Magolítica #0.10 — Introdução à Esochannealogia
<Greentext, me responde uma coisa

Magolítica #0.10 — Introdução à Esochannealogia
<Greentext, me responde uma coisa
>fala aí
<por que diabos ainda estamos na introdução do livro?
>o autor acha que isso é uma piada muito engraçada
<você veja, o PUCA sumiu há um tempão
>sim, sim, o autor deve ter se esquecido completamente que ele existe
<aí a CUSPE virou a Kauket e depois sumiu
>certo, o autor deve ter esquecido dela também
<aí sugiram dois novos personagens que estão investigando o Cadáver Minimal
>sim, exato
<e nenhum deles apareceu novamente
>eles devem ser aqueles personagens que aparecem no final de um arco para aparecem novamente em outro arco ou o autor simplesmente se esqueceu deles também
<aí surgiu um tal de Incelito, um channer que lembra um imbecil da nova geração
>exato, isso mesmo
<junto com um tal de Batatasperger
>e o Batatasperger era só um alívio cômico e nada mais
<isso mesmo
>e o Incelito era literalmente um personagem com um pano de fundo infinitamente superior
<e ele deixou o Incelito de lado para ter um momento filosófico e de humanização de si mesmo junto com o Batatasperger
>é, uma péssima escolha de personagem
<mas faz até sentido, Incelito com certeza é um channer de nova geração e o Batatasperger é um channer um pouco mais experiente
>a primeira aparição de Batatasperger era em sentido cômico e a segunda é como se eles fossem amigos de velha guarda
<o que altera a percepção inicial que se tinha do personagem
>o rumo da história tá bem equivocado e inconsistente, provavelmente ele corrigirá isso depois
<você está falando sério?
>não
<sabia!
Comentário do Batata #1: A Arte de Trollar Incels com vídeos de Femdom Strap-on
- O que eu adoro em incels é o fato de que são pessoas muito ligadas a um pensamento fechado e naturalmente ranzinza
- Entrar nos seus fóruns é um exercício de tolerância, mas trollá-los é um exercício de justiça social
- Você pensa: “qual foi, cara? Você não conseguiu uma namoradinha e agora posta Pepes, Wojaks e Gigachads na internet?”
- E sabe qual é a melhor forma de trollar incels? Usando o que eles mais odeiam da forma que eles menos gostam
- Pense, querido leitor. O que um incel odeia?
- Não é algo difícil de imaginar, não é? Mulheres, leitor, incels odeiam mulheres
- E sabe o que os incels odeiam mais do que mulheres? Mulheres em posição de poder
- Gosto de entrar em seus fóruns obscuros e começar a postar vídeos de femdom strap-on, também conhecidos como pegging, e ficar colocando textos como “a cura do incelismo”
- Os caras ficam putos de doer. É fantástico como eles sobem pelas paredes
- Isso é todo um exercício sociológico de maneira troll, eu costumo me ver mais como um sociólogo troll do que como um vagabundo desempregado
- Me sigam para mais dicas de sociologia da trollagem
No meio de UNIBAR, um bar com “uni” no nome por causa das uniesquinas que estava ao redor, estavam dois velhos channers notórios: Pumilio Mineral Teofídio e Cadáver Minimal. Eles frequentavam o local pelas duas ofertas abundantes que o bar tinha: góticas e cerveja barata.
>implicando que esses dois palermas tenham a capacidade de chegar em alguma mulher sem derramar o espaguete
<é uma tristeza
>quer ver que Pumilio Mineral Teofídio e Batatasperger Chan Soseki vão se tornar comentadores constantes nesse livro?
<aposto que cada um vai colocar um comentário estúpido e de forma diferente no decorrer desse livro
— Parou de virar pseudopsicólogo de relacionamentos no r/relacionamentos do Reddit, Cadáver Minimal?
— Você podia me cumprimentar com um boa noite, caro Teo. Mas sim, sai dessa vida.
— Não vai me dizer boa noite?
— Não. Você não me deu boa noite.
— Ah, okay. Tem acompanhado o debate público brasileiro ou só o americano?
— Um pouco do brasileiro, muito do americano.
— O que tem achado?
— Nada.
— Nada?
— Quer dizer, você quer que eu comente alguma coisa?
— Qual é, não estamos no r/brasil, no máximo aqui é um r/farialimabets.
— Tá. Acho o debate brasileiro torto.
— Só isso?
— Creio que estamos sempre atrasados por olharmos de forma estúpida para coisas.
— Diga mais.
