Sincretizado na fé e carregado de axé: a manifestação do congado em Mariana
Johann Zanuzzi & Maria Clara Cardoso, Ana Beatriz Justino, especial para o Lamparina.
Sincretizado na fé e carregado de axé: a manifestação do congado em Mariana
*Johann Zanuzzi & Maria Clara Cardoso, Ana Beatriz Justino, especial para o *Lamparina.**
A manifestação cultural do congado está presente na cidade de Mariana desde 1942 e, mesmo com dificuldades, segue em atividade até os dias atuais.
Uma imagem de Nossa Senhora do Rosário é resgatada diversas vezes de uma gruta e colocada em uma capela, mas insiste em retornar para o rochedo. A santa só permanece na capela após ser recuperada por Chico Rei que, para resolver o problema, começa a cantar e dançar em homenagem à ela que se dirige à capela sem que ninguém a encostasse. Esse relato em questão foi dado à Secretaria Municipal de Cultura de Mariana, Minas Gerais, em 2006, pelo mestre do Congado de Nossa Senhora do Rosário da Barroca, o Senhor Carbonato, para explicar o início dos festejos do congado. O documento foi produzido para inventariar a Guarda como Patrimônio Imaterial de Mariana.
Por ser uma história oral, sofre mudanças em suas transmissões, mas muda apenas detalhes na qual a história central permanece a mesma. O documentário “A Filha de São Sebastião”, produzido pela Caturra Digital, narra a história da Guarda de Moçambique de São Benedito de Bom Despacho e de sua capitã, Dona Tiana. A obra retrata uma versão parecida sobre o surgimento em que o congado se inicia quando escravizados conseguem resgatar a imagem de Nossa Senhora do Rosário também de uma gruta, mas dessa vez a história se passa em terras brasileiras. Em outra origem a santa é resgatada do mar, mas a narrativa de que a imagem foi até os negros possui pouca divergência entre uma história e outra. Sendo assim, é entendido que a festa de Nossa Senhora do Rosário é uma festa para as pessoas pretas. No documentário, Dona Tiana fala sobre esse fato e diz “A festa do Rosário? Essa aí é dos negros”.
O congado é a reunião de um sistema religioso, que se determina por uma valorização e devoção de alguns santos da religião católica, em cruzamento com diversos atributos africanos. Reinterpretando as histórias dos africanos retirados de seu continente para trabalharem de forma forçada, através da instauração de um império negro, no qual expressões como danças e músicas exemplificam a coroação de reis e rainhas, embaixadas, atos cerimoniais.
Apesar de atribuirmos o conceito de congados, congada e reinados à mesma coisa, existe uma diferença entre estes três termos:
- O congado, em si, composto por grupos que realizam celebrações religiosas e festas africanas com santos católicos;
- O termo congada, embora seja utilizado em algumas regiões de Minas Gerais, geralmente é aplicado de forma preconceituosa, a fim de diminuir a imagem do congado e das celebrações. Já que seria um termo eugenista, cunhado durante o século XIX por viajantes que, ao passarem pela região, ridicularizavam as manifestações realizadas pelos negros;
- Já o termo “Reinado” é aplicado quando estamos nos referindo às celebrações e manifestações para manter a sua religiosidade viva, portanto, não se consiste somente em uma festa de coroação de rei e rainha, mas sim na forma como os congados exercem suas atividades religiosas.
Para entender mais sobre a religiosidade afro-brasileira presente nessas manifestações, a historiadora e pesquisadora Sidnea Santos mobiliza o intelectual Jeremias Brasileiro em uma entrevista a partir do conceito de coexistência religiosa. Para a pesquisadora, essa coexistência foi sábia, resiliente e tornou possível a existência das manifestações religiosas dos africanos que foram trazidos para o Brasil. “O efeito das manifestações religiosas de matriz africana, é o efeito da resistência, é o efeito da resiliência, é o efeito da sabedoria e da inteligência. Para resistir e re-existir. É cantando, dançando e batendo tambor para os seus santos que a gente resiste todo dia. Para que a gente não sucumba e transmita para os nossos uma série de conhecimentos”, explica.
A DIVERSIDADE CONGADEIRA
Existem uma série de manifestações: Moçambique, Marujo e Marinheiros. Que interagem entre si durante as festividades. As duas guardas mais comuns na Região dos Inconfidentes são a Moçambique e o Congo que, apesar de semelhantes, possuem diferentes cantos, vestimentas, estilos de reza e linguajar. Além dessas diferenciações, os instrumentos são mais característicos em grupos de congado, enquanto a guarda de Moçambique utiliza os bastões. Para além disso, a guarda de Moçambique é a responsável por levar a bandeira de Nossa Senhora do Rosário recriando a lenda do resgate da santa.
