O doce prazer de não fazer nada
É segunda-feira, quatro da tarde e eu estou com os pés na areia. Depois de meses usando pelo menos duas camadas de roupa para enfrentar o…
O doce prazer de não fazer nada
É segunda-feira, quatro da tarde e eu estou com os pés na areia. Depois de meses usando pelo menos duas camadas de roupa para enfrentar o frio, o mês de março iniciou ensolarado e relativamente quente por aqui. Tiro minha jaqueta e, agora, estou usando apenas uma camiseta, mas, ainda assim, sinto meu corpo se esquentando debaixo dos raios do sol. Nem parece que ainda é inverno.
Olho ao meu redor e vejo gente. Mais do que eu esperaria para uma segunda-feira à tarde. Vejo muitos jovens, mas também idosos. Famílias, amigos e gente sozinha. Todos parecem felizes, mas sabe-se lá o que passa dentro de cada uma dessas cabeças.
Caminho em direção ao quebra-mar, onde não tem ninguém, e recordo-me de quando cheguei aqui em Meta — uma cidadezinha na região metropolitana de Nápoles, na Itália. Era um dia chuvoso e cinza.
Naquela tarde, após colocar minhas duas mochilas no B&B onde eu faria meu próximo voluntariado, desci para a praia e, diferentemente do que vejo hoje, não havia quase ninguém. No meio do ermo, pisei aqui, nesta areia, pela primeira vez. Já se passaram quatro semanas desse dia. Nunca me acostumo com a velocidade do tempo enquanto viajo: tão rápido e tão intenso. Hoje é meu último dia aqui. Amanhã, parto. De novo.
Sinto-me cansada só de pensar em pegar o ônibus, carregar o peso das mochilas, conhecer o lugar novo e o resto todo. Eu sei que sempre reclamo disso, mas o dia da mudança de destino é, sem dúvida, o que eu mais odeio na vida nômade. E talvez na vida em geral. Mas, como disse outro dia a um amigo, é o preço que se paga para usufruir do que vem depois. Não há outro jeito.
Ok, voltando àquele dia… O primeiro. Inesperadamente, o sol se pôs colorindo o céu com tons laranjas e amarelos. Lembro de olhar fixamente para o céu por alguns minutos e ser invadida por uma euforia: era o início de uma nova experiência e o sol deu as caras no meio do cinza das nuvens já na hora de partir.
Entretanto, os dias seguintes também choveram.

Pôr do sol na praia, no dia 1.
Neste voluntariado, vivo com uma família napolitana: a mãe, seus dois filhos, de 7 e 9 anos, e o nonno (avô). Os primeiros dias me causaram uma ou outra estranheza que hoje já nem lembro qual. Essa foi minha experiência voluntariando de número 9. A esta altura, já amadureci o fato de que mudar e/ou começar algo novo causa algum desconforto. Ainda mais em outro país, em outra cultura. Ao longo desses 13 meses pulando de galho em galho, aprendi que é preciso dar uma chance antes de desistir.
E assim foi. Os dias subsequentes foram alegres e cheios de vida. Me senti em casa, como se fosse possível ter uma família mesmo longe da minha.
Nonno cozinha todos os dias. Impecável. Em uma certa ocasião, depois de beber algumas doses de limoncello, produzido por ele e com teor alcoólico de 50%, ele nos contou que só começou a cozinhar após a morte da esposa. A esposa e o primogênito faleceram no mesmo ano. Ela primeiro, ele, alguns meses depois “porque não quis mais viver”, segundo ele. Nonno, então, assumiu a cozinha da casa e, com maestria, continua o legado da esposa.
Nessa noite, Nonno ficou por horas na mesa com a gente e, detalhadamente, contou histórias da sua trajetória ao longo de seus 76 anos. Escutei atentamente e, mesmo que não entendesse tudo por causa do idioma, pude compreender. Havia ali um olhar bonito, emocionado ali. Algo que não se vê todos os dias.
Essa cena se repetiu outras vezes naquela mesa.

Limoncello com nonno
Estou sentada em uma pedra do quebra-mar há horas, refletindo sobre o último mês, enquanto olho para o mar. Não faço nada além disso. Olho ao meu redor e observo novamente àquelas pessoas. Depois, retorno meu olhar para mim. Dolce far niente, falo e dou uma risadinha me sentindo besta por conversar sozinha.
Essa expressão italiana, que em português pode ser traduzida como “o doce prazer de não fazer nada”, representa a pausa consciente, sem pressa e sem culpa.
Aqui, cozinhar com calma, sentar na mesa com a família para comer, tirar um cochilo depois do almoço (sesta), pausar para tomar o café, apreciar a natureza ou, simplesmente, não fazer nada fazem parte da vida.
Eu tive o privilégio de viver assim este mês. Eu gosto desse conceito — que seria impensável para mim há alguns anos atrás, já que me fizeram acreditar que “tempo é dinheiro”.
Mentira. Tempo é muita coisa. Entre elas, descanso, tédio, contemplação.
Ficar à toa. Fazer o que der vontade. Sem precisar produzir, criar, performar.
Sem culpa.
Desço da pedra porque começa a esfriar. Antes de ir embora, caminho até o mar e coloco os pés na água.
Está gelada.
메타데이터
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