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Um filme por dia III

Um compromisso sério com o cinema em 2026.

LC · 2026-03-24 05:12 · 0 claps · 8.7 min read
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Um filme por dia III

Um compromisso sério com o cinema em 2026.

1) O Apartamento (2017) — Asghar Farhadi

Um casal de atores iranianos é obrigado a mudar de apartamento depois que o prédio onde moravam é interditado por problemas estruturais. No novo endereço, Rana (Taraneh Alidoosti) sofre uma violenta agressão sexual. A partir daí, o filme acompanha a obsessiva jornada de vingança de seu marido, Emad (Shahab Hosseini), que parece muito mais preocupado em restaurar a própria honra do que em oferecer apoio emocional à esposa.

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Com maestria, Asghar Farhadi, diretor do filme constrói um drama tenso e incômodo que expõe os profundos dilemas morais vividos pelo casal, ao mesmo tempo em que revela a pressão sufocante da sociedade iraniana — onde a reputação masculina e o conceito de vergonha familiar pesam mais que a dor da vítima.

2) Uncut Gems, Jóias Brutas (2019) — Benny Safdie, Josh Safdie

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Poucas vezes o cinema retratou tão bem a compulsão quanto em Jóias Brutas. Adam Sandler é dono de uma joalheria e, ao mesmo tempo, viciado em apostas. Daí já dá pra sentir o drama que se desenrola ao longo das duas horas de filme. Quem gosta de basquete e NBA ainda recebe de brinde a participação incrível de Kevin Garnett.

3) Os Suspeitos (1995) — Bryan Singer

Kevin Spacey, Gabriel Byrne, Benicio Del Toro, Kevin Pollak e Stephen Baldwin — são acusados de um assalto que deu errado. Por trás da trama, há o envolvimento de um lendário gângster cuja identidade permanece obscura, a única coisa que se sabe é seu nome: Keyser Soze. Clássico dos anos 90, Os Suspeitos recebeu 2 Oscars: Kevin Spacey (Melhor Ator Coadjuvante) e Christopher McQuarrie (Melhor Roteiro Original).

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4) Sunlight (2025) — Nina Conti

Um road movie bizarro que conta a história de Roy, apresentador de um programa de rádio que tenta o suicídio, mas é salvo por Jane, uma moça vestida com uma fantasia de macaco que roubou do seu antigo namorado — com quem mantinha uma relação abusiva. Para quem assistir e tiver curiosidade de conhecer mais, Nina Conti — que é diretora e protagonista do filme na pele do macaco Jane — é ventríloqua e encena diversas esquetes no YouTube.

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5) Bela Vingança (2020) — Emerald Fennel

A vingança é pop. Em “A Bela Vingança”, a personagem vivida por Carey Mulligan é uma jovem promissora com uma bela carreira pela frente. Algo acontece e ela desiste da carreira na medicina, passa a trabalhar numa cafeteria e dedica-se a um inusitado experimento social: desmascarar potenciais assediadores interpretando sempre o mesmo papel, a jovem bêbada no fim da balada.

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É a estreia de Emerald Fennel como diretora e é uma senhora estreia: o filme faz pensar, é divertido, faz a gente torcer pela personagem, se arrepender de torcer e no final, aplaudir de pé. Muito bom!

6) Vingança Redentora (2004) — Shane Meadows

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Dead Man Shoes, título original do filme inglês, conta a história de Richard, soldado que volta pra casa decidido a se vingar de uma gangue de traficantes que atacou seu irmão mais novo. É uma trama clássica de vingança com um desfecho muito bem construído ao longo do filme: equilibra bem drama, suspense e violência.

7) Prisoners — Os suspeitos (2013) — Denis Villeneuve

As aparências enganam. Neste thriller de suspense policial, um pai e um detetive se enfrentam numa busca obsessiva para tentar desvendar o sequestro de duas meninas.

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A trama vai se adensando à medida em que o filme avança e você fica o tempo inteiro se perguntando quem está certo, se é aquilo mesmo que você está pensando ou se você está sendo ludibriado pelo roteiro brilhante e a direção caprichada de Denis Villeneuve. Não conhecia o filme e assisti tudo vidrado até o fim.

8) The Joneses: Amor por Contrato (2009) — Derrick Borte

Demi Moore e David Duchovny formam o casal dos sonhos: jovens, ricos e pais de filhos lindos e saudáveis. A família acaba de se mudar para um belíssimo condomínio de luxo em algum lugar dos Estados Unidos e a vida deles, esse eterno comercial de margarina, começa a deixar à mostra alguns problemas do capitalismo ostentação.

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9) (Grosse Pointe Blank) Matador em Conflito (1997) — George Armitage

Humor negro da melhor qualidade, Matador em Conflito narra a história de Martin Blank, interpretado por John Cusack. Em meio a uma crise existencial, Blank recebe um convite para a Festa de 10 anos de formatura de sua turma na escola em Pointe Grosse.

