Sirāt — a travessia que oscila entre extremos
Oliver Laxe dissolve a força e a tensão de sua alegoria islâmica quando cede à escatologia e cosmetização
Sirāt — a travessia que oscila entre os extremos
Oliver Laxe dissolve a força e a tensão de sua alegoria islâmica quando cede à escatologia e cosmetização

(Sirāt, 2025)
Atenção! Esta crítica tem spoilers!
Existem dois pontos climáticos em Sirāt (2025). O primeiro, quando o pequeno Esteban (Bruno Núñez Arjona) e sua cachorrinha Pipa despencam em um desfiladeiro, me pega totalmente desprevenido, e as repercussões do ocorrido fazem sentido: a cena em que seu pai caminha a esmo pelo deserto, em luto, ilustra graficamente o estado psicológico em que o protagonista Luis (Sergi López) já se encontrava no início, ao partir de forma desesperada, quase irracional, em busca da filha mais velha. Em termos de simbolismo e potência, o arco de Luis se encerra — de forma circular, num poço ainda mais fundo de tristeza e tragédia — aos 74 minutos do filme, que tem quase 2 horas de duração.

Esteban e Pipa (Sirāt, 2025)
Segundo a tradição islâmica, Sirāt é a ponte que todos os seres humanos terão de atravessar no Dia do Juízo Final. Somente os justos conseguem atravessá-la e alcançar o paraíso; os pecadores caem dela e são condenados. O diretor Oliver Laxe tensiona essa ideia ao sacrificar as duas personagens mais puras do filme ao longo da travessia, revelando seu ceticismo em relação a essa crença e sua visão pessimista do mundo atual (em que crianças são assassinadas brutalmente todos os dias), de um modo tão provocativo quanto impiedoso.
O choque dessa cena trágica e todos os seus possíveis significados, no texto e no subtexto, adensam narrativamente a estética evocativa que Sirāt constrói em suas imagens contemplativas de um deserto granulado e na forma como a trilha sonora eletrônica emoldura a atmosfera particular daquele horizonte árido. Por ironia, entretanto, isso vai se perdendo após a tal cena em que o pai caminha desorientado pelo deserto, aos 74 minutos. É uma lástima que o filme ainda tenha mais meia hora.

Os justos em busca do Paraíso (Sirāt, 2025)
O que antes era provocativo e sensorial vira escatologia no segundo clímax de Sirāt, quando uma personagem pede para aumentar o som até tudo explodir — e ela própria explode ao pisar em uma mina terrestre. A partir dali, o longa-metragem perde a coesão narrativa que exibia até então. As coisas acontecem e se resolvem porque sim, sem um pingo de coerência, no texto e no subtexto. “Atravessei sem pensar”. Tudo parece feito sem pensar, de improviso.
Oliver Laxe engana bem até o terceiro ato, quando som e imagem tornam-se um fim em si mesmos, e a estilização de Sirāt se revela mera perfumaria. Até o viés político progressista que é latente em todo o filme, sobre a questão migratória na Europa, soa avulso, esvaziado e performático na cena final, por sua plasticidade afetada — um clichê de festival de cinema — e pela cosmetização de uma crise humanitária brutal. O rei está nu.
Obra citada:
**Sirāt** (2025), de Oliver Laxe.
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