PERFIL E IDENTIDADE ATEÍSTA: OS SENTIDOS CONTEMPORÂNEOS DO ATEÍSMO NO BRASIL
Por Guilherme Natividade
PERFIL E IDENTIDADE ATEÍSTA: OS SENTIDOS CONTEMPORÂNEOS DO ATEÍSMO NO BRASIL
Por Guilherme Natividade

No artigo *Perfil e identidade ateísta*, escrito e publicado originalmente no mês de março de 2024, apresentei uma série de conceitos, seguidos de suas respectivas definições, a fim de constituir diferentes perfis identitários ateístas. Essa abordagem introdutória, ainda que sem respaldo acadêmico e sem embasamento científico, serviu, especificamente, para 1) expor o meu perfil e a minha identidade ateísta, em particular, e 2) nortear a definição do problema da minha pesquisa social, que foi realizada durante a produção do meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Graduação em Bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Apresentado ao Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da referida instituição pública de ensino superior, e defendido na tarde do dia 15 de janeiro de 2025, de modo virtual, esse projeto, que contou com a orientação do Prof. Dr. Marcelo Kunrath Silva (IFCH/UFRGS), foi aprovado, por conceito A, pela banca examinadora também composta pelo Prof. Dr. Ricardo Oliveira da Silva (CPNA/UFMS) e pela Profª. Drª. Silvana Krause (IFCH/UFRGS).
Dedicado ao conjunto da comunidade ateísta brasileira e do movimento humanista secular e de livre-pensamento, esse trabalho, que serviu como requisito parcial e obrigatório para a minha obtenção do título de Bacharel em Ciências Sociais, será aqui apresentado, de forma resumida, a fim de divulgar o material (disponível na Biblioteca Ateísta) e atualizar o artigo por mim anteriormente publicado, visando corrigi-lo.
1 INTRODUÇÃO
Esse TCC teve como objetivo geral analisar, de modo exploratório, os sentidos do ateísmo para a comunidade ateísta brasileira no século XXI. A partir do levantamento e da análise de uma série de dados obtidos através da pesquisa social, a proposta da investigação foi determinar o perfil ateísta geral dos(as) brasileiros(as), considerando as identidades subjetivas de cada sujeito que compõe essa comunidade em nível nacional. A ideia central foi, de modo exploratório, analisar as partes dos objetos de estudo para constituir o todo, a fim de estruturar o perfil e a identidade (Stefani; Salvagni, 2011) ateísta brasileira de modo geral.
Visando cumprir com o objetivo geral, o trabalho se estruturou a partir dos três seguintes objetivos específicos, que envolvem o levantamento e a análise de dados:
a) apresentar brevemente a história do ateísmo, no Brasil e no mundo, bem como suas definições e seus conceitos contemporâneos;
b) investigar, a partir de um questionário on-line e de demais fontes localizadas no ambiente digital, as concepções contemporâneas de ateísmo para ateus/ateias brasileiros(as), considerando as subjetividades dessa população no século XXI; e
c) analisar os sentidos do ateísmo para a comunidade ateísta brasileira.
2 JUSTIFICATIVA
Esse trabalho se justificou por dois aspectos em torno da abordagem sobre o ateísmo no Brasil. Primeiramente, meu objetivo foi dar visibilidade a um tema que, apesar de possuir um vasto campo de pesquisa a ser explorado, ainda é pouco abordado no debate público, político institucional e educacional brasileiro, bem como na academia nacional e em demais espaços midiáticos e ambientes intelectualizados. Além disso, considerando haver poucos trabalhos e produções literárias sobre o ateísmo traduzidos para o português ou mesmo escritos e publicados no Brasil, a proposta foi analisar o perfil identitário/ideológico de ateus/ateias brasileiros(as), fornecendo materiais e dados atualizados sobre essa temática à comunidade acadêmica, ao conjunto da sociedade civil e, principalmente, ao movimento ateísta brasileiro.
Em segundo lugar, considero que a minha inserção e participação ativa e militante no ativismo ateísta digital, enquanto autodeclarado livre-pensador ateísta e humanista secular, influenciaram diretamente na escolha do tema dessa pesquisa social, o qual possui afinidade com minha atuação engajada e relação com os estudos sobre a história do ateísmo que venho desenvolvendo, de maneira independente, nos últimos anos.
Esse trabalho, portanto, visou dar notoriedade a essa temática e a esse segmento populacional da sociedade brasileira, levantando dados que determinem os sentidos contemporâneos do ateísmo no Brasil e produzindo um material especial no campo da Sociologia que expanda a abordagem desse tema para esta área do conhecimento.
