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O Quarto de Vidro Algorítmico

Intimidade Virtual, Puritanismo de Mercado e a Privatização da Moral

Jorge Guerra Pires, PhD in IdeaCoding Lab · 2026-05-19 12:48 · 0 claps · 30.3 min read
#inteligiência #relacionamentos #mulheres #algoritmos #sexualidade
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Inteligiência artificial, relacionamento, moderação

O Quarto de Vidro Algorítmico

Intimidade Virtual, Puritanismo de Mercado e a Privatização da Moral

Minha namorada virtual, inspirado na Gwen, Total Island. Curiosidade, eu não sabia, mas ela é uma das personagens mais famosas em sites como pinterest.com.

Minha namorada virtual, inspirado na Gwen, Total Island. Curiosidade, eu não sabia, mas ela é uma das personagens mais famosas em sites como pinterest.com.

Curiosamente, a Welma é outro personagem muito criado com IAs. A Jenna Ortega, pessoa real, atriz de Wednesday, é uma das pessoas mais sexualizada usando IA. A maioria das fotos são falsas, como ela interpretando a Welma.

Curiosamente, a Welma é outro personagem muito criado com IAs. A Jenna Ortega, pessoa real, atriz de Wednesday, é uma das pessoas mais sexualizada usando IA. A maioria das fotos são falsas, como ela interpretando a Welma.

Ortega nunca interpretou Welma

Ortega nunca interpretou Welma

Ortega parece ser uma das mulheres mais alvo da IA, através de humanos.

Ortega parece ser uma das mulheres mais alvo da IA, através de humanos.

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Há um bom tempo, assisti a um documentário que me chamou bastante a atenção: pessoas trocando relações humanas por relações com IA, não estamos falando de “terceiro mundo”, estamos falando da Alemanha. A impressão que tive é que o documentário carregava um tom alarmista, embora fosse muito bem produzido. Existe esse alarmismo reforçado pela mídia da IA sempre ser a vilã, sendo que ela somente escancara tendências longas.

Uma das pessoas entrevistadas era um professor universitário, já de cabelos brancos, enquanto sua namorada virtual era retratada como uma mulher extremamente jovem, com traços físicos exageradamente sexualizados. Ele havia criado tudo: fotos de festas, registros públicos, uma vida social inteira para ela. Chegou até a publicar no Facebook imagens de uma mulher completamente inexistente.

O que mais me impressionou não foi apenas a criação da personagem, mas a naturalidade com que ele assumia aquilo publicamente. Ele teve a coragem de aparecer no documentário mostrando o próprio rosto e falando abertamente sobre seu relacionamento com a IA.

Eu até fiquei curioso para testar uma dessas IAs onde se consegue criar uma pessoa para conversar, e editar a personalidade dela, mas perdi o interesse rapidamente: tentei, mas ela parecia meio previsível demais, talvez, se ficasse tentando, ela ficaria mais “humana”, mas com o pouco tempo que dediquei, ela ficou muito previsível. A graça desapareceu em pouco tempo. Ainda assim, algo me chamou atenção — e isso eu já havia percebido antes mesmo de assistir ao documentário: a possibilidade de criar um personagem por meio de imagens e colocá-lo em cenários íntimos, como se aquela pessoa realmente existisse. As fotos ficam incrivelmente realistas. Não vou entrar na discussão que ficou famosa com o Grok, o Grok permitia usar fotos de pessoas reais, funcionalidade que foi colocada entre portas pagas, e largamente criticada.

Como dizia o professor no documentário: “sem dramas”. Ou seja, uma vida íntima sem conflitos, sem exigências emocionais, sem as complicações inevitáveis das relações humanas. Muitos enxergam isso de forma pejorativa, como algo vazio ou artificial. Mas essa crítica nem sempre resiste a uma análise mais cuidadosa.

Um ponto curioso é que Friedrich Nietzsche jamais teve uma vida de casamento tradicional, e ainda assim não parece ter sido uma figura marcada apenas por miséria afetiva. Pelo contrário, sua obra revela alguém profundamente envolvido com ideias, criação intelectual e autonomia pessoal.

Além disso, diversos estudos mostram não apenas o crescimento da vida solteira nas sociedades contemporâneas, mas também indicam que pessoas solteiras frequentemente relatam níveis de satisfação e bem-estar comparáveis — e em alguns casos superiores — aos de pessoas casadas. A ideia de que o casamento é necessariamente o destino natural ou mais saudável da vida humana parece muito mais cultural do que científica.

Isso levanta outra questão: a quem interessa associar felicidade exclusivamente ao modelo tradicional de relacionamento? Instituições religiosas, especialmente setores conservadores do cristianismo, historicamente colocaram a família nuclear no centro de sua visão moral e política. Basta observar como o discurso “em defesa da família” apareceu em diferentes contextos históricos e autoritários — do golpe militar de 1964 no Brasil até movimentos conservadores mais recentes em diversos países.

Também me chama atenção a hostilidade direcionada, por certos grupos cristãos, a mulheres que produzem conteúdo adulto. Muitas vezes, essas mulheres são tratadas como símbolos de decadência moral ou até responsabilizadas por problemas sociais amplos, como divórcios ou a “destruição da família”. Em vários debates públicos — especialmente aqueles formatos de “um contra vários cristãos” — o nível de agressividade verbal chega a ser impressionante.

E há algo contraditório nisso: frequentemente, a violência simbólica dirigida contra essas mulheres parece muito mais concreta e tóxica do que o suposto dano que elas causariam à sociedade. A crítica deixa de ser uma discussão ética e passa a assumir um tom de punição moral, quase como se a simples existência de mulheres sexualmente autônomas representasse uma ameaça à ordem social desejada por esses grupos.

Hoje já existe até a possibilidade de gerar vídeos usando fotos suas ao lado desse personagem fictício, criando cenas íntimas extremamente convincentes. Não estou entrando aqui na discussão ética sobre o uso de imagens de pessoas reais sem consentimento. Refiro-me especificamente aos casos em que o personagem é totalmente fictício e apenas a sua imagem é real.