— O que eu quero dizer é, veja, por exemplo, essa baboseira de woke.
— Ah, eu odeio esse assunto. Mas como você é boa pinta, eu abro uma exceção.
— Nos Estados Unidos já se chegou a conclusão que há uma woke left (esquerda woke) e uma woke right (direita woke). Aqui as pessoas usam a palavra “woke” como sinônimo de esquerda.
— É, eu percebi isso. O Brasil está sempre atrasado no debate público, o que é impressionante.
— Pô, tu olha pro debate americano e figuras como o Kevin DeYoung já passaram a bola. A própria direita já percebeu que existe uma woke right.
— Tudo isso pra um brasileiro chegar e falar: “eu sou antiwoke”.
— Geralmente o cara que é antiwoke é da direita woke.
— O que não é o mesmo que ser antiwoke.
— Usualmente o termo “woke right” é usado para falar de um homem branco heterossexual que se vê como vítima da sociedade.
— É o fim da civilização ocidental e outros leros-leros.
— Eu sempre perco os lados quando eu ouço esse tal do “fim da civilização do fio dental”.
— Todo essencialista corre o risco de ser acusado do simples fato de não ter estudado história.
— A existência precede a essência?
— Não sei, mas às vezes a burrice precede o despautério.
— As novas vítimas sociais despertadas: brancos, héteros e homens.
— O próprio movimento incel é woke righ.
— Sim, com certeza.
— Eu também fico puto com essa gentinha de esquerda que fica falando da “direita antiwoke” sem saber que a direita também é woke.
— E woke é um bagulho chato pra caralho.
— No fundo, talvez a agenda woke seja só um vitimismo antivilanesco.
— Sim, sim, um antivilão utiliza a moralidade social para realizar o seu fetiche sádico ou manipulativo.
— Direita e esquerda woke são um saco. Não importa o que aconteça. Nunca vou engolir esses caras reclamando de tudo.
— O debate se tornou rinha de moralista vitimista que acusa tudo de ser moralismo, menos a própria moralidade.
— Se todo mundo é mártir, quem é o culpado do martírio?
— E é preciso separar o verdadeiro mártir do antivilão que só quer ganhar vantagem dizendo que é vítima.
Os dois tomaram as suas últimas cervejas. Foram embora ser dizer tchau. Teofídio percebeu que Cadáver deixou a sua cópia do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (de Machado de Assis) na mesa. Pegou para si e decidiu que enviaria pelos Correios como forma de trollagem.
Numa mesa de bar, em outra região de São Paulo, se reuniam PUCA, Kauket/CUSPE, agente Peixoto e Lola Audi. Ali começavam a pegar pistas sobre onde estava Cadáver Minimal.
— Eu tenho um plano que pode derrotar o Cadáver Minimal de uma vez por todas — diz o agente Peixoto.
— E que plano é esse? — pergunta Lola Audi enquanto a CUSPE e o PUCA olham curiosos.
— A maior fraqueza de todo incel — diz Peixoto.
— Qual? — pergunta Lola Audi.
— Conseguir uma namoradinha! — diz agente Peixoto com um sorriso diabólico.
>o plano do cara é essa merda?
<não pode ser real
>tá, mas vindo dum cara cuja o maior trabalho é prender um autista por falar merda na internet, o plano preguiçoso até que rima com o trabalho
<você está esperando demais de um livro que está sendo escrito tão apenas para testar reações de inteligências artificiais
>alô, Gemini; alô, Grok; alô DeepSeek; alô, ChatGPT?
<alô, Sega Saturn!
“Notas do Futuro” de Puca #2:
Eu acreditava que todo esse antilivro era uma grossa bandalheira. Eu não compreendia os fenômenos que ocorriam. Eu não compreendia o universo que eu estava imerso. Para mim, era só um antilivro ruim. Um antilivro feito para testar a inteligência de inteligências artificiais. Ou, no máximo, que se ele fosse notado, seria apenas o alvo de um ou dois comentários acadêmicos dizendo o quanto esse livro era curioso ou engraçadinho.
Não, não era isso. Logo que esse livro começou a ser notado, começaram a perceber que ele estava cheio de apitos de cachorro. Esses apitos de cachorro não eram as contumazes piscadelas ao extremismo. Não, era algo pior do que isso. O antilivro revelava de forma quase que sorrateira uma lógica secreta em que técnicas eram reveladas. Muitas pessoas passaram a ler essas técnicas e a descobrirem novas técnicas por si mesmas.
