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Para aqueles que vivem nas bordas

Existem pessoas que eu não vejo há quase oito anos. Há pessoas que beijei e abracei nesse mesmo tempo, e que não terei a mesma…

Sergio Augusto · 2026-05-04 07:12 · 0 claps · 1.6 min read
#medium-brasil #imigrantes #escrita #sanskrit
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Para aqueles que vivem nas bordas

Existem pessoas que eu não vejo há quase oito anos. Há pessoas que beijei e abracei nesse mesmo tempo, e que não terei a mesma oportunidade. Aniversários, vitórias, funerais e casamentos em que fui ausente por escolher trilhar um caminho incomum.

É muito comum, para qualquer imigrante no começo, sentir o peso das decisões na rotina. Até que chega um ponto em que isso acaba anuviando, visto que precisamos cuidar de outros assuntos para manter a nossa vida como gostaríamos. Todo passo que damos acaba sendo algo ganho, algo perdido e algo entre os dois que ainda é difícil definir na minha língua materna.

No Ocidente é extremamente importante se enraizar, viver o sonho tradicional e ter uma vida linear. O que fazemos com as pessoas que decidiram quebrar esse dogma? Mesmo o quebrando, ainda é possível viver a certeza do que acreditamos querer dentro da incerteza daquilo que precisamos?

Meses antes de começar a minha vida na Europa, comecei a ler “Comer Rezar Amar”, de Elizabeth Gilbert. Já conhecia o filme — um conforto extremo para mim — e exatamente há dias do embarque, não consegui continuar com a leitura, interrompida exatamente na explicação sobre aqueles que vivem nas bordas entre dois mundos: अन्तेवासिन् ou Antevāsin. A descrição de eternos aprendizes que moram perto de seus professores também, segundo o sânscrito.

Para quem se atreve a ser fugitivo e explorador ao mesmo tempo, acumula a sina de estar sempre entre dois caminhos, onde a perda e o ganho são certezas homeopáticas, junto à impotência e ao orgulho. Abre-se um novo mundo de cruzamentos entre o doce e o azedo, onde cada escolha é uma mistura de realização de desejos e nostalgia do que poderia ser, como o céu laranja e rosa sem certeza se é o começo ou o fim.

Entre tantas coisas que se passaram e que ficaram, sempre lembro que a vida imigratória é uma ponte larga com pontos de descida ou um vagão de trem com bancos de madeira. Locais por quais muitos passam, ficam por algum tempo, partem, voltam ou apenas seguem em frente. Sendo assim, somente uma certeza pode ser observada: a nossa presença.


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