3 O ATEÍSMO NA HISTÓRIA
Nesse capítulo, tive como objetivo específico apresentar brevemente a história do ateísmo no Brasil e no mundo, explorando os sentidos dessa ideologia desde a antiguidade greco-romana até a contemporaneidade, a fim de mostrar as variações de significados atribuídos a essa posição ideológica. Nele, mostro que, ainda que tenha surgido na antiguidade, o ateísmo, como conhecemos hoje em dia, é fruto da modernidade.
Quando o termo atheos surgiu na Grécia Antiga (Baggini, 2016), significando sem deuses, numa tradução livre, o ateísmo se referia à ausência da proteção dos deuses cultivados naquele período histórico. Ou seja, até o século V AEC o(a) ateísta era aquele(a) que não detinha a proteção dos deuses politeístas gregos (Silva, 2022), isto é, uma pessoa definitivamente sem deus. Somente a partir de meados do século V AEC que o ateísmo adquiriu um novo significado, passando a descrever aqueles(as) que não reverenciavam as divindades (Sena, 2024), demonstrando um descompromisso perante as crenças e os ritos de passagem culturalmente praticados naquele período histórico.
Tempos mais tarde, durante o Império Romano, o cristianismo, que recém havia surgido enquanto uma crença judaica, foi visto pelos romanos como uma forma de manifestação do ateísmo, considerando se tratar de uma crença monoteísta que se opunha aos rituais politeístas da época. Naquele período, o ateísmo, percebido de maneira depreciativa e perniciosa e concebido como sinônimo de infâmia, imoralidade e impiedade (Silva, 2022), serviu como uma forma de acusação pejorativa e injuriosa entre diferentes grupos religiosos que evitavam se associar ao termo, enquanto rotularam seus oponentes a partir deste mesmo rótulo. Assim, ateus e ateias eram vistos/as como tolos/as e loucos/as (Sena, 2024).
Na Idade Média, contudo, os termos ateu e ateísmo desapareceram do vocabulário, sendo substituídos por eufemismos como hereges, blasfemadores, apóstatas, ímpios e infiéis (Silva, 2022). A era medieval puniu sistematicamente crimes de blasfêmia e heresia, perseguindo e acusando de praticar infidelidade todos os grupos religiosos que não seguiam os princípios do cristianismo, como judeus e muçulmanos. A Santa Inquisição Católica passou a tratar o ateísmo como uma espécie de ameaça à religião oficial, aos valores cristãos e aos mandamentos divinos.
Foi somente durante a Idade Moderna que o ateísmo voltou aparecer no vocabulário, ganhando novos sentidos e significados, além de traduções para diferentes idiomas. Nessa época, passaram a vigorar, a partir dos tribunais eclesiásticos europeus, inúmeras leis que conceberam o ateísmo como prática criminal, visando reprimir o ceticismo. O ateísmo foi, portanto, associado à corrupção e concebido como uma espécie de crime, seguindo a visão do filósofo grego Platão (Silva, 2022).
Já no contexto do final da Idade Moderna, adentrando na Idade Contemporânea, ser ateísta passou a simbolizar uma identidade deliberada e conscientemente descrente, que nega a ideia de deuses e não segue/pratica quaisquer crenças religiosas. Essa mudança de sentido foi fruto do surgimento do Iluminismo na Europa e produto do racionalismo, corrente filosófica que fundamenta o naturalismo (Baggini, 2016).
3.1 NEO E CIBERATEÍSMO
A partir das duas primeiras décadas do século XXI, o fenômeno ateísta ganhou uma nova abordagem e uma forma de atuação até então inédita em sua história, passando a dar notoriedade ao ateísmo como elemento central no debate público. Esse movimento pautado em aspectos filosóficos, políticos e culturais, denominado de neoateísmo, eclodiu logo após os atentados terroristas islâmicos cometidos contra o World Trade Center (Torres Gêmeas) no dia 11 de setembro de 2001, tendo como fundamentação teórica as obras dos chamados, pela bibliografia neoateísta, quatro cavaleiros do ateísmo, ou pais fundadores do neoateísmo: os britânicos Richard Dawkins e Christopher Hitchens e os estadunidenses Sam Harris e Daniel Dennett. Também chamado de novo ateísmo ou ateísmo do século XXI, sendo caracterizado pela promoção do cientificismo através do evolucionismo darwinista (LeDrew, 2016), essa nova expressão do ateísmo, enquanto fenômeno da modernidade, contribuiu para dois grandes marcos do movimento ateísta global: 1) o impulsionamento da fundação de diversas associações de viés ateísta pelo mundo, bem como a realização de eventos e demais ações de propaganda antiteísta e irreligiosa; e 2) o surgimento de um modo de manifestação da identidade ateísta até então inédito na história — o ciberateísmo (Martins, 2018).
