O ódio de Lattes ao povo
Ainda nas primeiras 24 horas após o primeiro turno das eleições de 2022 já tinha áudio de professor universitário falando em tom…
O ódio de Lattes ao povo
Ainda nas primeiras 24 horas após o primeiro turno das eleições de 2022 já tinha áudio de professor universitário falando em tom catastrófico que talvez Darcy Ribeiro estava errado em relação ao seu otimismo com o povo brasileiro frente a força eleitoral do bolsonarismo. Segundo ele, infelizmente Sergio Buarque de Holanda pode, infelizmente, ter acertado quanto ao caráter cordial (em sentido negativo) do brasileiro.
Enquanto isso, no Rio de Janeiro o candidato bolsonarista ganhou de lavada a eleição pra governo do Estado. As pesquisas mostram que tanto quanto Bolsonaro tiveram vitórias expressivas na maioria dos territórios controlados por milícia. O sociólogo José Cláudio Alves, que estuda o tema há mais de 20 anos, esteve ontem no Faixa Livre e deu uma aula de como os milicianos controlam as votações de forma diversificada e constante, utilizando inúmeros formas de dominação e manipulação sobre os moradores através da pressão econômica e ameaças de violência.
Ao entender de forma mais complexa o fenômeno das milícias, fica mais difícil engolir explicações culturalistas que negam qualquer papel das forças que manipulam e oprimem o povo cotidianamente. A gente sabe onde isso desemboca. O argumento final é que o povo brasileiro é ruim, não é democrático, não é solidário, é atrasado, acredita em qualquer demagogo populista. Isso não tem nada de novo, praticamente todo o autoritarismo que surgiu nesse país desde os anos 20, pelo menos, usou a mesa argumentação para se justificar. Os militares de 1964 acreditavam que democracia liberal poderia até ser boa em outros lugares, mas no Brasil ela era um risco, pois o povo iria eleger um populista que daria espaço para um golpe comunista.
A diferença que esse ódio ao povo é usado, contraditoriamente, em uma roupagem progressista. E tem respaldo acadêmico! O debate é muito mais complexo, mas o resumo é: O povo tem consciência de suas escolhas, não é simples gado manipulado. E isso é dito ignorando todo o peso da propaganda ideológica das elites e milhares de recursos que a burguesia investe há décadas para controlar e dominar as massas. Nada disso tem grande peso nessa leitura. Segundo seus defensores, quem acredita nesse tipo de dominação nega a agência que o povo tem sobre suas escolhas e não passa de um ressentido. Se o povo adota escolhas conservadoras e/ou que favorecem a burguesia (nessa forma de entendimento a ação da burguesia enquanto classe se quer é considerada), é por que ele julgou que teria algum benefício de forma consciente. No entanto, se o povo tem total controle sobre suas escolhas, então se leva um fascista ao poder, é porque ele quer fascismo. O povo é culturalmente fascista. Então tudo bem odiar o povo.
Claro que nem sempre isso é dito de forma tão explicita, mas entre os argumentos, as elaborações acadêmicas, as ideias que circulam no senso comum e na imprensa, o vocabulário usado e as opções políticas dos envolvidos, esse pensamento pode ser facilmente localizado.
Não se trata de ignorar o papel da cultura ou negar que circulam valores conservadores e fascistas na população brasileira, ou na classe trabalhadora, para ser mais exato. Mas tratar esses fenômenos culturais como se existissem pairando de forma independente sobre uma sociedade abstrata que não é divida por classes, é abrir mão de entender como eles se formam, qual o seu papel e quem se beneficia deles. Ou seja, abdicar de um entendimento por meio do materialismo histórico é limitar o conhecimento sobre a realidade histórica, elaborando simplificações, reproduzindo preconceitos e caindo em um conformismo político que aceita sempre rebaixar o horizonte do possível, já que considera a cultura uma essência e não tenta disputa-la visando mudar a própria realidade.
메타데이터
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