Quem deve ser Responsabilizado em uma Catástrofe? Shin Godzilla.
Um dos gêneros mais icônicos, emblemáticos e impactantes de todos os tempos é o “Kaiju”, termo japonês usado para descrever monstros…
Quem deve ser Responsabilizado em uma Catástrofe? Shin Godzilla.

Shin Godzilla 2026 (Divulgação)
Um dos gêneros mais icônicos, emblemáticos e impactantes de todos os tempos é o “Kaiju”, termo japonês usado para descrever monstros gigantes que, com frequência, ameaçam destruir cidades e a humanidade. Entre todos, nenhum é mais representativo desse gênero do que Godzilla, uma força monumental da natureza que deu origem a uma vasta sequência de filmes, séries e animações. Embora muitos desses produtos sejam descartáveis e horripilantes (Godzilla e Kong: Um Novo Império), é fascinante perceber como, sempre que o Japão traz essa criação às telonas, o resultado é uma narrativa rica e inteligente. As histórias transcendem a mera destruição causada pela revolta da natureza ou pelas consequências de catástrofes, explorando a arrogância humana ao acreditar que pode controlar a natureza.
Dito isso, quero destacar, neste artigo, uma das obras mais impressionantes que assisti nas últimas décadas. Apesar de não ser tão impactante ou emocionante quanto Godzilla Minus One (2023), é uma produção que continua a me impressionar a cada nova exibição. Refiro-me a Shin Godzilla (2016), uma obra-prima que considero o melhor exemplo já produzido dentro desse gênero ao longo de toda a história.
Do inicio
Um misterioso incidente abala a Aqua-Line da Baía de Tóquio, desencadeando a convocação de um gabinete de emergência para investigar o ocorrido. No entanto, antes que qualquer resposta seja encontrada, uma criatura colossal emerge, espalhando destruição enquanto avança implacavelmente em direção a Tóquio. Em meio ao caos e ao medo, o destino da cidade está nas mãos das autoridades, que precisam agir rapidamente para conter essa força devastadora da natureza.
A primeira coisa a se destacar é que Shin Godzilla não é um filme convencional de Kaiju. Não espere confrontos épicos entre gigantescas criaturas de CGI, nem um grupo de protagonistas humanos que, por acaso, são os únicos capazes de resolver a situação. Pelo contrário, o filme apresenta um elenco extenso, composto por personagens que, dentro de sua própria ignorância, se deparam com algo nunca antes visto ou enfrentado. Esses personagens erram e acertam, mas não por conveniências narrativas; o roteiro é tão bem elaborado que utiliza essa inexperiência para criar situações incrivelmente verossímeis e palpáveis. Por diversas vezes, tive a sensação de estar assistindo a um documentário biográfico sobre um desastre natural, acompanhando como governantes e autoridades tentam lidar, de forma realista, com uma crise de proporções inimagináveis.
É exatamente nesses momentos que Shin Godzilla brilha. O filme alterna entre duas perspectivas principais: a destruição causada por Godzilla e as intensas reuniões governamentais. Isso mesmo, não há cenas de pessoas correndo desesperadas, saltando de carros em movimento ou conexões emocionais forçadas. Em vez disso, vemos uma força-tarefa montada pelo governo trabalhando em uma sala de convenções comum, conduzindo pesquisas, realizando testes, traçando planos viáveis e lidando com questões como logística, fornecedores, custos, produção, mão de obra e uma série de debates burocráticos envolvendo leis, protocolos, regimentos, permissões e assinaturas. Toda essa abordagem detalhada e meticulosa nos mostra como, de fato, um governo enfrentaria uma situação dessa magnitude.
Ao contrário do que se espera de filmes do gênero, em que uma ordem mágica resolve tudo, Shin Godzilla apresenta uma narrativa que enfatiza a complexidade e a lentidão do processo decisório. Um excelente exemplo disso ocorre durante o segundo confronto com Godzilla. Enquanto tudo parece estar pronto para o ataque, o filme dedica tempo para mostrar a cadeia de comando em ação: o primeiro-ministro dá a ordem inicial, que é enviada para uma sala com os generais; eles repassam a instrução para a força-tarefa no campo de batalha, que, por sua vez, comunica a ordem final às tropas. Somente então os caças militares iniciam o ataque.