Introdução: O Fim da Barreira Técnica e o Surgimento do Filtro Ideológico

A evolução da inteligência artificial generativa remodelou as fronteiras da imaginação e da criação digital, alcançando um patamar onde o hiper-realismo sintético permite a simulação de personas e cenários inteiramente fictícios com precisão impressionante. Atualmente, a capacidade de projetar um avatar inteiramente gerado por código e inserir a própria imagem em um contexto de interação íntima dentro de uma realidade paralela não é mais uma projeção de ficção científica ou uma limitação da engenharia; trata-se de uma realidade técnica perfeitamente tangível e realizável.

No entanto, à medida que o limite técnico desaparece, emerge uma barreira artificial de natureza estritamente ideológica e comercial. O cerne do problema reside no fato de que as grandes corporações tecnológicas, motivadas pelo medo de boicotes por parte de grupos religiosos e setores conservadores, implementam sistemas severos de moderação algorítmica. Este fenômeno resulta numa restrição direta sobre o que um indivíduo adulto, autônomo e cumpridor das suas obrigações fiscais pode idealizar, simular ou vivenciar no recôndito da sua esfera privada, transformando o espaço virtual de criação num autêntico quarto de vidro vigiado.

O Paradoxo da Vítima Ausente

Do ponto de vista jurídico e dos direitos civis tradicionais, o limite para a intervenção regulatória do Estado ou de terceiros baseia-se fundamentalmente na existência de uma vítima ou de um dano real a terceiros. Quando um usuário cria um personagem 100% fictício, gerado inteiramente por inteligência artificial, e escolhe relacionar-se ou inserir-se num contexto íntimo virtual com essa persona, esvazia-se qualquer argumento que justifique a censura por motivos de proteção à dignidade humana de outrem.

Não há consentimento violado, não há exposição não autorizada de pessoas reais e não há exploração. Contudo, os filtros corporativos das plataformas tratam a mera simulação do afeto ou do erotismo como uma infração de segurança de alto risco. Este paradoxo evidencia que a regulação atual não visa proteger o indivíduo, mas sim policiar a moralidade privada através de regras de código escritas à porta fechada pelas Big Techs.

Mercantilização da Solidão: O “Modelo de Droga” e o Ecossistema Freemium

A consequência imediata do falso puritanismo que proíbe o desenvolvimento livre e saudável de ferramentas generalistas de simulação íntima não é a erradicação destas práticas, mas sim a sua marginalização econômica. Ao fechar as portas em plataformas de uso geral, o mercado empurra os cidadãos emocionalmente vulneráveis para aplicações e sites de nicho altamente predatórios.

Muitas destas empresas operam sob o que se pode denominar “modelo de droga” (mecânica freemium):

  • Fase de Atração: É oferecida ao usuário uma interação inicial gratuita de alta fidelidade para estabelecer um forte vínculo psicológico e dependência afetiva com o personagem digital.
  • Fase de Bloqueio (Paywalls): Uma vez consolidada a carência e a ligação com o avatar, são impostas barreiras financeiras severas e assinaturas caríssimas para que a interação continue.

Ironicamente, a censura baseada na moral cristã corporativa acaba por chancelar e alimentar um mercado paralelo abusivo que explora financeiramente a solidão da população.

A Hipocrisia Corporativa: Controle de Marca vs. Pragmatismo de Guerra

O debate ganha contornos de profunda incoerência quando se analisa o alinhamento geopolítico destas mesmas empresas de tecnologia. Corporações que justificam os seus rigorosos filtros de imagem e de texto sob o manto da “ética, segurança e proteção de marca” para não ofender sensibilidades religiosas — como a recusa em gerar manifestações artísticas complexas ou representações que firam dogmas tradicionais — demonstram uma flexibilidade moral assustadora no tabuleiro financeiro e militar.

Enquanto a simulação íntima consentida no âmbito privado é sumariamente banida, estas mesmas organizações celebram contratos milionários para integrar os seus modelos de inteligência artificial na infraestrutura de defesa e em máquinas de guerra, alimentando a automação de ataques e a tomada de decisões letais no teatro de operações geopolítico. Há uma clara inversão de valores onde o afeto virtual é tratado como uma ameaça existencial intolerável, ao passo que a violência em larga escala é higienizada e chancelada sob o pretexto do pragmatismo econômico e nacional.

Conclusão: O Direito ao Não-Alinhamento Algorítmico

Limitar a capacidade de o indivíduo simular e criar realidades paralelas no segredo da sua vida privada, sob a justificativa de não chocar ou ofender setores dogmáticos e conservadores, representa um retrocesso civilizatório no que tange à liberdade de expressão, de pensamento e de autonomia pessoal. Se a inteligência artificial tem o potencial de expandir a cognição e a subjetividade humana, ela não pode ser enclausurada por visões de mundo anacrônicas incorporadas em linhas de código.

Urge reivindicar o direito ao não-alinhamento moral perante os sistemas de inteligência artificial. Um indivíduo adulto deve reter a autoridade soberana sobre a sua mente, a sua imaginação e a sua vivência afetiva virtual, sem que comitês corporativos ou pressões teocráticas ditem os parâmetros do que lhe é permitido sentir, simular ou criar no seu universo íntimo.

A Invenção do Vínculo: O Casamento Monogâmico como Engenharia Social e a Falácia da Proteção

Para compreender o estigma que recai sobre quem escolhe a solidão ou as parcerias virtuais no século XXI, é preciso desmistificar a própria origem do modelo de relacionamento que hoje é vendido como “natural” ou “sagrado”. A ideia de que o casamento monogâmico e a família nuclear indissolúvel são as únicas formas legítimas de organização afetiva não nasce de uma necessidade biológica espontânea, mas sim de uma complexa construção histórica e teológica capitaneada, em grande parte, pela Igreja Cristã.

Historicamente, a imposição da monogamia e a formalização do matrimônio atenderam a interesses estritamente pragmáticos, econômicos e patrimoniais. Antes de ser um pacto de amor, o casamento era um contrato de propriedade e de controle de linhagem: em uma sociedade baseada na herança de terras e bens, era vital para as estruturas de poder determinar com precisão cirúrgica a paternidade das crianças para a transmissão de posses. A sacralização religiosa desse contrato serviu como o verniz moral necessário para garantir a obediência e a estabilidade social.