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Aproveitando que foi contratado para matar alguém em Detroit, Blank resolve voltar à cidade natal para rever Debbie (Minnie Driver) — sua paixão adolescente. A partir daí, desenrola-se uma trama hilária que tece críticas contundentes à sociedade americana, por meio de situações e diálogos engraçadíssimos: destaque especial para a excelente trilha sonora, quase uma marca registrada dos filmes estrelados por Cusack.

10) Embriaguez de Sucesso (1957) — Alexander Mackendrick

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Drama em preto e branco que mergulha nas entranhas do jornalismo, Embriaguez de Sucesso é um clássico da história do cinema. É muito interessante como uma obra dos anos 50 consegue ser tão bem filmada, a câmera está o tempo todo acompanhando os truques e tramóias dos ambiciosos personagens vividos por Burt Lancaster e, principalmente, Tony Curtis. Quem vê o filme se sente testemunha de uma denúncia que está sendo encenada ali em tempo real, trata-se de um ancestral de outro excelente filme que aborda temática semelhante: **Los Angeles, Cidade Proibida (1997)**.

11) Viver e Morrer em Los Angeles — William Friedkin (1985)

O diretor de **Viver e Morrer em Los Angeles** já havia entregue um clássico do cinema policial quando filmou algumas das perseguições mais incríveis da história do cinema em French Connection de 1971 — que já brilhou aqui em nossa lista de janeiro. Na década seguinte, William Friedkin repetiu o feito e ainda assim foi 100% original: dirigiu um filme policial incrivelmente moderno, liderando um time de jovens atores brilhantes como Willem Dafoe, John Torturro e William Petersen. 5 estrelas de 5!

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12) DTF Saint Louis — Steven Conrad (2026)

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Série curtinha da HBO com apenas 7 capítulos, DTF Saint Louis é uma trama de humor negro que não espera um segundo para entregar mistério, personagens excêntricos e sequências que ativam o julgamento instantâneo de quem está assistindo. Jason Bateman é produtor e um dos protagonistas da série; mas Linda Cardellini e David Harbour, que compõem um casal disfuncional que dominam a cena, são os grandes responsáveis por fazer de DTF Saint Louis uma das viagens mais legais que fiz no último mês.

13) Sonhos de Trem — Clint Bentley (2025)

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Um amigo classificou "Sonhos de Trem" como poesia: —"Uma poesia visual", diria ele. O filme foi indicado em quatro categorias no Oscars 2026, inclusive como Melhor Filme e, mesmo sem a estatueta, consagrou-se como um dos destaques da temporada de premiações do cinema internacional, quase sempre pelo trabalho de Direção de Fotografia do brasileiro Adolpho Veloso. A exuberância das locações, aliada à direção de arte e à fotografia de rara sensibilidade, poderia facilmente ter transformado o filme em um mero exercício de beleza. Mas não é o caso. Sonhos de Trem é poesia, sim — e, sobretudo, um belo lembrete de que o cinema, antes de qualquer coisa, é a arte de contar histórias.

14) Thief (Profissão: Ladrão) — Michael Mann (1981)

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“Thief” pode ter uma sinopse clichê — o ladrão que busca o último grande golpe para se aposentar do crime. Mas a estreia de Michael Mann, mestre de clássicos como “Fogo Contra Fogo” e “O Informante”, é um noir de primeira. O filme é rigoroso: usou ex-criminosos e policiais como consultores e atores em papéis importantes. A fotografia, com seus tons frios de azul e verde, espelha a intensidade da atuação de James Caan até o fim. Uma ótima pedida para fãs de filmes policiais.

15) Meu amigo Harvey — Henry Koster (1950)

James Stewart vive Elwood P. Dowd, um camarada cheio de excentricidades, tratado como louco e que, hoje, facilmente se enquadraria dentro do espectro autista. Dowd vive uma vida leve ao lado de um amigo imaginário: Harvey, um coelho com 2 metros de altura. Harvey é baseado em uma peça que venceu o Pulitzer em 1945, é uma fábula sensível que aborda a loucura enquanto se dedica a compreender porque as pessoas são como são e porque fazem o que fazem. James Stewart foi indicado para o Oscar e para o Globo de Ouro e Josephine Hull, que vive sua tia no filme, levou os dois prêmios como coadjuvante — o Oscar e o Golden Globe. É mais uma destas obras que ajudaram a definir o cinema. 5 estrelas de 5!