Essa sequência, deliberadamente lenta e angustiante, contrasta com a montagem frenética comum em filmes do gênero, onde a urgência domina. Hideaki Anno, o diretor, recusa-se a apressar as coisas, dando destaque a esses momentos aparentemente simples, mas cruciais. Ele faz questão de evidenciar a hierarquia, os protocolos e os procedimentos que precisam ser seguidos, mostrando como a burocracia pode custar milhares de vidas. É nesse cuidado com os detalhes que reside o verdadeiro brilho do filme, transformando uma narrativa de destruição em uma reflexão profunda sobre a complexidade de enfrentar o inesperado.
Qualquer semelhança é mera coincidência

Terremoto seguido de um tsunami devastou a região de Fukushima em 2011 — Foto: Hiro Komae/AP
Em 2020, vivemos uma das maiores catástrofes da história recente, algo que não enfrentávamos desde 2010 com a pandemia de H1N1, mais conhecida como gripe suína. Desta vez, foi o surgimento do coronavírus, responsável por uma pandemia que ceifou a vida de mais de 14 milhões de pessoas em todo o mundo, transformando nossa forma de viver, trabalhar e se relacionar. Apenas quatro anos depois, em 2024, o Brasil enfrentou mais uma tragédia, desta vez no estado do Rio Grande do Sul. Enchentes devastadoras causaram a morte de mais de 183 pessoas, 88 continuam desaparecidas até hoje, e cerca de 442 mil pessoas ficaram desabrigadas. O impacto foi avassalador, destruindo famílias, comunidades e a infraestrutura da região.
Essas duas grandes calamidades expuseram a fragilidade das instituições e a falta de preparo de governos para lidar com crises dessa magnitude. Foram incidentes sem precedentes que deixaram cicatrizes profundas em todos que sobreviveram e carregam consigo as lembranças de perdas irreparáveis e desafios inimagináveis.
Você pode estar se perguntando:
O que essas tragédias têm a ver com o filme?
A meu ver, têm tudo a ver. Enquanto Godzilla Minus One explora os traumas deixados pela guerra que devastou o Japão, Shin Godzilla mergulha nas consequências psicológicas e sociais da catástrofe de Fukushima, o maior desastre nuclear da história japonesa.
A catástrofe de Fukushima, ocorrida em março de 2011, foi um acidente nuclear provocado por um terremoto de magnitude 9.0 e o subsequente tsunami que atingiu o Japão. A usina nuclear de Fukushima Daiichi sofreu danos graves, incluindo falhas nos sistemas de resfriamento, o que levou ao derretimento do núcleo em três dos seis reatores. Esse foi o pior desastre nuclear desde Chernobyl, resultando em liberações significativas de material radioativo, evacuação em massa, impactos ambientais e um debate global sobre a segurança da energia nuclear.
Símbolo aqui, símbolo ali

Shin Godzilla 2026 (Divulgação)
O filme apresenta uma combinação de ação e ficção científica, sustentando grande parte de seu desenvolvimento nesses elementos. A trama gira em torno de estratégias de guerra, planos de contingência e armas militares. Embora tente oferecer uma abordagem diferenciada, não escapa completamente do óbvio, especialmente nas sequências finais. No entanto, o modo como o roteiro introduz a criatura no contexto é bastante interessante e destaca simbolismos relevantes.
Desde o “despertar” da criatura, que causa um grande terremoto na cidade e provoca desabamentos, é possível traçar um paralelo com o terremoto que atingiu o Japão, catalisador das catástrofes subsequentes. Quando a criatura entra nos canais intramunicipais, a água transborda, arrastando casas, carros, pessoas e árvores, remetendo ao tsunami que devastou cidades costeiras, causando destruições irreparáveis. Talvez o maior simbolismo esteja no próprio Godzilla, que representa tanto os animais marinhos afetados pela radiação da explosão da usina nuclear de Fukushima quanto a explosão em si. A radiação liberada pela criatura obriga a evacuação e isolamento das áreas por onde ela passa, algo que ecoa diretamente as medidas tomadas após o desastre em Fukushima.
Essas sequências são impactantes e chocantes, especialmente porque o filme alterna entre a destruição causada pela criatura e as extensas reuniões dos líderes do governo. Curiosamente, os momentos de maior tensão não surgem da iminência do desastre, mas da aparente apatia e lentidão nas respostas governamentais.
