A morte
O cursor pisca na tela e eu não sei bem por onde começar. Sem porquês, ou maiores justificativas, a morte faz de novo o seu movimento…
A morte
O cursor pisca na tela e eu não sei bem por onde começar. Sem porquês, ou maiores justificativas, a morte faz de novo o seu movimento. Morrer faz parte de viver. A única certeza que temos diante da vida, desde o nosso nascimento, é a ampulheta contando, com a areia que vai se esvaindo.
Em 2024, meu irmão do meio. Fruto do segundo casamento do meu pai, vítima de assassinato, pelas mãos da namorada, muito provavelmente, cuja investigação ainda está em curso, mas que pistas e o depoimento do próprio hospital corroboram a tese de envenenamento por chumbinho.
Antes mesmo de tudo isso acontecer, havia sinais no meu pai de que algo não ia bem e aí, a gente entra naquela seara do morrer em vida. Quem sabe uma depressão? O quão é importante não se deixar encaixotar por nomenclaturas que a sociedade te impõe; por definições até autoimpostas de quem você é e de como você se enxerga no mundo. É mais profundo que uma mera discussão num blog de opinião.

Foto de Aron Visuals na Unsplash
Meu pai, um dos primeiros fotógrafos negros do Rio de Janeiro de um dos jornais mais relevantes do Brasil, com olhar artístico sobre a vida, cujo saber intrínseco e alegria de viver iluminavam tudo por onde passava, com o seu bom humor e gargalhadas. De alma solar, brilhante até.
Meu pai, o conquistador do coração feminino, que com certa humildade e despretensão, adentrou no coração de muitas mulheres e foi fálico durante anos de sua vida. Quando eu falo de caixinhas e personagens, é porque a gente acredita nessas coisas.
Meu pai, que trouxe o surf para dentro da mídia esportiva, quando ainda era um esporte marginalizado, através de suas lentes. Ele desbravou e andava com aquela turma toda da Zona Sul do Rio, falando as mesmas gírias e dando holofote para toda uma geração de surfistas como Ricardo Bocão, Pepê, Victor Ribas, Teco Padaratz, dentre outros.
Meu pai, fruto de uma geração que não se aquebrantava. O macho que tudo pode, o homem que não sente e não sofre. Esse tipo de cara que guarda e não revela. O que tudo disfarça com uma gargalhada. Ele, que foi o meu referencial de masculinidade até a página 2. Eu era completamente seduzida pela sua energia vibrante, até começar a minha própria opinião sobre como gostaria de ser tratada por um homem e, mais tarde, já mãe, como o ideal de pai que eu poderia ter tido.
Sem a venda da ilusão, pude ver o esquerdomacho tóxico que ele era. Primeiro com a minha mãe, comigo, com minha irmã, então com a segunda esposa, namoradas, até chegar à terceira esposa, com quem vive até hoje e veio provar que nesse universo, existe a misericórdia divina. Uma mulher doce, amorosa e servil, que vai acompanhá-lo até o dia de sua morte.
Esse homem deu vários exemplos. Exemplos esses a serem seguidos e outros que devemos passar longe. Fez sempre o que quis. Sempre se colocou em primeiro plano, ainda que destroçasse o entorno, mas não sob a égide do amor, porque agora é possível ver. Talvez por medo até. Aquele tipo de medo que a gente não admite para nós mesmos que está sentindo.