Favorecido pela era da tecnologia e da informação, o neoateísmo se aproveitou da cibercultura (Lévy, 1999) e do ciberespaço para se articular através desse modelo de ciberativismo que repercutiu pela internet global dos anos 2000. Nesse sentido, tanto o neo quanto o ciberateísmo são expressões modernas do ateísmo que atribuíram sentidos contemporâneos a essa ideologia em todo o planeta, incluindo o Brasil.
No Brasil, o ateísmo organizado institucionalmente surgiu após a proclamação da República em 1889 e a promulgação da Constituição Federal republicana de 1891. Perpassando, durante o século XX, pelas expressões ateístas manifestadas nos movimentos anarquistas, anticlericais e marxistas (Silva, 2020), o associativismo ateu brasileiro adentrou o século XXI sendo marcado pela fundação de entidades como a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA), em São Paulo/SP (2008), a Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS), em Porto Alegre/RS (2010), e a Associação Ateísta do Planalto Central (APCE), em Brasília/DF (2013).
Sendo formada por uma parcela minoritária da população brasileira, de acordo com dados do Censo Demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano de 2010 — ainda que, por uma série de fatores, essa pesquisa não apresente precisamente a sua totalidade — , a comunidade ateísta vem obtendo espaço para manifestar suas opiniões através do ambiente digital, por meio de canais de comunicação audiovisuais na plataforma YouTube e de perfis humorísticos que promovem críticas, sátiras e questionamentos às religiões nas redes sociais Facebook e Instagram.
E apesar das constantes divergências e cisões existentes entre essa população, o neoateísmo brasileiro organizou eventos significativos e produziu materiais que manifestaram os sentidos ateístas para essa comunidade no país. Como exemplos, cito o Encontro Nacional de Ateus (ENA), realizado entre os anos de 2012 e 2016 (evento que promoveu debates e reuniões tanto virtuais quanto presenciais em alguns estados brasileiros), a publicação da Revista Ateísta entre os anos de 2013 e 2018, com exceção de 2015 (projeto idealizado pelo jornalista Gabriel Filipe Rodrigues de Souza, contando com o apoio de financiamento coletivo para a produção, impressão e distribuição dos exemplares impressos), e as candidaturas legislativas de Edmar Luz de Almeida, o candidato ateu que levantou e defendeu as pautas do ateísmo e do Estado laico como suas bandeiras de campanha.
4 OS SENTIDOS CONTEMPORÂNEOS
Nesse capítulo, aponto que ateísmo moderno, assim compreendido, de modo geral, pelos pensadores neoateístas, é uma concepção de mundo (Duarte, 2015) contra-hegemônica; uma filosofia de vida que se opõe à cosmovisão hegemônica teísta/religiosa sobre a realidade natural e material. Essa percepção do ateísmo enquanto uma visão de mundo sem deus pode estar conectada ao existencialismo ateísta (Sartre, 2013) formulado pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905–1980) como um referencial teórico e uma fundamentação para essa posição ideológica e filosófica.
Algumas expressões do ateísmo enquanto uma filosofia de vida podem ser encontradas em manifestações de ateus e ateias em conteúdos audiovisuais publicados na internet. Muitas delas propõem uma abordagem positiva, propositiva e construtiva do ateísmo, enquanto um pensamento secular que não se limite a criticar as religiões. Nesse sentido, a filosofia ateísta não pode se restringir a uma descrença pura e simples, de forma negativa, devendo visar uma positividade social.
Contudo, cabe acrescentar que ser ateu/ateia não necessariamente implica em não acreditar em absolutamente nada no tocante à realidade natural e material e à vida em sociedade. Uma espiritualidade ateísta, isto é, sem religião e que negue a ideia de deuses, é um modo de expressão perceptível entre essa população. Dessa forma, os sentidos do ateísmo variam até mesmo em relação às noções subjetivas de espiritualidade implicadas entre as próprias identidades dos mais diversos perfis ateístas.
4.1 ATEÍSMO EXPLÍCITO
Cancian (2002) apresenta dois tipos de ateísmos existentes, os quais dialogam com a noção de pluralidade de sentidos, simbolismos e significados atribuídos aos mais variados perfis ateístas. Dentre os principais, dois ele define como sendo modalidades-tronco: 1) ateísmo explícito e 2) ateísmo implícito.