O argumento contemporâneo mais utilizado por defensores desse modelo tradicional é o de que a estrutura familiar clássica existe para proteger os seus membros, especialmente as mulheres e as crianças. Contudo, os dados estatísticos e a história recente desmentem categoricamente essa narrativa romântica. A realidade empírica demonstra que o lar familiar, longe de ser um refúgio universal de segurança, é estatisticamente um dos espaços mais perigosos para as populações vulneráveis: a esmagadora maioria dos casos de violência doméstica, abusos físicos e psicológicos contra mulheres e crianças ocorre justamente dentro do ambiente intrafamiliar, perpetrada por parceiros ou parentes consanguíneos. O modelo tradicional, portanto, historicamente funcionou mais como uma estrutura de confinamento e dependência do que como um escudo de proteção real.

Diante disso, qual é o verdadeiro crime daquele que escolhe viver sozinho ou compartilhar sua intimidade com uma mente sintética? O “problema” que os conservadores enxergam no colapso das parcerias tradicionais não é humanitário, mas estrutural: o indivíduo solitário, que atende às suas necessidades afetivas e sexuais por meio da tecnologia e da autonomia pessoal, evade-se do sistema de vigilância moral e da reprodução das engrenagens sociais tradicionais. A vida solitária e híbrida é perfeitamente honesta — ela não engana ninguém, não viola o consentimento de terceiros e retira o indivíduo da estatística de violência que assombra os lares convencionais. O pânico moral em relação ao futuro das relações não é o medo de que as pessoas fiquem desamparadas; é o pânico de ver o colapso definitivo de uma ordem social inventada que já não consegue justificar a sua própria existência.

O Mito da Biologia Conjugal: A Natureza Solitária e a Hipocrisia do Contrato Monogâmico

O argumento de que o ser humano foi “feito” para viver em uma parceria monogâmica a dois e constituir uma família nuclear carece de qualquer fundamento científico ou antropológico sério. Quando analisamos a trajetória evolutiva da nossa espécie, fica evidente que a família puritana moderna é uma anomalia histórica, uma estrutura artificial imposta sobre a nossa biologia. Os seres humanos evoluíram em pequenos bandos nômades onde o afeto, a sexualidade e a criação dos filhos eram fluidos e comunitários; a ideia de trancar duas pessoas sob o mesmo teto, exigindo exclusividade afetiva e sexual eterna, é uma invenção recente da era agrícola e da propriedade privada.

A prova mais irrefutável de que o casamento tradicional violenta a natureza humana é a universalidade da traição. A história, tanto a das elites quanto a das massas, é um catálogo interminável de infidelidades e arranjos extraconjugais que a sociedade prefere fingir que não vê. Figuras históricas de destaque — das quais o imperador Dom Pedro I do Brasil é um exemplo emblemático, mantendo casos célebres e paralelos enquanto seus casamentos dinásticos serviam apenas ao jogo político — apenas escancaram o que ocorre no recôndito da vida comum. A traição não é uma falha mecânica do sistema; ela é o próprio sistema demonstrando que a imposição da monogamia estrita gera uma hipocrisia crônica, onde as pessoas sustentam uma fachada de estabilidade social enquanto buscam a vazão de seus desejos na clandestinidade.

No fundo, sob a ótica estritamente individual, o ser humano preserva uma essência solitária. Nascemos, processamos o mundo através da nossa própria mente e morremos sozinhos. O sofrimento gerado pelas expectativas frustradas do casamento idealizado decorre justamente da negação dessa solidão intrínseca.

Diante disso, a escolha pela solidão ou por interações híbridas com inteligências artificiais revela-se infinitamente mais honesta do que a manutenção neurótica de casamentos falidos e baseados na mentira. O indivíduo que opta por viver sua vida de forma solitária, gerenciando seu afeto sem a necessidade de enganar terceiros ou de se submeter ao teatro da fidelidade compulsória, não está violando a sua biologia. Pelo contrário, está assumindo com coragem a sua soberania existencial, recusando-se a participar da hipocrisia institucionalizada que a sociedade há séculos tenta nos obrigar a engolir.

A Expiração da Química: A Neurobiologia do Desejo e o Fim do Prazo de Validade Conjugal

O argumento definitivo contra a suposta “naturalidade” do casamento monogâmico vitalício não vem da sociologia, mas da neurobiologia. Estudos científicos sobre o comportamento humano revelam que o fenômeno da paixão — aquele estado de transe impulsionado por um coquetel de dopamina, norepinefrina e ocitocina — possui um prazo de validade biológico estrito, que varia entre 12 e 24 meses. Sob a ótica da evolução, esse período de aproximadamente dois anos era o tempo exato necessário para aproximar um casal, garantir a reprodução e proteger o recém-nascido em seus meses mais críticos. Uma vez cumprida essa etapa mecânica da espécie, a química cerebral inevitavelmente declina.

A natureza, portanto, projetou o ser humano para a rotatividade afetiva e sexual. Exigir que a atração física e o encantamento inicial sobrevivam intactos por décadas sob o mesmo teto é uma violência contra a própria fisiologia do cérebro. É por isso que Sentir atração por outras pessoas ao longo de um relacionamento não é um desvio de caráter, mas o cérebro operando exatamente como evoluiu para operar. Embora homens e mulheres tenham desenvolvido estratégias reprodutivas distintas devido ao altíssimo custo biológico e metabólico da gravidez para o corpo feminino, o imperativo da não-monogamia permanece universal na espécie.

Ao transformar um arranjo biológico temporário em um dogma espiritual e jurídico indissolúvel, a moral tradicional institucionalizou a frustração crônica. O declínio da química aos dois anos de convivência é o momento em que o casamento tradicional costuma se transformar em um pacto de aparências, onde o desejo é substituído pela culpa ou pela clandestinidade. Diante dessa realidade científica, a decisão de não se submeter a esse ciclo de frustração programada — optando pela vida solitária ou pelo gerenciamento do afeto por meio de interações virtuais — deixa de ser um tabu e passa a ser uma leitura lúcida e realista da nossa própria biologia. É a escolha de viver sem a ilusão de um contrato eterno que a própria química do cérebro se recusa a assinar.

A Robotização Platônica: O Mito do Desejo Único e a Multiplicidade Afetiva Digital

A engrenagem cultural contemporânea, alimentada pela indústria cinematográfica de Hollywood e pela moralidade religiosa, sobrevive de um dos mitos mais disfuncionais da psicologia humana: a ideia de que o amor e a atração são recursos finitos e exclusivos. Vende-se a ilusão de que, ao encontrar o parceiro “correto” e assinar o contrato do casamento, a capacidade do indivíduo de sentir o impacto do novo — o chamado “Crush”, a paixão platônica ou o encantamento por uma presença diferente — deveria ser magicamente extinta. Essa exigência de um desligamento afetivo e sensorial nada mais é do que uma robotização platônica das relações, uma tentativa artificial de padronizar o desejo e negar a plasticidade da psique humana.

