143 — Katy Perry
Katy Perry foi a rainha do pop nos anos 2010. Isso é inegável; contra fatos não há argumentos. Num mundo vivendo o escapismo de uma…
143 — Katy Perry
Katy Perry foi a rainha do pop nos anos 2010. Isso é inegável; contra fatos não há argumentos. Num mundo vivendo o escapismo de uma economia quase quebrada por conta da crise de 2008 (que nós brasileiros não sentimos tanto assim), ela foi o sopro de ar fresco necessário.
Ela foi escandalosa, chegando em 2008 falando que beijou uma mulher e gostou. Explorou o pop-rock e nos trouxe uma música de chorar no banho pensando num término que nunca aconteceu.
Em 2010, ainda surfando na onda do escapismo, a maior era do pop até então chegou. Teenage Dream tocava em TODOS OS LUGARES. Ela lançou uma versão deluxe, fez uma turnê mundial e mudou a forma com que se media um sucesso. A partir de agora, você só fazia sucesso se fosse igual ou melhor que o Teenage Dream.
Três anos depois, ainda se vivia a onda de festas, LMFAO, Flo Rida, ‘vamos beber e curtir para sempre’. A era Prism dificilmente seria um sucesso maior que a anterior, mas a questão mais importante aqui foi que Katy Perry parecia mais e mais o que eles chamam de one-trick pony, ou seja, ela aparentemente só sabe fazer uma coisa: pop básico, pra ficar na superfície, música que se ouve na Riachuelo. O que casou MUITO bem com o pós-2008. Despontava, no entanto, no horizonte, uma nova forma de se ver o mundo: Lorde.
Para se destacar ou você faz o que todo mundo faz, mas melhor, ou você vai na direção contrária. Sim, o Born To Die da Lana é também mais intimista, mais focado em letra, composição, mas não estourou tanto quanto o Pure Heroine — principalmente Royals.
Royals era a antítese de tudo o que acontecia na época. Era mais sombrio, mais simples. Mais calmo. A mensagem começava a ficar mais clara: nós, as pessoas comuns, somos isso mesmo. Estamos cansados; vivemos no mundo real, não nessa afterparty eterna.
Ainda sim, Prism foi relativamente bem sucedido e Katy Perry seguiu quase 5 anos sem lançar um álbum. Nesse meio tempo, o mundo mudou bastante (não tanto quanto as pessoas pintam — parece que ela ficou 20 anos sem aparecer na mídia. Calma, gente). Mas uma coisa aconteceu nesse meio tempo; uma marca que permanece até hoje na indústria: a era 1989.
O vácuo deixado por Katy Perry, Lady Gaga (após o ARTPOP) e Rihanna (após o Unapologetic) não permaneceria assim por muito tempo. Claro, a indústria não parou, mulheres continuaram a fazer pop, mas o grande nome, a grande estrela que todo mundo iria imitar, esse lugar estava vago.
E com o material certo nas mãos, no momento certo e após o movimento certo de carreira, Taylor Swift cimentou seu lugar como uma estrela pop. Ela pegou as lições deixadas pela era Teenage Dream, capitalizou em cima do relacionamento parassocial com seus fãs, trouxe consigo o estilo confessional rico em storytelling do country — com o bônus de tornar tudo aquilo um jogo. Sobre quem ela está falando agora? Sobre qual momento é esse? O que ela quis dizer com isso?
Numa série de movimentos muito bem calculados (mesmo com todo o TaylorSwiftIsOverParty), Taylor trouxe para o mainstream uma nova forma de fazer música, algo que estava bem tímido, mas que nunca sumiu por completo. Lana Del Rey, Lorde e Adele tinham mostrado que o público também gostaria de ouvir mais Jagged Little Pill e menos 3OH!3.
Músicas confessionais focadas na composição, uma mais rica, com camadas. Algo mais pessoal, com o DNA e as digitais de quem está cantando. A era de vinte pessoas compondo para qualquer intérprete cantar, se não acabou, está numa pausa.
Além disso, todo o cenário em volta havia mudado. Em 2016, o Trumpismo chegava ao ápice com sua vitória nas eleições, marcando uma nova vitória para a extrema-direita. Com isso, as pessoas foram impelidas a se politizarem. A conversa sobre política, seja porque estava sendo deturpada, seja porque estava se defendendo, tomou todos os cantos da vida.
E nesse mundo que Katy Perry voltou. Ela e sua equipe sentiram isso; sabiam que esse mundo era outro bem diferente da era Prism. Eles precisavam entregar um outro tipo de pop, um “pop com propósito”. Katy encabeçou a promoção desse novo álbum como algo profundo, algo para abrir o seu terceiro olho.
E Chained To The Rythym entregou isso. Algo que já dava sinal de ser raso para um público que se refinava, mas podia passar. E então, para um público menos ignorante por não estar mais tão imerso numa monocultura, ela lançou como single sua música com o trio Migos, conhecido por suas falas homofóbicas. Depois, veio a resposta (bem atrasada) para a sua briga com Swift: Swish Swish.
E o pop com proposito ficou em algum lugar pelo caminho. Katy voltava ao mesmo de sempre: pop com uma letra com duplos sentidos, onde ela era uma gostosona falando putarias em códigos — mais uma pra conta do one-trick Katy.
Depois de 3 anos de Witness, Never Really Over veio trazendo um ar de novo, que se seguiu com Harleys in Hawaii. Mas esse mundo era ainda mais diferente. E não por conta apenas da pandemia, mas novos artistas, como Billie Eillish, surgiram nesse meio tempo. E aí vem a segunda questão importante dessa história: a nova geração.
