O Soft Power das Civilizações
Um Jogo de Colonização
O Soft Power das Civilizações

Um Jogo de Colonização
Há muito tempo prometi falar de jogos, e cá estou eu falando do meu maior vício atualmente: Civilization VI. Sempre fui fã de jogos de estratégia, embora nunca tenha sido bom em nenhum deles (nunca fui bom em jogo nenhum, na realidade). Joguei Age of Empires no Nintendo DS quando era criança, adorava Dofus (falei um pouco dele nesse texto aqui), joguei Starcraft, Warcraft III, mas o que eu gastei mais horas jogando certamente foi Civilization VI.
Quando o jogo começa, você tem apenas um Colono e um Guerreiro numa era onde lutavam com paus e pedras. É aí o início da sua gloriosa civilização. A missão inicial é encontrar um bom lugar para fincar a primeira cidade, de preferência onde tenha água, comida e bons recursos naturais por perto. Depois disso, é só enviar uma nave pra Marte e colonizar outro planeta, simples!
Acontece que atéeeee você chegar lá no planeta vermelho vão se passar séculos, milênios, e você precisa sobreviver era após era. Deverá treinar novos Colonos e enviar eles para locais estratégicos onde criarão uma nova cidade que fará parte do seu império. E precisa fazer isso rápido, porque outras civilizações tentarão fazer o mesmo. Quanto maior seu império, maior sua população, mais dinheiro e avanços tecnológicos você terá. Mas existe um limite, claro. As terras não são infinitas.
Em Civilization, no modo padrão, o mundo é aleatório. O mapa não é igual ao planeta Terra, sua geografia é diferente. Continentes ou ilhas serão totalmente inusitados, forçando o jogador a enviar Batedores para explorar o continente e encontrar novas terras férteis e outras civilizações. Nesse meio tempo você percebe que os demais impérios ao seu redor também estão crescendo. Quando chegamos na idade média, o mundo já está começando a ficar totalmente ocupado. Não tem para onde expandir mais. A não ser que você faça GUERRA!
Desde o início o jogo te incentiva a partir para a violência. Povos bárbaros surgem querendo arrumar confusão de graça, te “obrigando” a aniquilar eles. Ok, você pode deixar eles pra lá e só se defender, mas há boas recompensas em invadir seus acampamentos e aniquilá-los.
Se quiser expandir seu território de verdade vai precisar atacar outras civilizações, entrar em guerra com outros jogadores e tomar deles as suas cidades, na força, na guerra. Ou pode apenas devastar as cidades, aniquilando tudo o que vê pela frente, e depois enviar Colonos para criar novas cidades sobre os escombros de um genocídio. Eita, que jogo legal, né. Óbvio que, por ser um jogo, tudo isso é bastante lúdico, divertido. Nada tão descarado.
O jogo não faz nenhuma crítica ao colonialismo, pelo contrário. Ele o incentiva. É ideal que você faça guerras, envie espiões para sabotar outros países, forme alianças militares e destrua seus inimigos. Ao final da guerra, faça um acordo abusivo onde você leva todo o ouro e recursos naturais de seus rivais. Mesmo que você escolha uma civilização indígena para jogar, Civilization vai te forçar a ser um cuzão colonizador de qualquer jeito.
Isso porque o jogo é bastante aleatório, o que o torna divertido e infindável. Mas isso torna tudo um pouco (às vezes muito) fora da realidade histórica. Um exemplo disso foi em uma das minhas partidas onde a Cleópatra transformou o Egito em uma potência nuclear genocida e saiu distribuindo bombas atômicas ao redor do continente, atacando todos os seus inimigos próximos (ainda bem que eu tava longe).
Ao final, você vence a partida se conquistar todas as capitais das civilizações rivais, ou se seu projeto de Corrida Espacial for o primeiro a colonizar Marte, numa espécie de Guerra Fria dos tempos modernos. E acredite, não dá pra colonizar Marte sem fazer uma boa dose de guerras e sabotar os inimigos que estiverem com uma tecnologia tão avançada quanto a sua. Até aliados, nesse ponto do jogo, se tornam inimigos caso você queira vencer.
Certa vez entrei em guerra contra um antigo aliado, o povo indiano. Eles tinham um projeto de Corrida Espacial já em estado bem avançado. Para vencer, enviei espiões para sabotarem suas cidades. Destruí represas, inundei cidades, sabotei espaçoportos. E tudo isso enquanto posicionava minhas tropas. Quando Ghandi (sim, o pacifista) declarou guerra contra mim (justo, claro), usei minhas tropas para devastar suas bibliotecas, laboratórios, espaçoportos, foguetes espaciais, tudo que os faria colonizar Marte. Aí ficou fácil eu chegar primeiro no planeta vermelho. Usando guerra. Sempre sendo violento ao máximo.
Mas ainda há outras formas de vencer esse jogo.
O Soft Power das Civilizações