Carregado de axé, o congado de Mariana e Ouro Preto tem sua origem atrelada à história de Chico Rei, majestade africana que teria chegado ao Brasil em meados do século XVII e escravizado em Vila Rica. Após um tempo, conseguiu comprar a sua alforria e a de outros escravizados. Assim, foi novamente coroado como rei, dando origem ao congado. Chico Rei fez parte do Reinado de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia do Alto da Cruz de Ouro Preto. Mesmo sem comprovação sobre a história de Chico Rei, a figura é marcante e tem forte influência na formação cultural de Ouro Preto e Mariana.
O Congado de Nossa Senhora do Rosário da Barroca foi inventariado pela secretaria municipal de cultura de Mariana em 2007. Sua criação, segundo o documento de oficialização, é de 1942, quando a Dona Paula da Cruz se mudou de Piranga para o sub-distrito da Barroca, decidindo iniciar as tradições de sua antiga cidade no local. Segundo o mestre da guarda Sebastião da Silva, mais conhecido na região como Sebastião Chouriço, o Congado da Barroca é católico e não tem conexão com religiões de matriz africana. O grupo atualmente é composto por 27 pessoas, “a mais nova das participantes está com 11 anos e tem irmã que está com 83, 84 anos”, detalha o mestre.

Mestre do Congado de Nossa Senhora do Rosário da Barroca, Sr. Sebastião Chouriço. Foto Ana Beatriz
Já o Congado de Nossa Senhora do Rosário e São Sebastião foi fundado em 2014 por Marcelo Ramos, atual mestre da guarda do Congo. Marcelo, que já participava de um congado em Ouro Preto, durante esse tempo recebeu um chamado através de seus sonhos que seria sua hora de fundar uma guarda, e após conversas com sua mãe sobre os significados destes sonhos, decidiu fundar uma guarda na cidade de Mariana a partir de duas bandeiras ganhas da guarda de Ouro Preto, e muito acompanhamento de reinados para entender o funcionamento e organização de uma guarda.
Altar da Casa Espírita Mãe Maria de Aruanda do Congado de N.S do Rosário e São Sebastião, que cultua os santos e orixás das religiões de matriz africana em suas festividades. Foto Johann Zanuzzi
Atualmente, o grupo reúne 35 pessoas que participam, organizam e festejam os santos. São jovens, adultos e idosos que ocupam as posições de maior importância do conjunto religioso. Durante a pandemia, o congado de Marcelo optou por não realizar os trabalhos de reinado por um tempo até que todos os membros participantes do festejo estivessem com o ciclo completo das vacinas contra a Covid-19.
Ambos os congados da região se apresentam na Festa do Divino Espírito Santo, tradicional celebração católica. Segundo o secretário de cultura de Mariana, Eduardo Leite, a Festa é Patrimônio Cultural do Brasil e durante a realização da festa acontece também, o Encontro de Congados que reúne e conecta diversos grupos da região dos inconfidentes. “O transporte, alimentação tudo é com recurso do município” diz o secretário. Segundo Efraim Rocha, organizador da Festa do Divino, a festa celebra o divino junto com manifestações culturais e religiosas que refletem a alegria dos devotos que participam. “A Festa do Divino Espírito Santo não é o ‘Encontro de Congados’. O Encontro de Congados, que acontece nesta Festa, é uma manifestação, não é a celebração do Dia de Pentecostes”, explica o organizador do evento religioso.
O congado é uma manifestação cultural religiosa que se mantém de forma autônoma. Tanto o Congado de Nossa Senhora do Rosário da Barroca quanto o Congado de Nossa Senhora do Rosário e São Sebastião não recebem nenhuma ajuda financeira fixa da prefeitura da cidade. O Congado de N.S do Rosário da Barroca recebia uma verba da prefeitura logo após ser inventariado, mas o repasse dessa verba não é mais recebido. Normalmente o que é oferecido são os meios de transportes para congados de fora e locais, com a finalidade de se deslocar para estes festejos na região, como a Festa do Divino. Para as lideranças destes congados, o transporte não é o suporte suficiente para manutenção destes grupos, visto que nem sempre a prefeitura disponibiliza o transporte.