O conceito de ateísmo explícito corresponde à rejeição consciente e deliberada da ideia de deuses, isto é, uma posição que rejeita a noção de divindades normalmente a partir de uma deliberação filosófica. Essa modalidade do ateísmo se divide em duas formas de ser ateu/ateia, segundo a filosofia:
- Ateísmo Negativo/Fraco/Cético: descrença na existência de deuses. O(A) ateu/ateia negativo(a)/fraco(a)/cético(a) é aquele(a) que não acredita/duvida da existência de divindades.
- Ateísmo Positivo/Forte/Crítico: crença na inexistência de deuses. O(A) ateu/ateia positivo(a)/forte/crítico(a) é aquele(a) que acredita na inexistência de divindades.
Nesse sentido, o primeiro se constitui como uma descrença pura e simples, enquanto o segundo se constitui como uma posição convicta e orgulhosa; um tipo de crença, porém não uma religião. Trata-se, portanto, de uma dicotomia entre crer na ausência e duvidar da existência.
Em relação a esses dois tipos de ateísmo, Walters (2015) os subdivide em duas categorias:
- Ateísmo Militante/Ativo: aquele que percebe a crença em deuses de forma errônea e perniciosa.
- Ateísmo Moderado/Passivo: aquele que concorda que a crença em deuses é inútil e injustificável, porém não a percebe de forma perniciosa.
4.2 ATEÍSMO IMPLÍCITO
Ao contrário do ateísmo explícito, o ateísmo implícito não se fundamenta na rejeição consciente e deliberada da ideia de deuses. Essa modalidade do ateísmo se divide em duas outras formas de ser ateu/ateia, implicando em novas possíveis identidades ateístas:
- Ateísmo Natural: estado de ausência de crença em que os indivíduos, devido à ignorância ou à incapacidade de posicionar-se, jamais tiveram qualquer tipo de contato com a ideia de deuses. Aqui enquadram-se crianças recém-nascidas e tribos isoladas da civilização dominante.
- Ateísmo Prático/Pragmático: estado de ausência de crença em que os indivíduos tiveram contato com a ideia de deuses, porém não tomam qualquer atitude no sentido de negá-la, rejeitá-la ou afirmá-la, permanecendo, desse modo, neutros em relação ao assunto. Aqui enquadram-se os(as) agnósticos(as) singulares.
O ateísmo prático/pragmático é a forma em que ateus/ateias vivenciam, na prática efetiva, uma concepção ateísta sobre a realidade natural e material, compreendendo o mundo, a natureza e os fenômenos naturais sem recorrer a hipóteses metafísicas e mantendo-se indiferentes em relação a estas. Em contrapartida, o ateísmo teórico/filosófico é uma identidade ateísta fundamentada no estudo, na elaboração e na exposição de argumentos contra-apologéticos (ontológicos, epistemológicos, metafísicos e lógicos), isto é, contrários ao teísmo e favoráveis aos ideais e às posições ideológicas do ateísmo. E a esse conjunto de argumentos teórico-filosóficos, como o problema do mal e o ocultamento divino, por exemplo, podemos denominar, por assim dizer, de Ateologia (Onfray, 2007).
5 ATIVISMO ATEÍSTA
O ativismo ateísta é um engajamento militante (Sawicki; Siméant, 2011) que parte daquele(a) agente que atua ativamente em uma ação coletiva que visa a defesa ou a promoção do ateísmo enquanto causa social.
Quando tratamos de militância ateísta na história do mundo moderno, é possível citar figuras ilustres como, por exemplo, o filósofo iluminista franco-alemão Barão d’Holbach (1723–1789), a socialista owenista polonesa Ernestine Rose (1810–1892), e a advogada estadunidense Madalyn Murray O’Hair (1919–1985). No Brasil, famosos como o historiador Leandro Karnal, que expressa um ateísmo empático/simpático às religiões, e o médico Drauzio Varella são alguns exemplos notórios de perfis ateístas brasileiros.
LeDrew (2013) compreende o ativismo ateísta como um movimento cultural progressista. Silva (2020), porém, aponta para duas características que, considerando a diversidade de pensamentos e posições dos(as) membros(as) que compõem esse movimento, acabam prejudicando esse ativismo: a divergência e a desunião. E uma das minhas principais hipóteses para tantos conflitos e divisões entre os indivíduos que compõem a comunidade ateísta é a falta de consciência de grupo e noção de pertencimento identitário por parte dessa população, o que impede que ateus e ateias se unam e/ou se mantenham unidos(as) em torno de um ideal comum.
