Tabagismo
Um embriagado, em passos mancos, marcha solenemente pelas ruas e quarteirões de um distrito que fica a aproximadamente três léguas de…
Tabagismo

Um embriagado, em passos mancos, marcha solenemente pelas ruas e quarteirões de um distrito que fica a aproximadamente três léguas de distancia de sua casa. No momento que a historia se passa, ele possui algumas recordações do que fez e bebeu nessa noite. Ele irá se esquecer de tudo e sentir uma sede visceral ao despertar nas primeiras horas do dia seguinte.
Em uma tentativa de ganhar sobriedade para poder integramente chegar em casa, o homem ébrio tira do bolso de sua jaqueta um maço de cigarros adquirido nas últimas horas da tarde desse mesmo dia, ainda recente porém já aberto e parcialmente consumido. Ao retirar o cigarro, ele parte em uma breve, confusa e agoniante jornada em busca do pequeno Bic em um dos seus bolsos. No bolso esquerdo, apenas fones de ouvido, no bolso direito, cartões e identidades, no bolso traseiro esquerdo, nada, e no bolso traseiro direito, algo, possivelmente o tão necessitado isqueiro.
Ao colocar sua mão dominante no bolso da nádega destra, o homem sente algo frio e metálico, e já subentende que não se tratava do isqueiro, e sim de suas chaves de casa. Um leve desalento o consome, pois ele é incapaz de recobrar sua memoria exata caso ele tenha o esquecido. É com esse espanto que o homem lembra-se de sua jaqueta, e seus três bolsos, o mais usado por ele sendo o interno, por volta da altura de seu peito esquerdo, próximo de seu coração, lugar onde seu maço estava guardado.
Em um alívio que ofuscou seus sentimentos de asneira e desatenção, o isqueiro é enfim recuperado. O homem deixa de caminhar por alguns instantes, e acende seu fumo, esquentando seu hálito frio com um cheiro amargo. Não haviam muitas pessoas na rua, algo que até mesmo um bêbado como ele poderia constatar com asserção. Alguns carros com seus faróis altos iam e viam, e a estação ainda estava a alguns bons metros de distancia, o suficiente para pitar e apreciar o tabaco com calma. O homem caminhava lentamente e em passos coxos.
Os sons da rua pouco movimentada não eram ouvidos por ele, mas os ruídos incessantes de sua mente iam e voltavam. Subitamente, ele começou a ouvir seu cigarro aceso falar.
— Amigo, isto aqui é placebo. Você não vai ficar mais sóbrio ao fumar. — disse o cigarro, em sua boca, queimando seu tabaco.
— Quê? O que é isso?! Que palavra é essa?
— Você gosta do meu cheiro?
— Pra ser sincero… nunca reparei.
— Mentiroso, todos reparam!
— E eu não sou todo mundo, porra!
— Não me ofenda, eu sei que você me ama.
— Amor só de mãe…
— Mas eu também gosto de ti, especialmente quando você… acende meu fogo…
— Que merda que você tá falando? Eu, hein! Para com isso, por favor!
— Lembra de soltar a fumaça e bater as cinzas, viu.
— Muito bem lembrado, obrigado.
— E não se esqueça de que você ainda tá longe de casa…
— Claro que eu não vou me esquecer, senhor cigarro.
— Mas você vai se esquecer do que fez hoje, do que sentiu hoje.
— E isso importa? Vou fazer tudo de novo semana que vem.
— E vai se esquecer de tudo de novo.
— É bom mesmo que eu me esqueça, cigarro…
— Talvez seja. Mas sempre conte comigo, senhor.
— E qual outra opção que eu tenho?
— Já estou me apagando, pegue mais um, vá.
— Você que manda, chefe.
Ao finalizar três ou quatro cigarros, a estação de metrô já se aproximava, e o homem poderia relaxar e se sentar. Por volta daquele horário, o movimento já estava reduzido. A noite se encaminhava para sua conclusão, e ele já começava a esquecer cada movimento, cada diálogo, já sabendo que iria repeti-los em poucos dias.
메타데이터
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