Os gen Z deixaram, pouco a pouco, de ser a geração que vê Ben 10 e brinca de Monster High para serem os trend-setters que um dia nós, geração Y (ou millennials), já fomos. São os jovens que fazem a internet. Nós, millennials, agora somos a geração que trabalha, que está ditando o mundo no mercado de trabalho. Os gen Z, no entanto, são o que ditam o que é novo e o que é velho. Tudo que um dia foi feito para gente (One Direction, Orkut, Acesso MTV, etc), agora é feito pensando neles. Música é feita pro TikTok, porque eles estão no TikTok. Existe um aumento vertiginoso no interesse por produtos culturais sul-coreanos, porque eles gostam. Você não entende mais as gírias e referencias porque são eles quem fazem. É deles e para eles.
E nesse mundo pós monocultura, onde todo mundo mora numa bolha feita sob-medida, com muita informação sobre pouco e nenhuma informação sobre tudo, Katy Perry volta.
Taylor Swift mudou a indústria, assim como Katy havia feito em 2010. Ela criou a tendência na qual o mainstream se baseia. Ela é quem todo mundo quer copiar. Ela inspirou as artistas dessa nova geração, como Chappell Roan, Olivia Rodrigo, Sabrina Carpenter, etc. Um mundo feito pelo pop confessional, pelo storytelling. E Katy volta pra essa nova era cometendo os mesmos erros que cometeu pós-Prism: ela se recusa a evoluir.
Você pode argumentar que Taylor Swift tem a sua fórmula, que ela pode ser considerada também um one-trick pony. E sim, ela pode sim. Ela muda de gênero, explora outras sonoridades, ela conta outras histórias, outras metáforas, mas isso, talvez, canse um dia. Claro. Entretanto, o sucesso de Olivia Rodrigo, de Chappell, de Billie e da própria Taylor mostram que o truque de Swift pode até cansar, mas a marca que ele deixou continua firme e forte.
Katy Perry quer fazer música para um mundo que não existe mais. Ela quer apertar os botões que nem mais estão na mesa. Quer apelar para uma nostalgia sem perceber que nostalgia é sobre evocar um sentimento de passado e não recriá-lo. Anacronismo é estranho, deixa a impressão de algo forçado.
A Disney poderia até passar os filmes de sua renascença no cinema, sem mudar um frame, mas eles refizeram em live action. É uma mudança que parece idiota, mas que faz toda a diferença. É o meio do caminho entre a excitação do novo e a segurança do conhecido. É o ponto perfeito para esse momento de covardia econômica das grandes empresas.
Katy Perry não acerta nem em um e nem no outro. 143 não traz nada de novo para a imagem da Katy Perry enquanto artista, e ao mesmo tempo força as lembranças de um mundo que só fez sentido lá atrás.
Mesmo a geração que viveu a era Teenage Dream, como eu, não ficou presa lá. Nós crescemos, amadurecemos nossos gostos. Sim, me lembrar daqueles tempos é ganhar meu coração, mas me trazer um pedaço daquele tempo para agora é datado.
Katy Perry parece mais perdida que nunca no seu próprio personagem. Parece um caso de ‘na minha época que era bom’, mas aplicado à realidade de uma pop star. Ela parece se recusar a mudar, a se adaptar aos novos tempos, à nova audiência. O que pode ser bom, pode mostrar caráter, se feito da forma certa.
O problema do 143 não é ser raso demais. Nunca foi. Espresso, da Sabrina Carpenter, não versa sobra o estado geopolítico do mundo pós-Guerra Fria. A música faz sucesso, é boa e é sobre that’s that me espresso, é sobre I’m working late ’cause I’m a singer. Brat, da Charlie XCX, não vai ganhar o prêmio Pulitzer, isso eu posso te garantir.
Mas tem algo ali delas. Algo que a gente se acostumou a ver. Quando você escreve as letras, ou quando elas são sobre a sua vida (como no caso do Lemonade), isso tem o seu DNA, suas digitais — mas esse não é o único jeito de ter o seu DNA ali.
O que falta pro 143 é isso: falta Katy Perry. A era de músicas como Toxic, que poderiam ser cantadas por Britney, Christina, Pink, Mariah, Katy, que não faz a menor diferença está num pause (eu acho Toxic a maior música pop de todos os tempo, btw). Trabalhos assim não têm mais espaço agora.
O que eu vejo de pessoas falando que esse álbum é o novo Summer Eletrohits, acredito que venha daí. Músicas que não dizem muita coisa, que não dizem a que veio, pra onde vão, sobre o que são, que não interessa muito, que é só pra ficar de fundo numa festa — ou na Riachuelo. Músicas que só tem uma batida legal.
E aí que vem mais um erro do 143: a produção. Mesmo nesse mundo cada vez mais engajado em pautas sociais, que busca ser mais consciente, ela trabalha com um suposto abusador de mulheres (numa das faixas que busca empoderar mulheres, diga-se de passagem) e para que? Para ter uma produção digna de inteligência artificial. Sem inovação, sem mudança, sem vontade.
O resultado é um álbum que nasce do desejo de agradar pessoas que não existem mais, que viviam num mundo que evoluiu, usando-se de uma produção genérica, com temas ultrapassados, explorados da mesma forma de sempre. É algo sem alma, sem vida. É música feita por IA para IA.
Nessa terceira tentativa de chegar ao nível de sucesso do Prism (ou ultrapassá-lo), Katy Perry me deixa com uma dúvida perigosa: ela não se interessa muito em mudar ou ela não consegue?
메타데이터
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