Do negro ao ser
Reflexões de um homem negro que busca ser mais que apenas um negro
Do negro ao ser
Reflexões de um homem negro que busca ser mais que apenas um negro
Olhe, um negro!
Direi que o negro não é um homem, mais um homem negro!
O homem negro não tem sexualidade, tem sexo!
O negro, o negro…!
O homem negro, homem negro!
Quem eu sou? Oras, um negro! Um homem negro!
Nada mais, nada além, talvez não tão humano assim, mas sempre um negro!
Falam, apontam, gritam. Olhe, um negro! UM NEGRO!
Não tão iguais aos outros negros, talvez mais educado, mais dentro dos nossos parâmetros de civilidade colonial. Um negro acadêmico, formado! Olhe bem, pois além de negro, ele é formado, tem conhecimento da nossa língua, da nossa História, do nosso passado! Um negro que não pode ser como os outros negros. Ou talvez seja, não tão negro assim, mas ainda sim um negro, não o deixe esquecer. Ele é negro e sempre será!
Corra, corra, corra sem parar! E eu corri, tentei me encontrar através desse negro a qual eu estava aprisionado. Olhei para o lado e vi alguém aprisionado comigo. Olhei para o outro lado, e havia uma mulher negra aprisionada comigo. Olhei para trás e vi milhões e milhões aprisionados/as comigo. Todos/as nós presos/as em nosso próprio corpo. Na nossa pele!
A nossa frente estavam aqueles/as que falavam, apontavam e gritavam!
OLHE, NEGROS/AS! Tão belos/as, tão dóceis…, mas desde que continuem eu seu lugar. Nessa zona estéril e sem vida. A zona da negação, do não-ser, do não humano.
Criamos os/as negros/as como a representação do que não quero ser.
Criamos os/as brancos/as para que represente esse que é o ser.
Da cristandade até a brancura.
O ser, o subjetivo, o humano.
Não sou, somos. Porque existe aquele/a que não é.
Só posso existir enquanto branco/a porque criei aquele/a que não pode ser, não pode existir. O/a aprisionei em seu corpo, em sua pele. Ele/a não existe como ser, apenas como negro/a. Como polo negativo, como não-humano, ou talvez quase humano. Mas nunca como humano completamente.
Aaaaah, mas existem aqueles/as que podem ser “quase ser”, “quase humanos”, quase como nós. Mas precisam ser adestrados/as ao nosso mundo, leais ao colonialismo. Alienados/as. Neuróticos/as. Adoecidos/as.
Não podem reivindicar um novo mundo. Uma nova História. Uma nova sociedade.
Esses/as negros/as, não tão negros/as assim, precisam reivindicar apenas a sua negritude, se afirmarem a partir do que inventamos para eles/as. Nós os definimos, e agora queremos que eles/as se definam em nossos termos. Não para construírem suas próprias subjetividades, mas para tentarem alcançar a nossa subjetividade.
Mas é claro, tão claro e branco como a neve que eles/as jamais alcançaram tão complexidade existencial! Olhe, ele ainda é um negro! Jamais poderá existir para além disso.
Seja sempre um negro!
Lute para ser nada além de um homem negro”
Grite todos os dias que você é um negro e que quer igualdade comigo.
Tente todos os dias da sua pífia existência ser como, habitar o meu mundo, tente habitar a minha zona do ser. Essa é a sua luta, negro!
Enquanto você luta para pertencer ao meu mundo colonial, eu lhe fecho todas as portas da humanidade plena que você poderia construir.
Não, não olhe para esse mundo ancestral, não há para ti ali.
Não, não olhe para esse mundo contra-colonial, não existe nada que te faça ser humano ali. Por que você olharia para essa forma de ser no mundo?
Não negue a modernidade que levamos para vocês, todo o avanço e cultura! Adentre aos portões celestiais da humanidade, mas fique ali, naquele cantinho ali!
Porque você ainda continua sendo um negro! E é preciso que você se lembre disso.
Será que sempre serei apenas um negro?
Nada mais?
Não há possibilidade de escapar dessa prisão?
Negro!
Ne-gro!
NEGRO!
Não tenho nome, não tenho identidade, não tenho história, não sou ser.
Na verdade, até tenho História, mas a história dos/as meus/minhas ancestrais. História essa que se resume a ser descendentes de negros/as traficados de África pelo Atlântico e escravizados/as neste território.
Novamente, nada sou a não ser negro. Objeto descendente de objetos que tenta habitar a zona ser. Mas não posso, não consigo. Sou assimilado de forma incompleta.
Irrompe em mim um desejo genuíno. Quero me libertar das amarras que me reduzem a cor de minha pele.
