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Adeus, Vilarejo

Nunca imaginei que chegaria esse momento, mesmo sendo mais velho que eu, sempre vi a jovialidade e vida em você, meu caro.

Kayo Lopes · 2025-11-18 01:28 · 41 claps · 5.0 min read
#amizade #luto #amor #vida #eternity
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Adeus, Vilarejo

Nunca imaginei que chegaria esse momento, mesmo sendo mais velho que eu, sempre vi a jovialidade e vida em você, meu caro.

Lembro-me exatamente de como tudo começou. As aulas de sociologia, matéria que eu achava tão chata e desnecessária. Um ano novo, numa escola nova, tudo tão inédito para mim. No entanto, conheci vários professores novos, mas, definitivamente, nenhum deles se tornou um grande amigo como você foi e sempre será.

No início, junto a outros alunos, você convidava para almoçar, sempre com muitas risadas e brincadeiras. Você foi querido! Você é querido!

Com o tempo, começamos a conversar sobre música, sobre a vida e a bebedeira e, consequentemente, a estreitar nossa amizade. Começamos a sair e a enfrentar a noite. Às vezes sozinhos, sem pretensões, apenas com vontade de viver ótimos momentos. E, com isso, tivemos incontáveis dias e noites assim.

Recordo-me perfeitamente do primeiro carnaval em que fomos a um bloco, céu na Terra. Aprendi a beber cerveja neste dia, me rendi à bebida que regou nossas conversas por incontáveis ocasiões. Ali conheci alguns de seus amigos, que, hoje, também considero amigos. Após algumas horas, já não cabiam mais em cima das mesas as quantidades de garrafas vazias. Saturados do ambiente, fomos, então, para o “bloco do rock”, no qual descobrimos naquele instante que ainda acontecia. Por fim, terminamos na Sapucaí.

Está aí um dos diversos lugares de que aprendi a gostar por sua causa. Quem diria que eu acabaria gostando de alguns sambas de enredo. Sem contar as inúmeras vezes que fomos ver desfiles. Realmente incontáveis, ainda que todas as vezes tenham sido sem planejamento, foram incríveis e muito divertidas. Uma das maiores preciosidades da nossa amizade era que um simples “vamos sair na sexta-feira?” Virava um final de semana inteiramente incrível, sem roteiros e sem hora para acabar. Mas incrível!

Ah, você me fez gostar de praia também. Sempre me chamava, já dizendo “sei que você não gosta, mas vamos à praia”. E eu só perguntava: “Qual praia?” E, no encontro, dizia para mim: “Gosto de você porque não me perturba, dá seu jeito e aparece no lugar que marcamos”.

Diversos lugares que conheço são por sua causa, um pouco da vida que em mim habita veio de ti. E as viagens? Sejam as que fizemos ou as que adorávamos planejar: Alemanha, Holanda, Fernando de Noronha, Ceará novamente, Sana e etc.

Falando em Ceará, eu tive o privilégio de contemplar as belezas daquele local contigo. A viagem foi incrível, tivemos muitas fotos, cervejas, passeios e até desencontros. Lembro que eu ficava chateado porque você não queria me acompanhar nas noitadas, pois estava descansando para o passeio do dia seguinte. E era estranho visto que eu estava acostumado a sempre ter você curtindo comigo. Mas, hoje, mais do que nunca, eu entendo que você precisava descansar. Infelizmente, não aguentou um pouco mais, até que esse momento chegasse. Infelizmente, não vai continuar aqui para poder presentear todo o vilarejo com sua graça, Vilarin.

Em, no Rio, ou em São Paulo, assim como em qualquer lugar, me deu suas aulas de campo enquanto caminhávamos. Adorava contar sobre os lugares que passávamos, ou contar algumas das suas inúmeras aventuras. Sempre tinha histórias, sempre tinha conhecimento, sempre tinha conhecidos.

Aliás, é impossível não recordar da sua capacidade impressionante de fazer novas amizades. Tenho a sensação de que você fazia portos em todo lugar por onde passava, mesmo que nunca mais fosse ancorar lá.

