodes, o Grande, na Galileia foi brutal para com os judeus e isso chamou a atenção do Senado Romano, nomeando-o “Rei dos Judeus” em 40 a.C., iniciando a Dinastia Herodiana em Israel.
Herodes aceitava a religião judaica, mas ainda assim, naquela época os judeus encontravam-se em intensa agitação e medo.
Herodes Magno era muito violento, porém foi um grande construtor. Construiu, por exemplo, o porto de Cesareia Marítima, a fortaleza de *Masada *e reconstruiu o templo de Jerusalém (Segundo Templo). Cobrando sempre altíssimos impostos para tal.
A Última Guerra da República de Roma termina com a Batalha de *Áccio em 31 a.C., entre o general [Marcus Antonius](https://pt.wikipedia.org/wiki/Marco_Ant%C3%B4nio) e o general [Otavianus Augustus](https://pt.wikipedia.org/wiki/Augusto), *sobrinho-neto de César e seu herdeiro.
Otaviano vence a batalha e Marco Antônio foge com Cleópatra de volta para o Egito.
Em 27 a.C., o Senado Romano declara Otaviano como o primeiro imperador, *Augusto, e decreta o fim da República em Roma, iniciando um período de estabilidade interna chamado de [Pax Romana](https://pt.wikipedia.org/wiki/Pax_Romana)*.
Herodes, o Grande, morre em 4 a.C. deixando seu filho *Herodes Antipas* como governador da Galileia (região ao norte de Jerusalém).
Expectativas Messiânicas
É muito comum nas religiões o sentimento contínuo e generalizado de expectativa sobre a vinda de um herói salvador, ou seja, um Messias (assim como a vinda de um anti-messias também, ou anticristo).
Mesmo quando em uma religião já existe alguém intitulado como sendo Messias, é comum que os fiéis continuem esperando pelo seu retorno.
No hinduísmo, por exemplo, os *Puranas descrevem [Kalki ](https://pt.wikipedia.org/wiki/Kalki)*como o último avatar de *Vishnu, que virá montado em um cavalo branco empunhando uma espada para encerrar o [Kali Yuga](https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A1li_Iuga)* (a última era) e restaurar o mundo do dharma.

Kalki, o messias hindu
No judaísmo, vários reis governaram o reino de Judá, até o seu domínio pelos babilônios em 586 a.C.. Esses reis teoricamente eram descendentes de Davi, que reinou no século X a.C., e estabeleceu Jerusalém como sua capital.
Em suas cerimônias de coroação, esses reis eram ungidos com o “Óleo Sagrado da Unção”, por isso todo rei da antiga Judéia era chamado de Messias, que em hebraico significa “o ungido” (“מָשִׁיחַ”, “mashiach” em hebraico).
Após a queda de seu último rei *Zedequias*, exilado na Babilônia em 586 a.C., e o subsequente contato com os persas aquemênidas zoroastristas, os judeus foram se tornando cada vez mais monoteístas, cultuando somente o deus Javé.
E também passaram a esperar ansiosamente pelo próximo “ungido” (“mashiach”), o descendente do rei Davi que iria libertá-los dos constantes domínios estrangeiros e retornar a dinastia judaica em Jerusalém.

Reis ungidos (“מָשִׁיחַ”, “mashiach” em hebraico)
Na Bíblia Hebraica, ou *Tanakh, o livro sagrado dos judeus, acrônimo de [Torá](https://pt.wikipedia.org/wiki/Tor%C3%A1) (Cinco Livros do Pentateuco), [Nevi’im](https://pt.wikipedia.org/wiki/Nevi%27im) (Profetas) e [Ketuvim](https://pt.wikipedia.org/wiki/Ketuvim) *(Escritos), existem várias profecias sobre a vinda de diferentes Messias.
O Livro de Isaías, por exemplo, contém uma enorme quantidade de profecias messiânicas, descrevendo com detalhes o nascimento e a vida de um suposto salvador para o povo judeu.
“E ele julgará entre as nações, e repreenderá a muitos povos; e estes converterão as suas espadas em enxadões e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerrear.” Livro de Isaías 2:4
“Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais; e o mensageiro da aliança, a quem vós desejais, eis que ele vem, diz o Senhor dos Exércitos. Mas quem suportará o dia da sua vinda? E quem subsistirá, quando ele aparecer? Porque ele será como o fogo do ourives e como o sabão dos lavandeiros. E assentar-se-á como fundidor e purificador de prata; e purificará os filhos de Levi, e os refinará como ouro e como prata; então ao Senhor trarão oferta em justiça. E a oferta de Judá e de Jerusalém será agradável ao Senhor, como nos dias antigos, e como nos primeiros anos.” Livro de Malaquias 3:1–4
Com o reinado dos Herodes, no início do primeiro século da Era Comum, começam a surgir na Galileia um povo chamado de zelotes (ou “Kanaim”, “zelosos” em hebraico). Uma facção que zelava pelo Deus judeu de forma radical incitando uma revolta violenta contra o Império Romano.
Nesta época, João Batista era um profeta apocalíptico, um judeu asceta da Galileia, que pregava verozmente a chegada de um Messias.
“E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas sandálias não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo.” Evangelho de Mateus 3:11
Pode ser que João Batista tenha batizado o judeu Jesus de Nazaré no Rio Jordão em 26 d.C., quando este tinha 30 anos de idade, tornando-o também um profeta apocalíptico.