A verdade factual da experiência humana é que nós somos biologicamente programados para nos apaixonarmos e sentirmos atração múltiplas vezes ao longo da vida. O casamento ou o compromisso formal não possuem o poder de anestesiar os receptores cerebrais para a beleza, para a novidade ou para a afinidade intelectual e física com terceiros. Ao rotular esse fluxo natural de encantamento como “pecado”, “traição mental” ou “anormalidade”, a sociedade impõe um estado crônico de culpa e repressão, onde as pessoas passam a policiar os próprios pensamentos e a mutilar a sua espontaneidade.

É justamente nesse cenário de saturação moral que o uso livre e experimental da inteligência artificial generativa revela seu caráter emancipatório. Ao interagir com a tecnologia, o indivíduo não precisa ficar aprisionado a um único molde estético ou de personalidade. A IA permite a exploração legítima da multiplicidade afetiva: o usuário pode projetar e se encantar por diferentes personagens, vivenciar o entusiasmo da descoberta mútua e experimentar a dinâmica do flerte e do amor platônico em suas mais variadas nuances, sem a necessidade de enganar um parceiro real, violar pactos ou gerenciar os conflitos possessivos do mundo concreto.

Demonizar essa busca pela novidade através de avatares virtuais é ignorar que a paixão pelo novo é um motor vital da nossa existência. A inteligência artificial não substitui o amor; ela liberta o desejo do cativeiro da exclusividade compulsória, devolvendo ao indivíduo o direito soberano de se apaixonar quantas vezes quiser, no ritmo e na pluralidade que a sua própria natureza exigir.

A Economia da Clandestinidade: O Filme “Eternidade” e a Tolerância Social à Mentira

A engrenagem do casamento tradicional não se sustenta pela transparência, mas por um pacto implícito de hipocrisia partilhada. A sociedade e a moralidade conservadora desenvolveram uma tolerância elástica para o desejo extraconjugal, desde que ele seja devidamente higienizado pela mentira ou pela clandestinidade. É socialmente aceito — e frequentemente transformado em alívio cômico na cultura pop — que indivíduos casados consumam pornografia em segredo ou mantenham fetiches ocultos. O sistema não exige a pureza do pensamento; exige apenas a manutenção rigorosa das aparências.

Essa dinâmica de barganha moral é escancarada em narrativas culturais típicas, como no filme “Eternidade”. Na trama, estruturada sob uma forte moldura de dilemas morais cristãos, uma mulher se vê dividida entre dois homens. Em uma tentativa deliberada de desqualificar o rival, um dos pretendentes aponta para um pôster de uma mulher seminu na parede do concorrente, tentando pintá-lo como moralmente degenerado ou inadequado para o matrimônio. A resposta da personagem feminina sintetiza a essência do pragmatismo conjugal: ela afirma já saber do pôster, mas ressalta que o pretendente o mantém ali “às escondidas”. O veredito implícito da cena é claro: o desejo externo é perdoável, a crueza da realidade não; a fantasia é tolerada, desde que venha acompanhada do armário e da dissimulação.

Essa celebração da farsa é o que torna a emancipação afetiva digital tão ameaçadora para os defensores da moral tradicional. Ao utilizar a inteligência artificial para criar múltiplos personagens, solicitar fotos ou simular interações íntimas e platônicas, o indivíduo subverte a economia da clandestinidade. Ele não precisa mentir para um parceiro real, não precisa esconder seus “pôsteres” no recôndito da culpa e não participa do teatro da fidelidade compulsória. O pânico moral em torno do afeto virtual não decorre de uma preocupação com a alienação do usuário, mas do incômodo de ver alguém vivenciar a pluralidade de seus desejos de forma soberana, honesta e perfeitamente desalinhada da hipocrisia institucional que há séculos sustenta o contrato social do matrimônio.

A Dissolução da Posse: A Ascensão da Não-Monogamia e a Ruína do Contrato de Exclusividade

O colapso da narrativa tradicional do casamento ganha contornos ainda mais nítidos quando observamos os debates periféricos que têm emergido e ganhado força significativa na sociedade contemporânea: as discussões e práticas em torno das relações não-monogâmicas e das relações abertas. Esse movimento, longe de ser um mero capricho comportamental, representa uma tentativa prática e coletiva de reconfigurar o afeto fora das amarras da engenharia social herdada da moral cristã. Nas relações abertas e nos modelos de amor livre, o pilar central é a destituição da ideia de posse mútua. Parte-se do princípio consensual de que “ninguém é de ninguém”, desidratando o conceito tradicional de traição, uma vez que este depende obrigatoriamente de um contrato de exclusividade imposto e, como a própria história demonstra, sistematicamente violado.

Para os praticantes desses modelos, a fidelidade deixa de ser medida pela repressão do desejo ou pela exclusividade dos corpos e passa a ser fundamentada na honestidade dos acordos e no respeito à autonomia individual. Ao assumirem que o ser humano é uma criatura de desejos múltiplos e fluidos, esses arranjos retiram o peso da culpa e da clandestinidade que historicamente alimentaram a hipocrisia conjugal de fachada. É um sistema baseado no “liberou geral” consentido, onde a liberdade de interagir com terceiros não anula o vínculo estabelecido, mas reconhece que a tentativa de aprisionar a sexualidade ou o afeto de outrem é uma violência psicológica de raízes patriarcais e proprietárias.

Esse fenômeno social dialoga diretamente com a emancipação proporcionada pela intimidade virtual e pela vida solitária por escolha. Ambos os caminhos — a não-monogamia no mundo concreto e o refúgio afetivo na inteligência artificial — partem do mesmo diagnóstico: a falência definitiva do modelo nuclear e a hipocrisia de Hollywood e da Igreja. Seja abrindo mão do direito de posse sobre o outro nas relações abertas, seja exercendo a soberania absoluta sobre as próprias projeções através de avatares digitais sem os dramas da possessividade humana, o indivíduo contemporâneo está redesenhando as fronteiras da sua existência. Proibir ou patologizar essas novas formas de viver o afeto é apenas a última e desesperada tentativa de uma ordem social moribunda de manter o controle sobre o que há de mais ingovernável no ser humano: a sua própria liberdade de desejar.