Quando lembro das nossas viagens, até hoje me surpreendo por ter conseguido convencê-lo a fazer a viagem para São Paulo. Foi simplesmente a meu pedido, de me fazer companhia e assistir ao show da minha banda favorita. Não esqueço das suas risadas para o meu nervosismo um dia antes do show. Eu dizia “é o Mastojira, Edu!” E você respondia dizendo que parecia que eu quem faria o show, de tanta empolgação. No final, terminou fã assim como eu, com camisas e músicas salvas no Spotify.

Falando nisso, impossível não citar a playlist na qual eu ouço agora, que fizera com meu nome. Nela, você adicionava músicas que o faziam lembrar de mim, ainda que eu não gostasse da canção ou do artista em questão. Sua extroversão sempre me encantou. O conforto e a segurança que sentia contigo eram impressionantes, não sentia o medo enorme de ser assaltado ou de a noite ser ruim. Sentia-me sempre seguro e guiado por você.

E, como disse antes, nessas trajetórias você sempre conseguia continuar ampliando a quantidade de moradores do vilarejo da vida. Nunca sem um morador ao lado, nunca só, ainda que sem companhia.

Mas, relembrando, nossa amizade teve início oficialmente quando fui ao velório de sua querida mãe, a qual sempre lamentei não ter conhecido. Porém, sempre a imaginei como um ser humano incrível, que foi capaz de te tornar quem foi. Alguém encantador, um prefeito que tinha uma enorme capacidade de envolver todos com seus contos, memórias e vivências.

Como não lembrar de quando você começava a conversar, puxava um cigarro do maço e ficava tão envolto na história, que não acendia o cigarro? Alguém tinha que acender por você, ou lembrar de que o cigarro estava apagado.

Sempre agradeci muito por me inserir na sua vida e no seu ciclo, por me confiar seu tempo, sua casa e sua companhia. Hoje só lamento não ter te visto uma última vez, não fiz uma última visita, mesmo que de surpresa. Deveria ter estado mais próximo nos seus últimos dias. Mas sei que vai me perdoar, você, mais do que ninguém, sabia como era ficar preso na rotina e adorava reclamar disso. No entanto, mesmo assim, buscava tempo para quem você amava. Tempo esse que era ótimo, até mesmo quando ficávamos apenas sentados, lado a lado, ouvindo música enquanto você terminava seus estudos.

Era curioso que você sempre acompanhava as minhas fases musicais, desde quando estava viciado em The Doors até quando, como você dizia, eu só queria saber do leste europeu. No final, eu entendo que, por mais que não gostasse tanto das músicas, gostava dos momentos que tínhamos ao som delas.

Tenho tanto a dizer, tantas recordações, tantas memórias, tanta vida. Sempre me alegro ao pensar como você se dispunha a conhecer e encantar todos do meu ciclo social, mesmo com as diferenças de estilos e idades. Todo mundo que eu também amo, em algum momento, perguntou pelo Dudu, ou sobre aquele meu amigo que é professor. Você foi querido! Você é querido!

Vou sentir saudades dos seus conselhos. “Você ainda é novo, Kayo” dito após um esporro suavizado. Ou como você gargalhava quando eu dizia ser seu filho, “Kayo Vilarin”. Ou, ainda, quando você discordava de algo, torcia o nariz fazendo um bico após estalar a boca.

Por sua causa, eu entendo que a vida é como um pequeno vilarejo, onde há casas distribuídas por ele. Tem um plantio, com tudo que precisamos para nos nutrir, além de uma pequena cachoeira que deságua num riacho e serve de abastecimento para todos ali, indicando vida.

Infelizmente, alguns moradores desse vilarejo se vão, outros chegam e alguns apenas passam sem deixar rastros. Alguns animais alegram e protegem esse local, porém a raposa não ataca esse local. Não! Ela defende. Mesmo não estando mais aqui. Hoje o vilarejo dorme triste, sem ter alguém para o alegrar, sem ter a experiência de um jovem ancião, sem alguém para servir de conselheiro e confidente ao seu líder. Sem, na verdade, ter um líder.

Sempre vou lembrar e amar aquele que foi um dos meus maiores e melhores amigos e professores.

Adeus, raposa! Adeus, vilarejo! Adeus, Vilarin!

Vá em paz, meu caro! Que seu descanso seja tranquilo, Dudu!


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