← Back to list

Borbulho

Zumbidos altos e pensamento atordoado.

Jackeline Pires · 2021-10-20 14:28 · 1 claps · 2.5 min read
#iroko #orixás #fogo #terra #agua
Open on Medium ↗

Borbulho

Zumbidos altos e pensamento atordoado.

Seriam uma proteção contra o veneno?

Seria a exaustão pelo tormento?

Não sei filtrar, nem me defender.

Tentando aprender a me proteger.

Me permito conversar e aprofundar

Com quem não deveria nem trocar.

É sobre por limites onde perco o traçado.

Como se dançasse errado.

Me soltasse num lugar onde estão amarrados como marionetes,

Por um sistema que estupra e suga.

Noto-me dentro de um ninho de manipulações.

Questiono o que cobre a intuição,

O que tapa a visão e o ouvir…

Resolvi criar muros, sem saber quem deixar

Dentro do lar.

A última que entrou no quarto,

Fez teatro, desdenhou do laço

Desabei e sai à procura

De um outro lugar

Tijolo a tijolo…

Rodeada de mato, há barulho dos pássaros

Lá no fundo ainda está a buzina do carro

Alarme disparado

Batidas que estou aprendendo a deixar

Não posso socorrer.

Estou tentando me proteger,

Deixo a casa, pra me lavar

Aprendendo a boiar, sem medo

De parar no fundo do oceano

Sempre aparece alguém se afogando

Se deixar chegar perto demais

Vão me afundar pra sobreviver

Usar meu corpo como apoio

Não quero boiar só quando morrer.

Vou precisar estar só e ouvir o zumbido

Até compreendê-lo, ou senti-lo.

Nadar pra longe de quem procura salvação

Como pílula

Quero relações tranquilas,

Recíprocas, poucas.

Queria que a casa fosse num lugar secreto.

Quero nadar, boiar, mergulhar

Voltar pra mata, trilhar até a casa

Descansar segura que ninguém poderá

Me machucar

Preciso curar primeiro

pra não sangrar até perder a cor

Conheci então o sabor do desamor

Da solidão da mulher preta

Num impulso de cuidar, gritei comigo

Pra parar.

E escutar o zumbido.

Os detalhes.

Sentir o que vier.

Deixar apertar.

O tempo passar…

Lembrar e relembrar

Cuidado, o mundo é amargo

Não dance se não há axé

Não acolha sem antes observar

Paciência pra viver

Sabedoria pra deixar entrar

É hora de expulsar à quase todos.

Atentar-se as buscas inconscientes,

Enquanto ando pra frente.

Borbulho.

Não sei, mas quando…

Espero viver sem esperar esse quando chegar

Não quero construir muros pra me afastar

Apenas pra me encontrar

Abrir as portas só quando tudo estiver no lugar e até lá

Não terá mais ninguém dessas pessoas aqui

Serão outras, e medos iguais?

Respostas não existem.

Preencher com esperança o vazio do amanhã, já não cabe mais.

Realidade: pé na terra.

Ar pra respirar.

Fogo pra queimar tudo que não cabe mais aqui.

Papéis que cansei de interpretar.

Tô tentando encontrar minha voz.

Ao ponto que não deixe se abafar

Por nada, nem ninguém.

Voz que guia pra ir além.

Nota de Rodapé:

Axé Irôko, orixá do tempo, a primeira árvore do mundo. Tempo que dá sentido a existência, que ameniza as dores, que instiga o movimento de continuar no mistério da vida.

Iroko — YouTube

Iroko Issó! Eró! Iroko Kissilé!

Jackeline Pires Oliveira.


메타데이터
post_id
b2e46899a7af
slug
borbulho-b2e46899a7af
url
https://medium.com/@jackelinepires/borbulho-b2e46899a7af
canonical_url
https://medium.com/@jackelinepires/borbulho-b2e46899a7af
author_url
https://medium.com/@jackelinepires
status
ok
fetched_at
2026-07-27 21:32:29