In God we trust; all others must bring data — um manifesto pela gestão baseada em evidências.
O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo. Todos acreditam possuir exatamente o suficiente, até mesmo aqueles mais difíceis de…
In God we trust; all others must bring data — um manifesto pela gestão baseada em evidências.

O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo. Todos acreditam possuir exatamente o suficiente, até mesmo aqueles mais difíceis de agradar em qualquer outra área, como escreveu com certa mordacidade Descartes em Discurso do Método. Mas será que esse “bom senso” não passa de uma coleção bem organizada de preconceitos e interpretações errôneas, como adverte o professor Antônio Carlos Gil?
Não sei ao certo o que ocorre. Talvez seja nosso desinteresse coletivo em relação à ciência ou nossa incapacidade natural para entender probabilidades e estatísticas. O ponto é que decisões importantes nas empresas ainda são tomadas com base em intuição, gurus, modismos, posts do LinkedIn, vídeos curtos do TikTok ou cortes de podcasts do YouTube.
Como destacam os professores Jeffrey Pfeffer e Robert Sutton, da Universidade de Stanford, em artigo publicado na Harvard Business Review, gestores frequentemente substituem a melhor evidência disponível por conhecimento ultrapassado, experiência pessoal, soluções que estão acostumados, dogmas ou imitação automática das práticas de empresas bem-sucedidas.
No caso da intuição — muitas vezes vista como um “dom” reservado a poucos — , pode até funcionar em casos muito específicos, como Nassim Taleb argumenta em A Lógica do Cisne Negro. Contudo, em situações reais, complexas e aleatórias, a intuição pouco ou nada tem a oferecer.
Curiosamente, a gestão talvez seja um dos poucos campos em que o título de “guru” não carrega uma conotação negativa. Daí emerge a urgência de substituir o quem disse pelo qual é a evidência. Como já dizia algum sábio — que não sabemos quem é e que, certamente, já não está entre nós para confirmar — : “De todos os argumentos possíveis, o mais frágil é o da autoridade.”
Além da relevância infundada dos gurus, a disciplina Gestão recebe contribuições absurdamente diversificadas — de Shakespeare a Pablo Marçal, passando por Tony Soprano, Capitão Nascimento, Harvey Specter e Papai Noel.
Não dá para gerir empresas assim. Nosso papel, como profissionais em posição de gestão, é conhecer o que está sendo discutido e identificar quais são as melhores evidências disponíveis para tomar decisões. E isso precisa ir além do discurso.
A medicina percebeu isso há tempos. Em 1847, Ignaz Semmelweis observou que lavar as mãos reduzia drasticamente as infecções hospitalares. Desde então, a Medicina Baseada em Evidências integra a expertise clínica com as melhores evidências externas disponíveis.
Na gestão, por outro lado, o caminho é longo — e percorremos pouco.
Gestão baseada em evidências significa transformar as melhores evidências científicas em práticas organizacionais.
Como afirma a professora Denise Rousseau, da Carnegie Mellon University, gestores devem se tornar especialistas que tomam decisões informadas por ciências sociais e pesquisa organizacional, abandonando preferências pessoais e experiências não sistemáticas em favor das melhores evidências disponíveis.
A prática baseada em evidências é caracterizada por:
- Entender conexões reais entre causas e efeitos;
- Isolar variações mensuráveis que afetam resultados;
- Criar uma cultura organizacional que valoriza dados e participação em pesquisas;
- Promover comunidades de compartilhamento de conhecimento — na medicina, há a Cochrane; na gestão, o Center for Evidence-Based Management;
- Construir ferramentas simples e práticas que suportam decisões baseadas em evidências, como checklists e protocolos;
- Fomentar um ambiente institucional que facilite o acesso e uso dessas evidências.
Esses princípios se apoiam em um alicerce consolidado: o método científico, que é racional, sistemático, exige clareza e exatidão e pode ser verificado na realidade.
Precisamos das evidências com “E” maiúsculo — o conhecimento generalizável, derivado do método científico — e também do “e” minúsculo: dados contextuais e específicos, reunidos de forma sistemática para resolver problemas locais. Aqui entram as ferramentas ordinárias — no bom sentido — da qualidade, os painéis de BI com dados confiáveis, o Six Sigma, entre outras práticas ancoradas em fatos e dados.
E, sim, a gestão baseada em evidências pode reduzir a relevância dos gestores e ameaçar a liberdade pessoal daqueles que gostam de conduzir as empresas segundo seu próprio entendimento, intuição ou o alinhamento dos astros.
E se você, neste contexto, for um insurgente que cultiva a curiosidade, pagará um preço: certa vez, numa entrevista, fui rotulado de “acadêmico” simplesmente por valorizar conhecimento. Temi que me pedissem a data de nascimento para fazer meu mapa astral.
Devemos deixar para trás o conforto do achismo, da pseudociência e da gestão por posts virais, e abraçar, de verdade, a cultura da evidência.
Dito isso, cada vez que alguém propuser uma mudança, pergunte:
- “Qual é a evidência de que funciona?”
- “Qual é a lógica por trás disso?”
- “Nossa empresa realmente se assemelha às outras que adotaram essa prática com sucesso?”
- “Quais desvantagens ou riscos estamos negligenciando?”
Incentive gestores a testar ideias e recompense quem aprende com esses experimentos, mesmo que falhem. Exija atualização contínua.
Vamos substituir opiniões por testes e intuições por dados. Afinal, empresas perenes são geridas por evidências, não por achismos.
메타데이터
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