É um dever Cristão comemorar o Natal?
Um pastor famoso no Brasil, nosso irmão Hernandes Dias Lopes, postou recentemente que lamenta os 1. “muitos cristãos sinceros que não…
É um dever Cristão comemorar o Natal?
Um pastor famoso no Brasil, nosso irmão Hernandes Dias Lopes, postou recentemente que lamenta os 1. “muitos cristãos sinceros que não comemoram o natal". Recomenda também que 2. “Não devemos focar nos elementos como ‘celebração como árvore de natal, sinos, presépios etc.’, pois são novidades”. Porém, DEVEMOS 3. “enfaticamente celebrar o nascimento do nosso Salvador, a encarnação do Verbo divino, a vinda ao mundo do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo.”
Quanto ao primeiro e segundo ponto, não comentarei, por serem autoexcludentes, visto que o próprio Natal é uma Novidade. Nossa observação é com o terceiro ponto de seu texto, que há um Dever implícito no nascimento de Cristo. Faço, porém, uma pausa, a fim de evitar polêmicas. Eu realmente não sei o que o nosso irmão e pastor Hernandes quis dizer com o “Dever”. Pode ser um erro de expressão; há essa possibilidade, porém, tomarei a ideia como textualmente se apresenta. Há esse dever nas escrituras?
O testemunho das Escrituras
Quando olhamos o antigo e novo testamento, vemos memoriais e festas sendo estabelecidas (a festa do novo testamento é o dia do Senhor, juntamente com a ceia). Não devemos nos esquecer, porém, com relação ao antigo testamento, que as festas, civis ou religiosas, apontavam para algum aspecto Messiânico do Reino e Obra de Cristo. Por esse motivo é que não comemoramos o Purim ou mesmo outras festas judaicas.
O novo testamento, que é continuidade do antigo, nos mostra uma outra visão que os defensores do Natal ignoram: não há apóstolos ou evangelistas recomendando a comemoração do Natal ou festas do Advento; estas têm se tornado comuns nos evangélicos, vide O Lecionário, onde os tais facilmente se voltam para Roma ao abraçar a mesma prática.
Quando eu leio as cartas Paulinas, incluindo o livro de Hebreus, há muita oportunidade para falar da celebração do Nascimento de Cristo, porém se fala enfaticamente da Morte e Ressurreição. Nenhum autor do Novo Testamento jamais celebrou o nascimento de Cristo. Mas, se voltarmos ao Antigo Testamento, será que encontraremos algum indicativo de celebração da natividade?
Os textos do antigo testamento se inclinam à morte do cordeiro e não ao nascimento desse animal. Não é preciso citar textos de sacrifícios litúrgicos, pois eles são bem conhecidos. Era sempre a morte de um animal que traria a redenção do Adão caído e a morte expiatória era celebrada. O nascimento do animal nunca fez qualquer diferença na igreja do antigo tratamento, mas a morte do animal, seja no tabernáculo ou no templo, isso trazia vida. Expressões como “sangue do cordeiro”, “expiação" fazem referência e alusão ao cordeiro sacrificado, não ao nascimento.
A teologia lucana
O livro de Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas, traz consigo muita informação de como a igreja passou a se desenvolver e como ela agia. O livro de Atos, era, originalmente, uma continuação do evangelho de Lucas. Então podemos tomar esses dois escritos e os colocar na categoria de Teologia Lucana. O que nos diz a teologia Lucana acerca do Dever em celebrar a natividade?
Hernandes dirá que “o nascimento de Cristo foi celebrado pelos anjos e pelos homens na terra”. Bem, mas há outras “celebrações” na teologia Lucana? Certamente que há. Muitos que receberam cura celebraram Cristo, mas, assim como a Natividade, essas celebrações não se tornaram festas sagradas no primeiro século.
O evangelista Lucas usará dois termos para se referir a adoração dos Anjos e dos Homens, no capítulo dois de seu Evangelho.
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doxazontes.
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ainountes.
Doxazontes é a forma contínua da Doxa, da glorificação ou admiração. Eles, os pastores de ovelhas, continuamente glorificavam a Deus. Questiono em que contexto ocorria essa glorificação, e se elase encaixa naquilo que o pastor Hernandes propôs. Claramente eles não estavam em um culto e claramente não se tinha o nascimento como um Dever litúrgico, já que Lucas não descreveu a Doxa como um imperativo. Essa Doxa é uma reação dos pastores ao conhecer o Messias que havia sido prometido desde os tempos de Adão, o profeta maior que Moisés. Se há algo imperativo para nós nesse texto, é que todos os dias, e não um dia particular, devemos glorificar ao Deus que encarnou e nos libertou, pois não é uma opinião errada crer que esses pastores seguiram o caminho da piedade, diariamente exaltando o Senhor, pois conheceram o Rei.