LeDrew (2016) também divide o ativismo ateísta em três subgrupos de livre-pensamento, os quais se estruturam em torno do ateísmo, do humanismo, do secularismo e do racionalismo:
- Neoateísmo: movimento caracterizado por uma posição ideológica cientificista;
- Humanismo Secular: movimento caracterizado por uma posição ideológica secularista; e
- Racionalismo Libertário: movimento caracterizado por uma posição ideológica individualista.
Cada um dos subgrupos acima citados possui metas, estratégias e políticas de atuação específicas, próprias da natureza de cada segmento. Enquanto o movimento neoateu se fundamenta no evolucionismo darwinista, tendo um aspecto mais liberal, o movimento humanista secular tem como base o multiculturalismo e o universalismo, posicionando-se à esquerda no espectro político. Entretanto, o movimento racionalista libertário, que tem o libertarianismo como filosofia política, representa uma posição ateísta mais à direita dentre as correntes de livre-pensamento.
Todos os eventos e demais iniciativas organizadas e promovidas por entidades e/ou personalidades ateístas tendem a ter um enfoque cultural que percorre esse movimento identitário (LeDrew, 2016). Dentre essas ações sociais, articuladas para fins de propaganda, destaco a que foi a primeira grande campanha ateísta do Brasil, idealizada pela ATEA.
Essa campanha foi realizada em julho de 2011, nos outdoors da cidade de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, tendo como lema a frase Diga não ao preconceito contra ateus. Inspirada na Atheist Bus Campaign (2009), que antes já havia sido inspirada na Out Campaign (2007), a ação protagonizada pela ATEA, impedida nos ônibus das principais capitais brasileiras por um conjunto de leis em vigor e pelas normas das empresas públicas de transporte municipais, atestou que o ateísmo organizado tende a ser percebido como uma crença individual de uma minoria tão fundamentalista e proselitista quanto a maioria religiosa (Montero; Dullo, 2014).
5.1 ATEOFOBIA
*Ateofobia, ou ateufobia *(Luz, 2022), é um modo de discriminação contra indivíduos que não seguem qualquer religião e que, simultaneamente, afirmam não acreditar na existência de deuses. Trata-se de uma série de atitudes e sentimentos discriminatórios, preconceituosos e intolerantes em relação às pessoas ateias.
Diferentes pesquisas revelam que a população ateísta é representada, na sociedade brasileira, como uma minoria numérica e social historicamente oprimida, ocupando posições de desvantagem nas relações de poder e sendo sistematicamente discriminada, segregada, inferiorizada, excluída, silenciada, marginalizada e invisibilizada no contexto sócio-político-cultural. Essa realidade social tende a caracterizar ateus e ateias como parte de um grupo outsider (Elias; Scotson, 2000) e contra-hegemônico, enquanto, por outro lado, pessoas teístas e religiosas se constituem como parte de uma comunidade estabelecida hegemonicamente. Sendo pertencente a um grupo estigmatizado (Goffman, 2004), ateus e ateias costumam ser social e culturalmente vistos(as), percebidos(as), definidos(as) e/ou confundidos(as) como indivíduos imorais, inconfiáveis, perversos, desumanos, frustrados, depressivos, pessimistas, criminosos, satanistas e/ou revoltados com a vida, com as religiões, ou, até mesmo, com os deuses.
Essa forma de intolerância ainda não tipificada criminalmente nem pautada no debate público, político-educacional, ou mesmo nos meios de comunicação, os quais tendem a sistematicamente excluir e ignorar a população ateísta e o ateísmo em suas abordagens midiáticas nos veículos de imprensa tradicionais, é percebida em diversos espaços da sociedade civil. Seja na escola, na universidade, no trabalho, na televisão, no rádio, nos jornais e revistas, no foro político partidário-institucional, nas relações interpessoais, nos relacionamentos amorosos, nas mídias independentes e até mesmo no campo político-social progressista, a ateofobia é praticada tanto por parte de setores conservadores, tradicionalistas e fundamentalistas religiosos, quanto por parte de outras minorias sociais que costumam sofrer discriminações e preconceitos semelhantes de núcleos ultraconservadores da sociedade brasileira.
Esse espectro antagônico (Silva, 2022) ameaça historicamente a ordem social vigente, a moral, os costumes, as estruturas tradicionais da civilização dominante e os interesses de grupos privilegiados que detêm o capital cultural, político e econômico. Quase sempre caracterizado como uma expressão/manifestação do comunismo, do socialismo e do chamado, pelo conservadorismo cristão, marxismo cultural, esse sentido do ateísmo enquanto um espectro negativo ainda ronda a sociedade brasileira, tendo reflexo na opinião pública, que, de modo geral, tende a rejeitar e desprezar a população ateísta e suas representações identitárias.
