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Ajudante de trânsito

Às 04:30 da manhã esse homem acorda e toma seu café. Sem açúcar ou adoçante. Puro.

Bloco de notas · 2025-11-14 15:17 · 3 claps · 1.8 min read
#trânsito #ordem #carro #viaduto
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Ajudante de trânsito

Às 04:30 da manhã esse homem acorda e toma seu café. Sem açúcar ou adoçante. Puro. Gostava de sentir o amargo tomando a sua boca, dando o mesmo gosto que sentia de sua vida.

Morava ao lado de uma grande rodovia, sempre com muito movimento, e por baixo do viaduto, passava uma via muito estreita, um retorno teoricamente de mão dupla, mas que não cabiam dois carros ali ao mesmo tempo.

Local frequente de acidentes, carro de um lado tentando passar, enquanto carro do outro lado tentando seguir também.

Observador, esse homem viu ali uma oportunidade. Começou de forma amadora, com sua camisa de time, bermuda e chinelo. Fazia sinal de “pare” para um lado e “siga” para o outro, completando com um assovio para orquestrar tudo aquilo.

Depois o negócio começou a evoluir. Arrumou uma mesa alta para apoiar seu copo de Guaravita, que usava para arrecadar dinheiro.

Passava o dia todo em pé, correndo de um lado a outro, ajudando a organizar o trânsito.

Aos poucos, as pessoas passaram a dar moedas, notas e o homem foi conseguindo comprar o arroz, o feijão, o leite das crianças.

Virou profissional, providenciou uma camiseta azul com os dizeres “AJUDANTE DE TRÂNSITO” no peito. Ao redor do pescoço, um cordão com um apito pendurado.

Todo dia, Wellington coloca seu uniforme e vai trabalhar, sem saber como vai ser o dia, mas sabendo que vai receber por isso.

Não era guarda de trânsito, fiscal da prefeitura e muito menos policial, mas frente à necessidade de ganhar dinheiro para viver, viu uma oportunidade e decidiu abraçá-la.

Não faltava um dia sequer. Ficava lá debaixo do viaduto de segunda a segunda, no sol ou na chuva.

Controlava carros, motos e até ambulâncias, sem o seu trabalho o local seria caótico. Colocava ordem, estabelecia a paz e ganhava seu sustento com isso.

Passou a ser reconhecido no bairro, talvez até na cidade inteira, alguns carros passavam buzinando de forma amigável, como que a cumprimentá-lo, e ele respondia com um sorriso e um aceno de mão.

Com o tempo, passou a importar mais o reconhecimento que recebia ao longo do dia, do que o valor total recebido por Wellington.

Passou a ser alguém. Passou a ser visto, reconhecido e respeitado.

O dinheiro virou secundário, ele gostava mesmo era de erguer a mão espalmada para um lado, enquanto apitava e mandava os carros do outro lado seguirem. Era o seu super poder.

Partiu do local de um completo desconhecido, para se tornar um respeitado homem.

Por que o nosso valor tem que vir atrelado ao serviço que prestamos? Ao dinheiro que ganhamos?

Por que algumas pessoas já nascem em pedestais, enquanto outras precisam equilibrar caixotes na intenção de escalar, tentar chegar ao topo e se satisfazem com as migalhas que se esfarelam?


메타데이터
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