Palavras difíceis e Dumbo
Enquanto tomo meu café quente neste dia frio de Agosto, converso igual um louco com o álbum Be the Cowboy da Mitski (ela solta uma frase…
Palavras difíceis e Dumbo
Enquanto tomo meu café quente neste dia frio de Agosto, converso igual um louco com o álbum Be the Cowboy da Mitski (ela solta uma frase, eu digo "mas foi assim mesmo, amiga?"). Eu olho para a janela enquanto ela sussurra "meu deus, eu estou tão sozinha, então eu abro a janela para ouvir sons de pessoas" e abro a minha, em complacência.
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Daqui a pouco farei 30 anos.
Mas isso talvez seja tema para outro texto…
Hoje vim aqui conversar com você sobre como a Vida tem sido esquisita, melancólica, mas, ao mesmo tempo, cheia de emoção, cheia de vontade…Não tem? Se sou só eu, talvez eu devesse estar conversando com um profissional sobre isso e não com você, suposto leitor ou suposta leitora dos meus relatos.
Sinto que esse ano tem sido a escrita de um álbum épico melancólico de verão, com músicas cheias de ritmos dançantes que fazem você balançar o esqueleto em grande euforia, se entregando ao Deus Sol, ao mesmo tempo que você também sente as mordidas dolorosas das letras sobre devoção consciente a dores intrínsecas do crescer humano.
Ao mesmo tempo, os acontecimentos do ano têm caído no ostracismo, frase pomposa e cheia de bibelôs que quer dizer que "tudo aquilo que você vivia com tanta magia e alegria, perdeu significado, cor, gênero, raça, número, peso, telefone, local".
Mesmo assim, é comum ouvir nas ruas que "a gente anda tentando". Eu pelo menos ando tentando com muito afinco ressignificar tudo aquilo que outrora me fez mal e que me parou no meio do caminho, que sussurrou no meu ouvido que tal coisa não era pra mim, que em tal lugar eu não poderia entrar. E digo "ando tentando" de uma maneira meio religiosa de quem um dia tomou uma baita chuva de granizo sem ter um guarda-chuva na bolsa, mas que encontrou abrigo em algum lugar no meio da estrada, pode olhar pro chão e ver o gelo derretendo e enxergar certa beleza naquilo, que era ao mesmo tempo criação e destruição.

(2016) Fleabag pra sempre minha série favorita de todos os tempos.
Phoebe Waller Bridge uma vez disse que a gente escreve para poder experimentar a vida mais uma vez. Não sei como a cabeça de uma pessoa que não escreve ou não lê funciona, mas a minha tem o hábito de revisitar lugares no espaço-tempo e ficar dando play em cenas da vida como se fosse uma criança com a mesma fita cassete de um dos clássicos da Disney em mãos. Veja, o meu caso, era a fita do Dumbo. E eu amei aquele filme por tantos anos que nem sei dizer direito o motivo: não sei dizer se eram os elefantes cor de corsa em formato de bolha que Dumbo via enquanto estava bêbado, se era a trilha sonora ou o fato dele ter um amigo rato que o ajudou tanto em tantas esferas do crescer e do viver que romantizei todo e qualquer amigo que se aproximou de mim. Sei que por muito tempo disse que aquele era meu filme favorito da vida sendo que o mesmo só o era porque eu não tinha tido acesso, ainda, a outras animações, como O Cão e a Raposa, O Rei Leão ou Toy Story.
Doida é a vida que, de maneira aleatória, te coloca na frente de uma história onde um animal indefeso é tirado de sua mãe e forçado a trabalhar como uma atração-aberração em um circo por ter nascido com as orelhas maiores que o normal, criando, naquele Guilherme de sei lá quantos anos de idade, alguns traumas: o medo de perder minha mãe e também o medo de me assumir como indivíduo homossexual — a minha versão das orelhas maiores que as da maioria dos outros elefantes, digo, pessoas. Tudo isso porque eu não tinha acesso a outros filmes e hiperfoquei em uma única história por muitos e muitos anos.