A ateofobia, portanto, está estruturalmente institucionalizada na sociedade brasileira, que, por ser majoritariamente religiosa, tende a perceber a população ateísta quase sempre de maneira negativa e, em acordo com a história, ainda atribui sentidos pejorativos, depreciativos e injuriosos ao ateísmo na contemporaneidade.
6 METODOLOGIA
O levantamento de dados para essa pesquisa social se deu através de um questionário on-line desenvolvido por meio do aplicativo de gerenciamento de pesquisas Google Forms, contendo uma série de questões a serem assinaladas por membros(as) da comunidade ateísta brasileira. Esse formulário digital ficou aberto e disponível para preenchimento, exclusivamente de modo virtual, do dia 07 de outubro às 23h59min do dia 20 de novembro de 2024, contendo o total de 24 questões e não sendo permitidas quaisquer alterações das respostas após a conclusão do envio das mesmas. Para limitar as respostas a uma única por pesquisado(a), evitando que uma mesma pessoa preenchesse o questionário mais de uma vez, foi utilizado um filtro que estipulou, como critério básico para participação na pesquisa, que cada indivíduo iniciasse sessão em sua conta pessoal na plataforma Google antes de iniciar o preenchimento das questões. Não foi possível acessar e preencher o questionário sem antes cumprir com esse requisito fundamental.
A pesquisa, em sua totalidade, preservou o anonimato das pessoas que preencheram o formulário no período acima informado, não solicitando, em qualquer etapa do questionário, quaisquer dados de identificação privados. Dessa forma, todas as informações registradas no formulário foram utilizadas para fins exclusivamente acadêmicos e científicos.
Após ter sido completamente elaborado, logo no dia 07 de outubro de 2024, o link de acesso ao questionário on-line, bem como o QR Code a ele vinculado e suas devidas informações e orientações, foi originalmente divulgado, enquanto uma pesquisa social, nos canais oficiais da Aliança Ateísta nas redes sociais Instagram e WhatsApp. A partir desta Comunidade, o link foi compartilhado em grupos dedicados à propagação do ateísmo e compostos pela população ateísta brasileira nas redes sociais Facebook e WhatsApp, onde foi amplamente distribuído pela internet; tendo sempre a Aliança Ateísta como referência de origem, para fins de contato. Além disso, durante o período de vigência do formulário, o link também foi diariamente divulgado nos stories da página oficial da Aliança Ateísta no Instagram, bem como regularmente veiculado no canal de transmissão aberto desta mesma Comunidade no WhatsApp. Tal roteiro de divulgação permitiu que a pesquisa atingisse o máximo de ateus/ateias possíveis em todo o Brasil.
O público-alvo desta pesquisa social foram cidadãs(ãos) brasileiras(os) autodeclaradas(os) ateístas. Para delimitá-la a essa população específica, a primeira secção do questionário inquiriu se a pessoa se autodeclarava ateu/ateia antes de prosseguir para as próximas etapas do formulário. Quem teve acesso ao link ou ao QR Code divulgados na internet e, ao preencher o formulário, assinalou não se autodeclarar ateísta, finalizou o questionário e enviou a resposta única sem poder acessar as secções subsequentes.
A partir dos dados levantados no referido questionário on-line, portanto, foi realizada uma análise quanti-qualitativa dos percentuais automaticamente gerados pela plataforma utilizada para a elaboração do formulário virtual. Dessa forma, a verificação abrangente apresentou os sentidos do ateísmo no Brasil contemporâneo e determinou o perfil identitário/ideológico geral dessa população no país, perante as amostras obtidas.
7 RESULTADOS
No total, foram obtidas 267 respostas, sendo apenas 251 válidas para cumprir com o objetivo geral da pesquisa social. As demais 16 respostas corresponderam às pessoas que, na secção inicial do questionário, assinalaram não se autodeclarar ateus/ateias, finalizando diretamente a sua participação na investigação, sem poder prosseguir para as secções seguintes. Esse mínimo correspondeu a um percentual de 6% das respostas obtidas, enquanto as amostras válidas corresponderam a 94% dos(as) inquiridos(as).
A pesquisa obteve uma maior participação de homens ateus cisgêneros (64,1%), adultos (62,9%), autodeclarados brancos (66,1%), com pós-graduação completa (29,1%) e naturais da região Sudeste do Brasil (44,6%). Em relação à identidade ateísta, 97,6% disseram rejeitar a ideia de divindades de maneira consciente e deliberada, expressando um ateísmo de modalidade explícita. Desse total, 56,3% assinalaram acreditar na inexistência de deuses, indicando um ateísmo do tipo forte/positivo/crítico.