RECONHECIMENTO DO CONGADO COMO PATRIMÔNIO
No dia 3 de Agosto, o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) decidiu por estabelecer as expressões de congado e reinado como Patrimônio Imaterial Cultural, com o propósito de proteger e incentivar estas manifestações que exercem e exerceram uma parte da história de formação do estado de Minas. A medida deve facilitar a captação de recursos, transmissão das tradições e valorização, gestões mais participativas e uma sustentabilidade e a abertura de novos editais, além de uma proteção jurídica contra qualquer tipo de preconceito religioso e violento contra congadeiros.
Porém, o impacto avaliado pelos congados e congadeiros de Mariana é pessimista, pois, ao longo dos últimos anos, as ações realizadas pela prefeitura para valorização e manutenção destas manifestações religiosas nunca foi efetiva. Eles reclamam da ausência na prestação de serviços para a execução de festejos, regularização de CNPJs, além de um auxílio para montar projetos para editais estaduais e federais.
O Governo do Estado de Minas Gerais apoia grupos de congado e reinados através de dois meios, o Fundo Estadual de Cultura (FEC), destinado a realizar projetos culturais que encontram barreiras na captação de recursos, e também por meio do “ICMS Patrimônio Cultural”, que consiste em um programa de incentivo à preservação do patrimônio cultural do estado, funcionando mediante a repasses dos recursos do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços aos municípios que mantém uma política e planos efetivos para conservar de seu patrimônio.
Neste ano, a cidade de Mariana liderou o ranking feito pela IEPHA para a captação de recursos via ICMS, elevando a cidade como prioridade a receber esses recursos. Além disso, a prefeitura de Mariana estuda criar um Programa Municipal de Cultura, para criar meios de direcionar investimentos e angariar recursos estaduais.
O RITUAL E SUAS SIMBOLOGIAS
Bandeira de São Sebastião do Congado de N.S do Rosário de São Sebastião. Foto Johann Zanuzzi
O Congado de Nossa Senhora do Rosário e São Sebastião, utiliza dois uniformes principais, o azul e branco simboliza N. S. do Rosário e o verde e branco simboliza São Sebastião. Suas fitas no quepe representam os santos e orixás. Já o Congado de Nossa Senhora do Rosário da Barroca utiliza roupas brancas, a saia e o quepe mudam de cor dependendo da apresentação que irão realizar. É de extrema importância destacar que o estilo e coloração das roupas vai de cada região e dos próprios congados, já que ela é a representação da imagem exaltada.
Os instrumentos, as vestimentas e os acessórios remetem, também, à ressignificação de objetos que eram usados para punir os escravizados. Os rosários ficam no lugar das correntes e os catupés no lugar dos chocalhos presos aos negros para evitar sua fuga.
Reco reco é um dos instrumentos utilizados pelo congado. Foto Ana Beatriz
O ritual possui mudanças dependendo da sua localidade, mas, no geral, segue a seguinte linha: acontece o cortejo, em que a guarda vai buscar os seus reis e vai em direção à igreja, onde acontece a missa conga que é celebrada incluindo os elementos do congado, como as bênçãos das coroas. Após a missa, eles se reúnem para um almoço, que geralmente é pago e organizado pelos reis. Logo em seguida acontece o pagamento de promessas, que são pessoas que receberam as bênçãos da santa pagando sua promessa dando voltas ao redor da igreja junto da guarda e dos cantos de Moçambique. Depois, vem a procissão, que é quando a bandeira de Nossa Senhora do Rosário é levada, recriando a sua lenda, na qual ela é trazida para terra ou para a capela pelos cânticos e tambores do negros de Moçambique. Depois, em alguns casos, os reis do próximo ano são coroados e realizam o encerramento. Cada localidade tem suas especificidades para realizar esse ritual.
Marcos Souza Paiva é congadeiro de berço e, depois que se mudou para Mariana, procurou outra guarda para fazer parte e se deparou com o Congado de Nossa Senhora do Rosário e São Sebastião. Ele relatou em entrevista que o seu congado de origem e o congado que participa em Mariana tem poucas diferenças, mas o que se torna comum entre os dois é a dificuldade de encontrar um padre que saiba realizar a missa conga. “A dificuldade de achar uma um padre que tenha conhecimento da festa do congado, tem padres que comandam a festa que a gente tá mexendo com o mesmo ritual que ele faz uma missa dentro da igreja” disse o congadeiro.
As festividades do congado acontecem em meados do ano, entre os meses de maio e outubro. A Festa do Divino Espírito Santo, em que acontece também o Encontro de Congados em Mariana, no ano de 2024 aconteceu entre os dias 8 e 9 de julho, celebrando Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia e São Benedito.
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