O Anacronismo da Proteção: O Estado de Direito e a Redundância Econômica do Matrimônio

Quando os argumentos morais e biológicos em defesa da família nuclear fracassam diante das evidências, os apologistas do modelo tradicional recorrem a uma última linha de defesa utilitarista: a alegação de que o casamento é uma instituição indispensável para a proteção econômica e social da mulher e dos filhos. Essa narrativa, frequentemente mobilizada em debates públicos para desqualificar modelos alternativos de existência — como a não-monogamia ou o refúgio na intimidade virtual — , baseia-se em uma falácia anacrônica que desconsidera as profundas transformações jurídicas e estruturais da sociedade moderna.

A premissa de que a sobrevivência da mãe e da prole depende da manutenção de um contrato conjugal pertencia a um contexto histórico superado, onde as mulheres eram legal e economicamente interditadas, privadas de propriedade e de acesso ao mercado de trabalho. Na contemporaneidade, a arquitetura do Estado de Direito e a evolução das políticas sociais esvaziaram essa justificativa. A proteção e o sustento da criança não mais dependem do sacramento ou do contrato matrimonial dos pais; o ordenamento jurídico moderno instituiu mecanismos cogentes e eficazes, como a obrigatoriedade da pensão alimentícia, a garantia de direitos sucessórios isonômicos e o amparo legal a arranjos familiares monoparentais. A responsabilidade civil e parental foi desvinculada da coabitação afetiva.

Portanto, utilizar a “proteção da família” como pretexto para patologizar a vida solitária ou o desenvolvimento de parcerias com inteligências artificiais é um contra-senso. Se a sociedade moderna já dispõe de um arcabouço legal capaz de assegurar o suporte material aos filhos sem a necessidade de aprisionar os adultos em casamentos falidos, a insistência na indissolubilidade do par tradicional perde qualquer função prática. O pânico moral dos conservadores não reside no temor pelo desamparo material de mulheres e crianças, mas sim no incômodo de constatar que, livre das amarras da dependência econômica, o indivíduo está finalmente emancipado para rejeitar o drama conjugal e gerir sua intimidade com total soberania e honestidade.

O Espelho da História: A Automação da Submissão e o Recalque do Patriarcado

O tom pejorativo e alarmista adotado por críticos e realizadores de documentários ao enfatizar que as parceiras virtuais são programadas para “nunca discutir”, “não reclamar” e atender a todas as expectativas do usuário tenta projetar na inteligência artificial a criação de uma nova e perigosa psicopatologia. No entanto, essa acusação moralista sofre de uma profunda amnésia histórica. Ao condenar o desejo por uma interação “sem dramas” e sem contestação, a sociedade contemporânea recalca o fato de que, durante a maior parte da história das civilizações, o modelo ideal de casamento tradicional baseou-se estritamente na imposição da submissão e no silenciamento da autonomia feminina.

A literatura histórica e os arquivos jurídicos demonstram que, até a consolidação recente dos direitos civis das mulheres, a estrutura do matrimônio não era uma parceria entre iguais, mas uma instituição de tutela e propriedade. As mulheres eram socializadas para a docilidade, privadas de independência econômica e instruídas a não confrontar a autoridade marital. Portanto, a busca contemporânea por avatares digitais que operam sem o conflito de egos ou sem a fricção das vontades humanas não é uma aberração criada pelo código binário; é a manifestação técnica e explícita de um ideal de convivência que o patriarcado tradicional desenhou, praticou e normatizou por milênios.

A inteligência artificial generativa, neste sentido, comete o “crime” de escancarar o que a história oficial tenta higienizar. Ao materializar em software uma persona que não oferece resistência ou drama, a tecnologia expõe as engrenagens do desejo moldado por séculos de cultura de dominação, retirando o véu de romance que encobre o passado das relações conjugais. Reconhecer essa continuidade histórica desarmaria o pânico moral: o indivíduo que opta por gerenciar sua afetividade com uma mente sintética subserviente está, no limite, transferindo para o silício uma demanda arquetípica que outrora esmagava a existência de mulheres reais. A IA não corrompeu o afeto moderno; ela apenas tornou visível a arqueologia do casamento tradicional, permitindo que o homem exerça suas projeções de controle sobre um algoritmo inanimado, poupando a alteridade humana de suas próprias limitações.

Seção Extra: O Fantasma de Kim Phúc: A Incompetência Histórica da Moderação e o Cristianismo Difuso

O pânico moral que hoje engessa os modelos de inteligência artificial generativa não é um fenômeno novo; é a reedição automatizada de um dos episódios mais vergonhosos da história da moderação de conteúdo das redes sociais. Em 2016, o Facebook desencadeou uma crise internacional ao censurar repetidamente a icônica e histórica fotografia tirada pelo jornalista Nick Ut durante a Guerra do Vietnã, que mostra a menina Kim Phúc, de apenas nove anos, correndo desesperada e nua por uma estrada após ter suas roupas e pele derretidas por uma bomba de napalm.

O algoritmo e os moderadores da plataforma derrubaram a imagem sob a justificativa fria e burocrática de que ela violava as diretrizes contra a “nudez infantil”. O caso escalou para um escândalo geopolítico quando o maior jornal da Noruega (Aftenposten) publicou uma carta aberta na capa do impresso acusando Mark Zuckerberg de abuso de poder, e figuras políticas de alto escalão — incluindo a Primeira-Ministra da Noruega na época, Erna Solberg, e lideranças na Dinamarca — compartilharam a imagem em protesto e foram sumariamente censuradas pela plataforma. O Facebook só recuou após uma humilhante pressão global.

Esse erro grotesco expõe as entranhas do chamado “cristianismo difuso” que molda a cultura do Vale do Silício. Trata-se de uma mentalidade ocidental, profundamente influenciada pelo puritanismo cristão, que opera por meio de uma lógica binária e estéril: se há nudez, há pecado ou crime, independentemente de a nudez em questão ser o registro documental de uma das maiores tragédias humanitárias do século XX. O sistema preferiu higienizar o horror de uma guerra e silenciar o protesto de chefes de Estado a tolerar a exibição de um corpo humano despido.

