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Chinelos, redes e a polarização política: o colapso da convivência

Uma nova polêmica surge. A bola da vez? Um comercial de chinelos. Este está sendo o grande assunto mais comentado no tribunal de minúsculas…

Diego Seratto · 2025-12-23 12:10 · 1 claps · 2.6 min read
#ideologia #política #polarização-política #cultura #sociedade
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Chinelos, redes e a polarização política: o colapso da convivência

FOTO: Juca Varela/Agência Brasil

FOTO: Juca Varela/Agência Brasil

Uma nova polêmica surge. A bola da vez? Um comercial de chinelos. Este está sendo o grande assunto mais comentado no tribunal de minúsculas causas. O comercial, que traz uma superstição há tempos difundida em nossa cultura e que nunca trouxe nenhum tipo de estranhamento, hoje torna-se motivo de guerra ideológica. O motivo? A seguinte fala:

“Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. Não é nada contra a sorte, mas vamos combinar que sorte não depende de você. Depende da sorte. O que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada. Os dois pés na jaca. Os dois pés onde você quiser — vai com tudo. De corpo e alma, da cabeça aos pés. Havaianas, todo mundo usa.”

Há um tempo, isso jamais seria motivo de revolta ou de indignação, até porque, de fato, o que a fala traz é uma sátira sobre sorte e a superstição de não começar o dia acordando com o pé direito… Enfim, pense que é um comercial de chinelos, em uma campanha de final de ano, uma época que por si só traz esse sentimento de renovação, esperança, desejo de boa sorte, falando para você não dar sorte ao azar… E se utiliza de um ditado popular para construir sua narrativa, até o momento clara, mas que foi abruptamente distorcida por um segmento político que entendeu como um ataque à “direita”, no sentido político, o que está resultando em vídeos de pessoas histéricas, rasgando chinelos e jogando no lixo, esbravejando contra o comercial, contra a atriz, a empresa e, obviamente, contra o campo político adversário que eles entendem como os culpados pela situação.

Temo que estamos em um momento que pode não haver mais volta. Tudo é conflito ideológico, tudo é ataque, disputa de narrativas, nada mais é leve e natural. Tudo sempre implica em uma discussão política que raramente se faz presente na situação. Isso é o resultado de uma grande polarização política, não só no Brasil, como no mundo. Tudo é disputa de narrativas. Estamos adoecendo cada vez mais como sociedade, uma idiotização cultural jamais vista antes. Não há leitura, não há entendimento; há apenas a crítica pela crítica, pelo desejo de se opor e de se colocar no campo oposto.

A leitura de Clifford Geertz sobre antropologia interpretativa ajuda a entender melhor essa situação. Para ele, cultura é uma “teia de significados” que as pessoas constroem e compartilham para dar sentido à vida e às ações cotidianas. Cada símbolo, cada gesto, mesmo os mais simples, carrega significados que revelam valores, identidades e relações sociais. No caso do comercial, usar chinelos e brincar com superstição, algo que poderia ser apenas um gesto cultural leve, acaba se transformando em conflito. Isso acontece porque não se está interpretando os símbolos de forma profunda, como Geertz sugeriria, tentando compreender contexto, sentido e intenção cultural. Em vez disso, a reação é imediata, superficial e polarizada, mostrando como a falta de atenção à complexidade da cultura torna a sociedade mais vulnerável à intolerância e à escalada de disputas.

Não existe mais a disputa saudável comum em democracias, só divergência de ideias. O debate se transformou em um campo de batalha constante, sem trégua, onde todos estão o tempo todo em conflito. Enquanto continuarmos reagindo sem interpretar, sem buscar entender o sentido das ações e dos símbolos ao nosso redor, permaneceremos presos nesse ciclo. A questão é: como sair disso sem perder senso de comunidade, empatia e a capacidade de rir e refletir? Talvez a saída seja voltar a olhar para a cultura e para os atos cotidianos, como Geertz nos ensina, com atenção, paciência e vontade de compreender, em vez de reagir por impulso.


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