Foto de Aron Visuals na Unsplash
Acompanhar os movimentos da vida requer coragem e, muitas vezes, abre feridas na gente. Lembre-se, somos humanos que odiamos sentir. A gente costuma anestesiar os sentidos para que não doa. Só que o experimento terreno exige de nós certas dores. A vida dilacera, estica, mastiga e cospe a nossa alma, exigindo um nível de flexibilidade para que possamos crescer em HUMANIDADE.
Meu pai é o fruto de uma época, em que homem não sentia. Infelizmente, apesar de ter feito certos movimentos em vida, nunca respeitou a morte, sobretudo a morte alheia. Assim foi na morte de sua avó, não compareceu à morte da mãe, não se despediu do próprio filho morto e agora não consegue encarar seu próprio fim.
Meu pai é só mais um ser humano ordinário.
Esse homem, ainda assim, foi capaz de conquistar muita coisa e, assim como muitos de nós, também é luz.
Esse talento pela comunicação e pelo audiovisual, eu herdei dele, que sempre é capaz de conversar sobre tudo. Enxergar o lado bom da vida, quase beirando a negação do que é ruim, é outra faceta minha que herdei dele. A risada, as unhas das mãos e dos pés, alguns traços físicos e por aí vai. Temos fotos guardadas de um passado de amor e carinho. Espero que essa seja a memória que fique. Não desse passado recente que me machuca.
Ele é o cara que me influenciou positivamente sobre o respeito filial. Apesar de ter sido educado diferente, ele me ensinou que devemos ouvir os filhos, sem querer aprofundar muito sobre as razões dessa escolha dele, pois meu pai foi mais um pai ausente dos anos 1980. No entanto, esse saber possibilitou a minha relação próxima e amorosa com os meus filhos. Infelizmente, ele também não foi um avô muito presente, sobretudo depois da pandemia, quando se isolou na distância. Ainda assim, é o avô querido deles.
Já na fase pós-adolescente e adulta, sempre encontrei no meu pai um ombro no qual podia desabafar, ser eu mesma, sem julgamentos. O fato de sempre ter respeitado a minha individualidade e as minhas escolhas sem julgamentos foi um grande alívio em momentos dolorosos da minha vida e é essa pessoa que quero levar no coração.
Meu pai está morrendo. Creio que todas as escolhas que ele fez o levaram a esse momento. Uma morte que bate à porta, causada por um câncer muito agressivo, e eu faço planos de ir lá me despedir dele.
Como homem peculiar que ele escolheu ser em vida, nesse período tão difícil, ele opta pela autopunição, ainda que possa não ter consciência de tamanho desamor. A vida, com todas as dificuldades que temos, é um presente que nos é dado. É essa escola difícil, onde caminhamos juntos e cansamos rumo ao amadurecer da alma. Contudo, quando não se tem essa consciência nem se quer ter, restam sentimentos e escolhas que abreviam a nossa existência. É isso o que está acontecendo com ele.
Depois de uma certa idade, a nossa mente começa a cobrar cada fio de nossas escolhas. É um processo involuntário, como que um alter ego, que nos força a olhar para a nossa própria vida com uma lupa, repassando incessantemente tudo aquilo que falhamos. Muita gente não suporta e, dependendo do momento de vida em que estamos, é insuportável mesmo.
Essa mente inquisidora chegou pra mim depois dos 40 anos, quando eu passava por uma fase de muito questionamento e me sentia totalmente perdida, com 3 filhos. Eu tive sorte, porque a minha rede de apoio é forte e me deu a mão física, emocional e espiritualmente. Praticamente, tive que re-aprender a viver e a pensar. Precisei entender certas leis universais e derrubar várias crenças limitantes que saíam da minha boca. Tive que dar um grande salto e mergulhar dentro de mim mesma e foi quase insuportável rever meus cantinhos obscuros, minhas manias e autosabotagens. Levou anos para eu me reerguer e ter a coragem de entender que dentro de mim há um eu que tudo pode, desde que queira e se empenhe, que tenha a humildade de reconhecer o quão pequenos e grandiosos somos, simultaneamente, e que desistir está fora de questão. Que precisamos seguir com nossos sonhos. São eles que nos mantêm vivos. Aquele que pensa que já sabe tudo, aquele que aceita rótulos, aquele que compra os próprios personagens, está fadado à derrota.
É importante entender que somos indivíduos, mas que sem apoio, nada somos. E não pense que o jogo está ganho. Pensar que o jogo está ganho é um passo para a morte. Mesmo quando se sonha e se alcança, você será testado naquilo que deseja e nada vem de mão beijada, se você não nasceu herdeiro. Se parar pra pensar, até o herdeiro tem seus desafios. Ninguém escapa disso.

Foto de Juliette Contin na Unsplash
Então me passa pela cabeça, que tipo de inquisição o meu pai passou para em tão pouco tempo, pouco mais de 1 ano da morte do meu irmão, ter praticamente sido esmagado por seu universo interior, que lhe consome e representa o seu inferno particular. Apesar de sustentar o carão do lado de fora, por dentro, provavelmente tudo arde.
Me passa pela cabeça como será a nossa vida sem um pai. Dilema esse, que muitas pessoas passam na vida, cotidianamente. Não sou exclusiva. Fui treinada mais na ausência que na presença, e o exercício hoje dentro de mim é o de perdão, a começar por esse texto. Insisto em vir aqui, dar vida ao cursor, para que os meus sentimentos mais sinceros pulem para a tela. Nós vamos ficar bem, apesar de tudo. Nós estamos à luz do dia recebendo mais um ensinamento do que não fazer conosco. A sensação que fica é que ele quer trilhar sozinho, mais uma vez, a estrada que vai jogá-los nos braços de sua última amante nessa vida. A morte.
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- 2026-06-12 10:20:10