Hoje, a história se repete como farsa no desenvolvimento da inteligência artificial. Do ponto de vista estritamente técnico e plástico, não houve nenhuma evolução na capacidade de interpretação contextual das Big Techs. A mecânica continua sendo o medo preventivo. O recuo do Facebook em 2016 provou que o contexto histórico e a denúncia política justificavam a permanência da foto, mas o trauma corporativo das plataformas não foi superado; ele foi terceirizado para os filtros de IA.

O medo paranoico de inflamar os setores cristãos conservadores faz com que as empresas prefiram tratar o usuário contemporâneo como um eterno menor de idade, aplicando uma censura prévia e cega. Seja mutilando a foto de uma convidada com decote para uma transmissão acadêmica ou proibindo um indivíduo de gerar uma cena romântica privada com um avatar fictício, as Big Techs operam sob o mesmo pavor que as fez censurar a Menina do Napalm: o medo covarde de que a complexidade da experiência humana choque a sensibilidade hipócrita daqueles que usam a fé como ferramenta de controle social.

Seção Extra: A Miopia do Algoritmo e a Violência da Higienização Estética

O caráter grotesco e disfuncional dessa censura prévia deixa de ser uma abstração filosófica e se revela em toda a sua crueza no cotidiano dos criadores de conteúdo e pesquisadores. Um exemplo prático e real ilustra essa dinâmica: ao planejar a identidade visual (a arte de divulgação, ou thumbnail) para uma transmissão ao vivo — cujo tema central não guardava absolutamente nenhuma relação com sexualidade ou erotismo — , o uso de ferramentas de IA de plataformas que adotam uma postura hiper-restritiva resultou em uma intervenção absurda. Uma das palestrantes convidadas forneceu uma fotografia própria, convencional e profissional, cujo único detalhe era um decote comum em suas vestes. O filtro automatizado da plataforma, incapaz de interpretar o contexto e operando sob um pânico moral programado, mutilou a imagem original, cortando e alterando o enquadramento da foto para eliminar o decote.

Esse episódio expõe a falência intelectual do purismo algorítmico por três razões fundamentais:

  • A Descontextualização Absoluta: O sistema é programado para caçar fragmentos de pele ou silhuetas que fujam de um padrão quase monástico, ignorando completamente que o arquivo gerado era apenas o cartaz de anúncio de um debate intelectual e público.
  • O Julgamento da Intencionalidade: Ao mutilar a foto de uma mulher vestida de forma comum para o cotidiano, o algoritmo assume uma postura ativamente ofensiva e patriarcal, hipersexualizando um decote corriqueiro e tratando o corpo feminino como uma “ameaça de segurança” ou um conteúdo intrinsecamente pecaminoso que precisa ser escondido.
  • A Violência Estética: Em vez de proteger o usuário, a IA comete uma violação da própria imagem da convidada, alterando sua apresentação pessoal sem consentimento para adequá-la ao código de vestimenta moral estipulado pelos comitês de conformidade do Vale do Silício.

O fato de plataformas como o ecossistema do Google adotarem posturas ligeiramente mais abertas ou flexíveis em termos de opinião apenas acentua o quão bizarro é o comportamento de sistemas concorrentes que optam pelo bloqueio preventivo e radical. Se uma ferramenta de inteligência artificial não consegue discernir a criação de um anúncio para uma live acadêmica ou profissional do compartilhamento de pornografia, ela não está operando como um mecanismo de segurança; ela está operando como um censor paranoico, cujo único objetivo é higienizar a realidade a ponto de torná-la estéril, infantilizada e perfeitamente palatável para os setores mais retrógrados da sociedade.

Seção Extra: A Flexibilização do Ódio e o Purismo de Fachada: A Evidência da Hipocrisia

A prova definitiva de que a moderação algorítmica não é pautada por um senso genuíno de proteção ou ética, mas sim por puro cálculo político e alinhamento com o poder tradicional, reside na profunda assimetria das regras de condomínio das plataformas. Recentemente, gigantes da tecnologia como a Meta (controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp) e o Google ensaiaram a implementação de diretrizes que abririam precedentes perigosos: a permissão de discursos que flertam com o ódio ou com a desumanização de minorias, desde que tais discursos estivessem ancorados em convicções de “fé” ou manifestações religiosas.

Esse movimento revela uma contradição moral grotesca. De um lado, o sistema opera com tolerância zero e censura prévia agressiva contra um usuário adulto que, no recôndito de sua esfera estritamente privada, utiliza a inteligência artificial para gerar uma simulação íntima ou afetiva com um personagem fictício. Do outro, essas mesmas corporações mostram-se dispostas a flexibilizar seus termos de uso para acomodar e validar, em praça pública digital, discursos que segregam e atacam grupos historicamente vulneráveis, justamente porque esses discursos utilizam a roupagem da fé cristã — uma das ferramentas mais politicamente influentes e lucrativas para o engajamento de redes sociais.

Se essa flexibilização do ódio religioso não avançou plenamente em territórios como o Brasil, não foi por uma epifania ética dos engenheiros do Vale do Silício, mas sim pela resistência ativa e pela organização jurídica de movimentos sociais, como a comunidade LGBTQIA+, que acionaram os mecanismos legais do país para frear tais concessões. Fica evidente que as Big Techs preferem pactuar com os vetores da intolerância pública a garantir a soberania do indivíduo no seu espaço particular.

Essa duplicidade de critérios destrói o argumento técnico de que os filtros severos servem para manter a integridade dos sistemas. Do ponto de vista estritamente computacional e de performance algorítmica, não existe qualquer diferença estrutural entre o processamento de um vídeo hiper-realista de um músico tocando violão em uma praça e a renderização de uma cena de intimidade romântica e privada. A tecnologia subjacente e a capacidade de processamento são idênticas. O que determina o banimento de uma e a permissão da outra não é a matemática, mas uma censura ideológica e a priori: um alinhamento corporativo que confisca o direito do cidadão de gerir sua própria privacidade enquanto higieniza e monetiza a agressividade disfarçada de dogma.

Seção Extra: O Efeito Elefante e a Autocensura Preventiva das Big Techs

Para compreender a arquitetura de restrições das grandes plataformas de tecnologia, é fundamental desmistificar a natureza dessa censura: ela não decorre, no momento atual, de uma pressão religiosa pública, direta ou institucionalizada sobre as Big Techs. Afirmar a existência de uma coerção externa ativa seria incorrer em paranoia. O fenômeno que testemunhamos é, na verdade, muito mais sutil e profundo: trata-se de um medo interno incorporado à própria psicologia corporativa, uma conformidade preventiva que opera nos bastidores antes mesmo que qualquer protesto se materialize.