Theodore Roosevelt
Mês passado eu publiquei um ensaio sobre a Jornada do Herói e como ela é usada como Soft Power estadunidense. Pois bem, vou tentar explicar como funciona na prática o Soft Power e como que um simples jogo de estratégia te incentiva a ser um colonizador genocida.
É possível vencer o jogo usando outras duas formas diferentes de “dominação mundial”. A Vitória Cultural e a Vitória Religiosa. Nessas não é necessário enviar tropas (mas se quiser pode), e nem fazer pressão econômica (mas quiser também pode). Aqui a ideia é simples, faça o mundo inteiro consumir sua cultura ou se converter à sua religião.
Imagine só se existir uma religião onde o líder central está totalmente alinhado com os interesses de uma nação específica. Se todos os povos do mundo reverenciarem esse líder religioso, automaticamente vão seguir as ordens do líder desta nação mesmo sem perceber, indiretamente. Se você controla a fé das pessoas, controla o que é certo e errado, controla a moral e a ética do mundo, controla quem é aliado e quem é inimigo.
Na Vitória Cultural, por exemplo, é onde você exporta sua cultura para o resto do planeta. Supondo novamente que você nasceu vendo animações da Disney, filmes Hollywoodianos, ouviu músicas Pop de estadunidenses, leu livros de gringos do mesmo país, séries e programas de TV dos Estragos Fudidos… imagine só o estrago que isso faria na sua mente, né. Daria até mesmo pro presidente dos Estados Unidos fazer um genocídio aqui e ali e você ainda apoiaria, claro. Porque ele define quem é aliado e quem é inimigo, ele define o que é certo ou errado, a moral e a ética.
Sacou? É uma forma literalmente sutil de dominar as pessoas. Não tem nenhuma arma apontada na sua cara (mas se quiser pode), ninguém te forçando a acreditar em nada (mas se quiser também pode). Aqui é tudo sutil, discreto. Dessa forma, o presidente dos EUA pode fazer guerras contra países do Oriente Médio alegando a existência de armas nucleares que nunca existiram, e você vai estar lá defendendo isso. Eles podem sequestrar um presidente de outra nação e você vai estar lá defendendo! Imagine só se eles decidirem taxar a gente, quanto imbecil não vai apoiar também!
Sendo bem sincero, isso torna as coisas um pouco mais humilhantes. Pense que outros países não abaixam a cabeça tão facilmente, obrigando os estadunidenses a usarem a força militar. Mas aqui nem precisa de tanta arma, é só encher o cu de quadrinho da Marvel e filmes do Schwarzenegger e pronto, tá formado um marmanjo colonizado.
Colonize minha Copa!

Dom Pedro II
Como eu disse, Civilization VI não é um jogo preocupado em fazer críticas à esse comportamento. Tampouco me parece preocupado em usar suas mecânicas para evidenciar algo de errado no mundo, diagnosticar um problema social. Não, não, pelo contrário. É justamente sabendo que temos esse desejo por dominar e conquistar, que o sonho do oprimido é ser o opressor (já que nossa educação nunca foi libertadora), eles se aproveitam disso para criar um jogo divertido. E toda a opressão se torna banalizada.
Veja quantas vezes ao longo do texto eu usei termos como “genocídio”. Essa palavra já parece não ter tanto efeito assim hoje em dia. Lembra quando você era criança e repetia uma mesma palavra incansavelmente até ela perder o significado na sua mente? O mesmo acontece com todo tipo de opressão. Se você vê tanto disso na televisão, passa a achar normal. Ligue a TV agora mesmo, veja as imagens da Palestina devastada e pense se isso ainda te choca como fazia antes. Pois bem, o jogo faz o mesmo com suas mecânicas. Banalizar.
Ele brinca com nosso tesão por conquistar, vencer e vencer, subjugar nossos inimigos, sermos fortes… nossa, isso é realmente incrível no jogo. Eu sempre costumo jogar com o Brasil, e em determinado momento é liberado o navio “Minas Gerais”, um poderoso encouraçado que eu não tenho pena de usar. Ah, mas não tenho mesmo. Deixa um Minas Gerais na minha mão e eu saio atacando qualquer cidade costeira que me aparece no caminho, é aí que minha veia colonizadora surge. Distribuo bombas igual doce de São Cosme e Damião.
E aí surgem os efeitos da mudança climática no jogo. Tantas minas de carvão, energia a petróleo, bombas explodindo pra todo canto… a temperatura do planeta sobe. E sobe muito. Quanto mais perto do final do jogo, mais catastrófico o mundo fica.
Em uma das minhas partidas dei o azar de ter um enorme império e nenhum poço de petróleo nele. No entanto, meu império vizinho (os EUA) tinha uns dois poços dando mole. Devastei totalmente os Estados Unidos para pegar seu petróleo (até aí, justíssimo), mas dei azar de novo. O tempo passou, a guerra demorou muito, gerei tanta poluição com a energia de carvão e usei tanta bomba nuclear naquele país maldito que o aquescimento global se tornou insuportável. O nível do mar subiu rapidamente, avançando contra meus recém conquistados poços de petróleo. A guerra não adiantou de nada. Eu mal havia conquistado e os perdi nas inundações, continuei sem esse recurso tão necessário para a expansão do império.
Tornados, ciclones, furacões (sei lá a diferença) vão surgindo aos montes destruindo as cidades. O nível do mar sobe, destrói mais ainda. A seca acaba com as plantações, grandes incêndios devastam as florestas. E eu com isso? Eu sou um líder, vejo o mundo de cima. Civilization te mostra apenas um mapa do mundo com as linhas da sua fronteira e os números de ouro e recursos naturais. É isso que importa, expandir seu território, crescer os números de ouro, atacar, vencer. O triste é eu ter perdido meus poços de petróleo…
A população? São só números diminuindo na tela, ligo não. O foco é conquistar e vencer, não importa como. O jogo realmente nos coloca na pele de um líder imperial. O problema mesmo é quando você desliga o jogo e percebe que não passa de um número na tela do presidente genocida da vez. Mas ei, não liga pra isso não. Extravasa! Jogue Civilization e colonize o mundo!

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메타데이터
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