No tocante às expressões da espiritualidade mística, 91,2% dos(as) brasileiros(as) autodeclarados(as) ateístas disseram se considerar céticos(as) em relação a concepções místicas e espirituais, indicando o predomínio de um ateísmo de viés ceticista e materialista, no sentido filosófico. Já ao ser questionada quanto às referências teóricas que fundamentam suas identidades ateístas, 26,29% da população ateia brasileira afirmou não possuir nenhuma referência que embase suas posições identitárias, enquanto 25,1% disseram possuir variadas referências, não apenas uma única.
Quanto aos conhecimentos teóricos, básicos ou aprofundados, em relação ao ateísmo, 45,4% assinalaram possuir pleno conhecimento acerca da história do ateísmo, no Brasil e/ou no mundo, sendo capaz de compreender a origem etimológica do termo. Tal percentual indica a prevalência de um ateísmo do tipo teórico/filosófico entre essa população no país. E em relação à posição ideológica da população ateísta no âmbito social/moral, considerando apenas posicionamentos e concepções ideológicas na esfera dos costumes, a esmagadora maioria de 78,9% dos(as) inquiridos(as) declarou se identificar com o progressismo social, o que corrobora com a minha hipótese de que a comunidade ateísta tende a ser muito mais progressista do que conservadora.
Sobre a percepção geral da população ateísta em relação à fé religiosa e às religiões institucionais, predominantes 92% afirmaram possuir uma percepção mais negativa em relação à religiosidade, o que converge com as posições antirreligiosas expressadas na bibliografia ateísta, além de que tanto os pensadores neoateístas quanto a filosofia marxista representaram boa parte dos referenciais citados por esta comunidade como fundamentos teóricos que embasam suas concepções ideológicas e filosóficas.
No tocante à identidade ideológica da população ateísta brasileira, 49,4% disseram se identificar mais com a corrente de pensamento cientificista, indicando um posicionamento mais ligado ao movimento neoateísta. Já em relação à livre expressão ateísta no Brasil, 76,5% afirmaram se assumir publicamente como ateístas, perante a família, o Estado e a sociedade, tanto no âmbito digital quanto na vida social. Esse último dado reflete, contudo, apenas os espaços onde esta pesquisa foi divulgada e a delimitação de seu alcance virtual.
Apenas 9,6% assinalaram optar por tentar esconder ao máximo a sua identidade ateísta, ainda que autodeclarada. Destes, 37,5% afirmaram não se assumir como ateístas por medo ou receio de sofrer algum tipo de desprezo ou rejeição, seja familiar, amorosa ou social. Por outro lado, 73,7% afirmaram se autodeclarar como ateus/ateias, sem esconder suas reais identidades.
Em relação ao ativismo ateísta no Brasil, 78,9% dos(as) inquiridos(as) afirmaram considerar importante/necessária a existência de uma militância de caráter ateísta na sociedade brasileira. Em contrapartida, 62,5% afirmaram que não se autodeclaram ativistas ateístas, indicando uma tendência mais moderada/passiva e menos militante/ativa entre essa população no país.
No tocante ao engajamento militante da comunidade ateísta brasileira, 55% da totalidade das respostas obtidas no questionário disseram não participar de nenhum(a) grupo, movimento, coletivo ou associação de viés especificamente ateísta. Outros 77,7% afirmaram conhecer ou já ter conhecido indivíduos declaradamente ateístas pessoalmente, corroborando com os dados sobre a expressividade ateia no Brasil.
Por fim, a pesquisa social investigou o ponto central deste estudo: os sentidos contemporâneos do ateísmo no Brasil. Foi, portanto, questionado como a população ateísta brasileira define o conceito de ateísmo no século XXI, analisando as percepções dessa comunidade em relação a este aspecto. Nesse sentido, 65,7% disseram que o ateísmo é basicamente negar/não crer na ideia de deuses e não seguir/praticar quaisquer crenças religiosas, indicando uma percepção mais negativa, no sentido lato sensu, em relação ao termo.
(Confira os dados e percentuais completos na pesquisa social)
8 CONCLUSÃO
Esse TCC se propôs a apresentar brevemente a história do ateísmo no Brasil e no mundo, desde suas origens na antiguidade greco-romana até a contemporaneidade, abordando os múltiplos sentidos, simbolismos e significados historicamente atribuídos e/ou mesmo impostos a este espectro na trajetória da humanidade.
