A escassez na alternância de vencedores e uma certeza: 2022 precisa chegar logo
Os números de ganhadores na era híbrida evidenciam a necessidade de mudança na Fórmula 1
A escassez na alternância de vencedores e uma certeza: 2022 precisa chegar logo
Os números de ganhadores na era híbrida evidenciam a necessidade de mudança na Fórmula 1
A vitória de Sergio Pérez no Grande Prêmio do Azerbaijão, no último fim de semana, não foi marcante apenas pelo fato de ser a sua primeira pela Red Bull, depois de um final insano. Junto a ela veio uma estatística absurda, e que escancara muitas coisas sobre a Fórmula 1 atual.
Pérez se tornou O PRIMEIRO PILOTO da era híbrida a vencer corridas por duas equipes diferentes. O mexicano levou os GPs do Sakhir em 2020 pela Racing Point; e agora em Baku pela Red Bull. A era dos motores híbridos começou em 2014, e apenas na OITAVA TEMPORADA um piloto consegue vencer por duas equipes.
Mas outro levantamento simples de se fazer e pouco divulgado também é estarrecedor. Desde o início da era híbrida lá em 2014, apenas DEZ pilotos (!!) venceram corridas. Pois é. Contando o último GP em Baku, foram 144 provas. E dez vencedores.

Pérez é um raro vencedor da F1 na era híbrida: pouco, muito pouco (Foto: Reprodução/@schecoperez)
Destes, apenas dois campeões, Lewis Hamilton e Nico Rosberg; e só a Mercedes levou o título entre os construtores. Além da dupla campeã e de Pérez, os outros a vencerem corridas foram Valtteri Bottas, Max Verstappen, Daniel Ricciardo, Sebastian Vettel, Charles Leclerc, Kimi Räikkönen e Pierre Gasly.
A média é de praticamente um vencedor a cada 14,5 corridas. Mas ela esconde algo ainda pior. É importante lembrar que, destes dez, Räikkönen venceu uma (EUA/2018); Gasly uma (Itália/2020); e Pérez duas. Ou seja: sete pilotos concentram vitórias em 140 corridas. É um vencedor a cada 20 provas, como se só um vencesse quase todas de uma temporada.
Sem contar a questão das equipes. Destas 144 corridas, apenas duas ficaram fora do trio Mercedes/Red Bull/Ferrari: as de Gasly em Monza pela AlphaTauri, e de Pérez em Sakhir na Racing Point. Todas em 2020. Sim, entre março de 2013 e agosto de 2020 (!), TODAS as corridas foram vencidas por apenas três equipes do grid. Todas.
É óbvio que a Mercedes se preparou melhor, fez seu trabalho de forma mais competente, outras equipes em algum momento se perderam em erros e etc. Tudo isso é fato. Competência jamais será discutida aqui. Mas até que ponto tanta concentração é boa para o esporte, para o público que quer apreciar um bom espetáculo?
Em 2022 veremos um novo regulamento, com mudanças que pretendem fazer com que os carros consigam estar mais próximos. Teoricamente, isso parece que será atingido, uma vez que o conceito é interessante. O fato é que juntar o grid e promover mais ultrapassagens são as grandes soluções para a F1.

Mercedes dominante é o padrão da F1 desde 2014 (Foto: Mark Sutton — @f1sutton)
O novo conceito do regulamento tem como foco diminuir a pressão aerodinâmica gerada pelas asas e apêndices, e trazer uma maior participação do efeito solo, que altera o fluxo de saída do ar do carro e agarra o carro mais ao chão. Assim, a menor turbulência faria com que os carros andassem mais próximos.
E sem contar mudanças a nível financeiro, como o teto de gastos e o escalonamento de túnel de vento favorecendo equipes abaixo na tabela. Todos estamos cansados de saber que a distribuição extremamente desigual do dinheiro é um fator que estrangula a Fórmula 1. A era híbrida, com unidades de potência caríssimas, só atenua isso.
Com o carro atual, bastante afetado pela aerodinâmica excessiva, eles ficam grudados e não conseguem criar ultrapassagens. E muito tempo preso atrás de um rival significa um desgaste de pneus e componentes absurdos. O carro atual da F1 trabalha contra as ultrapassagens, e depende de artifícios como o DRS, que infelizmente acabam sendo bastante defendidos.
Tão importante quanto isso é juntar o grid. Hoje a Fórmula 1 tem vários pelotões, o que não ajuda em nada na competitividade. Quando paramos para pensar, percebemos que a disputa por vitórias depende muito da característica do circuito. “Ah, naquela pista mais travada podemos ter disputa, em outras de alta devemos ter domínio de outra…”. No máximo, alguma boa variação de estratégia.
Falar de Mônaco, por exemplo, é fácil quando não se tem ultrapassagens. Mas até a batida de Lance Stroll na última corrida, nada havia acontecido em mais de 30 voltas. A emoção mesmo dependeu de estouros de pneus e relargadas no fim. Em uma pista que permite movimentações.