Ainountes é a segunda palavra. Ela significa Louvar ou Celebrar, mas, novamente, ela não aparece como um imperativo. Sua forma é a mesma de Doxazontes, mas no texto onde os anjos Louvam ou Celebram, está no genitivo, pois a ideia é que o louvor habitava aquela multidão de anjos. Deve ser, também, a nossa reação ao saber que este foi o início da obra de Redenção, celebração e louvor dados a Deus. Louvor e celebração devem fazer parte da inclinação de nosso coração.
Quanto aos anjos em particular, que são descritos como seres que “anelam entender a salvação”, esse tipo de adoração em particular não pode ser confundida com a adoração humana. Pois, 1. eles não possuem o entendimento que temos, 2. não estão na condição que estamos, 3. não buscam o que nós buscamos. Essas principais diferenças, quando consideradas no culto a Deus, torna impossível qualquer similaridade entre nossa adoração e a adoração angélica. Há apenas uma coisa que une a adoração humana e a angélica; ambas são prescritas por Deus.
Todavia, que isso implica em um dever, a comemoração do Natal ou a festa do advento, está tão longe de ser provado. Eles devem demonstrar que, 1. Há uma obrigação litúrgica. Doxa e Aineo não implica liturgia em todos os casos. Na maioria das vezes esses termos aparecem em uma resposta de gratidão, sem data fixa, como é o caso no dia de culto ou um dia de celebração memorial (ação de graça). A multiforme aparição desses termos em diversos contextos e datas anula a ideia de data fixa, pois surgiam na espontaneidade. 2. Que há um mandamento implícito de celebração anual. Nenhuma forma de imperativo é encontrada nos textos lucanos. 3. Há uma norma eclesiástica. Esse, talvez, seja o mais complexo de todos, visto que a teologia lucana tem seu foco em outras questões. A Natividade, porém, poderia facilmente ter sido debatida e isso seria registrado no livro de Atos se fosse para nosso bem e santificação, tal qual o primeiro sínodo da igreja presbiteriana apostólica, descrito em Atos 15.
O fato de tal celebração ter ocorrido não implica, portanto, que há uma Norma ou Dever. Mas há uma Norma ou Dever para com a Morte de Cristo.
O que diz a teologia presbiteriana?
Até o século IV, todas as festas não bíblicas que a igreja tentou sustentar na sua fase infantil eram resumidas na Páscoa. A páscoa, celebração da Morte, por quase quatro séculos, foi alvo de contendas no povo de Deus. Se atente, porém, na cultura da igreja em seu início: o assunto não era o nascimento, mas a morte de Cristo.
Quando a reforma protestante chega com força, muitos elementos estranhos no culto e cultura passam a ser revisados. O Natal, conhecido em inglês pelo título “Christmas”, título derivado do latim “Christes maesse” ou “A missa de Cristo”, passa a ser uma preocupação aos reformados presbiterianos de Genebra. Eles declaram, “Aqueles que observam as festas ou jejuns romanos só serão repreendidos se permanecerem obstinadamente rebeldes”. Isso está registrado em The Register of Ministers in Geneva (1546).
Avançando para a Escócia presbiteriana de John Knox, em meados de 1566, Beza escreve para Knox, a fim de buscar uma aprovação para a Confissão Helvética. Knox lhe responde, e fazendo um recorte de sua resposta, diz:
“não se pode deixar de mencionar, com relação ao que está escrito no capítulo 24 da referida Confissão sobre a “festa do nascimento, circuncisão, paixão, ressurreição, ascensão e envio do Espírito Santo de nosso Senhor sobre seus discípulos”, que essas festas atualmente não têm lugar entre nós; pois não ousamos celebrar religiosamente nenhuma outra festa além daquelas prescritas pelos oráculos divinos.”
Há mais coisas que poderiam ser ditas, como o que David Calderwood ensinou em seu livro O Pastor e o Prelado. Em um de seus argumentos, contra o Natal, ele diz que a obrigatoriedade (Dever) de celebrar aniversários litúrgicos pertenciam ao período das cerimônias, e, por isso,
“não se pode admitir nenhum feriado comum designado pelo homem, seja em respeito a algum mistério, seja pela diferença de um dia em relação a outro, como sendo justificado por mera tradição, contra a doutrina de Cristo e seus apóstolos...”
Não há, portanto, um dever como ensina o Hernandes Dias Lopes, em se comemorar o Natal. A bíblia e a tradição presbiteriana sempre rejeitaram tal inovação.
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