Fragmentos de um Sonho em Paz
Eu dormia. Não apenas dormia, mas estava suspensa entre dois mundos. A cabeça repousava no ombro de alguém — minha mãe, talvez — mas não…
Fragmentos de um Sonho em Paz

Eu dormia. Não apenas dormia, mas estava suspensa entre dois mundos. A cabeça repousava no ombro de alguém — minha mãe, talvez — mas não era eu. Eu não era aquela menina de época, não era a minha pele. O cenário era calmo, mas o ambiente era preenchido por um som abafado, um murmúrio distante, como se o caos estivesse ali, à espreita.
Era um muro, verde ao redor, algo bonito, quase idílico. A visão me alcançava como uma lembrança de uma infância distante, mas o sono me consumia de forma pesada, profunda, sem espaço para o mundo. Eu podia sentir as pessoas ao redor tentando me acordar, como se o mundo estivesse em pânico, tentando arrancar a paz que eu encontrava nesse sono. Mas havia uma proteção, um gesto firme — minha mãe segurando minha cabeça, um “ficem longe” não dito, mas compreendido.
O barulho lá fora, o agito, eram incontroláveis. Mas eu estava distante, imune. Eu dormia, e dormia com uma tranquilidade que só quem se isola pode entender. Mas, quando acordei, o vazio tomou conta. O silêncio, agora amplificado pela ausência de quem estava ali, me deixou sem reação. O que era realidade e o que era sonho?
Na porta, um celular. Um presente — ou uma tentativa de me ancorar à realidade, talvez. Minha mãe, com seu gesto de proteção, me entregava aquilo. “Seu celular quebrou. Aqui está outro.”
Foi um gesto pequeno, mas imenso. Eu sou uma pessoa difícil, reconheço isso. Já causei tantos problemas, e ainda assim as pessoas se esforçam. Elas correm para me ajudar, mesmo sabendo que eu sou confusa, que sou manipulatória, que me perco nas sombras de quem realmente sou. E me pergunto, em momentos de fragilidade, o que elas veem em mim? Qual é o propósito desse carinho? E, mais importante ainda, por que continuam?
Eu, que sou difícil de lidar, que sou estranha em meus próprios sentimentos, fui tocada por algo simples, um gesto. Não entendo o motivo, mas talvez eu nunca devesse. O celular, como um símbolo, foi mais do que um objeto — foi a ponte silenciosa que me conectou a algo que não sei descrever. A bondade de quem cuida, sem esperar nada em troca. E isso, por mais confuso que seja, me toca de uma maneira que nem posso explicar.
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