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O Aperto das Mãos

Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. (Hb 10.31).

Roberto Böck · 2026-01-24 11:38 · 0 claps · 2.5 min read
#pressão #queda #perseverança #constância #disciplina
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Imagem gerada no Gamma App.

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O Aperto das Mãos

Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. (Hb 10.31).


Sempre pensei que cair fosse perder o chão. Descobri — com atraso e hematomas — que cair pode significar ser segurado. Não com luvas, mas com mãos nuas. As mãos que me alcançaram não solicitaram permissão para mexer onde doía. E doeu porque havia muito de mim que precisava ser arrancado antes de ser reconstruído.

Insegurança foi meu primeiro sobrenome. Eu falava baixo até quando tinha razão. Evitava decisões como quem evita penhascos.

— Você não vai dar conta, sussurrava uma voz que eu chamava de prudência.

Eu obedecia. A insegurança me poupava do risco, mas me condenava à estagnação.

Veio então a baixa autoestima, essa casa sem janelas onde eu morava. Media meu valor pelo eco do reconhecimento alheio. Se ninguém notava, eu diminuía. Talvez eu seja mesmo insuficiente, pensava, treinando a arte de desaparecer com elegância.

A inconstância tornou-se hábito. Começava forte e terminava cedo. Planos, disciplinas, votos íntimos — tudo nascia com prazo de validade curto.

— Segunda recomeço — dizia, como quem adia a própria vida.

E o adiamento virou caráter.

Havia ainda a revolta, silenciosa e corrosiva. Não gritava; roía. Me ressentia de Deus, das circunstâncias, de pessoas que pareciam avançar enquanto eu tropeçava. Por que com eles e não comigo? A revolta me dava a ilusão de lucidez, mas me mantinha amarrado à queixa.

E os sentimentos de rejeição completavam o cerco. Um atraso era desprezo. Um silêncio, abandono. Lia o mundo como quem já espera ser descartado.

— Ninguém fica — afirmava, prevenindo-me da dor enquanto a ampliava.

Então, caí. Não foi queda limpa; foi quebra. Perdi o controle, a narrativa, o direito de me explicar. Fui confrontado. Exposto. Humilhado.

— Isso precisa morrer — ouvi, não como sentença, mas como cuidado severo.

As mãos que me seguravam não consolavam: pressionavam. E pressão transforma.

A perseverança nasceu no chão. Não como virtude heroica, mas como teimosia obediente. Ficar quando fugir parecia mais sensato. Só hoje, repetia, e o hoje foi somando dias.

A disciplina veio como trilho. Horários, rotinas, silêncio, repetição. Nada de inspiração.

— Faça mesmo sem vontade — aprendi.

E fiz. Descobri que a disciplina não mata a alma; ela a protege.

A constância apareceu quando parei de negociar com o humor. Continuei quando ninguém aplaudia. Continuei quando falhei. Permanecer virou método de sobrevivência.

Tornei-me metódico não por frieza, mas por amor à ordem que me salvou do caos. Sistemas me guardaram quando emoções me traíam. Eu não era menos sensível; era mais estável.

E as coisas concretas começaram a surgir como frutos tardios, porém sólidos. Constituí família — não perfeita, mas real — aprendendo a amar sem desaparecer. Superei as desafiadoras etapas acadêmicas, uma por vez, até o doutorado, não como troféu, mas como testemunho de que a constância vence o talento disperso. Cada etapa custou disciplina, noites longas, correções duras, orgulho quebrado.

O processo foi doloroso. Foi humilhante. Foi horrível cair nas mãos do Deus vivo. Horrível porque Ele não negocia com máscaras. Horrível porque Ele ama demais para deixar intocado o que me destruiria. Mas foi ali, no aperto dessas mãos, que fui refeito.

Hoje, quando olho para trás, confesso com espanto e gratidão: “Os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8.18).

E descanso na certeza madura de que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8.28).

Cair foi o começo. As mãos que feriram foram as mesmas que me ensinaram a ficar de pé.


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