O profeta judeu João Batista pregando o apocalipsismo na Galiléia
Herodes Antipas tinha admiração pelas pregações de João Batista, mas por motivos políticos ordenou sua prisão e execução em 27 d.C..
“Pois Herodes mandou matar João, um homem bom que exortava os judeus a praticarem a virtude, a serem justos uns com os outros e piedosos para com Deus, e assim se unirem no batismo. [João ensinava] que o batismo era aceitável para Deus desde que fosse usado não para pedir perdão por certos pecados, mas para a purificação do corpo, após a alma ter sido previamente purificada pela justiça. Como muitas pessoas se reuniam em torno dele (pois ficavam muito comovidas ao ouvir suas palavras), Herodes temeu que a enorme influência de João sobre o povo pudesse levar a algum tipo de revolta, pois pareciam dispostos a fazer qualquer coisa sob seu conselho. Herodes, portanto, considerou muito melhor prender João e executá-lo antes que ele causasse uma insurreição, do que esperar que uma revolta acontecesse e então se arrepender de ter ficado para trás.” Antiguidades Judaicas, historiador judeu Flávio Josefo, 94 d.C.
Também em 26 d.C., o oficial da cavalaria *Pontius Pilatus é declarado o prefeito da província romana da Judeia pelo imperador [Tiberius Claudius](https://pt.wikipedia.org/wiki/Tib%C3%A9rio).*
As tensões entre judeus, zelotes e romanos já estavam altamente intensas nesses anos.
“Pilatos… não para honrar Tibério, mas para perturbar o povo, pendurou escudos dourados no palácio de Herodes [em Jerusalém]… Eles não tinham forma ou imagem, apenas uma inscrição indicando quem os dedicou e a quem foram dedicados. Os judeus consideraram isso uma violação de seus costumes… Herodes Agripa I e outros aristocratas apelaram a Pilatos para removê-los. Ele recusou, dizendo que alterá-los seria uma ofensa ao imperador. Eles então escreveram ao imperador Tibério. Ao receber a carta, Tibério escreveu a Pilatos repreendendo-o e ordenando que os escudos fossem transferidos imediatamente para Cesareia.” A Embaixada a Caio Calígula, filósofo judeu Fílon de Alexandria, 41 d.C.
As execuções romanas estavam a pleno vapor. O objetivo era manter a *Pax Romana, a instabilidade interna do Império, a qualquer preço. Agitadores que cometiam sedição (subversão), eram violentamente executados através da [ius gladii](https://pt.wikipedia.org/wiki/Alta,_m%C3%A9dia_e_baixa_justi%C3%A7a) *(“o direito da espada”), o direito exclusivo de Roma de executar sentenças de morte.
A Destruição do Segundo Templo
Durante todo o primeiro século da Era Comum, os judeus estavam extremamente revoltados com o Império Romano, principalmente a facção dos zelotes. Suas execuções aconteciam aos milhares.
“O procurador Tibério Alexandre executou os filhos de Judas, o Galileu, Tiago e Simão; aquele Judas que, como expliquei antes, incitou o povo à rebelião contra os romanos enquanto Quirínio estava realizando o censo da Judeia.” Antiguidades Judaicas, historiador judeu Flávio Josefo, 94 d.C.
Ao mesmo tempo que o Sinédrio judeu (a assembléia judiciária da Judeia) não tinha nenhum poder para realizar execuções dentro das províncias romanas.
Os profetas apocalípticos surgiam por toda parte. O “Profeta Egípcio” foi um dos que impactaram profundamente a Judéia com suas profecias no século I da Era Comum.
Pregava o fim de Roma e a liberdade para milhares de judeus no Monte das Oliveiras. Foi perseguido pelo procurador romano *Antonius Felix*, mas desapareceu na multidão.