Quem sou eu? Quem sou eu? QUEM SOU EU?
Apenas um negro? Um homem negro?
Ou posso ser mais que isso?
Olho para o passado e vejo que meus/minhas ancestrais que nem sei quem são e nem de onde vem eram ser. Não eram negros/as.
Me espanto.
Meu universo se arrebenta.
Me vem à pergunta quem sou eu?
Logo aprendo a rejeitar aquilo que criaram para mim. Não porque me envergonho de minha pele negra. Nem quero negar a minha negritude.
Mas não sou o que inventaram para mim. Não me resumo ao desejo do outro colonial e colonizador sobre meu corpo, sobre minha existência e sobre minha subjetividade.
Sou ser. Sou humano. Sou eu.
Foda-se as amarras que me colocaram, me liberto desse esquema epidérmico!
Arrombo os portões celestiais da humanidade.
Destruo o mundo criado a partir da negação do meu ser.
Eu reinvento o mundo.
Eu crio um mundo.
Eu sou o mundo.
Torno-me alguém, tenho subjetividade, não sou mais objeto. Não é o colonizador que me define. Nem é o colonizado que diz que sou. Muito menos é o branco que recria em mim a negação de seu eu.
Passo a existir nos meus termos. Não sou o negro que é assimilado parcialmente ao mundo do colonizador. E ao rejeitar esse mundo, sou rejeitado por todos/as aqueles/as que nele querem habitar.
Não encontro morada ou acolhimento dentro dos limites coloniais. A minha existência se expande, toma forma própria e cria outras maneiras de ser.
Não preciso habitar na cidade do colonizador. Não necessito do amor colonizado. Não há desejo em mim de viver sobre o véu.
Olho para o mundo que foge dos controles do colonizador. Um mundo que não sou preso ao meu corpo e a minha pele.
Encontro afeto.
Sou afetado.
Afeto também.
Transformo meu ser, crio universos. Crio meu eu, mas também sou criado pelo ser que é coletivo.
Não pode existir Black’ sem que exista você que ler.
Existo contigo.
Vivo contigo.
Sonho contigo.
Quando você se liberta, me libertas também.
Quando eu me liberto, te liberto também.
Existimos juntos/as, reorientamos o mundo colonial através da desordem absoluta. Destruímos a prisão da pele. Finda-se o preconceito de cor. Morre a discriminação pela fé.
Sou contigo. Não existe mais um eu desconectado e deslocado do mundo.
O ancestral não é mais um lugar hipotético e idealizado de um passado que não conheço e nem posso reivindicar. Agora passa ser o aqui e o agora. A terra que nos faz viventes, nas relações que emancipam e constroem o ser. No afeto que afeta, que destrói para construir.
Eu sou contigo e me emancipo do mundo que me aprisiona.
Deixo de ser o negro que um dia quem sabe poderá ser aceito.
Sou a rejeição. Sou o desafeto. Sou o abandono. De um mundo. De uma era. De uma História.
Agora eu sou. Nada mais. Nada além. Apenas sou.
Sou nas contradições, nos erros, nas limitações.
Sou pleno, porque agora sou. Não sou um homem negro ou um negro.
Sou para além disso. Eu sou eu. Sou humano. Sou alguém que existe e afeta.
Olhe, finalmente, não sou um negro, nem um homem negro.
E sou Black’, prazer. Gostaria de saber quem é você que me ler?
Muito prazer, posso ser com você?
Engraçado né, como a vida pode ser quando podemos ser juntos/as?
Vamos, pegue a faca e a coloque na garganta do colonialismo, do racismo, da xenofobia, do patriarcado, da monogamia, da misoginia, da homofobia, da transfobia, do capacitismo e dos demais preconceitos, mas não se esqueça, coloque também a faca no pescoço do capitalismo, porque só é possível deixar a zona árida e estéril do não ser e a prisão racial e de gênero quando todos os preconceitos e capitalismo cederem.
E se isso não acontecer, puxe a faca e corte seu pescoço.
Pois a morte desse mundo adubará o mundo que iremos construir. O mundo onde você poderá florescer comigo, onde eu serei ser contigo.
O mundo o qual a sua humanidade afeta a minha humanidade. Onde eu me torno Black’ enquanto você se torna quem quiser. E nós seremos juntos.
Não sou mais apenas um negro ou um homem negro. Sou ser, sou alguém, sou Black’ Mnyama X.

Eu, Black’, sendo ser fazendo algo simples como ir ao Maracanã.
Texto baseado nas obras de Frantz Fanon, Albert Memmi, Clóvis Moura, Karl Monsma e Aimé Césarie.
Black’ Mnyama X.
메타데이터
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- 2026-07-13 06:23:13