A influência do carimbó raiz entre as crianças de Alter do Chão
Priscila Cotta para o Portal Lunetas 24.02.2022
A influência do carimbó raiz entre as crianças de Alter do Chão
Priscila Cotta para o Portal Lunetas 24.02.2022
A vila de cerca de 6 mil habitantes, em Santarém (PA), protagoniza uma fase de intensa produção cultural a partir da ressignificação desta manifestação popular

Foto: Bruna Marta, CAJU
“Vovô, eu preciso voltar para Alter do Chão, porque vou tocar com os mestres na Quinta do Mestre”, disse o menino paraense Caiubi, 7, em visita à sua família materna em Belo Horizonte (MG).
Ele se referia à “Quinta do Mestre e a Sereia”, um evento de rua que nasceu em 2018, na vila situada às margens do rio Tapajós, e tornou-se um marco de transformação na percepção do carimbó pau e corda como manifestação cultural regional, tanto pelos visitantes quanto pelos próprios nativos e moradores.
A festa costuma acontecer semanalmente na orla, em frente à casa do Mestre Griô Chico Malta. Foi a partir deste evento que crianças filhas da terra passaram a ter um contato mais próximo com o carimbó raiz: os meninos logo são iniciados nos instrumentos e as meninas dançam com suas saias rodadas, embora haja um intercâmbio entre os papéis cada vez maior.
A sereia, por exemplo, figura criada pelo Mestre para representar a dançarina, é um estímulo para a imaginação de crianças como Jaciara, 5, irmã de Caiubi, que também gosta de participar do evento.
Carimbó pau e corda é o nome dado ao carimbó tradicional, uma manifestação que inclui música e dança a partir da fusão de influências indígenas, africanas e ibéricas. “Pau e corda” é uma referência aos instrumentos de base: curimbó, tambor, maraca e banjo. Ao longo do tempo, a essa formação original somaram-se também os metais, como flauta e sax. E esse carimbó raiz deu origem a outros gêneros como o tecnobrega, a lambada e o carimbó estilizado, que incorpora bateria, guitarra e outros elementos mais modernos. Mais difundido nas rádios, o carimbó estilizado faz sucesso em todo o país, em gravações de artistas como Pinduca e Dona Onete.
Carimbó, um patrimônio brasileiro
“O carimbó sempre esteve presente em Alter do Chão assim como em todo o Pará. Mas, com a patrimonialização e o trabalho de salvaguarda liderado pelo Mestre Chico Malta, adultos e crianças passaram também a fazer o carimbó: compor, tocar, confeccionar instrumentos, fazer apresentações e shows “, diz a antropóloga Luciana França, mãe de Caiubi e Jaciara, e companheira do Mestre Hermes Cadeira, nativo da região.
Fruto de um projeto com alunos da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), a antropóloga Luciana França lançou, em 2019, o documentário “Quinta do Mestre e a Sereia”, com depoimentos sobre o evento, como o do neto do Mestre Osmarino Kummaruara, Laudivan. Na época com 14 anos, o menino expressa a força deste movimento na sua infância e na vida da sua família: “Ele [Osmarino] quer melhorar o mundo através do carimbó. Ele quer resgatar uma das tradições que o grupo indígena veio transformando desde a época da colonização, é uma grande conquista para o povo ajudar o patrimônio cultural que o carimbó é”.
Mestre Chico Malta explica: “quando cheguei de Santarém, em 1984, não existia o carimbó pau e corda, tinha apenas um grupo que se reunia para dançar e receber os turistas, acompanhados por carimbó eletrônico, e as músicas que tocavam eram do Pinduca, que também se ouvia no rádio”. Ele conta que, em Alter do Chão, os Mestres e Mestras tradicionais defendiam o curimbó, ritmo tradicional do povo Borari de Alter do Chão.
O carimbó pau e corda chegou à vila por volta de 2005 e foi ganhando força com a campanha pelo seu reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, o que aconteceu em 2014. A partir da herança cultural do próprio território, incluindo os ritmos curimbó e marambiré, por exemplo, foi-se criando o sotaque do carimbó pau e corda de Alter.
Os grupos são formados, na maioria, por membros da família e amigos de infância. A produção das festas também é assim: um cuida da comida, outro do caixa, outro da decoração. Uma preocupação do Mestre Chico foi sempre promover atividades educativas para as crianças: “Utilizo composições para transmitir conhecimento de forma lúdica”.
Os grupos também promovem oficinas para compartilhar o processo de confecção dos instrumentos a partir de produtos da floresta amazônica, em escolas locais ou em vivências para turistas, algumas específicas para crianças. As maracas são feitas de cabaça ou cuia com sementes; já o curimbó, ou tambor, é moldado a partir da escavação de um tronco para deixá-lo oco no centro.
Centros culturais e turismo de experiência
Numa vila que tem o turismo como base da economia, todos esses elementos são também uma forma de proporcionar imersão na cultura local para visitantes de todas as idades. Com a dissolução do primeiro grupo de carimbó pau e corda, o Roda de Curimbó, seus integrantes foram criando outros grupos e, a partir deles, centros culturais, a maioria com atividades que incluem as crianças. Além da Quinta do Mestre, existem, por exemplo, a Toca do Tatu, a Casa Muiraquitã, o Centro Cultural Banzeiro, a Maloca do Cumaru, a sede da Associação de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós e vivências itinerantes como o Pirarimbó, que é uma junção do carimbó com a piracaia, costume regional de se reunir para assar peixe na praia.
Se os adultos vivem esse momento de valorização da cultura, as crianças de hoje já nasceram com essa referência . “Na minha infância, a gente dançava o carimbó do macaco na escola, tinha muita música e dança nas quermesses, mas era o carimbó estilizado com músicas gravadas vindas de Belém”, conta a dançarina Gilvana Borari, professora de carimbó e mãe de três filhas, Graziele, 19; Luana, 14; e Tainá, 1.
Gilvana fala dos diversos tipos de aprendizado que o carimbó proporciona. “Ao dançar e tocar, a criança estimula a coordenação motora. Também tem a sociabilização, o trabalho em grupo. E quando estão maiorzinhos, eles passam a entender as origens do nosso povo: a mistura do índio, do negro e do europeu”.