Uma boa pista em Baku, grid talentoso, e corrida que dependeu de estouros de pneu para ter emoção. É bom? (Foto: Mark Sutton — @f1sutton)
Óbvio que não somos idealistas demais. Sim, sempre vão existir equipes mais e menos fortes. Mas quando você permite que elas em algum momento briguem, o espetáculo apenas ganha. Criar distintos pelotões inalcançáveis dentro do próprio grid tem um efeito colateral bastante negativo. E do lado positivo, temos bons exemplos de emoção.
Há algum tempo atrás relatei que outra categoria que acompanho tanto quanto (ou até mais que) a Fórmula 1 é a IndyCar. E no último fim de semana tivemos uma prova disso, durante a rodada dupla em Detroit. Na corrida do domingo, o sensacional Pato O’Ward conseguiu uma ótima recuperação e deu show — vencendo e assumindo a liderança da tabela.
Claro que existem questões de estratégia envolvidas, e contextos específicos de cada disputa. Mas a Indy mostra como juntar os carros e permitir ultrapassagens gera bons frutos. Os quatro primeiros em Detroit #2 foram de equipes diferentes: O’Ward (Arrow McLaren), Josef Newgarden (Penske), Alex Palou (Chip Ganassi) e Colton Herta (Andretti).
A IndyCar, inclusive, tem dado um show de competitividade. Nas sete primeiras corridas, sete pilotos diferentes venceram — O’Ward foi quem quebrou a série em Detroit. No top-10 da temporada até agora, seis equipes estão representadas. Cinco equipes venceram corridas, e a Penske, toda poderosa, NÃO FOI uma delas.
É óbvio que a Indy não é perfeita e tem vários pormenores específicos que facilitam isso. Mas hoje mostra um exemplo de competitividade importante para a Fórmula 1 se espelhar (e curiosamente a Liberty Media, dona da F1, é dos Estados Unidos). Basta ver a quantidade de vencedores: em uma, sete em oito corridas; em outra, dez em 144.
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A Fórmula 1 tem muitas coisas a serem melhoradas, outras a serem incrementadas e aproveitadas. Mas negar tal falta de disputa é não se ater aos fatos. Tanto que os anos mais emocionantes a nível de campeonato foram aqueles em que a Mercedes teve briga interna, ou no máximo quando a Ferrari fez graça.
Em 2021, a Red Bull chega e ameaça a Mercedes. E todos nós estamos vendo como o campeonato e as narrativas ganham em emoção.
O regulamento de 2022, dentre várias novidades, promete trazer um equilíbrio maior, seja na aerodinâmica ou no financeiro. Quando se junta o pelotão e se cria mais ultrapassagens, a receita é uma só. Os carros atuais pouco conseguem tal objetivo. E as estatísticas de vencedores na era híbrida só comprovam a necessidade de mudança.
Fórmula 1 é sim tecnologia, desenvolvimento, pesquisa e tudo que envolve essas áreas. Mas acima de tudo, estamos falando de um esporte. E o esporte precisa como premissa ser competitivo. Diante disso tudo, definitivamente há uma certeza que se comprova a cada fim de semana de Grande Prêmio: 2022 precisa chegar logo.
메타데이터
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