O que podemos aprender do CENSO 2022 sobre os ateus e os Sem Religião?
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realiza a cada 10 anos um censo demográfico que funciona como uma “radiografia” da…
O que podemos aprender do CENSO 2022 sobre os ateus e os Sem Religião?

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realiza a cada 10 anos um censo demográfico que funciona como uma “radiografia” da sociedade brasileira em diversos aspectos. O último censo antes de 2022 foi realizado em 2010. Recentemente, o IBGE começou a divulgar os dados do Censo 2022, incluindo informações sobre o perfil religioso da população brasileira. Esses dados são divulgados “a conta-gotas”, e os resultados referentes à religião foram apresentados como um resumo preliminar.
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Uma das informações mais aguardadas, especialmente por pesquisadores e interessados no tema do ateísmo e agnosticismo, era a contagem de pessoas sem religião. No entanto, os resultados preliminares divulgados não incluem dados desagregados sobre ateus e agnósticos. Esses grupos estão incluídos na categoria geral de “sem religião”. A amostra desagregada, que traria essas especificidades, não tem previsão de lançamento e há dúvidas se será possível divulgá-la devido a questões de precisão dos dados, em parte relacionadas às dificuldades na realização do censo, que ocorreu com dois anos de atraso (era para 2020, feito em 2022) durante o governo Bolsonaro, que não queria financiar o recenseamento. A falta desses dados específicos é lamentável, pois em 2010 foi a primeira vez que pudemos ver pessoas ateias e agnósticas nos censos, e agora corremos o risco de não ter essa informação em 2022.
Apesar da ausência dos dados específicos sobre ateus, o Censo 2022 aponta uma direção importante sobre o grupo “sem religião”: • Crescimento Contínuo: A população que se declara sem religião continua aumentando. Passou de 7,9% em 2010 para 9,3% em 2022. • Número Total: Isso representa 16,4 milhões de pessoas com 10 anos ou mais de idade em 2022. • Demografia: A maioria das pessoas que se declaram sem religião são homens, representando 56,2% desse grupo, ou 9,2 milhões de pessoas. Em fiz uma pesquisa online, em grupos de ateus, e achei algo parecido: as mulheres são minoria no ateísmo.

• Distribuição Regional: ◦ A região Sudeste apresenta a maior proporção de pessoas sem religião, com 10,6% de sua população, totalizando 7,9 milhões de pessoas. É a única região acima da média nacional. ◦ A menor proporção está na região Sul, com 7,1%. ◦ Entre as unidades da federação, as maiores proporções foram em Roraima e Rio de Janeiro (ambas com 16,9%). ◦ As menores proporções foram no Piauí (4,3%), Ceará (5,3%) e Minas Gerais (5,7%). Aqui vale nota que Minas Gerais, meu estado, aderiu ao bolsonarismo. Bolsonaro ganhou em Minas, elegeu um deputado fortemente bolsonarista, além de um governador que tende fortemente ao bolsonarismo. ◦ Curiosamente, dentro da região Sul, a cidade de Chuí, no extremo do Rio Grande do Sul, concentra o maior percentual de pessoas sem religião. Cidades de fronteira com o Uruguai no RS também mostraram grande concentração, um fenômeno já observado no Censo de 2010. Isso também mostra o que já sabemos: religião tende a se aglomerar em grupos geográficos. Somente olhe o mapa mundial do cristianismo. É como um vírus, espalha pela proximidade. ◦ Na região Centro-Oeste, onde o palestrante reside, o Mato Grosso do Sul ficou em segundo lugar em percentual sem religião, atrás apenas do Distrito Federal.
Em Minas Gerais, onde resido, o Censo 2022 revela um padrão interessante, com o estado ocupando a segunda posição no Sudeste em termos percentuais da população que se declara sem religião — atrás apenas de São Paulo:
- Minas registrou 5,7% de pessoas sem religião em 2022, ante 5,1% em 2010 — um crescimento de 0,6 ponto percentual. Eu fiz uma pesquisa de rua onde eu morro, distrito de Ouro Preto, cidade cercada de igreja católicas, achei 10% de Sem Religião com margem de erro de 10 pp.
- No Sudeste, a média é mais alta, cerca de 10,5% , com São Paulo liderando e Minas aparecendo logo em seguida.
- Minas segue a tendência nacional: queda do catolicismo (de 70,4% em 2010 para 63,5% em 2022) e crescimento dos evangélicos (de 20,2% para 24,8%)
- O grupo sem religião, embora ainda minoritário, ultrapassou um milhão de pessoas no estado (~1 034 941 indivíduos).
- Em localidades específicas, como Fronteira (Triângulo Mineiro), esse percentual chega a 18,6%, mostrando uma interiorização notável desse processo.
Essa posição de Minas Gerais — 2º lugar no Sudeste em “sem religião” — exemplifica como mesmo em estados tradicionalmente religiosos há um crescimento real (e localizado) de indivíduos afastando-se das instituições religiosas, reforçando a tendência de pluralização e volatilidade da religiosidade brasileira.
Além dos sem religião, o censo mostrou outras tendências: a queda do percentual de católicos continua, mas em um ritmo menor do que antes. O crescimento dos evangélicos também continua, mas pela primeira vez desde 1960, o ritmo desse crescimento diminuiu em relação ao censo anterior. Uma projeção de 2010 indicava que evangélicos ultrapassariam católicos em 2032; com os dados de 2022, essa projeção mudou para 2049, caso a tendência se mantenha. Houve também um aumento significativo nos adeptos de religiões de matriz africana (Umbanda e Candomblé), passando de 0,3% para 1%.
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Um dado sobre a faixa etária indica que evangélicos e pessoas sem religião têm uma maior concentração em termos de faixa etária até 25 anos. Algumas análises sugerem que a declaração “sem religião” na juventude pode ser um momento de experimentação, e que posteriormente algumas dessas pessoas podem se inserir em tradições religiosas.
Reflexões sobre a Autoidentificação e o Ateísmo no Censo
O IBGE utiliza o critério de autoidentificação para coletar dados sobre religião. A pessoa responde o que ela se declara ser. É crucial entender que “sem religião” não significa necessariamente “ateu”. Significa apenas que a pessoa não se identifica com nenhuma religião em particular. Católicos não praticantes, por exemplo, ainda se identificam como católicos e são contados nessa categoria.
Aqui também gera uma reflexão. Quando apresentei minhas pesquisas a um amigo católico, ele disse “tem de ver se são católicos de verdade”. Isso por que os números não ajudam os cristãos. No meu livro “Ciência para não Cientistas (vol. II: religião)”, eu mostro como exemplo que estados brasileiros com números menores de Sem Religião, temos maior homicídios. Ou seja, quando mais cristãos em um estado, maior a violência. Fiz o mesmo com bolsonarismo e feminicídio. Mostrei também que estados cristãos não são menos violentos, sendo um mito. Mesmo foi achado por outros autores usando dados no Estados Unidos.
Quando meu amigo disse “tem que ver se são cristãos de verdade”, isso se chama falácia do escocês falso. Se alguém se autodeclara cristã, em qualquer pesquisa, temos de aceitar a resposta. Bolsonaristas, trumpistas e o grupos KKK são cristãos sim. Esse grupo é o que chamei de hermenêutica da benevolência.
Dentro do grupo dos “sem religião”, estão os ateus e agnósticos.
No entanto, o palestrante expressa a hipótese, baseada em observações, de que o número real de pessoas ateias no Brasil pode ser um pouco maior do que o que o censo revela. Isso se deve a alguns fatores que podem interferir na autoidentificação no momento da pesquisa: • Desconhecimento e Preconceito: Existe muito desconhecimento ou uma visão bastante depreciativa e preconceituosa sobre o ateísmo na sociedade brasileira. O ateísmo é, por vezes, associado ao “diabo” ou a algo “maléfico”. Esses fatores podem afastar as pessoas de se identificarem como ateias, mesmo que não acreditem em divindades. • Ateus no Armário: Muitas pessoas que se consideram ateias optam por não declarar isso publicamente na família, entre amigos ou no trabalho. Quando um recenseador do IBGE pergunta sobre religião, essa pessoa, mesmo se vendo como ateia, provavelmente não declarará isso. Experiências pessoais compartilhadas confirmam que o preconceito religioso, especialmente o relacionado ao não-crente, é grande. • Falta de Conhecimento do Termo: Pessoas que não têm crença religiosa podem simplesmente dizer que não têm religião porque nunca ouviram falar ou não sabem o que significa “ateísmo”.
Tem um fenômeno de incubamento. Segundo uma pesquisa online que fiz, +70% dos ateus estão acima dos 40 anos. Toda pessoa nasce ateia, ninguém nasce acreditando em Deus. A pessoa é ensinada a ter fé. Algumas pessoas rejeita essa fé, mas leva tempo.

