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Amores e Morangos

Carolina Maria de Jesus revoltava-se com Audálio, que queria fazê-la escrever diários. Ela queria escrever contos, peças e romances…

Ivanildo Jesus · 2025-08-15 02:36 · 0 claps · 3.3 min read
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Amores e Morangos

Carolina Maria de Jesus revoltava-se com Audálio, que queria fazê-la escrever diários. Ela queria escrever contos, peças e romances. Relatar e pormenorizar o dia era, para ela, tarefa tabelionária; quem tem fome de escrita deseja saciá-la de outros modos, jeitos e sabores. Digo-lhes isso porque, há pouco, estava às voltas com Carolina, lendo Casa de Alvenaria. Carolina é um monumento. É preciso reconhecer a potência dos nossos.

Antes de Carolina, li O Rio que me corta por dentro, do cearense Raul Damasceno. O romance de Cícero e Luzimar traz trechos de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, que, ao meu ver, dialogam com tragédias shakesperianas.

A beleza de uma professora trans — Toin — que encontra, no olhar de seu aluno, respeito e cuidado, floresce em meio à rudeza de uma terra assolada pelo preconceito. Tudo em O Rio que me corta por dentro é metáfora: do título, que alude ao acontecer da vida através do rio — lembrando Caymmi: “é doce morrer no mar, nas águas verdes do mar” — à escolha dos nomes dos personagens. Quanto amor há em Luzimar! Metáfora genial, poesia explícita. A obra é um desses encontros que só a brasilidade antropofágica produz, e que nos abocanha pelas beiradas.

Carolina, das muitas privações que viveu, falava da fome de cultura. Tento, nestes dias, com as idas à masmorra e o repensar da alimentação, estabelecer uma espécie de dieta cultural. Adendo: não que, dessa forma, eu acredite que haverá algum regozijo estético em um encontro com uma cultura plena e plana — longe disso. Contudo, agora que escolho me encontrar, não me permito desviar do caminho, e este só existe enquanto caminho: o de insistir no aumento da minha ignorância.

Por conta disso, priorizo a leitura, a masmorra, a música e a escrita, diariamente. Tenho cumprido essa rotina com devoção: pegar peso, deixar peso; ouvir música; correr; ler; escrever. Na minha ânsia por saciar a fome de cultura, entendi que a proposição de um espaço em que eu me encontre comigo — o da escrita — não pode ficar fora do meu cardápio. Se há um erro que me persegue, é o de ter deixado de escrever.

Sobre o Morango

Li, há alguns dias, uma crítica ao “morango do amor”, do Crítico Anti Gourmet. O texto, extremamente bem escrito, tira-nos a coragem de experimentar essa nova iguaria brasileira. Deixo-lhes um trecho:

“A acidez do morango desaparece completamente, sequestrada pela redundância de um doce flácido e diabético.”

O autor consegue ser mais ácido que qualquer morango ao desaconselhar o acesso ao docinho. Para quem quiser ler a crítica completa, recomendo conferir a página: ocriticoantigourmet.com.br

Eu, que não sou crítico culinário e vivo em eterna briga com a escrita, vou me ater ao que posso: o amor.

Animada pela “maçã do amor” e pelo “morango do amor”, a culinária “afetiva” segue inventiva — pelas redes, até “torresmo do amor” já apareceu. Agora é moda: para vender, até a comida precisa amar. Observando o fenômeno de esguelha — ainda não provei o morango (só o amor), confesso — temo que o excesso do predicado “do amor” venha de alguma falta. Na ânsia de saborear o amor, atribui-se o afeto à maçã, ao morango, à pizza, à comida — menos ao que deveríamos: à nossa complexa relação conosco e com os outros.

Em tempos em que a dificuldade de amar grita, e qualquer poesia já é vista como excesso de emoção, só se pode ter o luxo da suposta doçura de um amor quando se sabe, por dentro, encontrar a acidez de um morango. Amar não pode ser apenas o doce; é preciso que haja o encontro com o ácido para que o doce se intensifique.

Parece que até na culinária a vida insiste em comunicar nossa dificuldade de lidar com a frustração. Tudo precisa ser “amoroso” e doce; o ácido é recoberto por açúcar. Mas a vida não é assim. É natural que o morango não seja doce, nem a maçã — quiçá a vida e as relações. Não é por não ser doce que o morango deixa de ser “do amor”; não é por conter acidez e frustração que a fruta mordida prescinde do amar.

Na história da música popular brasileira, Cazuza ensinava que “a sorte de um amor tranquilo” estava no “sabor de fruta mordida” — não em uma fruta coberta por uma crosta de açúcar. O morango “do amor” jamais será uma fruta mordida. Emprestamos o predicado “do amor” ao morango para tornar a frustração do ácido mais suportável, e assim tentar nos saciar do amar.

Enquanto minha coragem para provar o famoso morango não vem, sigo em busca de saborear o amor com todas as suas texturas, doçuras, acidezes e possibilidades. Carolina, quando lhe disseram que tinha sorte, respondeu que tinha audácia. Talvez só encontre a sorte de um amor tranquilo quem tiver a audácia de se permitir amar.

Zoltan Preiner — “Strawberries in Porcelain Bowl”

Zoltan Preiner — “Strawberries in Porcelain Bowl”


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