A professora de carimbó Gilvana Borari e as filhas Graziele, Luana e Tainá / Arquivo pessoal
Os frutos do carimbó
Sandra e Hinho Moreno, pais de Estrela, 1, são um exemplo do florescimento do carimbó pau e corda na região e sua aplicação na educação. Ela, espanhola, ele, brasileiro de origem indígena, dedicam a vida a essa manifestação cultural. Dançam e tocam em eventos acompanhando grupos, costuram saias e camisas, e dão aulas e oficinas.

“ O carimbó não entrou na minha vida, eu nasci no carimbó . Minha mãe dançava e costurava roupas para participarmos das festas”, diz Hinho. Mas foi a partir do surgimento do Movimento de Carimbó do Oeste do Pará que nos aprofundamos no carimbó raiz e passamos a entender a importância dele para a valorização e preservação da nossa identidade”.
O casal recém lançou um projeto no programa Consciência e Arte na Juventude (CAJU), do Instituto Aquífero Alter do Chão, que recebeu apoio do Unicef para várias atividades. Entre elas, “uma turma mista, com nativos e gente de fora, que participam de vivências de dança de carimbó uma vez por mês”, conta Sandra.
“Eu vejo que as crianças nativas enxergam o carimbó com muito orgulho . Nas letras das músicas há uma valorização da cultura do caboclo, da pesca, das comidas, do O carimbó também é um meio de reivindicação e de resistência respeito à natureza. “.
“Curuá, curuá carauari Palmeira nativa do Tapajós Palmeira forte, resiste até uma guerra Seu tronco enterrado na terra, só as folhas vão brotar Tira a palha, tira o fruto, tira o óleo pra fritar O peixe na frigideira, pra depois saborear” Música “ Abrindo a palheira “, do Mestre Hermes Caldeira
A vivência do carimbó estimula também a criatividade das crianças, como defende o Mestre Silvan Galvão. “Meus três filhos sempre tocaram comigo e estão envolvidos com o carimbó. O Kaique compôs sua primeira música aos 9 anos”, diz. Em 2021, Silvan e os filhos Estefane, 19, Paulo, 17, e Kaique, 13, lançaram duas músicas autorais, “ Carimboleira “ e “ Som chamegado “.

Segundo o Mestre Chico Malta, além de benefícios como autoestima, preservação da identidade e criatividade, o carimbó raiz tem ainda “um papel importantíssimo na formação do caráter, do respeito, do coletivo e da socialização de conhecimentos” entre crianças nativas e visitantes de Alter do Chão.
Para a antropóloga Luciana França, o fortalecimento do carimbó raiz a partir “desse movimento de Alter mostrou concretamente o efeito positivo que a patrimonialização e o estímulo às atividades de salvaguarda de uma manifestação cultural podem proporcionar a toda comunidade “.
Resumo
O carimbó, manifestação cultural que tornou-se patrimônio imaterial, proporciona momentos de troca genuína entre imigrantes, turistas e nativos da vila de Alter do Chão, no Pará. Adultos e crianças tocam, cantam e dançam juntos, resgatando a tradição.
Originally published at https://lunetas.com.br on February 24, 2022.
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