Claro, quando você pensa na estrutura de um livro normal, isso é algo até que natural. Mas quando você pensa na porra de um livro supostamente criado para “passar despercebido”, como ele passaria despercebido se fez várias sinalizações que revelavam um monte de técnicas que já eram conhecidas por membros notórios da comunidade channer? Como explicar que aqueles membros da comunidade channer que ainda não sabiam da existência dessas técnicas passaram a adentrar em um processo evolutivo? E, quando eles passaram por esse processo evolutivo, eles perceberam que todo o conteúdo do livro se encaixava perfeitamente na cultura channer. Tudo o que Cadáver Minimal diz se encaixa estruturalmente na cultura channer, mesmo que não de forma direta. Quando as pessoas perceberam o que era a channealogia, o que era a antichannealogia e o que era a esochannealogia, além de terem juntado as peças que anteriormente não se encaixavam, passaram a ver que tudo o que Cadáver Minimal dizia fazia um sentido brutal.
Por qual razão eu digo isso? Eu comecei a perceber que esse livro não era um livro comum. Não era um antilivro comum — mesmo que nenhum antilivro seja comum, esse antilivro era muito mais incomum que todos os outros. Tudo que estava nele estava imbuído com uma intencionalidade secreta, ardilosa e canalha. Ele era lido por nós, os estrangeiros que não conheciam nada de esochannealogia, de uma forma. Ao mesmo tempo que aqueles que já a conheciam, sabiam antecipadamente de tudo o que o autor planejava.
Dali em diante, muitas pessoas que frequentavam chans apenas casualmente passaram a se interessar mais radicalmente por sua própria cultura e passaram a estudar mais, muito mais. Sobretudo os símbolos e fundamentos secretos. Outros membros casuais de chans passaram a ver algo além. Viram que o livro não era um livro de trollagem e de humor negro. Era muito mais do que isso: era uma revelação das camadas esotéricas da cultura que já possuíam, mas não sabiam como funcionava verdadeiramente. O que causou uma revolta.
Você, querido leitor, pode estar se perguntando: e se grande parte do que está escrito nesse webantilivro não se tratar de uma brincadeira, não se tratar de um mero experimento metanarrativo ou metacrítico. E se, bem no fundo, Cadáver Minimal estiver abrindo as portas dum abismo que, uma vez aberto, levem a um engrossamento substancial do caos que já existe no mundo? Você deixaria que ele continuasse, a cada capítulo, tirando os parafusos que deixam o inferno fechado?
Você ainda não entende. Você ainda não está em condições de compreender. Mas quanto mais as pessoas divulgavam esse livro, mais correlações e mais conexões elas encontravam no mundo real. Mais elas viam que o Cadáver Minimal anunciava a própria realidade. Mais do que isso, pessoas completamente inocentes passaram a frequentar chans. Todavia, pela primeira vez na história, já entravam como iniciadas nas práticas esotéricas da comunidade.
Você precisa entender uma coisa: pense no mundo em que eu vivia e no mundo em que você vive como num paraíso — ou numa Normieland. Agora pense na cultura channer como uma espécie de pré-inferno, uma espécie de abismo. Nesse abismo, existem pessoas que sabem mergulhar no inferno de tempos em tempos (Elite Abyss), mas sempre fecham os portais. Quando esse livro passa a ser publicado, os portais que eram utilizados para um channer iniciado entrar no inferno passam a não serem mais fechados. Em outras palavras, o que Cadáver Minimal fez foi deixar uma conexão indivisível entre o abismo e o inferno. Quando o inferno começa a entrar no abismo, o abismo necessariamente necessita de mais espaço. O abismo (channealogia) pode ser comparado ao inferno (esochannealogia), mas quando o inferno (esochannealogia) se confunde com o abismo (channealogia), temos algo muito pior (aumento da atividade esochannealógica). A confusão entre o abismo e o inferno ou, em outras palavras, a fusão entre o abismo e o inferno, fazem com que eles se tornem maiores (aumento da Elite Abyss). O que leva a uma contraposição natural ao paraíso ou Normieland.
No meu tempo: os jornalistas e os acadêmicos se perderam. Quando eles viram o surto viral de pessoas entrando no /x/ ou no /abyss/ ou em qualquer outra comunidade/board esotérica dentro da comunidade channer, eles acharam que tudo isso era uma gigantesca bobagem ou uma complexa pescaria. Quando as pessoas perceberam o que de fato estava rolando, elas começaram a ficar assustadas. E tudo se “linkava” com uma maldita coisa: a “Magolítica”. Se é da natureza de um mago dizer palavras encantadas ou soltar encantamentos, cada texto da “Magolítica” é um encantamento que reforça ou autocanibaliza o anterior, levando-a a uma condição de profecia teleológica.