Esses fatores baseados na autoidentificação e no contexto social podem levar a uma subnotificação do número de ateus nos dados do censo.
O Papel da Educação e Divulgação
Para que o número de ateus declarado no censo reflita melhor a realidade, é fundamental um trabalho de divulgação e esclarecimento sobre o que é o ateísmo e o que são pessoas ateias. Além disso, é crucial desconstruir os estereótipos e preconceitos que recaem sobre o assunto.
A escola é vista como um espaço importante para essa discussão, um lugar plural onde se pode falar sobre a diversidade de crenças e a ausência delas. No entanto, o que se observa no Brasil são iniciativas que tentam impor um ensino religioso confessional e evangelizador nas escolas, um caminho oposto ao da diversidade. A luta por um espaço para discutir o ateísmo em ambientes educacionais é um trabalho de contracorrente. Apesar dos desafios, há exemplos positivos, como o de uma professora que, inspirada pelos dados do censo sobre o sem religião, decidiu incluir o tema do ateísmo no conteúdo programático de sua disciplina em Ciências da Religião.
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Em resumo, o Censo IBGE 2022 nos mostrou o crescimento contínuo do grupo “sem religião” e forneceu um perfil preliminar dessa população. Contudo, ficamos no aguardo dos dados desagregados para entender melhor a composição desse grupo e, em particular, o número de ateus e agnósticos. As reflexões sobre a autoidentificação sugerem que os dados do censo podem subestimar a realidade do ateísmo no Brasil devido ao preconceito e à dificuldade em declarar publicamente a falta de crença. É essencial continuar o trabalho de divulgação e combate ao preconceito para que a sociedade, e consequentemente o censo, possa reconhecer de forma mais precisa a diversidade religiosa e a ausência dela no país.
Para mim, a parte mais importante é a escola laica. O ateísmo não precisa ser ensinado, mas precisamos garantir que a escola não seja usada como palco de crenças cristãos. Atualmente, para quem observa bem de perto, e ensino público serve como incubadora da crença cristã. Estamos avançando, em passos lentos, mas estamos, mas a escola ainda favorece o cristianismo, a visão cristão do mundo.
A Revolução Ateísta, a Última Minoria Silenciada: A luta por liberdade de pensamento em um mundo pós-religioso (Vol. 1: introdução)
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메타데이터
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