Borbulho
Zumbidos altos e pensamento atordoado.
Borbulho

Zumbidos altos e pensamento atordoado.
Seriam uma proteção contra o veneno?
Seria a exaustão pelo tormento?
Não sei filtrar, nem me defender.
Tentando aprender a me proteger.
Me permito conversar e aprofundar
Com quem não deveria nem trocar.
É sobre por limites onde perco o traçado.
Como se dançasse errado.
Me soltasse num lugar onde estão amarrados como marionetes,
Por um sistema que estupra e suga.
Noto-me dentro de um ninho de manipulações.
Questiono o que cobre a intuição,
O que tapa a visão e o ouvir…
Resolvi criar muros, sem saber quem deixar
Dentro do lar.
A última que entrou no quarto,
Fez teatro, desdenhou do laço
Desabei e sai à procura
De um outro lugar
Tijolo a tijolo…
Rodeada de mato, há barulho dos pássaros
Lá no fundo ainda está a buzina do carro
Alarme disparado
Batidas que estou aprendendo a deixar
Não posso socorrer.
Estou tentando me proteger,
Deixo a casa, pra me lavar
Aprendendo a boiar, sem medo
De parar no fundo do oceano
Sempre aparece alguém se afogando
Se deixar chegar perto demais
Vão me afundar pra sobreviver
Usar meu corpo como apoio
Não quero boiar só quando morrer.

Vou precisar estar só e ouvir o zumbido
Até compreendê-lo, ou senti-lo.
Nadar pra longe de quem procura salvação
Como pílula
Quero relações tranquilas,
Recíprocas, poucas.
Queria que a casa fosse num lugar secreto.

Quero nadar, boiar, mergulhar
Voltar pra mata, trilhar até a casa
Descansar segura que ninguém poderá
Me machucar
Preciso curar primeiro
pra não sangrar até perder a cor
Conheci então o sabor do desamor
Da solidão da mulher preta
Num impulso de cuidar, gritei comigo
Pra parar.
E escutar o zumbido.

Os detalhes.
Sentir o que vier.
Deixar apertar.
O tempo passar…
Lembrar e relembrar
Cuidado, o mundo é amargo
Não dance se não há axé
Não acolha sem antes observar
Paciência pra viver
Sabedoria pra deixar entrar
É hora de expulsar à quase todos.
Atentar-se as buscas inconscientes,
Enquanto ando pra frente.
Borbulho.
Não sei, mas quando…
…
Espero viver sem esperar esse quando chegar
Não quero construir muros pra me afastar
Apenas pra me encontrar
Abrir as portas só quando tudo estiver no lugar e até lá
Não terá mais ninguém dessas pessoas aqui
Serão outras, e medos iguais?
Respostas não existem.
Preencher com esperança o vazio do amanhã, já não cabe mais.
Realidade: pé na terra.
Ar pra respirar.
Fogo pra queimar tudo que não cabe mais aqui.
Papéis que cansei de interpretar.
Tô tentando encontrar minha voz.
Ao ponto que não deixe se abafar
Por nada, nem ninguém.
Voz que guia pra ir além.
Nota de Rodapé:
Axé Irôko, orixá do tempo, a primeira árvore do mundo. Tempo que dá sentido a existência, que ameniza as dores, que instiga o movimento de continuar no mistério da vida.
Iroko Issó! Eró! Iroko Kissilé!
Jackeline Pires Oliveira.
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