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Que haja luz!

Num dia qualquer, eu e Matheus sentávamos juntos desenhando a base de canetas técnicas.

Ewerton Santos · 2026-06-04 18:18 · 0 claps · 6.5 min read
#brazil #ghibli #severence #cinema #memories
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Que haja luz!

Num dia qualquer, eu e Matheus sentávamos juntos desenhando a base de canetas técnicas.

Os tons azuis e pretos marcaram a ilustração dele.

A minha? Não me recordo mais.

Talvez porque à atmosfera do desenho dele me fascinou e aquilo roubou toda a atenção da minha memória.

Olhos, ranhuras, padrões de rabisco que pareciam descrever uma cena de uma civilização distante, no futuro.

Lembro de ter pedido aquele desenho e de ter ficado assustado com o desprendimento de Matheus com o próprio feito. Ele se quer achava grande coisa e se perguntava o que eu tinha visto alí.

Esse desenho permaneceu comigo ao longo dos anos. Às vezes guardado e outras revisitado. O sentimento de fascínio permanecia apesar das intempéries e das novidades.

Tinha prometido a mim mesmo que um dia colocaria numa moldura e a coloquei. Matheus reecontrou essa obra emoldurada anos depois e ainda parecia estar surpreso com o que eu tinha visto nela. Não soube me explicar tão bem o que tinha visto ali, mas sentia.

“A persistência da memória” — Salvador Dali (1931)

“A persistência da memória” — Salvador Dali (1931)

Nós dois sabíamos desde muito cedo que a arte tem um caráter subjetivo como uma espinha dorsal. O que é para mim não é necessariamente para ele. Há principalmente desencontros entre nós para além das coincidencias. Ainda assim ele parecia desprezar a própria obra, sentimento que também me acometeu outrora sobre coisas que fiz.

Numa dessas vezes, ele ficou com uma série de desenhos meus que não via muito sentido, mas que justapostos da maneira como que Matheus o fez, quase como um curador, me revelou um sentido pelo qual não pude acessar até aquele momento. Achei lindo, nem parecia que aquilo era meu.

Comecei a entender com o tempo que os processos demandam mais do que as vontades imediatas de resolução. Há realmente uma gama de pratos que se comem frios, não por apuração do sabor, mas pela garantia de saírmos vivos das situações.

Ideias nem sempre se concluem de forma rápida. Quiçá são processadas em apenas instantes. Obras podem demorar anos de revisão e dedicação para “concluirem”. Textos, imagens, filmes, sons, ganham outras dimensões quando são encarados outras vezes com o passar do tempo, se tornando novas revelações.

Ultimamente a paciência tem caído como chuva, regando com o tempo as plantas das quais não tive o despertar até então: a apuração e o fascínio pela demora. Então algo novo apareceu quando olhei para o desenho de Matheus uma mais vez.

Sem título — Matheus Cruz (Ano desconhecido).

Sem título — Matheus Cruz (Ano desconhecido).

“o tempo é a espera de sí”

Esse texto vem escrito na parte superior direita da obra.

Já tinha reparado nessas palavras desde a primeira vez que as vi. Nunca tinha parado de fato para refletir sobre, até que hoje pela manhã ela me capturou.

“— O que ele quis dizer com isso?”

“ — Como esse texto é reflexo da própria experiência de Matheus com o sentir a passagem do tempo sendo quem se é?”

Apesar disso, essas perguntas não são foram exatamente o que me moveu a escrever sobre essa experiência. Antes delas, suas existências só foram possíveis por conta de uma coisa muito importante ali, que já tinha reparado e refletido sobre, e que saltou se potencializando com o escrito.

O fato é: parte da obra começou a se apagar!

Cena em que Haku ajuda a Chiriro a não desaparecer. “A viagem de Chiriro” — Hayao Miyazaki (2001)

Cena em que Haku ajuda a Chiriro a não desaparecer. “A viagem de Chiriro” — Hayao Miyazaki (2001)

Em “A viagem de Chiriro” — Hayao Miyazaki (2001), a protagonista vive um dilema inesperado. Um dos primeiros e emblemáticos problemas gira em torno de se manter no mundo dos espíritos sem desaparecer ou esquecer-se de si mesma.

Colocando em reserva a mitologia religiosa que embasa a história, uma questão de identidade-trabalho-subordinação se levanta aqui e encontra caminhos possíveis através de uma cooperação entre Chiriro e Haku.

É através de um ato inicial, comer uma fruta daquele mundo, que Haku alerta que se Chiriro não ingerir algo daquele mundo, ela desapareceria. Na sua trama, Chiriro acaba assinando um contrato de trabalho que a permite permanecer naquele local em troca de entregar sua força de trabalho e sua identidade — seu nome de batismo — para a bruxa Yubaba. A partir de então começaria a se chamar de Sen.

Em Severence, série da Apple TV, esse conflito entre trabalho-identidade-subordinação aparece de forma mais contundente: abdicar-se de sí para estar subordinado a exploração. Os personagens principais esquecem de sua vida pregressa ao trabalho após sofrerem uma ‘ruptura’ de memória ao adentrar o ambiente de trabalho.

Na cena inicial da série, uma pesonagem desacordada é interrogada por uma voz que saí de um pequeno aparelho. Severence (2024) Apple TV.

