Engenharia emocional — Mark Fisher
Este texto foi publicado originalmente em 3 de agosto de 2004 como Emotional Engineering no célebre blog de Mark Fisher, o k-punk.
Engenharia emocional — Mark Fisher

Este texto foi publicado originalmente em 3 de agosto de 2004 como *Emotional Engineering no célebre blog* de Mark Fisher, o k-punk.
Além do texto propriamente, escolhi traduzir também um comentário ao final do post que julguei complementar o texto de maneira interessante, e também porque esse texto, estando no formato de blog, perderia parte de seu significado se fosse traduzido sem qualquer consideração a como outras pessoas comentaram e foram respondidas pelo autor na mesma página. Considerações feitas, espero que essa tradução seja de valia para sua leitura.
Espinosa é o príncipe dos filósofos; sério, o único que você precisa.
Ele tomou como certo o que mais tarde se tornaria o primeiro princípio do pensamento de Marx — que era mais importante mudar o mundo do que interpretá-lo. Seu projeto de erradicar sistematicamente a motivação subjacente para comportamentos irracionais foi efetivamente psicanálise trezentos anos antes. Freud, cujos reconhecimentos escritos em relação a Espinosa foram poucos, de qualquer forma admitiu em sua correspondência estar em profunda dívida com a estrutura de Espinosa; Lacan foi mais explícito em sua homenagem, comparando sua própria excomunhão da Psicanálise ao banimento de Espinosa da Sinagoga de Amsterdã. O pensamento de Deleuze é inimaginável sem Espinosa.
Até quando não há influência, há frequentemente uma afinidade. Duvido que ele tenha chegado a ler Espinosa, mas Burroughs era um espinosista de cabo a rabo. Luke(1) também.
Philip K Dick escreveu sobre Espinosa, e a visão que Dick lega ao cyberpunk: de mundos simulados estimulados por drogas, humor e tecnologia — o conceito gibsoniano de ‘simstim’ — é espinosista de cabo a rabo.
Essas reflexões foram motivadas por um encontro fortuito que tive com o livro Looking for Spinoza: Joy, Sorrow and the Feeling Brain, de António Damásio, em uma banca de livros usados perto do NFT(2), enquanto caminhava pela Southbank no sábado com Siobhan. (Descobrir livros por acaso é, sem dúvida, a melhor maneira de encontrá-los).
O livro de Damásio é uma conquista incrível. Não apenas ele junta a consideração de Espinosa sobre a relação entre corpo e mente com seu programa de aumento da felicidade e liberdade humanas, mas também recorre ao pensamento científico atualizado — Damásio é um neurologista — para estabelecer que a estrutura conceitual de Espinosa é notavelmente atinada à neurobiologia contemporânea.
Filósofos acadêmicos frequentemente tratam o Livro V da Ética de Espinosa — ‘Da potência do intelecto, ou da liberdade humana’ — como pouco mais do que um constrangimento, às vezes se referindo sarcasticamente como um ‘manual de auto-ajuda’. Assim o é — mas isso é uma força, o que faz da filosofia de Espinosa mais que mera contemplação. (Pensei frequentemente, na verdade, que daria para fazer muito dinheiro traduzindo as ideias do Espinosa em um livro de terapia pop).
Ao mesmo tempo, leitores não-filosóficos provavelmente ficam escandalizados pelo tratamento sóbrio e geométrico de Espinosa com emoções humanas. A psicologia vernacular tem que emoções são irredutivelmente misteriosas, confusas e indistintas demais para serem analisadas além de certo ponto. Espinosa, por outro lado, mantém que a felicidade é uma questão de engenharia emocional: uma ciência precisa que pode ser aprendida e praticada.
No lugar de ‘certo’ e ‘errado’ que um kantianismo vulgarizado e um cristianismo vestigial tenham inculcado em nós, Espinosa nos demanda a pensar em termos de saúde e doença. Não há deveres ‘categóricos’ sendo aplicados a todos os organismos, já que o que conta como ‘bom’ ou ‘mau’ é relativo aos interesses de cada entidade. Atinado à sabedoria popular, Espinosa deixa claro que o que traz bem-estar a uma entidade envenenará outra. O primeiro e mais sobrepujante ímpeto de qualquer entidade, diz Espinosa, é sua vontade de persistir em seu próprio ser. Quando uma entidade começa a agir contra seus próprios melhores interesses, destruir a si mesmo — como, tristemente, Espinosa observa, humanos não deixam de fazer — ela foi tomada por forças externas. Ser livre e feliz acarreta em exorcizar esses invasores e agir em acordo com a razão.

