E tempo tem gosto?
Quem nasce na roça sabe bem o gosto das frutas. Por exemplo, as bananas produzidas em massa têm um gosto xoxo, são bananas borocoxô. Já a…

E tempo tem gosto?
Quem nasce na roça sabe bem o gosto das frutas. Por exemplo, as bananas produzidas em massa têm um gosto xoxo, são bananas borocoxô. Já a banana produzida naturalmente na roça tem um gosto doce, gosto de quem levou tempo para se desenvolver.
Minha tia, que nasceu na roça como eu, quando vai falar de banana de mercado, aponta para o braço e solta: “Detesto banana de mercado, me arrepio toda. Ó!”. Ela tem um ranço profundo.
É que quem está acostumada com fruta no pé de todo tipo, com a fartura da água da nascente e o privilégio de beber direto da torneira, leva um grande choque ao morar em cidade grande. Um lugar onde a gente paga até pela água: “Daqui a pouco, até o ar vai vir em potinhos”, mais uma pérola da mesma tia.
Eu também não me acostumei. Acho que nunca vou me acostumar.
Na roça, a fruta ficava disponível para quem quisesse pegar, para quem quer que passasse na estrada. Não tinha hambúrguer, mas tinha batata-doce assada no fogão a lenha. Não tinha sapato, mas tinha pé descalço — um pé firme no chão. Não tinha parede de concreto, a casa era de palha (não tinha lobo mau inventado pelo colonialismo, ninguém ia soprar e soprar para derrubar a sua casa).
Não era fácil, principalmente para quem tinha que produzir e andar quilômetros para conseguir alguma variedade de comida. Escassez tinha, mas fome não tinha, ou o meu olhar de criança não a percebia. Hoje, na cidade, se passa fome por falta de dinheiro; lá atrás, a terra só negava o alimento se faltasse chuva ou sol. E, atualmente, falta chuva e falta sol por culpa do que a cidade grande resolveu chamar de desenvolvimento.
Por isso, ando pelas ruas sempre procurando no olhar dos outros alguém que vá me entender. Mas dificilmente encontro. Olho nos olhos das pessoas, tento sorrir, e o que vejo é o vazio da pressa.
Até que hoje fui ao mercado escolher bananas.
Ao meu lado, alguém reclamou em voz alta, dizendo que aquela banana de gôndola não era igual à da roça. Meu coração deu um pulo de alegria. Foi um verdadeiro encontro de almas.
Ali, no meio do concreto de um supermercado enorme de rede, engolido pela falta de tempo…
Alguém, na cidade grande, traduziu exatamente o que eu sentia.
메타데이터
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