Na cena inicial da série, uma pesonagem desacordada é interrogada por uma voz que saí de um pequeno aparelho. Severence (2024) Apple TV.

Se o tempo é a espera de si, então temos um cálculo sendo feito. Sem uma das partes dessa equação, ou seja, ter a sua identidade roubada o tempo responde se estagnando. Ele para. E pensando bem, na série não dá para perceber o tempo se passar quando os personagens estão trabalhando. Luzes brancas, paredes monocromáticas e ambientes completamente fechados ambientam a trama.

Em outra cena, personagem tem crise de choro antes de ter a memória apagada ao entrar no trabalho. Severence (2024) Apple TV.

Em outra cena, personagem tem crise de choro antes de ter a memória apagada ao entrar no trabalho. Severence (2024) Apple TV.

Em um momento mais avançado em A Viagem de Chiriro, Haku entrega a Sen as roupas que ela utilizava antes de chegar aquele lugar. Ela recebe e encontra no meio delas um cartão, feito por Haku, onde está escrito seu nome de batismo: Chiriro. Assustada, ela percebe que quase esqueceu seu nome, roubado por Yubaba após um contrato de trabalho. Haku alerta Chiriro de não esquecer o seu nome sob o risco de ser controlada por Yubaba para sempre.

Esses elementos sobre a memória presentes no filme se entrelaçaram com o que saltou da obra de Matheus. Logo pensei como esperar por sí diante de tantos apagamentos produzidos pela dor? Como então viver o tempo presente e sonhar com o tempo futuro, se a espera de si pode ser eternamente um eclipse?

As partes do desenho que se apagam não retornarão. O papel não foi suficiente para manter as marcas feitas durante muito tempo e sob diversas condições. Aliás é uma contradição metafórica que a luz do sol tenha colaborado para que a tinta se perdesse no tempo.

Apesar disso o texto segue quase intacto.

“o tempo é a espera de sí”

Cena em que Chiriro encontra o cartão com seu nome. “A viagem de Chiriro” — Hayao Miyazaki (2001)

Cena em que Chiriro encontra o cartão com seu nome. “A viagem de Chiriro” — Hayao Miyazaki (2001)

A memória me parece ser apoteótica. Aliás, o próprio mundo é cheio de memórias. Tantas coisas que aconteceram milhões de anos atrás permanecem escritas na terra, nas águas, no ar.

Quando recebi a notícia que minha mãe apresentava um quadro clínico que afetava a sua memória, me vi diante de um sentimento novo: o medo da morte, ou melhor dizendo, o medo de nossa memória se perder no tempo e no espaço. Há um desespero profundo em imaginar ser esquecido pela minha mãe que é acompanhado de perto pela agonia de não deixá-la ser esquecida.

Outro dia ela me contava de uma depressão pós-parto logo depois de dar a luz. O que se passava naquele momento da vida dela ainda permanece obscurecido.

Revi, aliás, um movimento feito por ela ao longo dos anos de relembrar a sua mãe, minha avó, para minhas irmãs. Sempre me dizia: “esquece ela! deixa-a descansar em paz”.

Muitas vezes movido por negar a dor da perda de minha avó, cultuei o esquecimento. Mesmo que ao fugir de rememorar eu mesmo estivesse lembrando.

Entre o cinema, Matheus e minhas ancestrais, o exercício da memória parece requerer que haja comunhão. Se o tempo é a espera de si, não se sabe de si sem o outro que espera junto, que fotografa, que desenha, filma, enquadra, escreve, avisa mesmo diante dos desgastes naturais da vida.

No final aqueles que relembram tem a potência de deixar com que o passado oriente o presente e ensine ao futuro.

O tempo aqui revelou que nem sempre quando uma obra nasce ela precisa ter sentido pronto. Meu fascínio pelo desenho de Matheus pode ter começado com as sensações de um outro mundo no futuro, mas que se desdobrou com o tempo em novos significados. Agora essa obra me significa memória, tempo e as próprios sentidos de fazer arte.

Fotografia da obra há três anos atrás (2023) .Sem título — Matheus Cruz ( Ano desconhecido)

Fotografia da obra há três anos atrás (2023) .Sem título — Matheus Cruz ( Ano desconhecido)

E por fim, e só possível agora nessa altura do texto, me recordo do início do verão de 2024.

Matheus vinha conhecer Maceió pela primeira vez. Ele chorou ao ver as memórias expostas no muro de uma casa abandonada no Pinheiro.

Naquele dia Matheus me ensinou sobre o que era a “apatia”.

Não sabia até então.

Ninguém que tenha vivido o que ele descreveu saberia tão bem da força que é querer vence-la e ganhar o mundo, conhecer lugares novos, viver e sobretudo criar novas lembranças.

Sem Matheus eu com certeza não me lembraria de mim, assim como Chiriro se esqueceria de si sem a ajuda de Haku.

Sem minha mãe talvez eu esquecera de que é preciso lembrar pra seguir em frente.

Então, que me lembre e assim o tempo passe.

Pixação no muro de uma casa abandonada pela subsidência do solo em Maceió. Nela está escrito: “Aqui fomos felizes. Família Torres, 58 anos”. Maceió, 2024.

Pixação no muro de uma casa abandonada pela subsidência do solo em Maceió. Nela está escrito: “Aqui fomos felizes. Família Torres, 58 anos”. Maceió, 2024.


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