Sufoco
Escrevo através do sufoco. Ou escrevia. Houve um tempo em que eu não era intimidado pela tela branca, pelo espaço vazio que grita para ser…
Sufoco

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Escrevo através do sufoco. Ou escrevia. Houve um tempo em que eu não era intimidado pela tela branca, pelo espaço vazio que grita para ser preenchido. Hoje é diferente. A página não grita que eu a preencha; ela esbraveja que eu saia e nunca mais retorne. E então, ao meu sufoco, resta apenas ser sentido — sem que eu possa expurgá-lo. Como chegamos até aqui, eu e ele? Como a escrita se tornou tão penosa, tão dolorosa de executar? Como foi minada, aos poucos, a vontade de dizer algo em mim?
Às vezes sinto que não quero dizer mais nada. Silenciar-me para sempre: uma eterna pergunta e uma eterna resposta — o gesto de quem desiste de lutar para ser quem é. Talvez todos passemos por isso ao nos tornarmos adultos. O silêncio vira rotina; a mente para de pensar; a perna balança insaciavelmente sem que nada aconteça. Sinto falta da fome: da ambição, do coração que lança afora tudo que pesa. De acordar cedo com uma ideia e passar o dia escrevendo. De pesquisar concursos literários e cogitar uma inscrição. De acreditar que é possível viver sonhando e experimentando para sempre.
Sempre tive medo de que as portas se fechassem para mim. O que eu não podia imaginar é que eu mesmo desistiria de atravessá-las. Que me conformaria com uma vida sem lugar para deixar vazar este sufoco — este sufoco que não se cura senão escrevendo. O peito pesa; distraio-me, arranjo desculpas, converso com amigos, mas nada o alivia além da escrita. Parece haver algo em mim querendo sair, explodir sem pedir desculpas, urgindo para que eu não o puna por existir nem o acorrente para que não escape.
Ainda assim sempre escapa. E toda vez que escapa sinto paz: a paz de quem deixou ir o que precisava ser deixado, de quem fez o que devia ter feito há muito. Até que o sufoco retorne, sinto-me vivo de novo, assumindo minha autonomia em vez de coexistir num mundo ainda mais sufocante.
Talvez seja uma maldição — a maldição de ver na linguagem a única forma de expelir essa doença. A maldição que nos condena a jamais encontrar paz se não a escrevemos. E quando ela volta a agir, volto a perguntar: o que farei para finalmente escapar?
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