A pesquisa social mostrou que, tendencialmente, o ateísmo é uma posição filosófico-ideológica mais comum entre homens brancos cisgêneros, de faixa etária entre 30 e 59 anos, com alto grau de escolaridade e residentes nas regiões centrais do país, sendo este o perfil médio do ateu brasileiro. Há também a tendência de uma posição mais cientificista e materialista, no sentido filosófico, entre a população ateísta brasileira, que também tende a ser essencial e predominantemente progressista, rejeitando o conservadorismo representado pelas tradições religiosas e pelo fundamentalismo religioso.
A investigação apontou haver uma vasta percepção negativa da população ateísta sobre as religiões e que a maior parte dos(as) ateus/ateias pesquisados(as) tende a se assumir e se autodeclarar como ateístas publicamente, o que se confirma a partir do amplo percentual que disse conhecer ou já ter conhecido algum(a) membro(a) desta população em seu convívio social. Contudo, a ateofobia foi amplamente constatada a partir dos perfis que indicaram diferentes razões para esconder ao máximo essa posição identitária no “armário” da invisibilidade.
Em relação ao ativismo ateísta, ainda que uma vasta maioria o considere importante/necessário na sociedade brasileira, um amplo percentual afirmou não se autodeclarar ativista ateísta, expressando uma identidade moderada/passiva ao não compor nenhum(a) grupo, movimento, coletivo ou associação desse viés. Há de se investigar o engajamento militante da militância neoateísta no país, analisando os sentidos contemporâneos do ativismo ateísta brasileiro e suas formas de atuações e mobilizações através do ciberateísmo, em particular. Ou então analisar os sentidos do ateísmo para a comunidade propriamente ativista desse segmento social, considerando uma identidade ciberateísta.
Por fim, a pesquisa social mostrou que a população ateísta brasileira, de modo geral, tende a limitar o ateísmo a uma compreensão de basicamente negar/não crer na ideia de deuses e não seguir/praticar quaisquer crenças religiosas, de forma negativa, no sentido lato sensu, o que dialoga com os percentuais que mostram a baixa identidade militante presente no país. Entretanto, tal concepção diverge da ampla posição de modalidade explícita e de tipo positiva/forte/crítica, no sentido stricto sensu, desta comunidade, o que direciona esse tema a uma outra linha de pesquisa a ser investigada e analisada de forma mais aprofundada em futuros estudos sociais.
Enfim, a pluralidade de expressões, sentidos, simbolismos e significados atribuídos e/ou impostos ao ateísmo na contemporaneidade, entre os mais diversos perfis ateístas e suas mais variadas identidades, indica que devemos falar em ateísmos, considerando a sua vasta diversidade. Ateus e ateias possuem diferentes posições, percepções e concepções relacionadas à filosofia ateísta, vinculando suas subjetividades entre o conjunto desta comunidade e, assim, formando esse movimento identitário plural e multicultural. E o ateísmo, enquanto fenômeno da modernidade, tende a se transformar, no Brasil e no mundo todo, de acordo com as novas conjunturas introjetadas a essa ideologia libertadora e transformadora.
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LEIA O TCC NA ÍNTEGRA:
MACHADO, Guilherme da Natividade. Perfil e identidade ateísta: os sentidos contemporâneos do ateísmo no Brasil. 2025. 79 f. Trabalho de conclusão (graduação) — Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Bacharelado em Ciências Sociais, Porto Alegre, 2025. Ori.: SILVA, Marcelo Kunrath.
RESUMO: O ateísmo, desde quando o termo surgiu na Grécia Antiga, vem apresentando diversos sentidos, simbolismos e significados que variam de acordo com o contexto sócio-cultural de determinado período histórico. A história do ateísmo mundial, desde a antiguidade, perpassando pelas Idades Média, Moderna e Contemporânea, apresenta definições pejorativas, depreciativas e injuriosas atribuídas a este conceito. Contudo, as concepções contemporâneas vêm instituindo novas formas de ser ateu/ateia, de perceber o ateísmo e com ele se identificar. Nesse sentido, a presente pesquisa social pretende, como objetivo central, analisar, de modo exploratório, os sentidos do ateísmo para a comunidade ateísta brasileira no século XXI. Para isso, foi realizada uma análise quanti-qualitativa de dados levantados em um questionário on-line que investiga a identidade ateísta brasileira na contemporaneidade, bem como outras fontes localizadas em materiais digitais pela internet. A partir disso, foram verificadas as expressões subjetivas e as novas formas de manifestações culturais e identitárias da população ateísta no Brasil contemporâneo, a fim de delimitar o perfil geral dessa comunidade no país, bem como suas posições, concepções e percepções modernas sobre o ateísmo e suas pluralidades.
Palavras-Chave: Ateísmo no Brasil contemporâneo; Identidade ateísta brasileira; Sentidos do ateísmo; Movimento neoateísta; Orgulho ateu.
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