As cenas dessas reuniões são marcadas por um tom quase irritante: sem trilha sonora, com uma direção de câmera simples e diálogos calmos entre mais de dez pessoas que discutem com uma serenidade absurda enquanto, nas ruas, o caos reina. Enquanto casas são destruídas, carros são arrastados e pessoas lutam para sobreviver, no gabinete do primeiro-ministro, os líderes debatem questões sociais, como impedir a histeria coletiva, as reações populares, o pouco que se sabe sobre a criatura, os protocolos a serem seguidos e como a mídia está lidando com os acontecimentos.
Durante essas cenas, o contraste é tão grande que chega a incomodar. Em alguns momentos, me peguei pensando:
Por que eles estão tão calmos?
E quando, finalmente, uma decisão para combater a criatura é tomada, o plano é rapidamente abortado para evitar mais destruição. Como consequência, centenas de pessoas perdem a vida, milhares ficam desabrigadas, e cidades inteiras são devastadas.
Em um desses momentos, um personagem indaga:
— Como isso pôde acontecer?
A resposta, carregada de uma autoconsciência desconcertante, vem de outro personagem:
— A culpa é nossa. Nós demoramos demais.
Ação e Reação

Shin Godzilla 2026 (Divulgação)
E aqui chego ao ponto central deste comentário e um dos temas mais fortes explorados pelo filme:
Quem é o responsável quando um desastre ocorre?
Em um primeiro momento, você pode pensar que ninguém é culpado por um desastre, afinal, desastres naturais são eventos imprevisíveis. Contudo, o questionamento que o filme traz vai além disso: a reflexão não deve se limitar à origem do desastre, mas às consequências dele e às ações (ou omissões) que o antecederam.
No caso do filme, é revelado que o surgimento de Godzilla foi causado pelo descarte irregular de materiais radioativos na Baía Japonesa. Alguma espécie marinha entrou em contato com esses resíduos e, como consequência, transformou-se no monstro que devastou cidades inteiras. Então, surge a pergunta: a culpa é das pessoas que despejaram o lixo radioativo no oceano?
Da mesma forma, podemos pensar em exemplos reais. Quando a barragem de Brumadinho se rompeu, matando centenas de pessoas, quem foi responsabilizado? A empresa que construiu a barragem? Os engenheiros que sabiam dos problemas estruturais e não os relataram? Os líderes que falharam em fiscalizar como deveriam? Ou as pessoas que, sem opção, construíram suas casas próximas da barragem?
Outro exemplo: quando uma pandemia assola o mundo, hospitais ficam sem ventiladores mecânicos, falta oxigênio, há demora na compra de vacinas e a prescrição de medicamentos ineficazes torna-se comum, de quem é a culpa?
Os números falam por si:
- Brumadinho: mais de 270 pessoas morreram soterradas.
- Rio Grande do Sul: 316 mortes confirmadas após um desastre natural.
- Fukushima: 18 mil vidas perdidas após o terremoto, o tsunami e o desastre nuclear.
- Pandemia de COVID-19: 14,9 milhões de mortes ao redor do mundo.
E diante desses cenários, voltamos à pergunta inevitável:
Quem é o culpado?
Conclusão
Shin Godzilla não é apenas uma história de destruição causada por um monstro gigante; é uma poderosa metáfora sobre a negligência humana e a complexidade de se responsabilizar diante de catástrofes. O filme desafia o espectador a refletir sobre o impacto das decisões, ou da falta delas, em momentos críticos. Assim como na realidade, as tragédias expostas na obra revelam que as consequências não decorrem apenas do evento em si, mas da cadeia de ações (e inações) que o precedem e o seguem.
A mensagem central de Shin Godzilla transcende o gênero “Kaiju” e se torna um alerta universal: crises não são meramente fenômenos naturais ou acidentais. Elas também são construídas por escolhas humanas, por estruturas burocráticas falhas e pela nossa incapacidade de reagir com rapidez e empatia. Ao final, a verdadeira monstruosidade não está em Godzilla, mas na lenta e hesitante resposta daqueles que têm o poder de evitar o pior. O filme nos lembra que, diante de qualquer catástrofe, a pergunta não é apenas “o que aconteceu?”, mas “o que poderia ter sido feito para evitá-la?”.
메타데이터
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