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Como (Não) Discernir a Vontade de Deus.

William Bridge (1600–1670)

Credo Reformado · 2024-02-19 14:15 · 5 claps · 6.7 min read
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Como (Não) Discernir a Vontade de Deus.

William Bridge (1600–1670)

Onde encontramos a vontade de Deus para nós? [1]

Esta tanto pode ser a Sua vontade em relação à doutrina que nós acreditamos, como pode ser a Sua vontade para a nossa vida. Teoricamente, os cristãos consultarão a Bíblia para isso. Mas que lugar isso deixa para obter orientação por meio de sonhos ou impressões, ou até mesmo pela providência de Deus?

William Bridge (1600–1670), um membro da Assembleia de Westminster (1643–1649) [2], pregou uma série de três sermões sobre 2 Pedro 1.19 intitulada “A Luz das Escrituras, a Luz Mais Segura”. Como o abreviado trecho demonstra, ele argumenta que as Escrituras são mais claras e seguras do que todas as outras fontes, e toda a luz que podem nos dar é apenas emprestada das Escrituras.

1. Revelações ou Visões.

A luz das Escrituras é uma luz completa. Embora Deus às vezes falasse por revelações e visões [nos tempos do Antigo Testamento], agora nestes últimos [tempos do Novo Testamento], Ele falou os Seus pensamentos completos por meio de Seu Filho.

Quanto mais forte é um cristão, mais ele caminha pela fé. E quanto mais ele vive pela fé, mais ele escolhe andar pela Escritura, a Palavra escrita de Deus, o objeto da fé. Portanto, é na Escritura que nós temos Cristo retratado à vida diante de nossos olhos, não em revelações ou visões!

Imagine que neste momento você tivesse uma visão. Como você saberia que esta era a voz de Deus e não uma ilusão de Satanás? Obviamente, pela verdade comunicada na visão — mas como você sabe a verdade, exceto pela Escritura? Ou talvez porque a visão revele algo futuro que então acontece? Então leia Deuteronômio 13.1–2: Deus pode permitir que uma revelação se cumpra, e ainda assim pode não ser do Senhor, mas para testá-lo, se você O ama e se apegará a Ele.

Não há perigo em seguir a luz da Escritura. Mas se as pessoas seguirem revelações e visões, podem facilmente ser levadas a desprezar a Escritura. Na verdade, qual é a diferença entre um ateu, ou um incrédulo, e um cristão, exceto que o cristão adere à Escritura e o outro não? Tire a Escritura de mim, e haverá pouca diferença entre eu e um incrédulo.

Mas, você vai dizer: Deus não pode falar por meio de visões e de revelações extraordinárias? Sim, sem dúvida alguma, Ele pode. Deus não está limitado. Não vou discutir sobre o que Deus pode fazer. Mas embora Deus possa fazer isso, ainda é um mau sinal se eu ansiar por isso, porque tal anseio implica que uma pessoa não está contente com a Escritura.

Embora Deus às vezes possa trabalhar por meios extraordinários, se o coração daquela pessoa for desviado dos meios ordinários pelo que é extraordinário, isso não é certo. É possível haver visões consistentes com a Palavra, mas se você estiver mais impressionado por elas do que pela própria Palavra, então a sua fé é suspeita.

2. Sonhos.

Os sonhos muitas vezes envolvem vaidade, diz o Pregador, “mas teme a Deus” (Eclesiastes 5.7). Isso é um controle sobre prestar muita atenção aos sonhos. Mas o apóstolo diz: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo” [Colossenses 3.16a], e não há controle sobre isso.

Os sonhos também são incertos. É difícil saber se um sonho é natural ou sobrenatural. Digamos que seja sobrenatural. Então é do diabo ou de Deus, e é difícil saber qual. Digamos que o sonho seja de Deus, ainda é difícil conhecer o seu significado e a sua interpretação. Faraó teve um sonho, mas todos os seus magos não puderam interpretá-lo; esse foi um trabalho para José. O mesmo aconteceu com Nabucodonosor. Qualquer um pode ter um sonho de Deus, mas requer nada menos que um profeta para interpretá-lo.

No entanto, estamos em tais incertezas ao lermos a Palavra? Ninguém além de um profeta pode entender a Escritura? Não, a Palavra do Senhor é luz para os pés de todos nós, clara em todas as coisas necessárias para a nossa salvação.

Mas Deus pode falar conosco por meio de um sonho agora, se Ele quiser? Sem dúvida Ele pode. Deus é livre. Mas a Escritura não indica que os sonhos são uma ordenança de Deus agora.

Mesmo que Deus falasse comigo por meio de um sonho, se eu o fizesse um sinal de minha própria piedade, ou do amor especial de Deus por mim, então eu estaria sob uma ilusão. Até homens ímpios tiveram seus sonhos de Deus (Balaão, Faraó, Nabucodonosor e outros). Se sonho um estranho sonho e concluo que, portanto, estou no amor de Deus, porque Ele fala comigo dessa maneira, então estou enganado.

Quem no mundo ousa arriscar sua alma e salvação em um sonho, ou em sua interpretação? Mas nós podemos e devemos arriscar as nossas almas e a nossa salvação na Escritura.

3. Impressões na Alma.

Impressões (com ou sem uma palavra das Escrituras), mesmo quando são boas, não são nosso alimento diário. O nosso alimento diário designado é a Palavra escrita de Deus (quer venha com ou sem impressão).