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16) Kiss me deadly (A morte num beijo) — Robert Aldrich (1955)

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Clássico do filme noir, **A Morte num Beijo *(1955) é uma verdadeira aula de cinema. O filme reúne praticamente todos os recursos que os diretores contemporâneos adoram explorar: trilha sonora marcante, uso inteligente de recursos narrativos como o [MacGuffin](https://youtu.be/8QkPMFdS5a4?si=dGt_gdbCSIdRWpxr) *e os letreiros estilizados nos créditos iniciais. A trama começa envolta em mistério, evolui para um policial intrigante e termina com pinceladas de suspense dignas de Hitchcock. Impressiona como um filme de 1955 consegue parecer tão atual em termos narrativos.

17) Black Bag (Código Preto) — Steve Soderbergh (2025)

Código Preto foi lançado mais ou menos na mesma época em que comecei a acompanhar **Slow Horses e dá pra dizer que o filme estrelado pelos excelentes Michael Fassbender e Cate Blanchett ficou eclipsado. Assim que comecei a acompanhar a série, descobri que Oldman havia estrelado outro thriller de espionagem — O Espião que Sabia Demais; e aí acabei subestimando um pouco as qualidades da boa trama dirigida por Steve Soderbergh**.

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Código Preto é muito bem montado, trata-se de uma marca registrada do diretor; mas há todo um argumento que se desenvolve nas entrelinhas da história que, pra mim, são o ponto alto do filme: a realidade, as idas e vindas entre a vigilância, os segredos e o direito à privacidade; e como as pessoas se relacionam com isso. Não tem nada de tão original que você já não tenha visto em outros filmes de espião, mas é uma história muito bem contada e com uma coisa que faz muita falta às vezes: rigor! Outra coisa: tem Cate Blanchett na tela! ♥

18) The Last OG — Jordan Peele & John Carcieri (2018–2021)

The Last O.G. é como se Spike Lee tivesse dormido antes de Do The Right Thing e acordado 30 anos depois num Brooklyn gentrificado, cercado de hipsters por todos os lados. É exatamente esse o choque que Tray (Tracy Morgan) sente ao sair da cadeia após 15 anos. Ao lado de uma ótima Tiffany Haddish como Shay, Tracy Morgan brilha tentando “fazer a coisa certa” e reconquistar a família.

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O que mais funciona são os temas de fundo — crítica afiada à gentrificação, racismo e reinserção — misturados com humor sem filtro. Tem um plot hilário logo nos primeiros episódios: Tray vendendo crack pra yuppies de Wall Street pra bancar o trabalho voluntário da ex. A série é bem divertida, mas podia ser mais curtinha. Em 3 temporadas dava pra resolver tudo. No geral, vale demais.

19) Um Lindo Dia na Vizinhança — Marielle Heller (2019)

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Tom Hanks vive o carismático Fred Rogers, apresentador de um programa infantil que marcou época nos anos 60 nos Estados Unidos. Baseado em um famoso artigo da Esquire de 1998, o filme recria com riqueza de detalhes os bastidores do programa e conta um pedaço da história de Lloyd Vogel, o jornalista cínico e niilista escalado para entrevistar Mister Rogers. Vogel, vivido por Matthew Rhys, acaba se envolvendo, quase sem perceber, em um verdadeiro processo de cura emocional dos traumas na relação com o pai. O capricho na direção de arte e a interpretação de Hanks confundem a gente: chega um momento em que você já não sabe se está assistindo ao programa de Mister Rogers ou ao próprio filme.

20) Mare of Easttownn — Brad Ingelsby & Craig Zobel (2021)

A trama de **Mare of Easttown** tem um pouco de Três Anúncios para um Crime: uma jovem desaparece sem deixar pistas, a detetive do pequeno povoado começa a investigar o sumiço, mas começa a ser pressionada pelos parentes da vítima por não conseguir desvendá-lo e pra piorar, outra jovem é assassinada.

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Criada por Brad Ingelsby, a minissérie acompanha Kate Winslet como Mare Sheehan, uma detetive-faz-tudo que mergulha num turbilhão que mistura o caso policial com traumas familiares, luto e as complexas relações de uma comunidade onde todo mundo se conhece. Winslet dá um show na série que é bem curtinha, apenas 7 episódios, mas entrega um thriller policial recheado de drama familiar dolorosamente real.

21) O Afinador (2025) — Daniel Roher

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História interessante para quem curte música, Tuner no original, apresenta um roteiro um tanto previsível, mas sustentado por atuações sólidas e uma premissa curiosa. Dustin Hoffman vive uma espécie de mestre sábio e cansado, mentor de um pupilo talentoso (Leo Woodall) que carrega problemas pregressos que o espectador nunca compreende inteiramente. O afinador de pianos, dotado de uma audição hiper-sensível, acaba usando seus dons extraordinários para fins diferentes da arte — e muito mais lucrativos (inclusive). O filme oscila entre o drama intimista e o thriller de crime, com toques de romance. Embora falte um pouco de surpresa no desenvolvimento, a direção de Daniel Roher e a química entre o elenco principal seguram o interesse.


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