[embed]Infelizmente o cover pro remake do filme, dirigido pelo Tim Burton e gravado pelo Arcade Fire, são ambos questionáveis (apesar de curtir a voz da Régine Chassagne, que lembra muito a minha mãe, fisicamente).
De uma forma ou de outra, o filme também me ensinou que existe poder no diferente e que se eu realmente batesse forte minhas orelhas, eu poderia voar.
A verdadeira lição é aquela outra palavra bonita: resiliência, que aqui significa "Guilherme ganhou um trauma, mas, com o tempo, aprendeu a olhar para o passado com mais carinho e ressignificar as dores que outrora foram tão fortes que chegaram a doer fisicamente". Aquilo que parecia que nunca iria passar, passou. E ser gay, hoje em dia, não só é o menor dos meus problemas como não é problema algum.
Recentemente fui em um profissional otorrinolaringologista ver como eu poderia tratar da minha apneia do sono — no lugar de terras e diamantes, ganhei uma doença como herança — e o médico, pomposo, no seu lugar de privilegiado e defensor da ciência, me recomendou uma bariátrica assim que terminei de falar do porquê de estar ali em sua frente. Um homem que nunca me viu, que não sabe se eu poderia começar uma dieta ou me exercitar, que não pensou nem em outros caminhos também extremos como o uso de remédios, disse que eu só iria sarar meu problema de dormir se eu danificasse cirurgicamente um organismo saudável do meu corpo.
Na minha frente, ele parecia me encorajar, dizer que se eu perdesse 1kg por mês, eu deixaria de ser obeso mórbido e seria somente um obeso. Meu primeiro impulso foi mudar meu nome no Twitter (porque me recuso a chamar aquela rede social de xís) para "obeso mórbido" e cumprimentar as pessoas à partir dali assim "Prazer, Sr. Obeso Mórbido", "Mórbido" para os íntimos.
Acontece é que ninguém sabe das guerras que cada um passa, muito menos das coisas que acontecem assim, de maneira corriqueira, que de repente entram na nossa corrente sanguínea e transformam a cor do nosso sangue.
Hoje venho aqui compartilhar algo que ainda não está claro dentro de mim em uma tentativa de reviver os acontecimentos buscando significados ocultos nas melodias dançantes da vida e, assim, quem sabe, daqui a alguns dias, meses ou anos, eu consiga ver essas letras dolorosas não com as dores do presente, mas com o frescor do ar que Dumbo sentiu ao voar e ver sua própria situação de uma certa distância, o permitindo seguir em frente e experienciar novas situações difíceis, felizes e/ou surreais.
E assim, pé na frente de pé, às vezes com uma venda às vezes vendo tudo em ultra HD, a gente vai balançando a mão e espalhando as moléculas de ar pra lá e pra cá, achando que não estamos ocupando nada, enquanto o espaço nos diz o contrário. E que não seja uma perda de espaço! Apesar de já ter sido o nome de um dos blogs que escrevi (*waste-of-space*) e que acredito estar cheio de ensinamentos e respostas para perguntas contemporâneas de minha cabeça.
É uma sensação esquisita a de querer transformar o mundo para poder caber nele. Mas também existe algum tipo de poder na tentativa, mesmo que as fissuras que abrirmos só permitirem caber as pessoas do futuro. Afinal, parece que é assim que a Roda gira.
Agora já é noite e no lugar da xícara de café, eu preparo uma sopa bem quentinha com crutóns e azeite de oliva no topo. Não converso mais com álbum nenhum, mas sim com meus gatos enquanto faço o movimento diário de sair pelo apartamento ascendendo todas as luminárias, que preenchem o espaço-tempo com um amarelo amigável e confortável.
A gente quer uma guerra, uma revolução, mas muitas vezes o que a gente realmente precisa é de uma boa noite de sono, da promessa tentadora do dia de amanhã e de todas as suas possibilidades transformadoras.
메타데이터
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