Para Aqueles que Sofrem em Silêncio
Ato de morrer; fim da vida. Cessação definitiva da vida para o ser humano; falecimento, passamento, trespasse. Ato ou efeito de matar.
Para Aqueles que Sofrem em Silêncio
Ato de morrer; fim da vida. Cessação definitiva da vida para o ser humano; falecimento, passamento, trespasse. Ato ou efeito de matar.
Fonte: Dicionário Michaelis

©iStock, credit: Nickbeer
Esta semana, eu soube que a mãe de um amigo meu havia morrido em abril. Ele não tinha contado isso para nenhum de nós e não havia mudado seu comportamento. Me senti meio mal e culpado, sendo que eu nunca nem tinha visto ela na vida.
Isso me fez refletir. Percebi que muitas pessoas sofrem em silêncio por não quererem compartilhar a sua dor, ou simplesmente para não deixar outras pessoas desconfortáveis. A regra é clara: os seus problemas também virarão problemas do outro, caso você os compartilhe. Ele disse que estava tudo bem e que ele não tinha por que contar. No fim, concordei com ele. Nós não poderíamos fazer nada por ele, a não ser dizer o mesmo de sempre, as mesmas palavras vazias…
A morte é uma ideia tão próxima e tão distante. Um dia, todo mundo vai morrer, mas no fim nós nem sabemos se estamos vivos. Já lidei com ela e percebi suas marcas permanentes. Perdi a minha figura paterna relativamente cedo, aos 12 anos de idade. Em seguida, tive que lidar com todas as suas consequências. A vida não fazia mais sentido, a casa era silenciosa e tudo que eu lembrava dele foi passando como um filme. Até hoje, ele é a única pessoa que me faz chorar. Minhas memórias com ele estão tão borradas que parecem meras ilusões. Não me culpo. O ser humano tem essa maldição: o poder de se adaptar ao que quiser.
Ainda me lembro de me ver ajoelhado no chão, implorando por uma intervenção divina que nunca veio; das pessoas chegando e se abraçando; da minha mãe chorando até os olhos secarem e da paz bizarra daquela madrugada. Havia sido um dia normal, até aquela hora chegar. Ele era mão de vaca, orgulhoso, imoral e às vezes até violento. Porém, ele tinha me amado; ele tinha me educado; tinha me ensinado; tinha me adotado e também tinha me aceitado. Ele é a única figura masculina que tenho
Eu digo que não devemos temê-la, mas encará-la como uma aliada. Se a nossa existência não tivesse fim, qual seria a graça? No final, a jornada deve acabar, para, aí sim, ter sido uma jornada. Está vendo a complexidade disso? A morte, assim como o tempo, a vida e o amor, é um mistério.
Morte, doença ou fome? Muitos escolheriam a morte. Pensar nisso é uma tarefa delicada e morbidamente cômica. As pessoas cometem suicídio porque não conseguem aguentar a crueldade da vida. Mas, no final, não há nada depois da vida; parece não ter um final feliz. É como se eu estivesse irritado com o Sol e, para não me incomodar mais, simplesmente me cegasse.
Não encare isso como uma afronta cômica à tristeza. Todo ser humano pensou ou ainda vai pensar em desistir. Uma dessas pessoas foi a minha prima. Uma menina jovem, dedicada e com um futuro brilhante. Um dia ela só me mandou uma mensagem dizendo que queria desistir e que não via mais motivos para continuar. Como qualquer ser humano são, eu a acalentei. Disse a ela todas as suas qualidades e perguntei o que a fazia levantar todos os dias. No fim, mais uma vez, ela foi tentada pela morte e incentivada pela vida.
Eu também já passei por isso. Eu era aquele velho CDF dos filmes. Tímido, inteligente e um alvo fácil. Não é como se eu sofresse bullying ou coisa parecida. Eu só me sentia vazio e sem objetivos, eu me sentia um coadjuvante da minha própria vida. Todo mundo conversava sobre suas séries, filmes, jogos e passeios. E eu lá tentando lembrar de qualquer fato interessante. Mas chegou um dia em que eu cansei, não aguentei mais isso e comecei a minha revolução. Tornei-me o mais extrovertido dos meus amigos, comecei a contar piadas e desenvolvi fortes laços.
A morte me mudou como pessoa. Só o fato de aquela pessoa não estar ali e existir apenas como um mero pensamento me fez perceber o quão banal eu sou. Somos frágeis e fracos perante um mundo que não nos pertence. Devemos começar a nos colocar nos nossos devidos lugares. Os animais já fazem isso; a caça é só mais uma parte do ciclo da vida. A única coisa que faz a morte ser complexa para nós é a nossa própria razão. Não conseguimos tê-la como um fato consumado. A gravidade existe e pronto, muito simples. Somente os considerados loucos a questionam.
O ponto-chave aqui é: a vida é como uma montanha-russa, cheia de altos e baixos. Mas todas as emoções e momentos no caminho são o que vale.
Para a mente bem organizada, a morte é apenas a próxima grande aventura.” (Harry Potter e a Pedra Filosofal)
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