A impostora
Raquel, minha vizinha, tem 32 anos e é a legítima aquariana: espiritualista, de bem com a vida, super autêntica e acredita em astrologia…

A impostora
Raquel, minha vizinha, tem 32 anos e é a legítima aquariana: espiritualista, de bem com a vida, super autêntica e acredita em astrologia quando bem lhe convém. Alguns até dizem que ela se veste de uma maneira peculiar; outros a percebem como alguém de personalidade. Para ela pouco importa: a cabeça de Raquel, julgada como lunática, está mais preocupada com seus valores e conflitos internos. As opiniões de seus vizinhos fofoqueiros pouco importam.
Quando o assunto é espiritualidade, ela frequenta centros budistas, xintoístas, terreiros de umbanda, casas xamânicas, e por aí vai. Ela apenas segue o que seu coração manda. Pensa que qualquer crença é válida, desde que venha carregada de boas intenções.
Ativista pelo meio ambiente, tentou ser vegana por um ano e meio e, após contrair uma anemia severa, percebeu que essa filosofia não se alinhava com sua rotina. Raquel odeia cozinhar e, como boa millennial, vive uma vida caótica, com rotina intensa de trabalho numa escala 6x1, precisando dar conta dos cuidados domésticos, da saúde, dos seus cinco gatos e dois cachorros, e ainda cultivar tempo de qualidade com seu parceiro, seus amigos e seus familiares.
Esta manhã, entre uma reunião de trabalho e seu intervalo para almoço, ela se depara realizando uma pesquisa boba no celular sobre a tal síndrome do impostor. Raquel começou a tomar ansiolíticos recentemente para dar conta de sua mente inquieta . Essa nova fase de tarja preta entra em conflito direto com tudo aquilo que ela um dia idealizou para si: uma vida mais natural, mais conectada com seus ciclos, mais alinhada com os aprendizados que trouxe da sua viagem à Índia, há uns cinco anos, quando mergulhou nos estudos de Ayurveda. Seria isso um grande sinal de fracasso? Podemos considerar no mínimo um embate contraditório:o rótulo de impostora lhe caiu como uma luva.
Os dilemas de Raquel, no fundo, não são só dela. Podem muito bem ser os dilemas das Marias, dos Joãos, das Alines, dos Gustavos, das Carolinas ou das Natálias. É curioso como nos auto identificamos com um milhão de aspectos em comum que nos fazem pertencer a esse coletivo chamado humanidade. E talvez seja justamente por pertencermos a esse coletivo que sentimos tanta necessidade de nos definir.
Mesmo que você se considere esse tal impostor, como Raquel essa manhã, aspectos individuais ou sociais que vão construindo o ser são altamente subjetivos. O que eu quero dizer é: mesmo que você se dê um rótulo ou se auto avalie, a chance que seu vizinho te entenda como tal é muito menor do que você imagina. E por quê? Porque, muitas vezes, os rótulos com os quais nos identificamos são muito mais íntimos e pessoais do que imaginamos. Seu vizinho não os enxerga, pois não está te observando com uma lupa.Tal como as impressões digitais: são todas únicas e é muito difícil reconhecê-las a olho nu.
E é pensando nisso tudo que eu olho pra Raquel e penso: Calma, Mulher! Essa fase não te define, sua ansiedade não te define, a opinião do mundo não te define. Lembre-se: você também é um mamífero!
메타데이터
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