As pessoas boas são muito propensas a andar e viver por impressões, mas isso é perigoso. Isso fomenta a ignorância e mantém as pessoas instáveis em seu estado espiritual. Pois se uma palavra vem, então elas têm conforto. Mas quando nenhuma vem, então seu conforto falha. Ou, contemplando a doçura da impressão, elas perdem a doçura da própria palavra que foi impressa nelas.

Mas agora pegue a Palavra escrita de Deus, e não há perigo em viver e andar por ela. De fato, isso é nosso dever.

Então, não há uso para impressões? Sim, muito, pois elas confortam em tempos de dificuldade. Quando alguém está na escuridão, ou não sabe qual dos dois caminhos tomar para servir a Deus da melhor maneira — ou vê o caminho claro e ainda muitas dificuldades no caminho — então Deus coloca alguma palavra com poder em sua alma, isso lhe traz muito conforto.

Mas embora Deus fale por impressões às vezes, dando muita luz e conforto, se eu fizer de uma impressão o juiz das doutrinas, então estou grandemente enganado.

Devemos julgar as doutrinas pela Palavra escrita de Deus.

Embora muito conforto possa ser obtido por impressões, se a Palavra não estiver impressa no coração de acordo com o seu verdadeiro sentido, é provável que a impressão não seja de Deus, mas uma ilusão de Satanás. Deus apenas coloca uma palavra na alma em seu verdadeiro sentido.

Então, eu tenho uma impressão com uma palavra? A impressão pode ser de Deus, mas a aplicação pode ser minha. O Senhor deu a Abraão uma palavra, que sua descendência seria como as estrelas, mas Abraão fez uma aplicação falsa quando foi a Agar em busca do cumprimento.

O caminho mais seguro e certo é permanecer próximo à Palavra escrita de Deus, que é tanto o juiz de todas as nossas doutrinas quanto a única regra de todas as nossas práticas.

4. Experiência Cristã.

A Palavra escrita de Deus é mais excelente do que a experiência cristã. Qualquer luz que haja na experiência é emprestada da Escritura, a Palavra de Deus escrita. Embora a experiência seja de grande ajuda para a nossa fé, se a tomarmos sozinha, isolada da Palavra, não pode curar a nossa incredulidade.

A bengala nas mãos de alguém é uma boa ajuda, mas não pode curar a sua manqueira. Da mesma forma, a experiência será uma boa ajuda em meu caminho, mas não pode curar a manqueira do meu coração incrédulo. Mas a Palavra escrita pode, e faz.

Então, não há utilidade em nossas experiências? Não há luz nelas? Sim, de fato, pois a experiência gera esperança. “A experiência produz a esperança” (Romanos 5.4–5). Mas embora a experiência seja a mãe da esperança, ela não é o fundamento da nossa fé. Ela ajuda a fé, mas não é o primeiro fundamento de nossa fé. A Escritura é, e a promessa sob Cristo (Romanos 15.4).

Embora tenhamos muita experiência, se não confiarmos na Palavra, acima e além de toda a nossa experiência, fazemos mal.

5. Providência Divina.

Deus às vezes nos testa por Sua providência. Ele coloca uma dispensação providencial diante de nós, para testar e ver o que nós faremos (Deuteronômio 8.2). Mas a Escritura é a regra do nosso fazer.

A providência de Deus se estende a tudo, incluindo todos os nossos pecados. Quando Jonas fugiu de Deus, havia um navio ali mesmo indo para Társis: aqui estava uma providência! E quando os irmãos de José queriam se livrar dele, quem passou por ali foram alguns mercadores que negociavam com o Egito: aqui estava uma providência! Assim, nós não podemos tomar as nossas decisões apenas com base na providência.

Você pode, no entanto, tomar suas decisões com base na Escritura, a Palavra de Deus escrita.

Deus nunca fala pela providência, ou às vezes guia e dirige pela providência? De fato, Ele o faz. Mas embora o Senhor às vezes nos guie com a Sua providência, se eu fizer da providência de Deus a regra da legalidade ou ilegalidade, então estou em grande erro, e me exponho a todo tipo de pecado.

Quando duas coisas lícitas estão diante de mim, então quando a providência abre uma porta para uma e fecha a porta para a outra, ela está direcionando para aquela, não para a outra. Mas a providência de Deus não torna lícito algo que em si é ilícito. A providência não é a regra da legalidade ou ilegalidade. Mas a Escritura é. A Palavra escrita de Deus é a única regra pela qual posso e devo formar o meu julgamento de legalidade e de ilegalidade.

Notas:

  1. BRIDGE, William. How (Not) To Discern God’s Will? Disponível em <https://www.reformationscotland.org/2024/02/15/how-not-to-discern-gods-will/?goal=0_fa6a292a9f-7d2cca2dab-505741204>. Tradução e edição: Rodrigo Gonçalez (rodgoncalez@gmail.com).
  2. N.Ed. A Assembleia de Westminster foi um órgão consultivo de Teólogos para o Parlamento Inglês que se reuniu em Westminster de 1643 a 1649. Os Divines reunidos na Assembleia produziram uma nova gama de Padrões para a Ordem e o Governo da Igreja, o Culto e a Doutrina para as Igrejas da Inglaterra [então anglicanas], Escócia e Irlanda, que têm sido usados desde então pelas Igrejas Presbiterianas em todo o mundo.

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