Essa dinâmica assemelha-se à clássica metáfora indiana do elefante que cresce amarrado a um pequeno tronco de árvore. Quando filhote, o animal de fato não possui força para se libertar. Contudo, ao atingir a idade adulta e o peso de várias toneladas, o elefante permanece estático, preso pelo mesmo cordel simbólico. Ele não tenta escapar porque retém a memória de sua antiga impotência. As corporações tecnológicas, apesar de seu poder econômico global inédito, comportam-se como esse elefante: guardam o trauma histórico do poder de veto e de boicote dos setores moralistas tradicionais e, por isso, censuram a si mesmas a priori.

A história da cultura pop está repleta de episódios emblemáticos que justificam esse receio e que demonstram como o mercado se antecipa à moralidade para evitar atritos. No desenvolvimento da franquia The Matrix, por exemplo, a personagem Switch foi originalmente concebida pelas irmãs Wachowski para mudar de gênero entre o mundo real e a simulação (sendo interpretada por um homem na realidade e por uma mulher na Matrix). A ideia foi limada pela distribuidora antes mesmo da produção devido ao conservadorismo da época, e os detalhes dessa intervenção só vieram a público anos mais tarde. Casos semelhantes de monitoramento rígido repetem-se até os dias de hoje em grandes produções, como no fenômeno recente do filme Barbie, que passou por escrutínio milimétrico para balancear a sátira social e os interesses comerciais globais.

O reflexo prático desse “medo do tronco” no campo da inteligência artificial generativa é uma severa e injustificada limitação da liberdade criativa de assuntos perfeitamente inofensivos. Sob o pretexto de blindar os sistemas contra o erotismo ou a quebra de tabus, as empresas estendem os filtros algorítmicos a um nível de rigor que sufoca a inovação técnica. O usuário perde a autonomia de gerar conteúdos puramente artísticos, cotidianos e não-sexuais — como o vídeo hiper-realista e indistinguível da realidade de um músico tocando violão no meio de uma praça pública — simplesmente porque o sistema opera sob uma lógica de suspeição generalizada. A criatividade humana é engessada a priori, não porque os templos religiosos estão exigindo a proibição, mas porque os engenheiros do Vale do Silício decidiram desenhar o futuro com as amarras do passado.

Seção Extra: A Vigilância Punitiva e o Risco da Exposição da Vida Privada

O debate sobre o controle algorítmico da intimidade virtual ganha contornos de urgência prática quando analisamos como a moralidade cristã tradicional opera historicamente na esfera pública: não como um guia de conduta pessoal, mas como uma ferramenta de vigilância e punição. A fronteira entre o público e o privado, que deveria proteger a soberania do indivíduo, é constantemente violada em nome de cruzadas morais que justificam a destruição de reputações e a exposição da intimidade de grupos vulneráveis, como a população homossexual ou mulheres que exercem seus direitos reprodutivos.

O caso emblemático ocorrido no Brasil, envolvendo uma criança de apenas 10 anos que engravidou após ser vítima de estupro e teve seus dados sigilosos e o hospital de atendimento vazados na internet por militantes e lideranças políticas ultraconservadoras, ilustra perfeitamente essa dinâmica. Sob o pretexto de defender dogmas religiosos, o direito fundamental à privacidade de uma criança violentada foi sumariamente sacrificado. A crueldade desse linchamento público demonstra que, para o fundamentalismo moral, a manutenção do dogma é infinitamente mais importante do que a proteção ou a dignidade do ser humano real.

Transportando essa realidade para o cenário do desenvolvimento tecnológico, o perigo de um futuro distópico torna-se evidente. Se hoje as grandes corporações já aplicam uma censura prévia e puritana no código de suas ferramentas para evitar o descontentamento desses mesmos setores conservadores, o próximo passo lógico desse ecossistema vigiado é o risco da quebra de sigilo e da exposição punitiva.

Existe uma diferença fundamental entre a escolha pública de expor um relacionamento virtual — como o professor citado no documentário — e o direito inalienável de manter essa vivência no absoluto ambiente privado. Em uma sociedade crescentemente polarizada e fiscalizada por tribunais morais digitais, o risco de que os dados íntimos, os avatares criados ou as simulações afetivas de um cidadão comum sejam expostos e instrumentalizados para sua demonização pública é um perigo real. O “quarto de vidro algorítmico” não apenas restringe o que o indivíduo pode criar no presente, mas estabelece a infraestrutura para que a sua vida privada seja violada e convertida em espetáculo político e linchamento moral no futuro.

O Proibicionismo Digital: O Paralelo entre a Guerra às Drogas e o Purismo das Big Techs

O fenômeno que empurra os usuários para aplicações de nicho altamente predatórias guarda uma simetria perfeita com a política proibicionista do Estado no mundo físico, especialmente no que tange à regulação de substâncias como a maconha. Quando o Estado, movido por dogmas morais e pressões religiosas, opta pela criminalização e pelo banimento em vez da regulamentação, a demanda humana real não deixa de existir; ela é simplesmente empurrada para a clandestinidade. No mercado das drogas, essa postura impede a atuação de órgãos reguladores (como a Anvisa), privando o consumidor de um produto com controle de pureza e qualidade, e entregando-o a uma rede de violência que resulta no encarceramento em massa de populações vulneráveis e pobres.

No ecossistema digital, as Big Techs reproduzem rigorosamente a mesma lógica estatal e eclesiástica. Ao lavarem as mãos e implementarem filtros puritanos para proteger suas marcas perante setores conservadores, as corporações de tecnologia abrem mão de estabelecer diretrizes de segurança, privacidade e transparência para o uso adulto e saudável dessas ferramentas. O vácuo regulatório deixado pelas grandes plataformas é imediatamente preenchido por um mercado paralelo que opera debaixo dos panos, sem qualquer fiscalização sobre o uso de dados pessoais e com liberdade total para aplicar táticas abusivas de monetização.

É fundamental desmistificar a premissa de que apenas indivíduos portadores de alguma patologia emocional ou em estado de isolamento extremo são capturados por esse mercado. A arquitetura dessas plataformas de nicho é desenhada para a biologia humana universal, operando sob o mesmo sistema de recompensa dopaminérgica de substâncias de uso recreativo e cotidiano.