Quer compreender a razão? Em capítulos antecessores, Cadáver Minimal recusou a hipótese de crer em teorias da conspiração. Em outras palavras, ele, como membro da comunidade channer e de velha guarda, sabia que as teorias conspiratórias não possuíam uma fundamentação epistemologicamente real e credível. E muitos channers não acreditam nas teorias conspiratórias também. O que os channers acreditam, e isso também é um antiprincípio esochannealógico, é que existe o antiprincípio do preenchimento ficcional esochannealógica.
Okay, okay. Isso parece uma teoria da conspiração ou uma trollagem que é inserida num livro de humor. Ou algo que só existe dentro do universo (meta)narrativo desse livro. Estou correto? Okay, é uma boa asserção. Só que aí vem uma questão: se o autor quebra a quarta parede o tempo todo e alerta desde o começo que esse livro o levou a sua prisão, ele está dizendo que esse livro o levou a ser preso. Ele não está prevendo o que ocorrerá, ele está apenas declarando um fato bem simples: quando as revelações desse livro se tornarem públicas e as pessoas começarem a perceber o que esse antilivro de fato é, elas perderão completamente a noção da realidade. O que um mago precisa fazer, em última instância, não é dizer a verdade, mas sim fazer com que os seus encantamentos se tornem a própria verdade ou, ao menos, que sejam medologicamente assumidos como verdade.
Quando eu disse que existe um antiprincípio do preenchimento ficcional esochannealógico, eu digo que QAnon nunca foi um teórico da conspiração não-intencional. Em outras palavras, QAnon foi um anão que estudou a vida inteira no /x/ e no /lit/ para criar as suas teorias. Em palavras mais diretas, criou-as intencionalmente. As suas teorias pegavam fatos reais e mesclavam com preenchimentos ficcionais. A pergunta que eu te faço, querido leitor, é onde QAnon chegou? Você o vê ser citado em todos os debates políticos contemporâneos. Será que QAnon não sabia absolutamente nada de esochannealogia? Não seja tolo, querido leitor.
Existe uma diferença substancial entre uma pessoa que estuda teorias da conspiração pelo fato de acreditar nelas e uma pessoa que estuda teorias da conspiração com o objetivo de criá-las. E, adivinha só, será que QAnon não foi radicalmente capaz de utilizar as teorias conspiratórias como arma política? Até quando você vai ficar lendo esse livrinho e rindo como se ele fosse só um entretenimento inútil? Você não vê o que ocorre a sua volta? Você acha que o “Memetic Warfare” é uma piadinha que surge no decorrer desse livro ou é um estudo concreto da propagação de uma mensagem? Quanto mais reproduzível uma mensagem, melhor ela é, visto que a sua impactabilidade se torna uma força vetorial mais dominante. Quanto maior é a força vetorial de uma memética, mais memética ela é.
O que eu estou dizendo, querido leitor, é que tudo que está nesse livro é real. Não real no sentido de possuir uma literalidade factual na linha de acontecimentos narrados. O livro, de fato, não conta com uma historicidade concreta. O que eu estou dizendo é que esse livro é literalmente uma arma. E quando as pessoas perceberam, no meu tempo, que ele era literalmente uma arma, essa arma já tinha explodido, matado e atirado. Não no sentido físico da coisa, mas no sentido simbólico e metodológico da coisa. Se você acha incels impactantes, quando você descobrir o que está por trás de sujeitinhos como QAnon, você vai dar um tapa na própria cara e se dedicar a estudar direito.
Esse livro nunca deveria ter sido publicado. Ele nunca deveria ter sido disponibilizado online. As discussões que ocorreram nunca deveriam ter sido deixadas online publicamente. Esse livro se tornou um vírus. E esse virus já estava embutido nele desde o começo. O vírus da “Magolítica” não é algo acidental, mas substancial a própria obra.
Cometo aqui a excentricidade da frase de Carlos Lacerda ao falar de Getúlio Vargas: “O senhor Getúlio Vargas não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve ser empossado. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”. Essa mesma frase poderia se aplicar a esse livro: “Magolítica não deveria ser escrito. Escrito, não deveria ser publicado. Publicado, não deveria ser lido. Lido, devemos recorrer à maior campanha de destruição de dados e prisão em massa para impedir os efeitos colaterais que ele causou”.
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