É a obsessão de Burroughs com invasões alienígenas e vírus que fazem dele tão visceralmente espinosista. Seja em abstinência de uma droga, orgasmo ou imagens, a figura principal da servidão humana no universo de Burroughs — o adicto — é escravizada por forças exógenas. Espinosa deixa claro que enquanto a razão é necessária na missão de retomar o controle, ela não é suficiente. A razão pode definir os objetivos, mas emoções podem ser superadas apenas pelo cultivo de emoções mais fortes.
Damásio começa explicando e explorando a afirmação de Espinosa de que ‘a mente é a ideia do corpo’. Em seguida, ele distingue ‘emoções’ e ‘sentimentos’ (que juntos são colocados como ‘afetos’). Emoções são tendências de resposta pré-subjetivas onde sentimentos são o processamento consciente dessas respostas. Uma distinção análoga no pensamento de Espinosa é a entre apetite — o impulso em direção a certo objeto — e desejo — a noção consciente desse impulso. Damásio demonstra que, notavelmente, o diagrama dessas relações em Espinosa é comprovado na neurociência. Como ele mesmo diz, a sublimidade da mente corresponde à sublimidade da biologia.
Enquanto, pertinentemente, o livro de Damásio é prazeroso de ler, penso que ele poderia ser utilmente colocado em diálogo com o deleuzianismo. Onde Deleuze e Guattari tratam Espinosa como o grande profeta do corpo-sem-órgãos, Damásio concentra no orgânico, talvez fatalmente igualando o ‘corpo’ de Espinosa com o organismo. Além disso, a afirmação de Damásio de que a bem-aventurança é atingida através da conquista da homeostase (estranhamente, depois de admitir que ele prefere o termo ‘hemodinâmica’, ele nunca mais o usa!) o colocaria em tensão com a ênfase de D/G no platô.

É na consideração de Espinosa sobre Deus que encontramos sua visão do corpo-sem-órgãos. Muitos dos campeões de Espinosa gostam de posicioná-lo como um pioneiro do iluminismo humanista, como se sua fórmula famosa, ‘Deus = natureza’ e sua afirmação de que a maior forma de prazer é possível apenas através do ‘amor intelectual a Deus’ foram obscurecimentos, códigos projetados para ocultar um ateísmo subjacente. Se foram concebidos em tais termos, falharam: a negação de Espinosa ao Deus pessoal, seu ponto de que Deus não poderia intervir no mundo nem ser atribuído louvor ou culpa, ser oferecido recompensa nem punição, fez ele ser humilhado e ostracizado cruelmente, com ainda uma tentativa contra sua vida sendo feita. Mas pensar que Espinosa como um ateu acobertado é repetir os mesmos erros que seus críticos religiosos contemporâneos fizeram (e reiterar seu insulto). O Deus de Espinosa está além até mesmo da indiferença, gloriosamente, desoladamente sem interesses de nenhum tipo. O amor intelectual de Deus é efetivamente uma identificação com o cosmos como corpo-sem-órgãos. A convicção de Espinosa de que respeito, fascinação e temor — não adoração — são as únicas respostas apropriadas a um Deus que é o Grande Zero, meios que seu pensamento pode nos oferecer como uma espiritualidade impiedosamente materialista que é um legado tão importante quanto qualquer outra coisa que ele tenha deixado para nós.
Mais de mim sobre Espinosa

Eu falando sobre Kubrick, Spinoza e frieza no grupo alt.movies.kubrick (este tópico contém um dos meus momentos de maior orgulho — receber elogios de Gordon Stainforth, que editou O Iluminado).
Se você tiver alguns minutos livres e quiser dar umas risadas, dê uma olhada neste tópico do amk em que debato o conceito de Deus de Spinoza com Leonard Wheat, autor deste livro absurdamente ridículo sobre 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Kubrick.
COMENTÁRIOS
Quanto a Espinosa como ‘manual de autoajuda’: eu frequentemente leio Nietzsche assim, como sendo um produtor de prazer na vida.
Li pouco de Espinosa, mas parece haver (pelo menos na sua consideração) alguma forma de paralelo com Nietzsche, no seu uso das categorias ‘doença’ e ‘saúde’. O que pensa (o coletivo de) você disso?
Postado por Catherine
Sim, Catherine, você está completamente certa, e justamente nessa manhã eu lembrei que eu queria mencionar Espinosa como um precursor de Nietzsche… Inexplicavelmente esqueci…
Nietzsche ele mesmo era às vezes desdenhoso com Espinosa, às vezes efusivo (considerando ele como seu único predecessor real). Metodologicamente, eles não poderiam ser mais diferentes (ou assim pareceria); o procedimento ultra-sistemático, quase-geométrico de Espinosa dos meios de demonstração e prova — (Nietzsche zombou Espinosa por isso em Além do Bem e do Mal). Nietzsche, por contraste, é sistematicamente assistemático, sem paciência para argumentação (filósofos perdiam muito tempo nos contando como eles chegaram a visão deles em vez do que eles pensavam), aforístico.
E ainda assim, a orientação prática de Espinosa — contemplação para servir o objetivo de aumentar os encontros prazerosos — era o que deleitava Nietzsche. E sim, a mesma linguagem de enfermidade e bem-estar (Espinosa já além do bem e do mal).
Prefiro pensar ambos Espinosa e Nietzsche menos como manuais de autoajuda e mais como manuais de desmonte do ser (e fazer um corpo-sem-órgãos)…
Postado por mark
Notas do tradutor:
(1) O referido é um leitor do blog. Esse Luke aparece nos comentários do post desse texto, inclusive, mas não disse nada digno de nota.
(2) Não confundir com aquelas cripto-”artes” como aqueles macaquinhos padronizados, incluindo aquele que o Neymar comprou por muito dinheiro e hoje deve estar valendo três paçocas. NFT, nesse caso, se refere ao antigo National Film Theatre, que desde 2007 foi renomeado para BFI Southbank. O espaço fica em Southbank, Londres.
메타데이터
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