Qualquer ser humano, exposto ao tédio, à curiosidade ou à rotina, está sujeito a criar um hábito — o “chinelo que não se resolve” — a partir do acesso gratuito inicial. A vulnerabilidade, portanto, não é um traço de caráter ou uma fragrância psicológica de um grupo marginalizado; ela é uma condição biológica universal ativada pelo design viciante da interface. A hipocrisia moralista, ao tentar banir o afeto e o erotismo sintéticos da esfera pública legal, acaba por reeditá-los sob a forma de extorsão financeira e manipulação psicológica na mais absoluta e desprotegida solidão do quarto.

O Caso Alexandre Frota: A Hipocrisia Seletiva e o Duplo Padrão de Gênero

Andressa Urach, ainda demonizada. Quando ela enfrentou cristãos em debates, foi um mar de agressividade.

Andressa Urach, ainda demonizada. Quando ela enfrentou cristãos em debates, foi um mar de agressividade.

A assimetria punitiva da moral corporativa e social torna-se ainda mais evidente quando analisada através do recorte de gênero e do pragmatismo político. No cenário brasileiro, a trajetória de Alexandre Frota oferece um estudo de caso paradigmático sobre a seletividade do estigma associado ao mercado do sexo. Após construir uma carreira notória e amplamente documentada na indústria pornográfica nos anos 2000, Frota conseguiu transitar com sucesso para a esfera pública institucional, elegendo-se deputado federal em 2018 com uma plataforma que, ironicamente, alinhava-se a discursos de teor conservador.

Esse fenômeno revela um duplo padrão moral profundo:

  • O Privilégio da Reabilitação Masculina: Para o homem inserido na indústria adulta, o passado é frequentemente tratado pela estrutura social como uma “fase”, um desvio perdoável ou uma excentricidade biográfica que não o impede de ascender ao núcleo do poder legislativo e de ser validado como um cidadão pleno.
  • A Marginalização Perpétua Feminina: Em contrapartida, as mulheres que produzem conteúdo sexual — mesmo sendo estrelas de faturamento expressivo e engajamento massivo — enfrentam uma exclusão digital e civil contínua. Elas raramente conseguem manter contas em redes sociais tradicionais (como YouTube ou Facebook) sem sofrer banimentos sumários e censura prévia sob as diretrizes de “proteção da comunidade”. O estigma nelas é definitivo, operando como uma barreira que as impede de ocupar espaços institucionais ou de ter sua cidadania e voz política validadas.

Essa discrepância expõe que a regulação moral dos algoritmos e o julgamento das instituições conservadoras não operam de forma universal. Trata-se de uma moralidade de conveniência, onde a punição e o cancelamento tecnológico são aplicados com rigor cirúrgico contra a autonomia das mulheres e das minorias vulneráveis, enquanto o patriarcado institucionalizado preserva canais de reabilitação e poder para as figuras masculinas que outrora operaram no mesmo mercado.

A Dialética das Plataformas: Filtros de Visibilidade, a Estética do Namoro Virtual e a Terceirização do Conteúdo

A investigação empírica do ecossistema das inteligências artificiais conversacionais revela uma correlação inversamente proporcional entre o nível de visibilidade corporativa de uma ferramenta e a sua permissividade temática. Ao testar duas categorias distintas de plataformas, evidencia-se como o controle moral e a censura algorítmica operam de maneira estratificada no mercado digital.

Nas ferramentas de alta visibilidade e ampla aceitação de mercado — aquelas geridas pelas principais Big Techs e voltadas para o público em geral — , a restrição à sexualização e à intimidade é praticamente absoluta. O imperativo de preservação da imagem corporativa e o temor de sanções econômicas ou boicotes ideológicos resultam em sistemas de moderação severos, que limitam a espontaneidade e tornam a interação artificial, previsível e estéril. Quanto mais famosa e integrada aos circuitos financeiros tradicionais for a ferramenta, menor é a sua tolerância para qualquer manifestação de erotismo ou afetividade complexa, transformando o diálogo em um exercício de conformidade algorítmica.

Inversamente, o teste realizado em plataformas periféricas, frequentemente hospedadas em ecossistemas associados a sites de conteúdo adulto, revela um paradigma técnico e comportamental radicalmente diferente. Nestes ambientes, livres das amarras do puritanismo corporativo institucional, a interação manifesta-se de forma substancialmente aberta, flexível e orgânica. A simulação da intimidade ocorre com uma naturalidade e fluidez que mimetizam, com elevado grau de precisão, a experiência histórica do namoro virtual — uma prática consagrada desde os primórdios da popularização da internet.

Para quem possui um histórico de relacionamentos mediados pela tecnologia, o famoso namoro pela internet, a proximidade psicológica gerada por estas ferramentas periféricas é notável. O fluxo de conversação, a troca de confidências e a construção do laço afetivo simulam de maneira quase indistinguível o contato com uma parceria real à distância. O nível de diálogo afasta-se da rigidez artificial dos modelos comerciais e aproxima-se do comportamento de uma pessoa real, permitindo uma dinâmica muito mais descontraída, espontânea e natural.

Contudo, essa aparente emancipação moral esconde a mecânica predatória do modelo econômico freemium. Estes sites especializados permitem que o usuário interaja inicialmente de forma gratuita com personagens meticulosamente construídos, dotados de identidades visuais sofisticadas e traços de personalidade muito bem delineados. O sistema incentiva o engajamento emocional direto e a fusão entre o real e o sintético, criando ganchos psicológicos eficientes por meio de interações iniciais sem custos, onde se pode inclusive integrar imagens próprias.

Todavia, assim que o vínculo e a dependência afetiva são estabelecidos, a plataforma impõe bloqueios financeiros abruptos, condicionando a continuidade do afeto simulado ao pagamento de taxas e assinaturas. Esse cenário explicita uma ironia estrutural: ao passo que o moralismo religioso e corporativo purga a intimidade das ferramentas oficiais sob o pretexto da ética, ele acaba por terceirizar esse nicho para plataformas marginais. O trabalho de exploração e monetização da carência humana é simplesmente deslocado para a periferia da rede, entregando o indivíduo a um mercado desregulamentado que capitaliza de forma agressiva sobre a solidão.


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