A aldeia onde o morto matou o vivo [PT]
This piece was created as part of the News Production course at University of Coimbra in 2019
A aldeia onde o morto matou o vivo [PT]
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No fundo do vale da Serra de São Macário, a aldeia confunde-se com a natureza. Quando nos aproximamos, as casas de xisto com telhados de ardósia sobressaem por entre o verde do vale. O caminho até à Pena está sempre entre dois extremos: o deslumbramento e o medo que corta a respiração. A aldeia da Pena ainda hoje está isolada do resto do concelho. A estrada íngreme e serpenteada afasta os menos aventureiros. (Caso iniciar o percurso no Portal do Inferno não seja suficiente.) Talvez passar pela aldeia da Pena sem ouvir a lenda do morto que matou o vivo seja mais difícil que descer até à aldeia em si.
Segundo a lenda, o incidente ocorreu numa das estradas da Pena, muito antes de esta ser alcatroada — o que só aconteceu em 1976. Como não existia cemitério na aldeia, o caixão teve de ser carregado em braços, estrada acima. Com o caminho ainda em terra batida, um dos homens acabou por escorregar. Era impossível evitar que o caixão caísse também em cima do homem, “e assim, o morto matou o vivo”. “Deve ter sido por isso que depois fizeram aqui um cemitério. Agora até temos dois”, explica António Arouca, um dos seis habitantes da aldeia. Lenda ou não, a verdade é que o antigo caminho de acesso à povoação mais próxima, Covas do Rio, se chama “Caminho do morto que matou o vivo”.
A aldeia da Pena só há pouco tempo ganhou acesso por carro. “Quem nascia nesta aldeia, por aqui ficava”. O caminho sinuoso que nos leva até à Pena é o percurso diário dos seis habitantes da pequena povoação, entre eles, duas crianças. “A vida a renovar-se, seja onde for”.
Muitos se questionam: “Como é que alguém decidiu ir viver para ali?”. Os seis residentes e os muitos turistas que por ali passam todos os dias entendem. “O silêncio. Tanto e em estado puro. Às vezes vamos muito longe para viver não sei o quê, que parece que nos falta. Outras vezes, basta fazermos uns quilómetros escassos e, sem mais, estamos num sítio que nos reconcilia com o que fomos, somos e queremos ser. Creio que dá para perceber que adoro este sítio. A aldeia em si. E tanto, tanto o caminho até lá”, explica, sorridente, Maria Queirós, uma das muitas turistas na aldeia.
“Está a reinventar-se para continuar a ser uma das aldeias mais típicas de Portugal”, afirma Maria, concordando com os habitantes. A Pena quer guardar o “espírito do lugar moldado pela labiríntica serra”, mas, ao mesmo tempo, manter-se de portas abertas para o mundo. Tudo para manter viva uma aldeia que está reduzida a seis habitantes.
“Há muitas décadas que as gentes da terra partiram para outros lugares. Fugiram do isolamento. As casas foram ficando vazias e entregues ao tempo. Algumas foram recuperadas e são agora refúgios de férias ou de fins de semana. As outras… continuam à espera dos que possam regressar”, comenta, saudoso, António Arouca. “Nos anos 60 moravam aqui pelo menos umas 50 pessoas…”.
“Tem características que são difíceis de encontrar em qualquer outro lugar”. A pequena aldeia é constantemente ‘invadida’ por turistas e curiosos, especialmente em dias de sol, que tornam o percurso menos sinuoso. António e a mulher Augusta recebem os visitantes na sua loja-museu. Nas paredes da casa, encontramos diversas quadras em ardósia. “Tudo o que aqui se vende foi produzido por nós… do artesanato aos bordados, e até as velas feitas a partir da cera das abelhas”.
Nas pequenas casas de xisto moram apenas seis pessoas, que ocupam duas das mais de dez habitações. Mas engane-se quem pensa que a povoação vai desaparecer.
As duas famílias que aqui residem partilham a mesma história de regresso. Augusta e Ana cresceram na aldeia, em gerações diferentes, construíram a sua vida na cidade e voltaram depois, com as famílias já formadas. “Esta é uma daquelas aldeias que nunca mais acaba”, assegura António Arouca. Escolheu regressar às origens depois de se reformar, após ter passado uma vida em Lisboa. Este “amante da natureza” e autointitulado “guia turístico” da Pena não se arrepende da escolha que fez. E, como António Arouca, já há quem veja esta aldeia como o seu “lar” no futuro. “É a segunda geração que agora também começa a olhar para a povoação com outros olhos”, sublinha, satisfeito.
Alfredo Brito e a mulher Ana são o casal jovem da aldeia, a “segunda geração” que já aprecia a terra “com outros olhos”. A família Brito decidiu regressar à povoação onde tinham familiares há 20 anos e foram, durante alguns anos, os únicos habitantes da aldeia. Ana Brito acredita que a aldeia já não está tão isolada. “As minhas duas filhas já nasceram aqui e é onde querem continuar a viver. Têm de acordar um pouco mais cedo para chegar à escola, mas nada consegue ultrapassar as vantagens de morar aqui”. A qualidade de vida e a tranquilidade da Pena são fatores determinantes.
A família gere a Adega Típica da Pena. “Encontrámos o projeto de uma vida. Percebemos que havia aqui uma oportunidade de negócio porque a aldeia tinha visitantes, mas nenhum sítio onde comer”, explica Ana. Ela acrescenta que, de certa forma, utilizaram o que já existia e tentaram acrescentar valor ao que já lá estava.
A família Brito, a quem se juntam António Arouca e a esposa Maria Augusta, fazem respirar a Aldeia da Pena para que esta nunca caia no esquecimento.
Escrito numa das ardosias, conseguimos ler: “Vale a pena vir à Pena e ficar com a saudade; escrever-lhe uma quadra; dizer adeus à cidade”.

Aldeia da Pena
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