“…E surgiu naquele tempo um homem do Egito, cuja origem e linhagem permanecem um mistério, mesmo para os mais diligentes inquisidores. Ele não era um homem simples do deserto, mas possuía o ar de um erudito que havia estudado tanto os textos sagrados de Moisés quanto as filosofias que pairam sobre o ar do Nilo. Sua voz não era áspera, mas carregava uma estranha autoridade, um eco de tempos antigos. Este homem, a quem as multidões passaram a chamar de “O Profeta Tebano” (pois diziam ter vivido anos em isolamento nas tumbas daquela cidade), proclamava que a hora do juízo final de Roma havia soado. Ele pregava não com a fúria de um fanático, mas com a certeza fria de um profeta que já havia visto o futuro escrito na areia. Reuniu junto a si cerca de trinta mil almas — camponeses, servos, artesãos, todos os deserdados da Judeia sob o jugo de ferro de Roma. Conduziu-os, não para um campo de batalha, mas para o deserto, para o Monte das Oliveiras. E lá, diante dos olhos atônitos de Jerusalém, ele declarou: “Eis o que o Senhor dos Exércitos mostrará a vocês: que estas muralhas, que Herodes adornou para César, cairão por sua própria vontade. Vocês não precisarão de aríetes ou escadas. Ordenarei, como Josué ordenou a Jericó, e os portões se abrirão. E então, desta cidade liberta, reinaremos com justiça.” Mas Félix, o Procurador, homem prático e cruel, não via um profeta, e sim um insurgente. Não enviou sacerdotes para debater com ele, enviou a Legião. A carnificina no deserto foi rápida e brutal. A fé move montanhas, mas não detém uma pilum romana lançada com precisão. O Egípcio, contudo, desapareceu no caos. Alguns dizem que foi morto e seu corpo irreconhecível entre os amontoados. Outros, que um anjo o levou. Acredito que, sendo homem astuto, soube como escapar pelas veredas que só os profetas e os bandidos conhecem. Seu destino final é um segredo que o deserto se recusa a contar. Mas seu nome ainda é sussurrado nos mercados, um fantasma de esperança que Roma não pode crucificar.” Antiguidades Judaicas, historiador judeu Flávio Josefo, 94 d.C.
“Quando ia entrar no quartel, Paulo disse ao comandante: “Posso dizer-te uma coisa?” Ele respondeu: “Sabes falar grego? Então não és o egípcio que há algum tempo levantou uma revolta e levou quatro mil sicários para o deserto?” Atos dos Apóstolos 21:37–38
Em 66 d.C. explode a Primeira Guerra Judaico-Romana, onde as tensões entre os zelotes e os romanos se tornam insustentáveis. Liderados por *Eleazar, filho de Simão*, os zelotes foram os primeiros a incitar contra o Império Romano e a protestar contra o aumento de impostos e a profanação do templo sagrado de Jerusalém.
“Eles se gabavam de que eram os iniciadores da revolta e haviam dado o primeiro impulso à guerra, forçando todos os que hesitavam a associar-se a eles. (…) Entre eles estava um certo Eleazar, filho de Simão, um homem jovem e audacioso, não apenas por natureza, mas também pela crença de que a verdadeira liberdade consistia em não admitir nenhum senhor além de Deus.” A Guerra Judaica, historiador judeu Flávio Josefo, 75 d.C.
Neste ano também, os Sicários (“homens de adaga”), um subgrupo extra-radical dos zelotes, sob o comando de *Eleazar, filho de Jair, tomou a [fortaleza de Masada](https://pt.wikipedia.org/wiki/Massada) *das guarnições romanas. Fortaleza autossuficiente que ficava no deserto da Judeia, às margens do Mar Morto.

Fortaleza de Masada localizada no deserto às margens do Mar Morto
É quando no ano de 70 d.C., o imperador romano *Tito Vespasiano* toma uma atitude extrema e ordena a destruição total do Segundo Templo e da cidade de Jerusalém.
“Assim, a cidade estava cheia de corpos insepultos e dos lamentos das mães e dos filhos. E isso enquanto os romanos estavam do lado de fora, aterrorizando-os. Os habitantes desejavam ser libertados pelos romanos da guerra interna. Eles não conseguiam executar resoluções nem fugir devido à guarda das passagens. Os líderes dos partidos matavam qualquer um que suspeitassem querer se entregar aos romanos. Ouviam-se gritos de lutas e lamentos de feridos. O medo sufocava as palavras e os suspiros. Os servidores perderam respeito pelos senhores, e os mortos não eram sepultados. Todos negligenciavam seus deveres, pois não havia esperança de salvação”. A Guerra Judaica, historiador judeu Flávio Josefo, 75 d.C.
Fotos abaixo do Arco de Tito construído em Roma em 82 d.C. em homenagem à destruição da cidade de Jerusalém.

Arco de Tito erguido em Roma para homenagear a destruição de Jerusalém
“SENATVS POPVLVSQVE·ROMANVS DIVO·TITO·DIVI·VESPASIANI·F(ILIO) VESPASIANO·AVGVSTO” (O Senado e o Povo Romano [dedicam este arco] ao Divino Tito Vespasiano Augusto, filho do Divino Vespasiano) Inscrição da parte frontal do Arco de Tito, Roma, 82 d.C.
O Massacre de Masada
Vários zelotes e sicários fugiram para a fortaleza de Masada após a violenta destruição de sua capital, Jerusalém.
Em 73 d.C., o então governador da Judeia, o general *Flavius Silva, ordena o [cerco a Masada](https://pt.wikipedia.org/wiki/Cerco_de_Massada)*.
Após várias tentativas vãs de subida ao topo da fortaleza, supressão de todos os recursos e de derrubada de suas muralhas, as legiões romanas, num ato de total poderio, constróem uma gigantesca rampa para poderem subir até as muralhas do topo.
A rampa atingiu cerca de 73 metros de altura com 198 metros de comprimento e uma inclinação de 1:3, foi construída com meio milhão de toneladas de terra e pedras para permitir o transporte das máquinas de guerra romanas até ao topo do platô.

Incrível rampa de terra construída pelo exército romano durante o cerco á Masada em 73 d.C.
“Um certo número de sicários… havia fugido para Masada no início da revolta… e lá se entregaram ao banditismo… Silva… marchou contra eles com seu exército… Viu-se então forçado a sitiar a fortaleza, embora a empresa parecesse impossível… Ordenou a seus soldados que construíssem uma rampa… Trabalharam com incrível energia, e uma rampa de pedras e terra compactada foi erguida.” A Guerra Judaica, historiador judeu Flávio Josefo, 75 d.C.
Com a iminente chegada do exército romano ao topo da fortaleza, os sicários tomam a extrema decisão de incendiarem tudo e se sacrificarem. Em 74 d.C., dezenas de sicários e suas famílias cometem suicídio coletivo, para não serem feitos prisioneiros pelos romanos.
“Desde há muito, meus bravos companheiros, resolvemos não ser servos dos romanos nem de qualquer outro senão de Deus… Chegou o momento que nos exige que demos prova prática dessa nossa resolução… Morramos sem ter experimentado a servidão… deixemos como nosso epitáfio não a lamentação, mas a fama de que fomos os únicos que não traímos a nossa liberdade.” Discurso de suicídio coletivo de Eleazar ben Ya’ir
Em 1963, o arqueólogo israelense *Yigael Yadin escava a fortaleza de Masada e encontra várias provas que corroboram prontamente com os relatos de Josefo sobre o cerco de Masada*.
Os vestígios são perfeitamente visíveis até hoje e incluem: — oito acampamentos romanos e uma muralha de circunvalação que rodeava completamente a montanha para impedir a passagem de recursos para os rebeldes — centenas de balistas de pedra (arremessadas por catapultas romanas), pontas de flecha (tanto romanas quanto judaicas) e moedas cunhadas pelos rebeldes — 11 *ostracas (cacos de cerâmica com inscrições) com nomes dos sicários. Um deles traz a inscrição “ben Ya’ir*” (filho de Jair) — esqueletos de 25 a 28 pessoas em uma caverna no penhasco sul e perto do palácio norte.
Fotos abaixo de um acampamento da Legião X *Fretensis romana nas redondezas de Masada e das ostracas encontradas com os nomes dos sicários, incluindo o nome de “Ben Yair” (“בן יאיר*”).

Acampamento da Legião X Fretensis romana em Masada e as 11 ostracas encontradas incluindo a de Ben Ya’ir
*Flávio Josefo era um profeta judeu que conquistou o patrocínio de Roma devido a uma profecia bem sucedida sobre a ascenção ao trono de Tito Vespasiano*.
Josefo foi um grande intérprete e intermediador durante o ataque romano a Jerusalém, e depois Roma o contratou para relatar os acontecimentos, sob a perspectiva propagandista romana.
“Ao entrarem no recinto (a legião romana), não avistaram nenhum inimigo, mas por toda parte um terrível silêncio… e as chamas por dentro. Não compreendendo o que viam, finalmente gritaram para chamar as duas mulheres escondidas que lhes contaram o que havia acontecido.” A Guerra Judaica, historiador judeu Flávio Josefo, 75 d.C.
A derrubada do Segundo Templo de Jerusalém foi extremamente devastadora para a identidade judaica.
Mais uma vez, a necessidade de adaptação e mudança se faz necessária ao judaísmo. Após o ano 75 d.C. é quando os rumores da chegada do novo Messias se tornam realidade e os judeus começam a concretizar suas expectativas desesperadas.

Cronologia sobre as tensões no Reino da Judeia no de 100 d.C.
PARTE II
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